Este artigo tem como ponto de partida a entrevista de Thomas Piketty concedida a Francisco de Zárate e publicada pelo jornal El País em 4 de outubro de 2026 (leia a entrevista original). As análises, os dados complementares e o contexto brasileiro foram produzidos de forma independente pela curadoria de O Tecido.
Em 2100, a maior parte da humanidade viveria com renda média equivalente a 5 mil euros por mês, o planeta estaria apenas 1,8 °C mais quente do que na era pré-industrial e o grupo dos 0,001% mais ricos, que hoje detém 6,4% do patrimônio mundial, ficaria com 0,05%. Na outra ponta, a metade mais pobre da população global passaria de 2% para 30% da riqueza. Os números foram apresentados pelo economista francês Thomas Piketty em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada neste domingo (4)1, e resumem o Global Justice Report, o plano mais ambicioso já produzido pelo World Inequality Lab.
Segundo a reportagem do El País, o trabalho reúne estimativas de uma equipe de cerca de 200 pesquisadores e é assinado por Piketty e outros 44 coautores1. A pergunta que o relatório tenta responder é direta: todos os países podem chegar à prosperidade sem tornar o planeta inabitável? E, se podem, a que custo político?
O que é o Global Justice Report
Lançado entre 4 e 6 de junho de 2026 na World Inequality Conference, na Paris School of Economics, o relatório é descrito pelo próprio laboratório como uma extensão das propostas que Piketty apresentou em Uma breve história da igualdade, agora levadas a uma escala global e quantificada, com uma ferramenta interativa que permite explorar trajetórias distributivas e cenários climáticos (World Inequality Lab)2. Além de Piketty, a coordenação inclui Lucas Chancel, Cornelia Mohren, Rowaida Moshrif, Moritz Odersky e Anmol Somanchi.
Trata-se de um roteiro macroeconômico de 2026 a 2100 em que todas as nações convergiriam para uma renda per capita de 5 mil euros mensais, com redução da jornada individual de trabalho para cerca de 1.000 horas anuais, eliminação completa dos combustíveis fósseis e deslocamento da economia para setores de baixo consumo de recursos, como educação e saúde2. Na prática, o crescimento econômico se concentraria nos países de renda mais baixa. Em julho, ao apresentar o estudo em webinar da Divisão de Desenvolvimento Social Inclusivo da ONU, Piketty defendeu que a menor jornada também favoreceria a igualdade de gênero, ao permitir uma divisão mais equilibrada entre trabalho remunerado e não remunerado (UN DESA)3.
Os três pilares: descarbonização, compressão e suficiência
O argumento central do relatório é que nenhuma das saídas isoladas funciona. A transição energética lenta, por si só, não basta. Na entrevista ao El País, Piketty sustenta que é preciso combinar a mudança do sistema energético com a redução das desigualdades e com aquilo que os autores chamam de "suficiência": jornadas menores, hábitos alimentares diferentes e menos peso relativo para indústria e mineração1. Em tom quase coloquial, o economista resume a ideia dizendo que ninguém precisa ter dez iPhones.
O próprio Piketty relativiza a precisão das metas. Ao jornal espanhol, ele afirmou que o projeto oferece ordens de grandeza, e não cifras exatas, e que essas grandezas podem e devem ser revistas em deliberação democrática1. A ressalva é relevante para o leitor: o relatório é um exercício de modelagem de trajetórias possíveis, não uma previsão.
Quem paga a conta: o Fundo de Justiça Global
O financiamento viria de um Fundo de Justiça Global abastecido por um imposto global sobre o patrimônio, com alíquotas que chegariam a 20% ao ano para bilionários, complementado por um imposto de renda global também progressivo2. Na leitura do boletim britânico Equals, o fundo alcançaria em média 10,3% do PIB mundial, e a diferença de renda média entre Norte e Sul globais, hoje próxima de 16 para 1, seria eliminada até o fim do século (Equals)4.
Piketty reconhece que o obstáculo principal não é técnico. Na apresentação à ONU, ele admitiu que reformas dessa amplitude enfrentariam forte resistência política, sobretudo em relação a novos tributos e à tentativa de limitar a influência das elites3. Ao El País, o economista inverte o ônus do argumento: se o caminho proposto é difícil, a alternativa, segundo ele, seria um mundo de fronteiras militarizadas, disputa por territórios e recursos e orçamentos que priorizam defesa em vez de saúde, educação e energia limpa1.
"O futuro que os bilionários estão nos preparando é distópico."
Thomas Piketty, em entrevista ao El País (tradução livre)O economista ainda faz uma concessão retórica: se os bilionários estivessem realizando os investimentos necessários em energia limpa, educação e saúde, ele próprio aceitaria que continuassem a decidir sobre investimentos, mídia e políticas. Como isso não estaria acontecendo, diz, a concentração de poder econômico deixou de ser apenas uma questão de justiça e passou a ser um problema de governança do futuro1.
A lição do século XX: catástrofes, ideias prontas e a exceção sueca
Um dos trechos mais interessantes da entrevista trata da relação entre crises e mudanças institucionais. Piketty lembra que, em 1900, os europeus trabalhavam cerca de 3.000 horas por ano, e que a redução para as atuais 1.500 horas teria sido considerada uma ameaça de colapso econômico por qualquer analista da época1. As duas guerras mundiais ajudaram a legitimar essa mudança e a expansão do gasto público com saúde e educação universais.
O economista, porém, rejeita a ideia de que tragédias sejam condição necessária. Para ele, o que pesa nas crises é o repertório de soluções que a sociedade já discutiu antes delas: seguridade social e imposto progressivo estavam no debate de sindicatos, partidos e intelectuais muito antes de serem adotados. A Suécia, que sofreu comparativamente menos destruição nas guerras e ainda assim construiu um Estado de bem-estar robusto, aparece como contraexemplo1. Esse raciocínio dialoga com a tese que Piketty desenvolve em Natureza, cultura e desigualdades: uma perspectiva comparativa e histórica, em que sustenta que as desigualdades são construções sociais, políticas e ideológicas, e não um dado natural das economias11.
O Brasil no mapa: do G20 de 2024 à Lei 15.270
O Brasil aparece na entrevista de forma explícita. Piketty cita a iniciativa brasileira e sul-africana de levar à cúpula do G20 de 2024 a proposta de um imposto global sobre o patrimônio como um sinal importante de mudança, ainda que a proposta não tenha prosperado. Segundo ele, nem a Europa nem os Estados Unidos rejeitaram a ideia frontalmente, e o tema deverá voltar à agenda em poucos anos, puxado pelos países do Sul global1. Na época, a presidência brasileira do G20 encomendou ao economista Gabriel Zucman, também coautor do Global Justice Report, um estudo que propunha uma tributação mínima de 2% sobre o patrimônio de bilionários, e a Declaração de Líderes do Rio de Janeiro incluiu o compromisso de buscar cooperação para tributar efetivamente indivíduos de altíssimo patrimônio, respeitando a soberania fiscal de cada país12.
Internamente, o diagnóstico que alimenta essa agenda é severo. Pelo World Inequality Report 2026, os 10% mais ricos do Brasil concentram 59% da renda e 70% do patrimônio, enquanto a metade mais pobre, cerca de 106 milhões de pessoas, fica com 9,3% da renda e 2,4% da riqueza. O 1% do topo, aproximadamente 2,1 milhões de pessoas, detém sozinho 37% do patrimônio nacional (Folha de Pernambuco)6. Relatório da Oxfam Brasil divulgado em agosto aponta ainda que a alíquota efetiva de Imposto de Renda dos 0,01% mais ricos chega a apenas 4,6% (Jornal Opção)9.
É nesse cenário que o país começou a testar, em escala doméstica, uma versão da lógica defendida por Piketty. A Lei nº 15.270/2025, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, zerou o IRPF para quem recebe até R$ 5 mil mensais e criou três mecanismos voltados ao topo: retenção de 10% na fonte sobre lucros e dividendos acima de R$ 50 mil mensais pagos por uma mesma empresa, a tributação mínima anual para rendimentos acima de R$ 600 mil e a incidência de 10% sobre dividendos remetidos ao exterior (Conjur)7. Segundo nota técnica do Dieese, a ampliação da isenção beneficia cerca de 15,6 milhões de pessoas no mercado formal, enquanto a tributação mínima alcança em torno de 140 mil contribuintes (Dieese)8.
A diferença de escala é evidente. A lei brasileira tributa renda, não estoque de patrimônio, e suas alíquotas estão muito distantes dos 20% anuais sobre a fortuna de bilionários imaginados no Global Justice Report. Ainda assim, ela representa uma inflexão rara: pela primeira vez em décadas, o sistema tributário brasileiro passou a mirar explicitamente a baixa tributação efetiva do topo da pirâmide.
As objeções ao plano
As críticas ao Global Justice Report são numerosas e vêm de diferentes frentes. Em artigo publicado pelo site RealClearEnergy, o relatório é descrito como uma utopia que combina decrescimento e redistribuição coercitiva, com o risco de manter os mais pobres presos à pobreza. O texto aponta que a redução global da jornada não é uma projeção do modelo, mas uma exigência política, e questiona a ideia de que a plataforma possa avançar mesmo sem Estados Unidos e China, com sanções aos países que não aderirem (RealClearEnergy)5.
Há também uma disputa metodológica que toca diretamente o Brasil. Dados do Ipea registram queda histórica do índice de Gini e da pobreza, enquanto o World Inequality Lab, que combina contas nacionais e dados fiscais, aponta concentração persistente e até crescente no topo. Pesquisadores atribuem a divergência às diferentes metodologias: pesquisas domiciliares tendem a subestimar a renda dos mais ricos, mas estimativas baseadas em dados fiscais dependem de premissas que também são contestadas (Agência Cenarium)10.
Por fim, há o problema da mobilidade do capital. Impostos sobre grandes fortunas adotados de forma unilateral por países europeus nas últimas décadas enfrentaram dificuldades de arrecadação e fuga de contribuintes, argumento recorrente de quem considera a coordenação internacional exigida pelo plano politicamente inviável.
O que está em jogo
O valor do Global Justice Report talvez esteja menos nas metas para 2100 e mais na tese que Piketty repete ao El País: instituições consideradas impossíveis costumam nascer em momentos de crise, mas só quando já foram debatidas antes. O relatório funciona, nesse sentido, como um estoque de propostas à espera de uma janela política.
Para o Brasil, a discussão tem um componente prático. O país ocupa o lugar de proponente nos fóruns internacionais e, ao mesmo tempo, convive com uma das maiores concentrações de patrimônio do mundo. A primeira declaração de ajuste sob as novas regras da Lei 15.270, prevista para 2027, oferecerá os primeiros dados concretos sobre quanto o topo efetivamente passa a contribuir. Será um teste, em escala nacional, de uma pergunta que o relatório de Piketty coloca em escala planetária: até onde a política tributária consegue alterar a distribuição de poder econômico sem esperar por uma catástrofe.
Para aprofundar: Natureza, cultura e desigualdades: uma perspectiva comparativa e histórica, de Thomas Piketty (Civilização Brasileira). Em texto curto e acessível, o economista sintetiza sua pesquisa sobre educação, herança, impostos, tributação da riqueza, aquecimento global e dívida pública, e argumenta que a trajetória rumo à igualdade sempre dependeu de escolhas políticas.
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O que é o Global Justice Report?
É um plano quantificado publicado em 2026 pelo World Inequality Lab, coordenado por Thomas Piketty e outros pesquisadores, que modela uma trajetória de 2026 a 2100 para conciliar prosperidade em todos os países com a habitabilidade do planeta, limitando o aquecimento a 1,8 °C.
Quais são os três pilares da proposta de Piketty?
Descarbonização rápida da economia, compressão das desigualdades de renda e patrimônio, e "suficiência", que inclui jornadas de trabalho menores, mudança de hábitos alimentares e menor peso da indústria e da mineração.
Como o plano seria financiado?
Por um Fundo de Justiça Global abastecido por um imposto global progressivo sobre o patrimônio, com alíquotas de até 20% ao ano para bilionários, além de um imposto de renda global progressivo.
Qual a relação da proposta com o Brasil?
O Brasil levou ao G20 de 2024 a proposta de tributar bilionários e, desde 2026, aplica a Lei 15.270/2025, que isenta do IRPF quem ganha até R$ 5 mil por mês e cria uma tributação mínima para rendas acima de R$ 600 mil anuais.
Quanto o 1% mais rico concentra no Brasil?
Segundo o World Inequality Report 2026, o 1% mais rico do Brasil detém cerca de 37% do patrimônio nacional e quase 27% da renda.
Quais são as principais críticas ao relatório?
Críticos apontam inviabilidade política da coordenação internacional, riscos associados ao decrescimento para países pobres, dificuldade de tributar patrimônio com capital móvel e divergências metodológicas na medição da desigualdade.
Ewerton Lopes — Curador Editorial