Caderno Economia · Análise · 4 de outubro de 2026
No momento em que partidos de extrema direita crescem nas urnas e nas pesquisas de vários países, o jornal espanhol El País fez uma pergunta direta a sete economistas de referência do campo progressista: existem propostas concretas para os desafios que alimentam o medo do eleitor? A reportagem de Francisco de Zárate, publicada em 3 de outubro de 2026, ouviu Thomas Piketty, Daron Acemoglu, Dani Rodrik, Branko Milanovic, Mariana Mazzucato, Abhijit Banerjee e Ha-Joon Chang sobre desigualdade, clima, inteligência artificial e moradia1.
O conjunto das respostas interessa ao leitor brasileiro por um motivo que vai além da curiosidade acadêmica. Várias das ideias discutidas já foram testadas, em alguma escala, no próprio Brasil: da tributação mínima de altas rendas, em vigor desde janeiro, à política industrial orientada por metas climáticas. Este texto organiza as propostas por tema, confronta cada uma com dados brasileiros e reúne as críticas que o receituário enfrenta.
Desigualdade e clima no mesmo cálculo
O ponto de partida é o Global Justice Report, lançado em junho de 2026 pelo World Inequality Lab, sob coordenação de Piketty, durante a World Inequality Conference, em Paris2. O documento se apresenta como o primeiro plano inteiramente quantificado a combinar quatro frentes que costumam ser tratadas em separado: convergência de renda entre países, redução da desigualdade interna, estabilidade climática e reforma da arquitetura financeira internacional.
As metas são deliberadamente ambiciosas. Até 2100, a renda nacional média por pessoa chegaria a cerca de 5 mil euros mensais, em paridade de poder de compra de 2025, e o aquecimento global ficaria limitado a 1,8 °C, segundo o documento técnico do World Inequality Lab3. O gasto mundial com educação e saúde subiria de 13% para 38% do PIB global, de acordo com a cobertura do The Guardian4. O motor financeiro seria um Fundo de Justiça Global, abastecido por impostos sobre os mais ricos, que aplicaria em média 10% do PIB mundial por ano entre 2026 e 2060. Hoje, ajuda ao desenvolvimento e orçamentos de ONU, FMI e Banco Mundial somados não chegam a 0,4%3.
Ao El País, Piketty justificou o desenho conjunto com o exemplo dos coletes amarelos franceses: um imposto sobre carbono que pesa mais sobre a classe média do que sobre os ricos tende a produzir revolta, e não descarbonização1. Milanovic, especialista em desigualdade na City University of New York, sugeriu ao jornal espanhol que o relatório seja lido menos como previsão e mais como esquema conceitual para uma eventual reforma das instituições multilaterais1.
Banerjee, Nobel de Economia em 2019, propôs um atalho que dispensa a grande coalizão global. Na avaliação dele, a União Europeia, como mercado decisivo para a tecnologia americana, tem poder de barganha para exigir que parceiros comerciais incorporem o custo das emissões aos seus preços, algo que hoje não faz enquanto penaliza os próprios produtores. Essa cobrança poderia ser apresentada também como defesa da soberania europeia, o que ampliaria o apoio entre governos de direita1. Um detalhe relevante para o Brasil: o próprio relatório cita, entre as iniciativas com as quais dialoga, a agenda sobre desigualdade levada ao G20 por Brasil e África do Sul3.
O Estado que define a missão, e não só as regras
Mazzucato, que dirige o Institute for Innovation and Public Purpose da University College London, retomou ao El País a tese que a tornou conhecida. Governos que se limitam a remediar danos causados pelo mercado abriram mão de definir direção. A alternativa é um Estado que estabelece missões, alinha ministérios em torno delas e condiciona o apoio público a contrapartidas. Um crédito para uma siderúrgica, por exemplo, viria vinculado à redução do conteúdo material do processo produtivo1.
O exemplo brasileiro aparece na própria entrevista. Mazzucato citou a decisão do governo de colocar a transição ecológica no centro da política econômica, o que levou a Fazenda, sob Fernando Haddad, a recalibrar o papel dos bancos públicos1. O Plano de Transformação Ecológica, apresentado na COP28, em 2023, estimava a necessidade de investimentos adicionais de 130 a 160 bilhões de dólares por ano durante uma década, com potencial de 7,5 a 10 milhões de empregos5. Em outubro de 2024, o governo lançou, com bancos multilaterais, a Plataforma Brasil de Investimento Climático e para a Transformação Ecológica, ancorada no plano e na política Nova Indústria Brasil6.
A condição que Mazzucato impõe é menos citada, mas decisiva: só exige contrapartida quem tem algo a oferecer. Um governo que não investiu em pesquisa pública, educação, saúde e infraestrutura, argumentou, não tem como condicionar o comportamento das empresas1. Ela também defendeu que regras fiscais reconheçam o retorno de longo prazo do investimento público, ponto sensível no debate brasileiro sobre o arcabouço fiscal.
Rodrik, professor da Kennedy School de Harvard, levou o argumento para o terreno da evidência. Autor de Shared Prosperity in a Fractured World (Princeton University Press, 2025), ele sustenta que os avanços mais concretos na queda do custo de energia solar, eólica e baterias vieram da política industrial verde chinesa, e não dos impostos sobre carbono preferidos pelos economistas1. Questionado se a tolerância ao erro seria privilégio de autocracias, respondeu com o exemplo da DARPA, a agência americana de pesquisa em defesa: o público aceita fracassos quando a política é apresentada como carteira, e não como aposta individual. O erro a evitar, segundo ele, foi o da gestão Obama ao personalizar o apoio à Solyndra, fabricante de painéis solares que quebrou1.
A discussão deixou de ser se o Estado deve agir. Passou a ser com quais instrumentos, a que custo e com que capacidade de execução.
Inteligência artificial: o risco da automação medíocre
Acemoglu, Nobel de Economia em 2024 e professor do MIT, é cético quanto à ideia de que a IA será aliada do clima. Por ora, disse ao El País, a demanda energética dos modelos pesa contra a descarbonização1. Sua preocupação central, porém, é outra. Como a IA ainda desempenha pior que pessoas na maioria das tarefas, substituir trabalhadores rápido demais produziria o que ele chama de automação medíocre: menos empregos sem ganho real de produtividade.
A raiz, para Acemoglu, está no sistema tributário. Em estudo de 2020 com Andrea Manera e Pascual Restrepo, ele estimou que empresas americanas pagavam alíquota efetiva média de cerca de 25% sobre o trabalho e de 5% sobre o capital1. Corrigido esse viés, o próprio mercado separaria a automação produtiva da medíocre. Em vez de um imposto específico sobre IA, que considera distorcivo, ele prefere elevar tributos sobre renda ou patrimônio. A entrada de Estados no capital de empresas de IA não deve ser descartada, afirmou, mas traz riscos de favorecimento a modelos estatais e de conflito de interesse1.
Banerjee acrescentou um problema que persiste mesmo no cenário otimista, em que a IA complementa o trabalhador. A demanda por muitos serviços não cresce na proporção da produtividade: quem resolve a própria contabilidade em dez minutos não passa a contratar mais contadores. Sua resposta passa por expandir e certificar a economia do cuidado, de idosos e crianças, em que a preferência por atendimento humano tende a se manter1. Rodrik lembrou que plataformas de transporte e entrega já elevaram a produtividade em serviços sem que os trabalhadores se apropriassem dos ganhos, e defendeu negociação coletiva e preferência em contratos públicos para empresas com contrapartidas trabalhistas1.
No Brasil, a escala do tema é mensurável. O índice da Organização Internacional do Trabalho, publicado em maio de 2025 com o instituto polonês NASK, estima que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à IA generativa, com transformação mais provável do que substituição7. Aplicando essa metodologia ao país, pesquisadores do FGV Ibre concluíram que quase 30 milhões de trabalhadores estavam em ocupações com algum grau de exposição no terceiro trimestre de 2025, com efeito mais visível sobre jovens em postos de entrada8.
Moradia: o que Singapura ensina e o Brasil mede
Chang, professor da SOAS University of London, ligou moradia e desigualdade. Na avaliação dele, a disputa de bilionários por imóveis de alto padrão eleva o nível de preços de todo o mercado1. Seu modelo é Singapura, onde, segundo ele, o governo responde pela maior parte da oferta habitacional e, com isso, disciplina os preços do segmento privado. Chang destaca duas lições: padrão elevado de construção e de equipamentos públicos, para evitar a degradação dos conjuntos, e aquisição gradual de terra pública ao longo de décadas1.
O problema brasileiro tem outro perfil. Dados da Fundação João Pinheiro, divulgados pelo Ministério das Cidades, apontam déficit habitacional de 5,77 milhões de moradias em 2024, ou 7,4% dos domicílios ocupados. Desse total, 3,59 milhões, cerca de 62%, correspondem a famílias de baixa renda com ônus excessivo com aluguel9. A maior parte do déficit, portanto, não é ausência de teto, e sim renda insuficiente para pagar o teto disponível. Isso aproxima o diagnóstico brasileiro do argumento de Chang: preço é variável central, e não apenas volume de construção.
Onde o Brasil já está nesse mapa
Em tributação, o Brasil deixou a posição de observador. A Lei 15.270/2025, sancionada em novembro e em vigor desde janeiro de 2026, isentou do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil mensais, criou descontos para rendas até R$ 7.350 e instituiu um imposto mínimo de até 10% para rendimentos acima de R$ 600 mil anuais, além de retenção de 10% sobre dividendos que superem R$ 50 mil por mês. A compensação recai sobre cerca de 141 mil contribuintes, 0,13% dos declarantes, segundo análise da Associação Comercial do Rio de Janeiro10.
No plano internacional, a presidência brasileira do G20, em 2024, levou à mesa a proposta de Gabriel Zucman de um imposto mínimo anual de 2% sobre o patrimônio de bilionários, com arrecadação estimada entre 200 e 250 bilhões de dólares por ano e alcance de cerca de 3 mil pessoas no mundo, segundo a Agência Brasil11. A reunião ministerial do Rio de Janeiro aprovou uma declaração sobre cooperação tributária internacional que incluiu o tema dos super-ricos, sem compromisso vinculante sobre alíquotas.
O diagnóstico que sustenta essas medidas é consistente entre fontes. Estudo do EU Tax Observatory em parceria com a Receita Federal, divulgado em agosto de 2025, mostrou que o 1% mais rico concentra 27,4% da renda nacional e que o sistema se torna regressivo dentro do próprio topo12. A edição 2026 do Relatório Mundial sobre a Desigualdade indica que os 10% mais ricos ficam com 59% da renda e 70% da riqueza, enquanto a metade mais pobre divide 9,3% da renda e 2,4% do patrimônio13.
Contraponto: os limites do receituário
Impostos sobre fortunas têm histórico difícil. Relatório da OCDE de 2018 registra que o número de países-membros com imposto anual sobre patrimônio líquido caiu de 12, em 1990, para 4, em 2017. Entre os motivos estão baixa arrecadação, custo administrativo e risco de mobilidade do capital. A organização conclui que, do ponto de vista de eficiência e equidade, há poucos argumentos para um imposto sobre patrimônio quando ganhos de capital e heranças já são bem tributados14. O FMI também apontou que esse tipo de tributo é especialmente vulnerável a pressões e a planejamento para evasão15.
A resposta dos defensores é que o cenário mudou com a troca automática de informações fiscais entre países, e que é justamente por isso que a proposta de Zucman depende de coordenação internacional, e não de iniciativas isoladas.
Política industrial exige capacidade de seleção e de saída. O próprio Rodrik admite que parte dos projetos fracassa. Em países com histórico de programas setoriais de resultado contestado, como o Brasil, a dúvida central não é a intenção, mas a existência de metas verificáveis e de mecanismos para encerrar apoios que não entregam.
Há críticas também à esquerda. Análise de Marc Vandepitte publicada no Morning Star considera o Global Justice Report forte como bússola aritmética e moral, porém frágil como estratégia política para enfrentar o poder econômico concentrado16. E metas para 2100 são, por construção, cenários, não previsões, ressalva que o próprio Milanovic faz ao defender o relatório.
O que fica do receituário
Lidas em conjunto, as entrevistas compartilham três premissas. A primeira é que a desigualdade não é tema paralelo ao clima ou à tecnologia, e sim condição para que qualquer transição seja politicamente sustentável. A segunda é que o desenho tributário funciona como alavanca de comportamento econômico, seja para conter a automação medíocre, seja para financiar investimento público. A terceira é que o Estado só consegue impor condições ao setor privado se tiver capacidade própria de investir e de executar.
Para o Brasil, o debate já saiu do campo das ideias. O imposto mínimo sobre altas rendas, a política industrial com metas ecológicas e a agenda levada ao G20 colocam o país entre os laboratórios dessas propostas. O teste agora é empírico: se a arrecadação do imposto mínimo confirmará as projeções, se os planos de transformação ecológica se traduzirão em investimento mensurável e se haverá resposta ao fato de que o principal componente do déficit habitacional é o peso do aluguel. Em ano de eleição geral, essas são perguntas que deveriam orientar a avaliação de programas, independentemente de quem governe.
Perguntas frequentes
O que é o Global Justice Report de Thomas Piketty?
É um relatório do World Inequality Lab lançado em junho de 2026 que propõe um plano quantificado até 2100 para reduzir desigualdades, elevar a renda média mundial a cerca de 5 mil euros mensais por pessoa e limitar o aquecimento a 1,8 °C, financiado por impostos sobre os mais ricos por meio de um Fundo de Justiça Global.
O que Daron Acemoglu chama de automação medíocre?
É a substituição de trabalhadores por inteligência artificial em tarefas nas quais a máquina ainda tem desempenho inferior ao humano, o que reduz empregos sem gerar ganho real de produtividade. Acemoglu atribui o fenômeno, em parte, a sistemas tributários que taxam mais o trabalho do que o capital.
O Brasil já tributa as altas rendas?
Sim. A Lei 15.270/2025, em vigor desde janeiro de 2026, isenta do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e cria um imposto mínimo de até 10% para rendimentos acima de R$ 600 mil por ano, além de retenção de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil mensais.
O que é política orientada por missões?
É a abordagem, associada à economista Mariana Mazzucato, em que o governo define objetivos concretos, como a transição ecológica, alinha ministérios e bancos públicos em torno deles e condiciona apoio a empresas a contrapartidas verificáveis.
Qual é o tamanho do déficit habitacional no Brasil?
Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit foi de 5,77 milhões de moradias em 2024, ou 7,4% dos domicílios ocupados. Cerca de 62% desse total corresponde a famílias de baixa renda que comprometem parcela excessiva da renda com aluguel.