Política · Poder e tecnologia

Em 2016, quase ninguém apostava em Hulk Hogan contra o site Gawker. O ex-lutador processava a publicação por divulgar um vídeo íntimo seu, e o júri da Flórida lhe concedeu uma indenização de 140 milhões de dólares que levou o site à falência. Meses depois soube-se quem pagava os advogados: Peter Thiel, que admitiu ter gasto cerca de 10 milhões de dólares no processo. Era uma revanche pessoal contra o veículo que, anos antes, havia tornado pública a sua homossexualidade. Como relata reportagem do jornal El País publicada neste domingo1, Thiel enxergou no veredito popular mais que uma vitória jurídica. Viu nele o sinal de uma mudança no humor do eleitorado americano que poderia levar Donald Trump à Casa Branca. Semanas depois, ele subia ao palco da Convenção Nacional Republicana.

Dez anos depois, aos 58 anos, Thiel se tornou uma das figuras mais influentes da relação entre tecnologia e poder nos Estados Unidos. Isso se explica menos pelos produtos que criou e mais pela rede de pessoas, fundos e ideias que montou. A peça mais recente dessa rede é uma série de palestras sobre o Anticristo. Elas parecem extravagantes, mas defendem algo concreto: que tentar regular a inteligência artificial é, em última instância, uma ameaça civilizacional.

O Anticristo como argumento contra a regulação

As chamadas Antichrist Lectures começaram em San Francisco, entre setembro e outubro de 2025, organizadas pelo coletivo cristão ACTS 17. O jornal britânico The Guardian teve acesso às transcrições e descreveu as ideias como confusas e contraditórias4. A série passou por Paris e chegou a Roma em março de 2026, a poucos metros do Vaticano. Lá, segundo o New York Times, teólogos ligados à Igreja chegaram a classificar as teses como heresia5. Desde 28 de setembro, a série ocupa um endereço mantido em sigilo no centro de Nashville, no Tennessee, em quatro sessões com ingressos de cerca de 100 dólares.

O argumento central se repete em todas as edições. Para Thiel, o Anticristo não viria como um vilão explícito. Viria como um administrador tranquilizador, um governo mundial que promete "paz e segurança" diante de catástrofes como a guerra nuclear, o colapso climático e a própria IA, e que usa esse medo para concentrar poder e frear a ciência. Em Nashville, a tese ganhou nomes próprios. Gravações obtidas pela newsletter Decoded, do Politico, e repercutidas pela revista Fortune, mostram Thiel acusando o ex-presidente Barack Obama e o papa Leão XIV de explorar a ansiedade pública em relação à IA para ganhar popularidade23. Sobre Obama, disse que os democratas não têm ideias, "mas ao menos podem se opor à IA". Sobre o papa, afirmou que a primeira encíclica de Leão XIV, publicada em maio e dedicada à inteligência artificial, serviria para desviar a atenção dos escândalos de abuso na Igreja.

Segundo o mesmo relato, Thiel também recorreu ao katechon, figura bíblica da força que retém o Anticristo, e dedicou boa parte de uma das noites a criticar o altruísmo eficaz, corrente influente entre pesquisadores de segurança em IA. Como observou o site Gizmodo, a posição é conveniente para quem tem boa parte do patrimônio investida justamente em IA.

"Não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis."

Peter Thiel, no ensaio "The Education of a Libertarian", Cato Unbound, 2009

Na reportagem do El País, o jornalista Gil Durán, autor de The Nerd Reich (Este é um link de afiliado), descreve Thiel como líder de uma corrente pequena e poderosa no Vale do Silício, hostil à democracia e ao Estado, que ao mesmo tempo lucra com contratos de vigilância governamental. Para Durán, o vocabulário cristão encobre outra fé, a de que a IA entregará uma espécie de vida eterna aos seus criadores1.

De Tolkien a Girard: a formação de um contrarian

Thiel nasceu em Frankfurt em 1967, passou parte da infância na Namíbia e na África do Sul sob o apartheid e cresceu em Foster City, na baía de San Francisco, filho de pais evangélicos e republicanos. Leitor compulsivo de ficção científica, de Robert A. Heinlein, Isaac Asimov e Arthur C. Clarke (Estes são links de afiliado), tinha como obra predileta O Senhor dos Anéis. É de Tolkien que vêm os nomes de várias de suas empresas, a começar pela Palantir, a pedra que permite ver à distância.

Em Stanford, a partir de 1985, Thiel entrou em contato com duas influências decisivas. A primeira foi o libertarianismo de Ayn Rand (Este é um link de afiliado). A segunda, mais profunda, foi o antropólogo francês René Girard (Este é um link de afiliado), de quem foi aluno. A teoria do desejo mimético de Girard diz que desejamos o que os outros desejam. Disso nascem a rivalidade, a violência e a escolha de bodes expiatórios como válvula de escape social. Daí deriva a obsessão de Thiel com o apocalipse: a civilização seria uma camada fina sobre um potencial permanente de violência.

A esse repertório Thiel somou o filósofo político Leo Strauss (Este é um link de afiliado) e o jurista alemão Carl Schmitt, que foi filiado ao partido nazista e pensava a política como oposição entre amigo e inimigo. Ao El País, o filósofo Mark Coeckelbergh, professor da Universidade de Viena e autor de obras sobre ética e tecnologia (Este é um link de afiliado), resume a combinação: de Girard vem a ameaça de violência latente sob a democracia; de Schmitt, uma lógica de inimigos que deixa pouco espaço para a deliberação democrática1. O ensaio de 2009 para o Cato Institute, em que Thiel associou a ampliação de benefícios sociais e o voto feminino ao esvaziamento da "democracia capitalista", é a expressão mais citada dessa linha. A repercussão foi tão negativa que ele publicou depois uma espécie de esclarecimento.

O império: do PayPal à Palantir

A biografia escrita por Max Chafkin, The Contrarian (Este é um link de afiliado), mostra como as ideias de Thiel e seus negócios cresceram juntos12. O PayPal, criado com Max Levchin no fim dos anos 1990 e fundido depois com a empresa de Elon Musk, nasceu da ambição de movimentar dinheiro fora do controle estatal. Vendido ao eBay em 2002 por cerca de 1,5 bilhão de dólares, deu origem à chamada "máfia do PayPal", grupo de ex-sócios que financiou ou fundou Tesla, SpaceX, YouTube, LinkedIn e outras empresas.

Em 2004, Thiel aplicou 500 mil dólares por cerca de 10% de uma rede social criada por um estudante de Harvard chamado Mark Zuckerberg. Em 2005, fundou o Founders Fund, cuja carteira inclui SpaceX, Anduril, Airbnb, OpenAI e Polymarket. A doutrina está no livro De Zero a Um, um sucesso editorial. Nele, Thiel defende que o objetivo de uma empresa não é competir, e sim criar monopólios a partir de algo inteiramente novo.

A Palantir é a peça que mais aproxima esse universo do Estado. Fundada no rastro do 11 de Setembro, com dinheiro inicial do fundo de investimentos da CIA, a empresa cruza grandes bases de dados em busca de padrões. Hoje atende agências de inteligência, exércitos, polícias e sistemas de saúde em vários países. O professor Roberto J. González, citado pelo El País, aponta a contradição: o libertário que despreza o governo construiu boa parte de sua fortuna com contratos governamentais de defesa e vigilância, firmados também por empresas de sua carteira como Anduril, Clearview AI e Flock Safety1.

Peter Thiel PayPal (1998)venda ao eBay, 2002 Facebook (2004)US$ 500 mil por ~10% Palantir (2003)dados, defesa, governos Trump (2016)convenção republicana J. D. VanceMithril; Senado 2022 Javier MileiCasa Rosada, 2026 Founders FundSpaceX, Anduril, OpenAI Cidades autônomasPróspera; Patagônia NEGÓCIOS POLÍTICA
A rede de Thiel. À esquerda, os negócios; à direita, as apostas políticas; acima e abaixo, os veículos de investimento e os projetos territoriais. Elaboração: O Tecido, a partir do El País, da biografia de Max Chafkin e de reportagens citadas.

A aposta política

A influência de Thiel em Washington tem nome e sobrenome. J. D. Vance trabalhou na Mithril Capital, um de seus fundos, e teve a candidatura ao Senado por Ohio em 2022 impulsionada por um comitê de ação política financiado por Thiel. Hoje é vice-presidente dos Estados Unidos e possível candidato em 2028. Segundo o Politico, democratas já tratam a proximidade entre os dois como ponto de ataque eleitoral2. O senador texano Ted Cruz é outro político que se beneficiou do apoio do investidor.

Cidades sem Estado: de Honduras à Patagônia

A ideia de criar territórios regidos por regras próprias, fora do alcance dos Estados nacionais, acompanha Thiel há décadas. Seu experimento mais conhecido é Próspera, uma Zona de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDE) na ilha de Roatán, em Honduras, que recebeu recursos de fundos ligados ao investidor. O projeto entrou em crise quando o Congresso hondurenho revogou a lei das ZEDEs em 2022 e a Corte Suprema declarou o regime inconstitucional, com efeito retroativo, em 20 de setembro de 2024. Os operadores de Próspera reagiram com uma ação arbitral no CIADI, órgão do Banco Mundial, em que pediam 10,775 bilhões de dólares, valor equivalente a cerca de dois terços do orçamento nacional hondurenho, segundo a Fundação para o Devido Processo (DPLF)8. Em 2025, a Procuradoria-Geral de Honduras informou que a empresa reduziu o pedido em cerca de 85%, conforme a revista Estrategia & Negocios.

A nova fronteira é a Argentina. Em abril de 2026, Thiel instalou-se com a família em uma casa no bairro de Barrio Parque, em Buenos Aires, e foi recebido por Javier Milei na Casa Rosada por mais de uma hora, segundo o jornal Río Negro6. A imprensa argentina relata que ele avalia comprar imóveis na Patagônia, região que o governo Milei apresenta como destino de centros de dados para IA. O interesse também é financeiro. Um documento enviado à SEC, a CVM americana, mostrou que o fundo Thiel Macro adquiriu cerca de 1% da petroleira Vista, que opera em Vaca Muerta, por aproximadamente 76 milhões de dólares7. Na avaliação do El País, o objetivo de longo prazo seria retomar o sonho das cidades autônomas em solo patagônico1.

E o Brasil com isso?

Para o leitor brasileiro, a trajetória de Thiel não é apenas curiosidade sobre o Vale do Silício. Há pelo menos três pontos de contato com a agenda pública do país.

O primeiro é a presença da Palantir no Estado brasileiro. A empresa chegou ao governo de São Paulo durante a pandemia, com uma doação, e avançou depois na Prodesp, a empresa de processamento de dados paulista, segundo artigo publicado pela CartaCapital9. No plano federal, a mesma revista apurou que o FNDE usa a plataforma Foundry, da Palantir, licenciada por meio do contrato de nuvem do Serpro, para integrar dados de programas educacionais. Em nota à publicação, o órgão informou que a ferramenta serve para acompanhar repasses. Na Europa, o tema já pesa na política: o governo espanhol orientou empresas estatais e estratégicas a evitar novos contratos com a Palantir em nome da soberania digital, conforme reportagem da Outras Palavras10. No Brasil, o debate sobre quem processa os dados do cidadão, sob qual jurisdição e com qual fiscalização segue restrito a nichos.

O segundo é a regulação da inteligência artificial. Thiel apresenta qualquer regulação como passo rumo a um governo totalitário. O Brasil, porém, já escolheu outro caminho em uma das casas legislativas. O PL 2338/2023, marco legal da IA, foi aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024 e, segundo o portal do Senado, foi remetido à Câmara em 17 de março de 202511. Lá, uma Comissão Especial analisa o texto, que adota classificação por níveis de risco, cria um sistema nacional de governança coordenado pela ANPD e prevê multas de até 50 milhões de reais por infração. Os argumentos de Thiel circulam nas redes e em parte do debate parlamentar brasileiro e tendem a ganhar peso à medida que a votação se aproxima.

O terceiro é o laboratório vizinho. Se Milei transformar a Patagônia em zona de experimentação regulatória para IA, centros de dados e investidores estrangeiros, o Brasil terá ao lado um modelo concorrente de atração de capital tecnológico, com regras mínimas. A pressão por "competitividade regulatória" pode aparecer no Congresso e no debate sobre data centers que o próprio governo federal tenta atrair.

Para entender o thielismo: leituras

  • Max Chafkin, The Contrarian: a biografia de referência sobre Thiel e a formação dos oligarcas do Vale do Silício. (Este é um link de afiliado)
  • Gil Durán, The Nerd Reich: leitura crítica sobre a direita tecnológica e a democracia. (Este é um link de afiliado)
  • Mark Coeckelbergh: obras sobre ética, política e inteligência artificial. (Este é um link de afiliado)
  • René Girard: a teoria do desejo mimético, base intelectual de Thiel. (Este é um link de afiliado)
  • Leo Strauss e Ayn Rand: as matrizes conservadora e libertária do pensamento de Thiel. (Estes são links de afiliado)

Perguntas frequentes

Quem é Peter Thiel?

Investidor nascido em Frankfurt em 1967, cofundador do PayPal e da Palantir, primeiro investidor externo do Facebook e fundador do Founders Fund. É uma das figuras centrais da direita tecnológica americana e padrinho político do vice-presidente J. D. Vance.

O que são as palestras sobre o Anticristo?

Conferências fechadas iniciadas em San Francisco em 2025 e repetidas em Paris, Roma e Nashville, onde ocorrem entre setembro e outubro de 2026. Nelas Thiel sustenta que o Anticristo viria como um governo global que promete paz e segurança, e associa esse risco às propostas de regular a IA.

O que é o katechon?

Termo grego da Segunda Carta aos Tessalonicenses para a força que retém a chegada do Anticristo. Thiel o usa para discutir quem poderia impedir a formação de um poder mundial centralizado.

Qual é a relação entre Thiel e J. D. Vance?

Vance trabalhou na Mithril Capital, fundo de Thiel, e teve a campanha ao Senado em 2022 impulsionada por um comitê financiado pelo investidor.

A Palantir atua no Brasil?

Sim. Segundo a CartaCapital, a empresa chegou ao governo paulista na pandemia e avançou na Prodesp, e o FNDE usa a plataforma Foundry por meio de contrato com o Serpro.

Por que Thiel se aproximou de Milei?

Por afinidade libertária e interesse estratégico: ele se reuniu com Milei em abril de 2026, vive em Buenos Aires, avalia propriedades na Patagônia e investiu na petroleira Vista.

Como está a regulação da IA no Brasil?

O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita em Comissão Especial da Câmara desde 2025, com abordagem baseada em risco e governança coordenada pela ANPD.

Referências

  1. GONZÁLEZ, Jesús Sérvulo. "Peter Thiel, el tecnoligarca que cree en el anticristo". El País, 18 out. 2026. Disponível aqui.
  2. McHUGH, Calder. "Peter Thiel slams Obama, Pope Leo in new 'Antichrist' lectures". Politico, newsletter Decoded, 8 out. 2026.
  3. "Peter Thiel says Obama and Pope Leo are exploiting AI fears in his latest Antichrist lectures". Fortune, 15 out. 2026.
  4. BHUIYAN, Johana; KERR, Dara; ROBINS-EARLY, Nick. "Inside tech billionaire Peter Thiel's off-the-record lectures about the antichrist". The Guardian, 10 out. 2025.
  5. POVOLEDO, Elisabetta. "Peter Thiel Fears the Antichrist Is Coming. In Rome, Some Call His View Heresy". The New York Times, 17 mar. 2026.
  6. "Javier Milei recibió en Casa Rosada al magnate tecnológico Peter Thiel". Río Negro, abr. 2026.
  7. Comunicação de participação do fundo Thiel Macro LLC na Vista Energy à Securities and Exchange Commission (SEC), conforme noticiado pela imprensa econômica, 2026.
  8. Fundação para o Devido Processo (DPLF). "International Arbitration, Rule of Law, and Human Rights: A Litmus Test in the Case of the ZEDEs in Honduras"; CIADI, caso ARB/23/2, Honduras Próspera Inc. e outros v. República de Honduras.
  9. CartaCapital. "As sombras da Palantir e o Brasil" e "Cavalo de Troia: FNDE contrata empresa de espionagem para gerenciar dados de programa nacional de transporte escolar".
  10. Outras Palavras. "IA: A semana em que a Palantir passou de caçadora a caça", 6 jul. 2026.
  11. Senado Federal. Projeto de Lei nº 2338, de 2023 (tramitação); Câmara dos Deputados, Comissão Especial sobre Inteligência Artificial.
  12. CHAFKIN, Max. The Contrarian: Peter Thiel and the Rise of the Silicon Valley Oligarchs. Penguin Press, 2021.
  13. THIEL, Peter. "The Education of a Libertarian". Cato Unbound, abr. 2009.
Nota editorial. Este artigo foi escrito a partir da reportagem de Jesús Sérvulo González publicada pelo jornal espanhol El País em 18 de outubro de 2026, que não foi reproduzida nem traduzida integralmente. As informações atribuídas ao El País estão creditadas ao longo do texto, e a leitura do original está disponível em elpais.com. O contexto brasileiro e os demais dados vêm de apuração independente do O Tecido em fontes identificadas.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido