Caderno Economia China & Comércio Exterior 3 de agosto de 2026

O Banco Popular da China (PBOC) anunciou neste domingo (2) que manterá uma política monetária "moderadamente frouxa" durante o segundo semestre de 2026, prometendo liquidez ampla, mais crédito para pequenas e médias empresas e um novo impulso ao mercado de títulos ligados à inovação tecnológica. O anúncio, feito após a conferência de trabalho semestral da autoridade monetária chinesa, chega em um momento delicado: a segunda maior economia do mundo cresceu no ritmo mais lento em mais de três anos no segundo trimestre, e Pequim busca sustentar a atividade sem abrir mão do controle sobre a dívida e o câmbio.

O que Pequim decidiu fazer

Segundo comunicado divulgado pela agência oficial chinesa, o banco central fará uso abrangente dos instrumentos de política monetária e os ajustará de forma oportuna ao longo do semestre, mantendo a oferta de crédito alinhada às metas de crescimento e de preços do país. Entre as prioridades anunciadas está o desenvolvimento de um "quadro tecnológico" dentro do mercado de títulos, voltado a financiar empresas de inovação, além de instrumentos de compartilhamento de risco para dívida corporativa privada.

A reunião, presidida pelo governador Pan Gongsheng, ocorreu dias depois de o Birô Político do Partido Comunista pedir a aceleração dos gastos fiscais já orçados em projetos de infraestrutura, segundo apurou a agência estatal Xinhua. O PBOC também sinalizou apoio à resolução do endividamento de veículos de financiamento de governos locais e à expansão de Xangai como praça financeira internacional, incluindo a emissão de mais "bônus panda" por instituições estrangeiras.

Uma desaceleração que preocupa, mas não surpreende

O gesto do banco central acontece pouco depois de o Escritório Nacional de Estatísticas informar que o PIB chinês cresceu 4,3% no segundo trimestre na comparação anual, abaixo dos 5,0% do primeiro trimestre e o ritmo mais fraco desde o fim de 2022, ainda sob restrições da pandemia. No acumulado do primeiro semestre, a expansão ficou em 4,7%, resultado puxado para baixo pelo consumo das famílias, pelo mercado imobiliário e por uma queda de 5,7% no investimento em ativos fixos.

A fraqueza, no entanto, não é generalizada. A produção industrial cresceu 5,4% no semestre, com destaque para semicondutores (alta de 25,4%, o maior patamar em 17 meses) e para os setores ferroviário, naval e aeroespacial. É esse contraste, entre uma indústria de alto valor agregado ainda pujante e uma demanda doméstica combalida, que orienta o novo pacote de estímulo monetário.

A notícia não é que a China deixou de crescer, mas que perdeu velocidade. Té Santana, especialista em relações comerciais Brasil-China, à BM&C News

Por que isso interessa ao Brasil

A China é hoje o principal destino das exportações brasileiras e o maior fornecedor de importações do país. Levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostra que as vendas brasileiras ao mercado chinês somaram US$ 58,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 22% ante o mesmo período do ano anterior e o maior valor já registrado para um primeiro semestre. As importações vindas da China chegaram a US$ 38,5 bilhões, também recorde, elevando a corrente de comércio bilateral a US$ 96,9 bilhões.

O superávit brasileiro com a China no semestre, de US$ 19,8 bilhões, superou com folga o saldo obtido com a União Europeia (US$ 2,6 bilhões) e com a Argentina (US$ 951 milhões), segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). Soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina lideram as vendas brasileiras, enquanto o Brasil importa cada vez mais veículos eletrificados chineses, que já representam 15% das compras vindas daquele país. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países já havia batido recorde histórico, de US$ 171 bilhões, respondendo por 27,2% de todo o comércio exterior brasileiro.

Uma política monetária mais frouxa em Pequim tende a sustentar a demanda chinesa por matérias-primas e insumos industriais, o que interessa diretamente ao agronegócio e à indústria extrativa brasileira. Ao mesmo tempo, o estímulo ao crédito para tecnologia e manufatura de maior valor agregado pode intensificar a concorrência de produtos industriais chineses, como os veículos elétricos, no mercado interno brasileiro.

Contraponto: dependência é risco ou oportunidade?

Visão que enxerga alerta Analistas ocidentais, entre eles o colunista Ruchir Sharma no Financial Times, argumentam que o crescimento chinês já teria atingido seu pico em 2021 e que o país caminha para uma desaceleração estrutural, tornando arriscada a crescente concentração do comércio exterior brasileiro em um único parceiro.
Visão que enxerga oportunidade Especialistas em comércio bilateral, como Té Santana, ponderam que a perda de ritmo deve ser lida em relação ao tamanho da economia chinesa, hoje próxima de US$ 20 trilhões, e que o novo ciclo de estímulo ao crédito e à inovação tende a preservar a demanda por commodities brasileiras no curto e médio prazo.

O contraste com a política monetária brasileira

Enquanto o PBOC opta por afrouxar as condições de crédito, o Banco Central do Brasil segue em direção oposta. A Selic está em 14,25% ao ano desde o corte de 0,25 ponto percentual decidido pelo Copom em junho, e o comitê se reúne nos dias 4 e 5 de agosto para sua primeira decisão do segundo semestre. O boletim Focus projeta a taxa encerrando 2026 em torno de 14% ao ano, ainda em patamar restritivo, com a inflação (IPCA) projetada acima do teto da meta.

A diferença de trajetória ilustra dois momentos distintos: a China tenta reacender a demanda interna diante de sinais de desaceleração, enquanto o Brasil ainda administra uma inflação persistente e um cenário fiscal sob observação, em ano de eleições gerais. Para o comércio bilateral, o efeito prático tende a aparecer no câmbio e no fluxo de capitais, já que juros mais altos no Brasil e a manutenção de juros elevados nos Estados Unidos competem pela atração de capital estrangeiro.

Este artigo utiliza informações e trechos atribuídos à reportagem "China's central bank to enhance financial support for real economy in H2", publicada pelo People's Daily Online em 3 de agosto de 2026, com apuração adicional independente do Tecido junto a fontes brasileiras e internacionais listadas nas referências ao lado.

Nesta reportagem

  1. O que Pequim decidiu fazer
  2. Uma desaceleração que preocupa, mas não surpreende
  3. Por que isso interessa ao Brasil
  4. Contraponto: dependência ou oportunidade
  5. O contraste com a política monetária brasileira

Painel de indicadores

PIB da China (2º tri. 2026)
+4,3% menor ritmo em 3 anos
Selic (Brasil, ago. 2026)
14,25% a.a., política restritiva
Exportações Brasil → China (1º sem. 2026)
US$ 58,3 bi +22% na comparação anual
Corrente de comércio Brasil-China
US$ 96,9 bi recorde para um semestre
Superávit brasileiro com a China
US$ 19,8 bi 1º semestre de 2026

Linha do tempo

  • 15 jul. 2026NBS chinês divulga PIB do 2º trimestre, com alta de 4,3%.
  • Jul. 2026Birô Político do Partido Comunista pede aceleração de gastos em infraestrutura.
  • 2 ago. 2026PBOC realiza conferência de trabalho e anuncia diretrizes para o 2º semestre.
  • 4–5 ago. 2026Copom se reúne no Brasil para sua primeira decisão de juros do semestre.

Glossário

PBOC
Banco Popular da China, autoridade monetária responsável pela política de juros e crédito do país.
Política monetária "moderadamente frouxa"
Postura que privilegia liquidez ampla e crédito mais barato para estimular a atividade econômica.
Quadro tecnológico (tech board)
Segmento do mercado de títulos chinês voltado ao financiamento de empresas de inovação.
Copom
Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil, responsável por definir a Selic.
Corrente de comércio
Soma das exportações e importações entre dois países em um período.