Uma apuração publicada pelo The Washington Post em 18 de setembro revelou que o número real de militares americanos mortos na guerra entre Estados Unidos e Irã é maior do que o informado publicamente pelo Departamento de Defesa dos EUA.1 Segundo seis funcionários do governo americano ouvidos sob condição de anonimato, o sistema oficial de contagem de baixas do Pentágono, conhecido como Defense Casualty Analysis System (DCAS), listava 18 mortes até a última sexta-feira, enquanto cinco das fontes afirmam que o total real chega a pelo menos 22. Uma sexta fonte eleva a cifra para 23 óbitos desde 28 de fevereiro, data em que a administração Trump, em coordenação com Israel, iniciou as operações contra o Irã.
A discrepância não é um detalhe estatístico menor. Toda vez que um militar morre em serviço, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizam uma investigação de linha de dever (line of duty) que determina se o óbito ocorreu no exercício de funções oficiais, condição da qual dependem os benefícios pagos às famílias dos falecidos. Um sistema de contagem incompleto, portanto, tem efeito direto sobre quem recebe, e quanto recebe, na condição de dependente de um militar morto em combate.
O que os números escondem
De acordo com o levantamento, 14 das mortes reconhecidas oficialmente estão registradas sob a "Operação Fúria Épica" (Operation Epic Fury), nome dado pelo governo Trump à guerra contra o Irã. Outras quatro aparecem em uma categoria separada, chamada "Operações no Exterior" (Overseas Operations), criada após um cessar-fogo firmado em julho que depois entrou em colapso, levando à retomada dos ataques. Separadamente, dois militares morreram no Oriente Médio em missões que o Pentágono classifica como não relacionadas à guerra com o Irã, embora estivessem em bases atacadas por forças iranianas, e seus nomes tampouco constam na categoria correspondente do banco de dados.1
Um desses casos é o do sargento Devin Seibel, morto em 31 de maio em Irbil, no Iraque, em um acidente de treinamento durante a Operação Inherent Resolve, missão contra o Estado Islâmico. Outro é o do major Sorffly Davius, que sofreu uma emergência médica não especificada no Kuwait e morreu em 6 de março, servindo na Operação Spartan Shield. Reportagens complementares de veículos americanos que analisaram o mesmo banco de dados observaram inconsistências adicionais, incluindo uma breve redução no número total de mortos e feridos divulgados publicamente, atribuída pelo Departamento de Defesa a uma falha técnica.2
O Pentágono não respondeu às perguntas sobre a divergência nos números, segundo o levantamento do jornal americano. A ausência de resposta oficial é, em si, um dado relevante para o leitor: em democracias com forte tradição de controle civil sobre as Forças Armadas, como é o caso dos Estados Unidos, o silêncio institucional diante de uma cobrança pública de transparência tende a ser lido como sinal político, não apenas como lacuna administrativa.
Um custo político em ano eleitoral
A guerra com o Irã, iniciada há pouco mais de sete meses, tornou-se um passivo político para o presidente Donald Trump e para o Partido Republicano às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro. Uma pesquisa Reuters/Ipsos de setembro indica que apenas 28% dos americanos aprovam a condução do conflito pelo governo, contra 62% de reprovação.1 O desgaste já havia se manifestado em votações no Congresso: em junho, a Câmara aprovou por 215 a 208 votos uma resolução de poderes de guerra (War Powers Resolution) que determinava a retirada de tropas americanas, com quatro republicanos rompendo com a bancada do próprio partido.3 Segundo o levantamento mais recente do Washington Post, uma nova rodada de votação nesta semana reuniu um número recorde de sete parlamentares republicanos ao lado dos democratas em torno de uma medida semelhante.
Paralelamente, o deputado republicano Thomas Massie, do Kentucky, moveu-se para forçar uma votação sobre o impeachment do secretário de Defesa Pete Hegseth, alegando violação da Lei de Poderes de Guerra de 1973 por conduzir hostilidades sem autorização do Congresso. Democratas do Senado, por sua vez, já sinalizaram que pretendem investigar formalmente o tratamento dado pelo Pentágono às notificações de baixas, caso retomem a maioria após o pleito de novembro.
O preço, além das vidas
O custo humano é apenas uma face do problema. Segundo documento do Comando Central dos EUA (CENTCOM) obtido pelo Washington Post, a guerra já custou cerca de US$ 43,6 bilhões até o início de setembro, dos quais US$ 28 bilhões apenas em munições consumidas, sem contar os danos a bases americanas no Golfo Pérsico. Mais de 820 militares americanos ficaram feridos desde o início do conflito, muitos deles com traumatismos cranianos causados por contra-ataques iranianos.1 O fechamento parcial do Estreito de Ormuz por forças iranianas, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e boa parte do gás natural liquefeito comercializados no mundo, também pressionou os mercados globais de energia.
Contraponto
A administração Trump argumenta publicamente que a redução na frequência de ataques desde o meio do ano representa uma vitória estratégica e que a reclassificação de operações reflete apenas o encerramento formal de uma fase do conflito, e não uma tentativa de reduzir artificialmente o número de baixas. Autoridades ligadas ao Departamento de Defesa também sustentam que atrasos na atualização do DCAS podem decorrer de processos padrão de verificação e notificação de familiares, que precisam ser concluídos antes da divulgação pública de um nome, e não necessariamente de manipulação deliberada de dados. Até o fechamento desta edição, contudo, o Pentágono não apresentou essa explicação de forma oficial em resposta às perguntas da imprensa americana.
Por que isso chega à mesa do produtor rural brasileiro
A guerra entre Estados Unidos e Irã raramente é tratada como assunto de política interna brasileira, mas seus efeitos já atravessaram o Atlântico. O fechamento intermitente do Estreito de Ormuz elevou o custo do frete marítimo e do gás natural, matéria-prima essencial na produção de ureia, fertilizante nitrogenado do qual o Brasil depende fortemente. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), cerca de 85% dos insumos usados pelo agronegócio nacional têm origem estrangeira, e um documento técnico do Ministério da Agricultura chegou a apontar risco real de déficit entre 1 milhão e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados neste ano, o suficiente para comprometer a produtividade da safra 2026/2027.
Diante do risco, o Itamaraty, sob o ministro Mauro Vieira, intensificou negociações com Cazaquistão e Uzbequistão para diversificar fornecedores, enquanto o Banco Mundial estimava alta acumulada de até 30% nos preços internacionais de fertilizantes ao longo do ano. Regiões do Norte e do Nordeste, mais dependentes de combustíveis importados, também figuram entre as mais expostas a eventuais choques no preço do petróleo caso o estreito seja efetivamente bloqueado por período prolongado.
Fonte: The Washington Post (18/09/2026), com base em seis funcionários do governo dos EUA ouvidos sob anonimato.
O que fica
Independentemente de qual explicação prevaleça, o episódio reabre uma discussão antiga sobre o controle de informações em tempos de guerra e sobre os limites entre sigilo operacional e prestação de contas ao público. Casos como este servem de referência comparativa útil para o debate brasileiro sobre transparência em gastos e operações militares, tema que no Brasil passa por instrumentos como a Lei de Acesso à Informação e pela atuação de órgãos de controle como o TCU e a CGU. A diferença central está na existência, nos Estados Unidos, de um banco de dados público e nominal de baixas de guerra, o que por si só já expõe o problema à fiscalização, mesmo quando incompleto.
Perguntas frequentes
Quantos militares americanos morreram na guerra com o Irã, segundo o Pentágono?
O sistema oficial do Departamento de Defesa, o Defense Casualty Analysis System (DCAS), listava 18 mortes até 18 de setembro de 2026. Uma apuração do Washington Post, no entanto, aponta pelo menos 22 óbitos, com uma fonte citando 23.
Por que existe divergência entre os números oficiais e os apurados pela imprensa?
Parte da diferença decorre da forma como o Pentágono categoriza as operações. Mortes ocorridas após a reclassificação do conflito, de "Operação Fúria Épica" para "Operações no Exterior", e óbitos em missões consideradas não diretamente ligadas à guerra, mesmo ocorrendo em bases atacadas pelo Irã, não aparecem de forma consolidada no banco de dados público.
Qual é a relevância desse episódio para o Brasil?
O conflito afeta o Brasil principalmente pela via econômica. O fechamento intermitente do Estreito de Ormuz encareceu o gás natural, insumo da ureia, e o frete marítimo, pressionando o custo de fertilizantes dos quais o agronegócio brasileiro depende fortemente, além de expor regiões importadoras de combustíveis a choques no preço do petróleo.
Isso pode ter consequências para o presidente Trump?
Sim. A guerra é impopular entre os eleitores americanos, segundo pesquisas recentes, e já provocou rachas dentro do próprio Partido Republicano no Congresso, incluindo votações favoráveis a resoluções de poderes de guerra e uma tentativa de abrir processo de impeachment contra o secretário de Defesa.