Política · América Latina · Opinião pública
Pela primeira vez desde que o Latinobarómetro começou a medir a opinião pública latino-americana, em 1995, a influência da China na região é vista de forma mais positiva do que a dos Estados Unidos. A edição 2026 da pesquisa, divulgada no fim de setembro e repercutida pela revista The Economist, ouviu mais de 19 mil pessoas em 17 países entre 7 de maio e 17 de junho e encontrou 65% de avaliações positivas para a influência chinesa, contra 57% para a americana.23 Em 2020, a relação era a oposta: 48% para Pequim e 60% para Washington, segundo os dados reproduzidos pela Uno TV, com base na AFP.
O resultado ganhou ampla circulação na imprensa estatal chinesa. Em texto publicado pelo China Daily, a partir de material da emissora CGTN, o levantamento aparece como prova de uma melhora contínua da imagem chinesa no continente nos últimos dois anos.1 A tendência é real. Mas os números completos contam uma história mais matizada do que a manchete sugere, e o Brasil ocupa nela uma posição particularmente reveladora.
Em resumo
- No Latinobarómetro 2026, 65% dos latino-americanos avaliam positivamente a influência da China e 57% a dos Estados Unidos; é a primeira inversão em mais de três décadas de série histórica.
- Como país, os Estados Unidos ainda têm imagem mais favorável (63%) que a China (58% a 59%, conforme a fonte), embora tenham caído dez pontos desde 2024.
- No Brasil, 64% veem a influência chinesa como positiva, contra 49% para a americana.
- O comércio Brasil-China somou US$ 171 bilhões em 2025, mais que o dobro do fluxo com os Estados Unidos.
Influência não é o mesmo que simpatia
O ponto mais importante da pesquisa é também o mais fácil de perder: o Latinobarómetro faz duas perguntas diferentes. Uma pede ao entrevistado que avalie se a influência de cada potência é positiva ou negativa. A outra pergunta se ele tem opinião favorável sobre o país. Na primeira, a China venceu. Na segunda, não. Segundo o Buenos Aires Times, 63% dos entrevistados declaram opinião favorável sobre os Estados Unidos e 58% sobre a China.2 Outras coberturas, como a da Uno TV, registram 59% para a China; a diferença é pequena e não altera a ordem.
O movimento, porém, é desfavorável a Washington. Em 2024, 73% dos latino-americanos tinham visão favorável dos Estados Unidos, patamar que caiu para 63% em dois anos, como destacou a Euronews.12 A percepção negativa da influência americana subiu de 28% para 37% entre 2020 e 2026, enquanto a da influência chinesa recuou de 37% para 26%.3 Apenas Costa Rica e República Dominicana continuam vendo a influência dos Estados Unidos como mais positiva que a da China.
Outra pesquisa de grande porte aponta na mesma direção. O Pew Research Center entrevistou mais de 42 mil pessoas em 36 países entre fevereiro e maio deste ano e encontrou mediana de 46% de opiniões favoráveis à China, contra 36% para os Estados Unidos.6 Pelo critério estatístico do próprio instituto, 25 países veem a China de forma claramente mais favorável, seis preferem os Estados Unidos e cinco, entre eles o Brasil, aparecem em situação de equilíbrio, como detalhou o Le Grand Continent.8
O Brasil no mapa da virada
Os dados brasileiros do Latinobarómetro chamam atenção pela distância entre as duas potências. Segundo o Poder360, 64% dos brasileiros avaliam positivamente a influência chinesa, e menos de um terço a considera negativa. A influência americana recebe aprovação de 49%.3 O salto é expressivo quando se lembra que, em 2024, o Brasil estava entre os países com menor avaliação favorável da China na região, com 45%, como registrou o Portal Tela.4
Há, contudo, uma tensão entre as fontes que merece ser explicitada. No levantamento do Pew, que trabalha com outra amostra e outras perguntas, as visões de brasileiros sobre China e Estados Unidos aparecem praticamente empatadas.7 As duas leituras não se anulam. Elas sugerem que o brasileiro distingue o que um país representa do papel que ele desempenha na vida econômica nacional, e que a segunda dimensão é a que mais se moveu.
A pesquisa mede percepção de influência, não lealdade geopolítica. Confundir as duas coisas é o erro mais comum na leitura desses números.
Os números chegam ao debate público brasileiro na semana do primeiro turno das eleições gerais, num momento em que política externa e relação com as grandes potências voltaram a frequentar o discurso dos candidatos. A pesquisa não mede intenção de voto nem preferência partidária, e não autoriza conclusões eleitorais. Ela registra, porém, um pano de fundo de opinião pública que qualquer governo eleito em outubro terá de considerar.
O bolso como variável explicativa
A diretora do Latinobarómetro, Marta Lagos, ofereceu uma explicação direta para o avanço chinês em entrevista à AFP: a China teria conquistado a população latino-americana ao ampliar o acesso a importações mais baratas, ocupando um espaço que, nas palavras dela, está mais no bolso das pessoas do que em qualquer outro lugar.14
No caso brasileiro, a hipótese encontra respaldo nos fluxos de comércio. De acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), citado pelo Poder360, a corrente de comércio entre os dois países somou US$ 171 bilhões em 2025, alta de 8,2% sobre 2024 e mais que o dobro dos US$ 83 bilhões negociados com os Estados Unidos.9 A China responde hoje por 27,2% de todo o comércio exterior brasileiro.
Os dados da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC mostram o outro lado da equação. As exportações brasileiras para a China chegaram a US$ 100 bilhões em 2025, alta de 6%, enquanto as vendas aos Estados Unidos recuaram 6,6%, para US$ 37,7 bilhões, sob efeito das sobretaxas impostas por Washington a partir de julho de 2025, conforme o balanço anual divulgado em janeiro.10 Em fevereiro de 2026, o regime de sobretaxas específicas contra o Brasil deu lugar a uma tarifa global temporária de 10%, segundo nota do MDIC.11
A composição desse comércio, no entanto, impõe cautela. As vendas brasileiras à China seguem concentradas em produtos agrícolas e da indústria extrativa, com destaque para soja, minério e petróleo. Já as exportações para os Estados Unidos são mais diversificadas e majoritariamente compostas por bens manufaturados.9 Em outras palavras, o parceiro que mais compra não é necessariamente o que mais sustenta empregos industriais e valor agregado no país.
Washington e a disputa pelo hemisfério
A queda da imagem americana coincide com o segundo mandato de Donald Trump, marcado por uma postura declaradamente hegemônica em relação à América Latina, apelidada de "Doutrina Donroe", em referência à Doutrina Monroe do século 19. O episódio mais visível foi a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro.14
A pesquisa capta uma ambivalência importante nesse ponto. Segundo os dados relatados pelo Diário do Centro do Mundo, com base na AFP, 69% dos latino-americanos aprovam a captura de Maduro, mas apenas 35% acreditam que a intervenção beneficiará a Venezuela. A condução das relações internacionais por Trump é desaprovada por 64% dos entrevistados na região, com exceção notável da própria Venezuela, onde 61% a aprovam.5 O dado sugere que a rejeição se dirige mais ao método e ao estilo do que a todos os objetivos da política americana.
O Pew acrescenta uma camada útil. Nos países de renda média pesquisados, mediana de 75% afirma que os Estados Unidos interferem muito ou razoavelmente nos assuntos de outras nações; para a China, o índice é de 45%.6 No Brasil e no México, a parcela que vê interferência chinesa diminuiu.7
Como a notícia chega: a moldura importa
A forma como o resultado foi apresentado pela mídia estatal chinesa merece leitura atenta. O texto do China Daily destaca que a favorabilidade em relação à China aumentou em 15 dos 17 países pesquisados e cita a pesquisa do Pew como confirmação da tendência.1 Não menciona, contudo, que os Estados Unidos seguem à frente na pergunta sobre opinião favorável ao país. A lista de nações apresentada inclui os 17 países pesquisados, embora a versão da CCTV esclareça que Panamá e Equador registraram leve queda.13 O texto também fala em 27 de 36 países com visão mais favorável à China no Pew, número que corresponde à contagem bruta; o próprio instituto considera 25 com diferença estatisticamente significativa.8
Nenhuma dessas escolhas altera o sentido geral dos dados, que de fato favorecem Pequim. Mas mostram por que a leitura de pesquisas de opinião sobre geopolítica exige ir à fonte primária, ou ao menos a várias coberturas independentes, antes de transformar uma tendência em veredito.
O que observar daqui em diante
Três indicadores ajudarão a dizer se a mudança é duradoura. O primeiro é a próxima edição do Latinobarómetro, que mostrará se a queda americana se estabiliza ou se aprofunda. O segundo é a evolução da pauta comercial brasileira: crescimento de vendas de manufaturados à China, ou recuperação das exportações industriais aos Estados Unidos, alterariam o cálculo econômico que sustenta a percepção. O terceiro é a política externa do governo que tomará posse em janeiro de 2027, que herdará uma opinião pública mais receptiva a Pequim do que em qualquer outro momento da série histórica.
Perguntas frequentes
O que é o Latinobarómetro?
É um estudo anual de opinião pública realizado desde 1995 pela Corporación Latinobarómetro, organização sem fins lucrativos sediada em Santiago, no Chile. A edição 2026 entrevistou mais de 19 mil pessoas em 17 países da América Latina.
A China já é mais popular que os Estados Unidos na América Latina?
Depende da pergunta. A influência chinesa é avaliada como positiva por 65% dos entrevistados, contra 57% para a americana. Mas, quando se pergunta sobre a opinião a respeito do país, os Estados Unidos ainda lideram, com 63%, contra 58% a 59% da China.
Como o Brasil aparece na pesquisa?
No Brasil, 64% avaliam positivamente a influência chinesa e 49% a americana. Em 2024, a opinião favorável à China no país era de 45%, uma das mais baixas da região.
Por que a imagem dos Estados Unidos caiu?
A opinião favorável aos Estados Unidos caiu de 73% em 2024 para 63% em 2026. A queda coincide com o segundo mandato de Donald Trump, com sua política tarifária e com a postura de hegemonia regional, incluindo a captura de Nicolás Maduro. A condução das relações internacionais por Trump é desaprovada por 64% dos latino-americanos.
Outras pesquisas confirmam a tendência?
Sim. O Pew Research Center, em levantamento com 36 países publicado em julho de 2026, encontrou mediana de 46% de opinião favorável à China e 36% aos Estados Unidos. No Brasil, porém, o Pew registra visões praticamente equivalentes sobre as duas potências.
O resultado indica alinhamento político do Brasil com a China?
Não. A pesquisa mede percepção de influência e imagem, não preferência por modelos políticos ou alianças. O avanço chinês está fortemente associado ao comércio, que somou US$ 171 bilhões entre Brasil e China em 2025.
Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "Latin Americans increasingly favor China in past two years, The Economist survey finds", publicada pelo China Daily com conteúdo da CGTN em 3 de outubro de 2026. O texto original não foi traduzido nem reproduzido; os dados foram cruzados com fontes independentes listadas abaixo. Crédito e acesso ao original: China Daily.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido