Há livros que nascem por acidente do calendário e viram, sem que o autor tenha planejado, retratos do seu tempo. É o caso de "True North: On the Road in Canada", décimo segundo livro de viagem de Paul Theroux, que chega às livrarias americanas e britânicas entre 22 de setembro e 3 de novembro de 2026, publicado por Mariner Books nos Estados Unidos e por Hamish Hamilton (selo da Penguin) no Reino Unido e na Austrália.2,3 O projeto original de Theroux era simples: fechar sua trilogia de estradas norte-americanas, iniciada com "Deep South" e continuada em "On the Plain of Snakes", sobre o México, com uma volta às raízes familiares no Quebec. O que ele não esperava é que a viagem coincidiria com o momento em que o governo dos Estados Unidos passaria a tratar o Canadá como alvo de tarifas punitivas e ameaças explícitas de anexação como "51º estado".
Segundo a crítica de Jennifer Szalai no The New York Times, esse pano de fundo político transformou um livro de viagem em algo mais urgente: um estudo sobre como uma nação historicamente discreta reage quando o vizinho que ela sempre observou de perto passa a hostilizá-la abertamente.1 Theroux, hoje com 85 anos, descreve os canadenses como "os estranhos ao lado", um país que continua "um borrão para a maioria dos americanos", mesmo depois de séculos de convivência na mesma fronteira.1
Uma viagem que também é genealógica
A espinha dorsal do livro é dupla. De um lado, Theroux reconstrói a história de Antoine Theroux, seu ancestral que deixou a Gasconha em 1693 para se estabelecer em Nouvelle France, na pequena vila de Yamaska, onde descendentes da família ainda vivem.4 De outro, o autor percorre o país de leste a oeste, de Newfoundland a Vancouver, conversando com fazendeiros, refugiados, indígenas e escritores como John Irving, Michael Ondaatje e a jornalista indígena Tanya Talaga.5 É um método já conhecido de Theroux: pouco museu, pouco monumento, muita conversa de estrada.
Um dos momentos centrais da resenha do NYT é uma pergunta que Theroux repete a canadenses de regiões diferentes: o que separa, afinal, o Canadá dos Estados Unidos? As respostas variam. Algumas reforçam clichês conhecidos, como a maior deferência canadense à autoridade e ao bem comum. Outras são mais duras: uma moradora de Belleville, Ontário, descreve os americanos como "um povo medroso", citando o número de armas em circulação no país. À provocação, Theroux responde que os americanos têm medo, sim, de outros americanos armados.1
Do Convoy da Liberdade ao tarifaço
Theroux também revisita o chamado "Freedom Convoy", protesto de caminhoneiros contra medidas sanitárias que paralisou Ottawa no início de 2022, quando parte dos organizadores chegou a exigir a substituição do governo.1 A resenha aponta um dado que interessa ao debate migratório: cerca de 20% dos caminhoneiros canadenses são paquistaneses ou sikhs, proporção que não se refletia entre os manifestantes fotografados no protesto. Quase metade das doações recebidas pelo movimento, segundo Theroux, veio de doadores nos próprios Estados Unidos.1
Três anos depois, já sob a segunda gestão de Donald Trump, o mesmo país que hesitava diante do convoy aparece unido por outro motivo: a sequência de insultos e sobretaxas comerciais aplicadas por Washington. A reação, descreve a resenha, misturou indignação com o sentimento de traição, o de ser hostilizado justamente pelo aliado mais próximo, depois de décadas de cooperação militar e comercial.1
O mosaico que Theroux questiona
Nem tudo no livro é elogio à coesão canadense. Theroux ouve relatos duros de indígenas sobre o sistema de internatos residenciais, cujo último fechou em 1997, e questiona se o modelo canadense de "mosaico cultural", que preserva identidades de origem em vez de promover assimilação plena, teria produzido bolhas étnicas isoladas em vez de integração. É uma hipótese que ele mesmo relativiza ao longo do texto, reconhecendo o peso da própria observação impressionista de um viajante de passagem.1
Contraponto
A crítica do NYT nota que o "mosaico" é justamente a peça mais frágil da argumentação de Theroux: a afirmação de que moradores de "bolhas étnicas" seriam indiferentes à ameaça de anexação americana depende de um "parecia" que a própria resenhista, Jennifer Szalai, sublinha como insuficiente. Pesquisadores de estudos migratórios canadenses costumam contestar a tese de que o multiculturalismo institucional enfraquece a identidade nacional, argumentando que as duas coisas cresceram juntas no país desde os anos 1970.
O espelho brasileiro
Para o leitor brasileiro, a coincidência de calendário é difícil de ignorar. Enquanto Theroux atravessava o Canadá em 2026, o Brasil vivia sua própria versão do mesmo enredo. Em julho, entrou em vigor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, seguida de novas sobretaxas ao longo do ano, no mesmo pacote de medidas que também elevou em 50% as tarifas contra o Canadá por conta de disputas envolvendo laticínios, carros e bebidas.6,7 O governo brasileiro respondeu anunciando o acionamento da Lei de Reciprocidade Econômica e recorrendo à Organização Mundial do Comércio, movimento próximo ao que Ottawa também sinalizou ao prometer retaliar "dólar por dólar".7
A diferença central, e ela é grande, é que o Brasil não compartilha fronteira nem tratado de livre-comércio com os Estados Unidos, e nunca foi alvo de uma retórica de anexação. Mas a dinâmica de fundo, a de um parceiro comercial historicamente próximo tratando pressão tarifária como instrumento de política externa, é a mesma que atravessa o livro de Theroux. Não é por acaso que analistas brasileiros de comércio exterior passaram a citar o caso canadense como parâmetro de comparação ao avaliar até onde o Brasil poderia ser pressionado.
Perguntas frequentes
O que é "True North", de Paul Theroux?
É o décimo segundo livro de viagem do escritor americano Paul Theroux, dedicado ao Canadá, que fecha sua trilogia de estradas norte-americanas iniciada com "Deep South" e "On the Plain of Snakes". Mistura reconstituição genealógica de ancestrais franco-canadenses com um giro contemporâneo pelo país.
Quando "True North" será lançado e onde?
A edição americana, pela Mariner Books, chega em 22 de setembro de 2026. As edições britânica e australiana, pela Penguin/Hamish Hamilton, saem entre 29 de outubro e 3 de novembro de 2026. Ainda não há data confirmada para uma edição em português.
Por que o livro ganhou relevância política em 2026?
Porque a viagem de Theroux coincidiu com a escalada de tarifas e ameaças de anexação do governo americano contra o Canadá, o que deu ao livro um pano de fundo de tensão diplomática que o autor não havia planejado originalmente.
Qual a relação entre o livro e o tarifaço que também atingiu o Brasil?
Em 2026, o Brasil e o Canadá foram alvo, no mesmo período, de tarifas americanas justificadas por supostas práticas comerciais desleais. O Brasil recebeu uma tarifa de 25% em julho e o Canadá uma sobretaxa de 50% em produtos como carros e laticínios, ambos respondendo com medidas de reciprocidade.