Patti Smith recebe nesta sexta-feira, 23 de outubro, no Teatro Campoamor de Oviedo, o Prêmio Princesa de Astúrias das Artes 2026. O anúncio foi feito em 29 de abril, e o júri, presidido pela coreógrafa María Pagés, destacou a "impetuosa criatividade, que conecta o rock, a poesia simbolista e o espírito da contracultura"[2]. Nascida em Chicago em 30 de dezembro de 1946, a artista completa 80 anos daqui a pouco mais de dois meses e chega à cerimônia como algo que a indústria musical dos anos 1970 não previa: uma autora de livros lidos por quem nunca ouviu um disco dela.
Foi essa dupla condição que o jornal espanhol El País procurou mapear às vésperas do prêmio. Em reportagem de Carlos Marcos, publicada em 20 de outubro, o diário selecionou seis álbuns e quatro livros indispensáveis da artista, ordenados por relevância segundo critério da redação[1]. A lista é útil, mas foi pensada para o leitor espanhol. Este texto parte dela para responder a uma pergunta mais próxima de quem lê em português: o que, da Patti Smith escritora, está disponível no Brasil, e por onde vale começar.
Um prêmio de artes para uma obra que também é literária
O Princesa de Astúrias das Artes contempla arquitetura, cinema, dança, fotografia, música, pintura e teatro, e no ano passado foi concedido à fotógrafa mexicana Graciela Iturbide. A candidatura de Smith, segundo a imprensa espanhola, foi proposta pela escritora Inés Martín Rodrigo, integrante do júri do prêmio de Letras. O detalhe não é burocrático: indica que a obra literária pesou na decisão tanto quanto Horses (1975), o disco de estreia que a tornou referência do punk nova-iorquino.
A ata do júri fala de uma comunicadora multidisciplinar, que atravessou poesia, fotografia, performance e videoinstalação. Na prática, porém, a parte mais lida dessa produção nas últimas duas décadas é a prosa memorialística. Desde 2010, Smith publicou uma sequência de livros que, somados, formam uma autobiografia fragmentada, escrita em camadas e fora de ordem cronológica.
Só garotos, o livro que mudou o estatuto da escritora
Só garotos (Just Kids, 2010) é o ponto de partida natural e também o primeiro da lista do El País[1]. O livro reconstitui a chegada de Smith a Nova York em 1967, aos 20 anos, sem dinheiro, e a relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, amigo, amante e parceiro de formação artística, que morreu em decorrência da aids em 1989. Foi a ele que ela prometeu escrever a história dos dois. A edição brasileira, da Companhia das Letras, tem tradução de Alexandre Barbosa de Souza e é apresentada pela editora como um romance de formação de dois artistas do século 20[3].
O peso de Só garotos não é só afetivo. O livro venceu o National Book Award de não ficção, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, e deslocou Smith de uma categoria incômoda, a da roqueira que também escreve, para a de memorialista reconhecida por pares literários. O El País lembra a passagem em que ela comenta a foto de Mapplethorpe que estampa a capa de Horses: ao olhar a imagem, diz não enxergar a si mesma, mas aos dois juntos[1]. É uma síntese involuntária do método que ela repetiria depois: a memória como trabalho a quatro mãos, mesmo quando o outro já se foi.
Pão dos anjos e o fechamento do arco memorialista
O lançamento mais recente chegou às livrarias brasileiras em março de 2026. Pão dos anjos: a história da minha vida (Bread of Angels, publicado nos Estados Unidos em novembro de 2025) tem tradução de Camila von Holdefer, 272 páginas e preço de capa de R$ 89,90. Smith declarou ter levado uma década para escrevê-lo, conforme noticiou a Rolling Stone Brasil[6].
Se Só garotos concentrava-se em Mapplethorpe e nos anos de formação, Pão dos anjos amplia o enquadramento para a vida inteira: a infância pobre no pós-guerra, as doenças que a deixaram longos períodos acamada e transformaram a leitura em refúgio, a gravidez aos 20 anos e a filha entregue para adoção, o casamento com o guitarrista Fred "Sonic" Smith, do MC5, os anos de afastamento da vida pública em Detroit para criar os dois filhos e o luto pela morte dele, em 1994. A resenha da CartaCapital observa que o livro se interessa menos pelo acontecimento do que pelo rastro que ele deixa[4], leitura que ajuda a entender por que a obra não funciona como autobiografia convencional, ponto em que o El País também insiste[1].
"A lembrança imaculada de gestos de bondade não premeditados."
Patti Smith, definindo o "pão dos anjos" (trad. Camila von Holdefer)A expressão que dá título ao livro, segundo reportagem do Seu Dinheiro, nomeia a generosidade de amigos da qual ela dependeu na juventude[7]. A escolha diz muito sobre o tom: Smith escreve a partir da perda, mas organiza a narrativa em torno da gratidão. Em entrevista ao Diário do Nordeste, a tradutora avaliou que o livro mais consolida do que revela a trajetória da autora[5]. É uma descrição precisa: para quem já leu os anteriores, Pão dos anjos funciona como chave de leitura retroativa.
Linha M, Devoção e O ano do macaco: a prosa do deslocamento
Entre os dois grandes volumes de memória há uma prosa de outra natureza, mais ensaística e onírica. Linha M (M Train, 2015, tradução de Claudio Carina) é descrito pela autora como um mapa da própria vida, costurado entre cafés, viagens, séries policiais, leituras e polaroides. Devoção (tradução de Caetano W. Galindo) é um livro curto sobre o processo de escrita, que parte de uma viagem a Paris, inclui um conto ficcional e termina na casa de Albert Camus, em Lourmarin.
O ano do macaco (Year of the Monkey, 2019, tradução de Camila von Holdefer) é o terceiro livro da seleção do El País[1]. Narra 2016, ano em que Smith completou 70 anos, viajou em turnê pelos Estados Unidos e acompanhou o declínio do amigo e ex-companheiro Sam Shepard, morto em 2017, enquanto o país elegia Donald Trump pela primeira vez. A fronteira entre sonho e relato é deliberadamente borrada. Para o leitor que conhece apenas Só garotos, é o livro que mostra a escritora mais livre da obrigação de contar fatos.
Há ainda Um livro dos dias (A Book of Days), compilação de imagens e textos curtos nascida das publicações da artista nas redes sociais. Já a coletânea de letras que o El País inclui entre os quatro indispensáveis, Collected Lyrics, 1970–2015, não aparece no catálogo da Companhia das Letras consultado para esta reportagem.
Guia de leitura: os livros de Patti Smith no Brasil
| Título no Brasil | Original | Tradução | Para quem |
|---|---|---|---|
| Só garotos | Just Kids (2010) | Alexandre Barbosa de Souza | Porta de entrada; Nova York dos anos 1960 e 1970 |
| Pão dos anjos | Bread of Angels (2025) | Camila von Holdefer | Visão de conjunto da vida e do luto |
| Linha M | M Train (2015) | Claudio Carina | Leitores de ensaio, viagem e memória afetiva |
| O ano do macaco | Year of the Monkey (2019) | Camila von Holdefer | Prosa onírica; política e envelhecimento |
| Devoção | Devotion | Caetano W. Galindo | Quem se interessa pelo processo de escrita |
| Um livro dos dias | A Book of Days | Companhia das Letras | Leitura fragmentada, imagens e notas |
Como a obra chegou ao leitor brasileiro
A recepção brasileira tem uma particularidade: a Companhia das Letras concentrou toda a prosa de Smith em um único catálogo e, em boa medida, com uma mesma voz tradutória nos títulos recentes. Camila von Holdefer verteu O ano do macaco e Pão dos anjos, o que dá continuidade de estilo a dois livros separados por sete anos. Os lançamentos também acompanharam as passagens da artista pelo país. Em 2019, quando foi atração do Popload Festival, em São Paulo, Smith fez divulgação de Devoção e O ano do macaco. Em janeiro de 2025, voltou à capital paulista para apresentar Correspondences, com o Soundwalk Collective, no Teatro Cultura Artística.
Esse movimento ajuda a explicar um fenômeno perceptível em livrarias e clubes de leitura: parte do público brasileiro chegou a Patti Smith pelos livros, e não pela música. É uma inversão do percurso habitual de artistas pop que publicam memórias, cujo leitor costuma ser o fã já formado.
E os discos?
Para quem quiser completar a leitura com a escuta, a seleção do El País coloca Horses (1975) no topo, seguido de Easter (1978), Gone Again (1996), Banga (2012), Dream of Life (1988) e Radio Ethiopia (1976)[1]. Dois deles dialogam diretamente com os livros: Gone Again, gravado após as mortes do marido e do irmão em 1994, é a versão sonora do luto que ocupa o centro de Pão dos anjos; e Horses, com a foto de Mapplethorpe na capa, é o desfecho artístico da história contada em Só garotos. Banga segue como o último álbum de canções inéditas, lançado há 14 anos. Desde então, a produção nova da artista tem sido sobretudo literária.
Perguntas frequentes
Quais livros de Patti Smith foram publicados no Brasil?
Pela Companhia das Letras: Só garotos, Linha M, Devoção, O ano do macaco, Um livro dos dias e Pão dos anjos: a história da minha vida, este último lançado em março de 2026.
Por qual livro de Patti Smith começar?
Só garotos é a porta de entrada mais indicada: venceu o National Book Award e narra a formação da artista em Nova York ao lado de Robert Mapplethorpe. Pão dos anjos funciona como complemento, por cobrir a vida inteira da autora.
Qual a diferença entre Só garotos e Pão dos anjos?
Só garotos concentra-se nos anos 1967 a 1989 e na relação com Mapplethorpe. Pão dos anjos abrange da infância à velhice, com foco na família, no casamento com Fred "Sonic" Smith e no luto.
Por que Patti Smith recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias das Artes 2026?
O júri, presidido por María Pagés, destacou uma criatividade que une rock, poesia simbolista e contracultura, além de uma obra multidisciplinar que inclui poesia, fotografia, performance e literatura. A cerimônia ocorre em 23 de outubro de 2026, em Oviedo.
Patti Smith ainda lança discos?
Seu último álbum de canções inéditas é Banga, de 2012. Desde então, ela tem se dedicado a turnês, recitais, projetos colaborativos como Correspondences e, principalmente, à escrita.