Caderno Política · Imprensa, dinheiro e democracia

Resumo em 30 segundos

  • Patrick Radden Keefe, repórter da The New Yorker, disse ao El País que vivemos uma era em que o dinheiro dispensa perguntas sobre sua origem.1
  • Seu novo livro, London Falling (em espanhol, El hijo del oligarca), usa a morte de um jovem de 19 anos para examinar a riqueza opaca de Londres.2
  • Keefe relaciona a exclusão dos jovens do mercado imobiliário à busca por atalhos como criptomoedas e apostas.
  • No Brasil, as operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto, a proibição das bets e a queda da confiança no jornalismo para 36% mostram o mesmo fenômeno com sotaque local.6,8,12
  • Em 2026, pela primeira vez, o Brasil (52º) ficou à frente dos EUA (64º) no ranking de liberdade de imprensa da RSF.5

O jornalista americano Patrick Radden Keefe conta que, na primeira vez em que saiu dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump, preferiu deixar o notebook em casa. Temia que o aparelho fosse apreendido na volta, no aeroporto de Nova York, cidade onde vive. O relato abre a entrevista que ele concedeu ao jornalista Joseba Elola, publicada pelo El País neste sábado (17).1 Segundo Keefe, a própria The New Yorker, revista em que trabalha há duas décadas, já discute internamente como agir se agentes do Departamento de Justiça aparecerem com um mandado de busca.

Aos 50 anos, autor de Say Nothing, sobre o conflito na Irlanda do Norte, e de Empire of Pain, sobre a família por trás da crise dos opioides, Keefe estava em Barcelona para a Bienal de Pensamento e para lançar a edição espanhola do novo livro. A conversa passou por Londres, moradia, apostas, confiança na imprensa, eleições americanas e inteligência artificial. O fio que une esses temas é uma constatação incômoda: em boa parte do mundo, ter dinheiro suficiente se tornou um salvo-conduto.

O que é London Falling e por que o livro importa

London Falling, lançado nos Estados Unidos em abril de 2026 pela Doubleday, reconstrói a morte de Zac Brettler, de 19 anos, que caiu da varanda de um edifício de luxo às margens do Tâmisa em novembro de 2019.2,3 O rapaz circulava pela cidade se apresentando como filho de um oligarca russo, e a investigação de Keefe, ampliada a partir de uma reportagem publicada na The New Yorker em 2024, segue os pais em busca de entender quem o filho havia se tornado.2

Na entrevista, Keefe usa o caso para descrever a cidade. Ele lembra uma comparação feita por Boris Johnson quando era prefeito: Londres seria para os bilionários o que as florestas de Sumatra são para os orangotangos. Numa entrevista ao programa Freakonomics Radio, Johnson apresentou a frase como motivo de orgulho e contabilizou 72 bilionários na capital britânica, mais do que em Nova York.4 Para Keefe, o ecossistema que acolheu essa fortuna incluía escolas que recrutavam filhos de oligarcas, instituições culturais satisfeitas com doações e corretores de imóveis sem curiosidade sobre a origem dos recursos.1

“Vivemos tempos profundamente mercenários.”PATRICK RADDEN KEEFE, AO EL PAÍS (TRADUÇÃO LIVRE)

A frase resume o argumento central. Na leitura do repórter, o traço que define o século é a disposição de instituições públicas e privadas de não fazer perguntas quando o cliente é rico o bastante. Dinheiro em volume suficiente, diz ele, acaba servindo para justificar uma longa lista de pecados.1

Da City à Faria Lima: o dinheiro sem perguntas também fala português

O Brasil não precisa importar o exemplo. Em agosto de 2025, a primeira etapa da Operação Carbono Oculto atingiu 350 alvos em dez estados e expôs um esquema que ligava o Primeiro Comando da Capital (PCC) a postos de combustíveis, fundos de investimento e fintechs instaladas na Avenida Faria Lima, o principal centro financeiro do país.8 Em 28 de maio de 2026, a segunda fase, batizada de Fluxo Oculto, mostrou que o esquema havia se reorganizado: seis fintechs teriam substituído as três atingidas na primeira operação e, juntas, movimentado mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, segundo a Receita Federal.8 Uma delas recebeu mais de R$ 1 bilhão em depósitos em dinheiro vivo, e os investigadores identificaram R$ 365 milhões em criptoativos nas instituições investigadas.8 Em agosto deste ano, o Ministério Público de São Paulo denunciou 16 investigados.8

A diferença em relação a Londres é relevante. Keefe descreve uma capital que atrai dinheiro estrangeiro de origem duvidosa; o caso brasileiro trata de recursos do crime organizado doméstico que entram no sistema financeiro formal. O denominador comum é o mesmo: intermediários com controles frágeis e incentivos para não perguntar. As autoridades apontaram justamente as chamadas contas-bolsão, que dificultavam identificar o verdadeiro dono dos recursos, e a fragilidade dos controles de prevenção à lavagem em instituições de pagamento.8

Moradia, atalhos e a geração do cassino

A parte mais social da entrevista conecta habitação e comportamento. Keefe observa que a promessa de comprar uma casa com trabalho e poupança perdeu credibilidade entre os jovens. Quem economiza mês a mês passa a ser visto como ingênuo, e a vida começa a parecer um cassino. Na interpretação dele, esse é um dos motores da procura por criptomoedas e apostas: atalhos para enriquecer depressa num mercado imobiliário do qual uma geração inteira foi excluída.1

Os dados brasileiros ajudam a dimensionar o argumento. Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional do país era de 5,97 milhões de domicílios em 2023, o equivalente a 7,6% das moradias ocupadas, e o principal componente já não é a habitação precária, e sim o peso do aluguel: 3,66 milhões de famílias (61,3% do déficit) comprometiam 30% ou mais da renda com locação.9 Ao mesmo tempo, o Censo 2022 registrou 11,4 milhões de casas e apartamentos vagos, um número que reflete motivos diversos, mas que evidencia a dificuldade dos mais pobres de acessar o estoque existente.10

A outra ponta do diagnóstico, as apostas, virou política de Estado. A pesquisa Raio X do Investidor, da Anbima com o Datafolha, apontou que 17% dos brasileiros haviam feito alguma aposta online em 2025; entre os interessados, 82% eram da geração Z ou millennials e 56% da classe C.11 Em 25 de setembro, o governo federal editou a Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online.13 Pesquisa Datafolha divulgada em 1º de outubro indicou que 78% dos brasileiros apoiam a proibição.12 A medida, porém, ainda depende do Congresso, recebeu quase cem emendas e é questionada no Supremo Tribunal Federal.13

Lida à luz de Keefe, a disputa revela um descompasso. Se a aposta é sintoma de um horizonte de ascensão bloqueado, a proibição age sobre o sintoma. Parlamentares que propuseram emendas argumentam que quem desenvolveu dependência continua precisando de tratamento e que parte dos apostadores tende a migrar para a oferta ilegal.13 A causa apontada pelo jornalista, o acesso à moradia e a uma trajetória previsível de patrimônio, permanece fora do debate.

A gota de veneno: por que a confiança na imprensa caiu

Questionado sobre os erros que levaram à perda de confiança nos meios tradicionais, Keefe evita culpar a própria imprensa. Para ele, políticos oportunistas descobriram a utilidade de demonizar jornalistas, e expressões como “fake news” funcionaram como uma pequena dose de veneno introduzida no sistema, depois amplificada pelas redes sociais.1 Ele enxerga, contudo, uma oportunidade: como as pessoas já desconfiam de quase tudo o que veem nas telas, cresce o valor de um lugar onde seja possível saber o que é verdade.

Os números de 2026 confirmam a primeira parte do diagnóstico. O Digital News Report, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, registrou confiança global nas notícias de 37%, o menor patamar desde o início da série, em 2015.6 No Brasil, o índice caiu para 36%, ante 62% em 2015, a maior queda entre os países acompanhados no período.6 O relatório também mostra que 53% dos brasileiros usam redes sociais para se informar, contra 44% que recorrem à televisão.6

Confiança nas notícias (% que confia na maior parte do tempo)

Brasil, 201562%
Brasil, 202636%
Média global, 202637%
Notícias via chatbots de IA, 2026 (global)24%
Fonte: Reuters Institute, Digital News Report 2026. Elaboração: O Tecido.

O medo de Keefe no aeroporto também ganhou contornos concretos. Em julho, o Departamento de Justiça intimou jornalistas do The New York Times a depor diante de um grande júri depois de reportagens sobre falhas de segurança no novo Air Force One, doado pelo Catar; no início do ano, repórteres do The Washington Post e do The Wall Street Journal haviam recebido intimações semelhantes.7 Em abril de 2025, a então procuradora-geral Pam Bondi revogou a norma que protegia jornalistas da apreensão secreta de registros telefônicos em investigações de vazamento.7 O governo afirma que os alvos são os responsáveis por vazar informações sigilosas, não os repórteres.7

O efeito aparece no ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras. Em 2026, os EUA caíram para a 64ª posição, 22 abaixo de 2022, enquanto o Brasil subiu para a 52ª, ficando à frente dos americanos pela primeira vez em 25 anos de levantamento.5 Em 2021, o Brasil ocupava o 111º lugar. A RSF registrou ainda que, pela primeira vez, mais da metade dos países avaliados está em situação “difícil” ou “muito grave”.5

Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa: Brasil e EUA (posição menor indica mais liberdade)

2022 2026 Brasil 110º Brasil 52º EUA 42º EUA 64º
Fonte: Repórteres Sem Fronteiras, Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2026; posições de 2022 calculadas a partir das variações informadas pela RSF. Elaboração: O Tecido.

Eleições de meio de mandato sob tensão

Sobre as eleições legislativas americanas de 3 de novembro, Keefe faz questão de registrar que Trump venceu de forma legítima, por margem estreita, mas é um presidente historicamente impopular, sustentado por uma base que considera quase incondicional.1 Ele admite a possibilidade de que uma ou as duas Casas do Congresso mudem de mãos, mas diz ter dificuldade em manter esperança e levanta dúvidas sobre eventuais tentativas de interferência no pleito. Mesmo com uma vitória democrata, avalia, o país continuaria numa zona sombria.

Inteligência artificial: ferramenta, sim; autora, não

A última parte da entrevista trata da escrita na era da IA. Keefe diz não ser contra a tecnologia e conta usá-la em tarefas específicas, como tradução. Faz duas ressalvas: em pesquisa, os sistemas inventam informações, e por isso não permite que a IA mexa em seus textos. Aos jovens jornalistas, recomenda que trabalhem de um modo que uma máquina não consiga substituir.1

O alerta sobre a verificação dialoga com os números do Reuters Institute: a confiança em notícias obtidas por meio de chatbots de IA é de 24%, acima das redes sociais, mas bem abaixo das notícias em geral.6 No O Tecido, a posição editorial é próxima na essência e diferente na fronteira. Tratamos a IA como ferramenta de apoio à escrita e entendemos que a curadoria é a competência central desta época, desde que todo conteúdo publicado reflita o que o autor de fato pensa e esteja ancorado em fontes verificáveis. Keefe traça a linha no texto; nós a traçamos na responsabilidade pelo que se afirma. Em ambos os casos, a apuração continua sendo humana.

O que a entrevista ensina ao Brasil

Primeiro, a lavagem de dinheiro não se combate apenas nas pontas visíveis do crime. Se parte decisiva do problema passa por escritórios, fundos e plataformas formalmente registradas, a fiscalização precisa alcançar os intermediários que preferem não perguntar.

Segundo, apostas, criptomoedas e promessas de enriquecimento rápido prosperam onde o caminho tradicional da poupança e da casa própria deixou de convencer. Medidas restritivas podem conter danos imediatos, mas não substituem uma política de moradia que devolva previsibilidade a quem começa a vida adulta.

Terceiro, a posição do Brasil no ranking da RSF é um ativo frágil. O exemplo americano mostra que a deterioração pode ser rápida quando o poder público passa a tratar o jornalismo como adversário. Preservar a confiança exige, ao mesmo tempo, garantias institucionais e uma imprensa disposta a demonstrar seu método, como defende Keefe ao descrever a verdade como um processo de apuração rigorosa.1

Perguntas frequentes

Quem é Patrick Radden Keefe?

É um jornalista investigativo americano, repórter da revista The New Yorker há cerca de 20 anos e autor de livros de não ficção como Say Nothing e Empire of Pain. Seu livro mais recente é London Falling, publicado em 2026.

Sobre o que é o livro London Falling (El hijo del oligarca)?

O livro investiga a morte de Zac Brettler, de 19 anos, que caiu de um prédio de luxo no Tâmisa em 2019 depois de se passar por filho de um oligarca russo. A partir do caso, Keefe examina dinheiro offshore, corrupção e a cultura de riqueza de Londres.

O que Keefe quer dizer com “tempos mercenários”?

Na entrevista ao El País, ele descreve uma época em que instituições e empresas aceitam recursos sem questionar sua origem, desde que o volume seja grande. Para o jornalista, ter dinheiro suficiente passou a justificar uma série de condutas reprováveis.

Como está a liberdade de imprensa no Brasil e nos EUA em 2026?

No ranking da Repórteres Sem Fronteiras de 2026, o Brasil aparece em 52º lugar e os Estados Unidos em 64º. É a primeira vez em 25 anos que o Brasil fica à frente dos EUA. O Brasil ocupava a 111ª posição em 2021.

Qual é a confiança dos brasileiros nas notícias?

Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, 36% dos brasileiros confiam nas notícias na maior parte do tempo, ante 62% em 2015. A média global é de 37%, a menor desde o início da série.

O que Keefe pensa sobre escritores que usam inteligência artificial?

Ele usa IA para tarefas como tradução, mas não permite que ela altere seus textos e alerta que os sistemas inventam informações em pesquisas. Para ele, deixar a IA escrever é o caminho mais rápido para ser substituído por ela.

Nota de atribuição. Este artigo foi elaborado a partir da entrevista de Patrick Radden Keefe ao jornalista Joseba Elola, publicada pelo El País em 17 de outubro de 2026, disponível em elpais.com. O texto não é tradução nem reprodução do original: trata-se de análise própria do O Tecido, complementada por fontes independentes e dados brasileiros.