Caderno Opinião

Um parque não deveria precisar dar lucro. Essa frase, que parece óbvia, virou uma tese quase marginal na gestão de espaços públicos brasileiros. Nos últimos anos, concessões de parques urbanos a operadoras privadas transformaram alguns dos equipamentos mais importantes de saúde coletiva do país em ativos de rentabilização, e o resultado, hoje visível em São Paulo, é um convite para repensar por que investimos em parques, e para quem.

O parque como política de saúde, não como imóvel

Antes de discutir os casos concretos, vale lembrar o que a evidência científica já estabeleceu há décadas. Áreas verdes urbanas reduzem sedentarismo, favorecem a saúde mental e diminuem taxas de internação por doenças respiratórias, o que se traduz diretamente em menos gasto hospitalar e menos ausência ao trabalho e à escola1. A Sociedade Brasileira de Floresta Urbana recomenda o mínimo de 15 m² de área verde por habitante, e a Organização Mundial da Saúde defende que toda pessoa tenha acesso a um espaço público arborizado a até um quilômetro de casa2. Pesquisas em Curitiba já mostraram que parques bem conservados funcionam como verdadeiras academias ao ar livre, reduzindo estresse e sedentarismo de forma mensurável3.

Ou seja: o retorno de um parque não deveria ser medido em bilheteria de evento ou aluguel de galpão. Deveria ser medido em internações evitadas, em consultas psiquiátricas que não precisaram acontecer, em crianças que fizeram uma hora de atividade física de graça. O objetivo de um parque público é diminuir custo do Estado com saúde, não gerar receita direta. Quando essa lógica se inverte, o espaço perde sua função original.

Água Branca: de parque de bairro a galpão de eventos

O Parque da Água Branca, inaugurado em 1929 na zona oeste de São Paulo, foi concedido à iniciativa privada em 2022, junto com o Villa-Lobos e o Cândido Portinari, em um contrato de 30 anos que somou pouco mais de R$ 60 milhões4. Desde então, o parque acumula denúncias que vão muito além de uma simples reforma.

Os animais que antes circulavam livremente, entre galinhas, patos, gansos e pavões, hoje vivem confinados. A concessionária Reserva Parques justifica a medida por razões sanitárias, citando uma explosão populacional que chegou a mais de duas mil aves e um surto de influenza aviária em 20235. O argumento tem lastro técnico. Mas o que gera revolta entre moradores e conselheiros não é apenas o confinamento dos animais, é o contraste entre esse rigor sanitário e a liberalidade com que o espaço passou a ser usado para fins comerciais.

Um prédio que abrigava um antigo estábulo da Polícia Militar foi convertido em obra para uma churrascaria, projeto que só foi suspenso depois que a vereadora Luna Zarattini entrou com ação popular e a Justiça determinou a paralisação das obras6. Eventos privados como a "Hípica Churrascada" chegaram a pedir autorização para receber 426 pessoas dentro do parque, com mesas, tendas e cadeiras montadas em área pública6. Em audiência na Assembleia Legislativa, o deputado Carlos Giannazi resumiu a percepção de parte da sociedade civil ao afirmar que o espaço "virou um shopping center", com eventos cobrando quase R$ 1 mil da população5.

"O parque é um bem público do povo. A empresa que venceu o contrato está desviando a finalidade do bem comum pelos eventos que vem fazendo."

Regina Lima, jornalista e integrante do conselho de orientação do Parque da Água Branca, em depoimento à Comissão de Meio Ambiente da Alesp5

Ibirapuera: o cartão-postal também virou vitrine comercial

Se a Água Branca é o exemplo de bairro, o Ibirapuera é o exemplo nacional. Concedido à operadora Urbia em 2020, por um contrato de 35 anos que formalmente exige acesso livre e gratuito ao parque, o Ibirapuera passou a ser alvo de um inquérito do Ministério Público de São Paulo aberto em dezembro de 20247. Após vistoria técnica realizada em setembro, peritos do MP concluíram que o parque, tombado pelo Iphan por suas obras de Oscar Niemeyer, vem sendo "descaracterizado", com remoção de árvores, asfaltamento de áreas verdes e preços classificados como inacessíveis para serviços dentro do parque8.

O promotor Silvio Marques, responsável pelo caso, foi direto: o Ibirapuera está se transformando em um "shopping center a céu aberto", com cobrança de taxas para atividades esportivas e realização frequente de eventos privados que restringem o acesso da população e alteram a natureza pública do espaço9. Segundo o parecer do MP, o Ibirapuera é bem público de uso comum, e nele não caberia monetização, loteamento ou transformação em centro de compras7.

Contraponto

Defensores do modelo de concessão argumentam que parcerias público-privadas compartilham riscos financeiros e podem reduzir o custo público de manutenção, permitindo investimentos que o poder público sozinho não bancaria10. A prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes, sustenta que o modelo de concessões melhorou estruturas e serviços oferecidos à população nos equipamentos públicos da capital8. A Urbia nega irregularidades e classifica o parecer do MP como prematuro e distorcido8. É um argumento legítimo, e a pergunta que fica é se o modelo de concessão, tal como fiscalizado hoje, consegue de fato separar manutenção eficiente de exploração comercial predatória.

O déficit que a privatização não resolve

O problema de fundo não é a existência de parcerias entre setor público e privado, é a ausência de blindagem clara sobre a finalidade do espaço. Quando um contrato de concessão permite que a operadora lucre com restaurante, estacionamento e aluguel de áreas para eventos, cria-se um incentivo estrutural para que cada metro quadrado do parque seja avaliado pelo potencial de receita, e não pelo potencial de bem-estar coletivo7. É a lógica invertida: o parque deixa de ser instrumento de prevenção em saúde pública e passa a ser fonte de faturamento privado, com o poder público como fiscal ausente.

Cidades brasileiras já operam abaixo da recomendação técnica de área verde por habitante. Cada metro quadrado de parque cercado por tapume, alugado a uma churrascaria ou pavimentado para dar lugar a um evento corporativo é um metro quadrado a menos de política pública de saúde, mesmo que formalmente o parque continue "aberto ao público". Gratuidade de acesso, garantida em contrato, não é o mesmo que preservação da função sanitária e ambiental do espaço.

O que deveria orientar a gestão de um parque

Um parque público bem gerido deveria responder a duas perguntas antes de qualquer decisão de uso do espaço: isso melhora a saúde física e mental de quem frequenta o parque, e isso preserva a função ambiental da área. Churrascaria, decoração comercial por meses seguidos e eventos pagos que restringem circulação não respondem a nenhuma das duas. Feira orgânica, visita escolar gratuita, área de exercício e manejo técnico responsável da fauna, sim.

Concessões podem ser um instrumento legítimo de gestão, desde que o contrato defina com clareza que a métrica de sucesso não é receita gerada, é custo evitado ao sistema de saúde e ao meio ambiente. Isso exige fiscalização ativa do poder público, conselhos gestores com poder real de veto, e transparência sobre para onde vai o dinheiro arrecadado dentro de um espaço que, juridicamente, continua sendo do povo.

Perguntas frequentes

Parques concedidos à iniciativa privada continuam sendo gratuitos?
Nos casos do Água Branca e do Ibirapuera, sim, o acesso geral ao parque permanece gratuito por exigência contratual. O problema apontado por Ministério Público e conselhos gestores está na multiplicação de áreas e eventos pagos dentro do espaço, que restringem o uso livre de partes cada vez maiores do parque9.
Existe alguma recomendação técnica sobre quantidade de área verde por habitante?
Sim. A Sociedade Brasileira de Floresta Urbana recomenda ao menos 15 m² de área verde por habitante, enquanto a OMS defende acesso a um espaço público arborizado dentro de um raio de um quilômetro da residência2.
Por que parques são considerados política de saúde pública?
Porque o uso regular de áreas verdes está associado à redução de sedentarismo, estresse e internações por doenças respiratórias, o que reduz gastos hospitalares e faltas ao trabalho e à escola1.
A privatização de parques é ilegal no Brasil?
Não. Concessões de parques públicos são legais e comuns, desde que respeitem o contrato firmado e a legislação de tombamento e uso do solo. O que está sob investigação em casos como o do Ibirapuera é o eventual descumprimento da finalidade pública do espaço, não a concessão em si7.
Nota editorial: Este artigo de opinião foi construído a partir de apuração jornalística independente de veículos como Metrópoles, ISTOÉ, Agência Câmara/Alesp, Exame e UOL/Folhapress, além de literatura acadêmica sobre parques urbanos e saúde pública. As posições expressas refletem a análise autoral do Caderno Opinião de O Tecido. Dados de valores contratuais e datas de concessão devem ser reconferidos junto às fontes oficiais antes da publicação.

Em números

15 m²Área verde recomendada por habitante
1 kmRaio de acesso a espaço público arborizado recomendado pela OMS
R$ 60 miValor da concessão de 30 anos do Água Branca, Villa-Lobos e Cândido Portinari
35 anosDuração do contrato de concessão do Ibirapuera à Urbia
~R$ 1 milValor cobrado em eventos privados denunciados no Água Branca

Linha do tempo

1929Inauguração do Parque da Água Branca
2019Assinado o contrato de concessão do Ibirapuera
2020Urbia assume a gestão do Ibirapuera
2022Água Branca é concedido à Reserva Parques
2023Aves são confinadas no Água Branca por surto de influenza aviária
dez/2024MP-SP abre inquérito sobre a concessão do Ibirapuera
2025Justiça suspende obra de churrascaria no Água Branca; MP conclui descaracterização do Ibirapuera

Glossário

Concessão pública
Transferência contratual da gestão de um bem público a uma empresa privada, por prazo determinado, mediante obrigações definidas em edital.
PPP (Parceria Público-Privada)
Modelo de contrato em que riscos e investimentos são compartilhados entre poder público e iniciativa privada.
Tombamento
Proteção legal que impede a descaracterização de um bem histórico ou ambiental, como ocorre com as obras de Oscar Niemeyer no Ibirapuera.
ODS 11
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU voltado a cidades e comunidades sustentáveis.

Referências

  1. Agência Brasil. "Pesquisa mostra importância de áreas verdes urbanas para a saúde". agenciabrasil.ebc.com.br
  2. Amigos da Natureza. "Espaços públicos urbanos, qualidade de vida e saúde". publicacoes.amigosdanatureza.org.br
  3. Szeremeta, B.; Zannin, P.H.T. "A importância dos parques urbanos e áreas verdes na promoção da qualidade de vida em cidades". Ra'e Ga, UFPR. revistas.ufpr.br
  4. Metrópoles. "Parque da Água Branca é loteado e aluga até área protegida após privatização". metropoles.com
  5. ALESP. "Em Comissão da Alesp, concessionária é questionada sobre atuação no Parque da Água Branca". al.sp.gov.br
  6. ISTOÉ. "Críticas à privatização do Parque da Água Branca vão além de obra de churrascaria". istoe.com.br
  7. IstoÉ Dinheiro/Estadão. "'Shopping a céu aberto' no Ibirapuera: entenda inquérito que investiga concessão". istoedinheiro.com.br
  8. UOL/Folhapress. "'Ibirapuera virou shopping center': MP aponta falhas na concessão do parque". acessa.com
  9. Exame. "MP-SP alega transformação do Ibirapuera em shopping e investiga concessão do parque". exame.com
  10. Amigos da Natureza. "Parceria entre setor público e privado para gestão de parques urbanos". publicacoes.amigosdanatureza.org.br