Toda vez que o Brasil aparece em rankings de endividamento, a narrativa repetida em jornais, programas de TV e conversas de elevador é sempre a mesma: o governo gasta demais, os benefícios sociais são insustentáveis, o ajuste fiscal é uma necessidade urgente. É uma história simples, coerente e — como mostram os dados de três anos consecutivos — profundamente incompleta. Quando colocamos o Brasil lado a lado com seus pares latino-americanos, descobrimos algo desconcertante: somos o país com a melhor trajetória fiscal primária da região, e o que paga os juros mais caros.

Em 2025, o déficit nominal do setor público brasileiro chegou a R$ 1,062 trilhão, ou 8,34% do PIB. Desse total, R$ 1 trilhão foi gasto com juros da dívida pública — um recorde histórico absoluto. O déficit primário, que mede o desbalanço entre o que o governo arrecada e o que efetivamente gasta em saúde, educação, previdência, salários e investimentos, ficou em apenas R$ 55 bilhões: pouco mais de 5% do rombo total.

Decomposição do Déficit Nominal — Brasil 2025
R$ 1,06 tri
Déficit nominal total
8,34% do PIB
~94%
Do déficit é
juros da dívida
0,43%
Déficit primário
(% do PIB)

Para entender o que esse número significa, é preciso olhar para fora do Brasil. E é aí que o quadro se torna ainda mais revelador.

O Brasil melhorou a cada ano. Foi castigado a cada ano. Não é assim que política monetária deveria funcionar.

Três países, três trajetórias

Brasil, México e Colômbia compartilham características importantes: são economias emergentes de porte significativo, enfrentam os mesmos ventos contrários do mercado internacional, lidam com pressões inflacionárias semelhantes e operam sob a vigilância das mesmas agências de risco. Entre 2023 e 2025, no entanto, suas histórias fiscais divergiram radicalmente. E os bancos centrais reagiram de forma que desafia o senso comum.

Caso 1 · Brasil

Disciplina premiada com juros recordes

O setor público brasileiro reduziu seu déficit primário ano após ano: 2,29% do PIB em 2023, 0,40% em 2024, 0,43% em 2025. Em apenas dois anos, o desbalanço primário caiu mais de cinco vezes — uma trajetória de ajuste que poucos países do G20 podem reivindicar. Apesar disso, os juros nominais da dívida saltaram de 6,56% do PIB em 2023 para 7,91% em 2025. A taxa Selic, no mesmo período, subiu de 11,75% para 15% ao ano. O Brasil melhorou seus fundamentos primários e foi recompensado com o custo de financiamento mais alto entre as grandes economias.

Caso 2 · Colômbia

Descontrole fiscal com aperto monetário coerente

Aqui a história faz sentido. O déficit primário colombiano disparou de 0,3% do PIB em 2023 para 2,4% em 2024 e 3,5% em 2025 — o maior nível em três décadas, excluindo a pandemia. As receitas pararam em torno de 16% do PIB enquanto os gastos avançaram para quase 23%. O Banco de la República, diante da deterioração, manteve a taxa básica em patamares elevados (em torno de 9,25% ao fim de 2025) e voltou a subir em 2026, chegando a 11,25%. A política monetária reagiu ao descontrole fiscal — exatamente como prevê o manual.

Caso 3 · México

Piora fiscal premiada com cortes de juros

Aqui está o contraste mais perturbador para a teoria que o mercado brasileiro repete. Em 2024, ano eleitoral, o México expandiu seu déficit primário para 1,4% do PIB — mais de três vezes o brasileiro no mesmo ano. Foi a maior expansão fiscal mexicana desde 1988. E o que fez o Banxico? Iniciou um agressivo ciclo de cortes, levando a taxa de 11,25% para 7,5% ao ano. Em 2025, o México conseguiu reverter o quadro e voltar a um superávit primário próximo de 0,6% do PIB, mas o ponto crucial é o anterior: o banco central mexicano cortou juros enquanto o déficit primário piorava — exatamente o oposto do que aconteceu no Brasil.

O painel dos três anos

Indicadores fiscais comparados — % do PIB
Indicador202320242025Tendência
Déficit primário
Brasil2,290,400,43↓ Melhorou
México−0,11,40−0,6↔ Reverteu
Colômbia0,302,403,50↑ Piorou muito
Juros nominais
Brasil6,568,057,91↑ Subiu
México3,303,503,70→ Estável
Colômbia4,004,302,90↓ Caiu
Taxa do banco central (% a.a., fim do ano)
Brasil (Selic)11,7512,2515,00↑ +3,25 pp
México (Banxico)11,2510,007,75↓ −3,50 pp
Colômbia (Banrep)13,009,509,25↓ −3,75 pp

Os números falam mais alto do que qualquer narrativa. Em 2024, o México teve déficit primário três vezes maior que o brasileiro — 1,4% contra 0,4% do PIB. Mesmo assim, o Banxico cortou juros, enquanto o Banco Central do Brasil os manteve elevados e em seguida iniciou novo ciclo de alta. A Colômbia, com déficit primário sete vezes maior que o brasileiro em 2025 (3,5% contra 0,43%), paga juros nominais menores em proporção ao PIB do que o Brasil.

A mecânica da bola de neve

O problema central da dinâmica fiscal brasileira não é o volume do gasto primário — está controlado, e em comparação internacional rigorosa o Brasil exibe disciplina superior à média. O problema é a estrutura da dívida e o nível estruturalmente elevado das taxas de juros reais. Quando o Banco Central sobe a Selic para conter a inflação, o crédito encarece e a economia desacelera, mas, simultaneamente, o custo de carregar a dívida pública dispara — sem qualquer defasagem, porque metade dos títulos públicos são Tesouro Selic, com taxa flutuante.

Isso cria um mecanismo de retroalimentação difícil de quebrar. Juros altos geram déficit nominal maior. Déficit maior aumenta o estoque de dívida. Mais dívida eleva o prêmio de risco exigido pelos mercados. Mais risco justifica manter a Selic elevada. E o ciclo recomeça. Em 2025, para cada ponto percentual que o crescimento do PIB ajudou a diluir a dívida, os juros adicionaram quase cinco. O déficit primário contribuiu com apenas 0,5 ponto percentual — uma fração marginal do problema.

O que os vizinhos nos ensinam

A comparação com México e Colômbia desmonta os dois lados das narrativas comuns. Para quem culpa o gasto público brasileiro, o caso colombiano mostra como é uma crise primária de verdade: gasto disparando, receitas estagnadas, déficit triplicando. Não é o nosso caso. Para quem argumenta que os juros altos são técnicos e inevitáveis dado o nível de endividamento, o caso mexicano mostra como é uma política monetária responsiva à realidade fiscal: cortes agressivos mesmo com piora primária, porque os fundamentos de longo prazo permaneciam sólidos.

O Brasil não tem o problema da Colômbia. Não recebeu o tratamento do México. Tem disciplina primária superior à média latino-americana e paga taxa de juros básica que, em meados de 2026, ainda está em 14,5% ao ano após o corte recente — o dobro da mexicana, 50% maior que a colombiana.

O debate que falta

Não é o caso de defender que o controle do gasto primário seja irrelevante. É o caso de reconhecer que o debate público está mal calibrado. Tratar o déficit primário de 0,4% do PIB como o vilão da história enquanto os juros consomem 7,9% do PIB é inverter a proporção real do problema. O FMI projeta que, à medida que o ciclo monetário se normalize, o déficit nominal brasileiro pode recuar de 8,3% do PIB em 2025 para cerca de 4,7% em 2030 — mas isso depende, criticamente, de quanto a Selic vai cair, não de quanto o governo vai cortar.

Cada trilhão de reais de dívida acumulada custa ao Tesouro entre R$ 120 e R$ 150 bilhões por ano apenas em juros, na atual estrutura de taxas. São recursos que não vão para investimento em infraestrutura, ciência, saúde ou educação — e que não voltariam para esses fins mesmo se o governo zerasse o déficit primário amanhã. A pergunta fiscal mais importante que o Brasil precisa fazer não é "quanto cortar do gasto público?". É "por que pagamos juros reais que nenhuma outra economia comparável aceita pagar — e o que precisaria mudar de fato para isso ser diferente?".

A resposta a essa pergunta é desconfortável para muita gente. Talvez seja por isso que ela quase nunca é feita.

Fontes e metodologiaDados fiscais do Brasil: Banco Central do Brasil, Estatísticas Fiscais (relatórios mensais 2023 a janeiro/2026) e Tesouro Nacional, Resultado do Tesouro (dezembro/2025). Dados do México: Secretaría de Hacienda y Crédito Público (SHCP), Informes Trimestrales sobre la Situación Económica, Pre-Criterios de Política Económica 2026 e Banco de México (Banxico). Dados da Colômbia: Ministério da Fazenda colombiano, Marco Fiscal de Mediano Plazo (MFMP), Comité Autónomo de la Regla Fiscal (CARF) e Banco de la República (Banrep). Comparações internacionais: Fundo Monetário Internacional, Country Reports 25/280 (Colômbia) e 25/286 (México), e Fiscal Monitor (abril/2025). Os valores de juros nominais brasileiros refletem a metodologia de competência adotada pelo Banco Central. Pequenas diferenças metodológicas existem entre países e foram preservadas conforme as fontes oficiais. Estimativas e projeções estão indicadas no texto onde aplicável.

Sobre esta análise

Editoria de Finanças · O Tecido

Análise produzida com base em dados oficiais do Banco Central do Brasil, do Tesouro Nacional, da SHCP mexicana, do Ministério da Fazenda da Colômbia e dos relatórios do Fundo Monetário Internacional.