Livros · Leitura e cognição

Um leitor assíduo, que já transferiu toda a sua biblioteca para um aparelho de tinta eletrônica, escreveu ao colunista Michael J. Coren, do Washington Post, com uma dúvida simples: existe alguma desvantagem nisso? A resposta publicada nesta semana evita o tom de cruzada a favor do papel. Para Coren, trata-se de escolher a ferramenta adequada para cada tipo de leitura.[1] A pergunta, porém, merece ser levada adiante, porque a pesquisa acumulada nas últimas duas décadas mostra que o suporte do texto interfere na forma como entendemos, lembramos e até possuímos aquilo que lemos.

No Brasil, o debate tem um peso particular. O país lê pouco, o livro impresso ainda domina o faturamento das editoras e o digital cresce de forma constante, mas lenta. Entender o que cada formato faz bem é uma questão prática para leitores, professores e formuladores de políticas de leitura.

Nem toda tela é igual

A primeira distinção é técnica. Tablets e celulares usam telas que emitem luz diretamente na direção dos olhos. Os e-readers dedicados, como Kindle e Kobo, usam tinta eletrônica: microcápsulas de pigmento que formam letras e refletem a luz ambiente, de modo parecido com o papel. Mesmo quando têm iluminação embutida, ela se espalha pela superfície da tela em vez de apontar para o leitor.[1]

A diferença aparece no sono. Um estudo conduzido por Anne-Marie Chang e colegas do Brigham and Women's Hospital, ligado à Escola de Medicina de Harvard, e publicado na revista PNAS, acompanhou 12 voluntários durante duas semanas. Quando liam por quatro horas em um iPad antes de dormir, eles tinham a liberação de melatonina suprimida, demoravam quase dez minutos a mais para adormecer, passavam menos tempo em sono REM e acordavam mais sonolentos na manhã seguinte, em comparação com as noites de leitura em livro impresso sob luz fraca.[2] Os próprios autores observaram que a ausência dessas alterações com o papel indica que a luz refletida do ambiente não basta para provocá-las, o que favorece os aparelhos que não emitem luz.

O estudo tem limites conhecidos: amostra pequena, quatro horas diárias de exposição, condição pouco realista para a maioria das pessoas, e um contraste forte entre o brilho máximo do tablet e a luz baixa do livro. Ainda assim, o resultado ajudou a consolidar a recomendação de evitar telas emissoras de luz perto da hora de dormir.

O efeito de inferioridade da tela

O ponto mais discutido, no entanto, é a compreensão. Em 2018, os pesquisadores Pablo Delgado, Cristina Vargas, Rakefet Ackerman e Ladislao Salmerón publicaram na revista Educational Research Review uma metanálise com o título provocativo de "Não jogue fora seus livros impressos". O trabalho reuniu 54 estudos realizados entre 2000 e 2017 e concluiu que a leitura no papel produz resultados de compreensão melhores do que a leitura na tela.[3] O fenômeno ganhou nome na literatura científica: efeito de inferioridade da tela.

Os detalhes importam mais do que a manchete. A vantagem do papel foi maior em textos expositivos, como ensaios, reportagens e material didático, e quando os leitores tinham tempo limitado. Em estudos que usaram apenas textos narrativos, a diferença entre suportes praticamente desapareceu.[3] A hipótese mais aceita pelos autores é a do "rasamento": diante da tela, o leitor tende a se engajar de forma mais superficial, avança mais rápido e monitora pior o quanto está de fato entendendo.

Esse último aspecto foi reforçado pela psicóloga Virginia Clinton, em revisão sistemática publicada em 2019 no Journal of Research in Reading: quem lê na tela tende a superestimar a própria compreensão.[4] Uma metanálise posterior do grupo de Salmerón, dedicada a dispositivos portáteis como tablets e celulares, retomou a questão porque a maior parte dos estudos anteriores tinha usado computadores, e encontrou indícios do mesmo efeito também nesses aparelhos.[5]

O formato do livro não é um detalhe de embalagem. Ele interfere no ritmo da leitura, na atenção e na confiança que o leitor deposita no próprio entendimento.

A topografia perdida do texto

Uma das explicações mais intuitivas envolve a memória espacial. No livro impresso, o leitor sabe que determinado argumento estava no alto de uma página da esquerda, perto do fim do volume. A espessura das páginas já lidas e das que faltam funciona como um mapa físico. Coren descreve essa "topografia" como um conjunto de referências táteis e espaciais que a paginação digital, sempre igual, elimina.[1]

A pesquisadora norueguesa Anne Mangen, da Universidade de Stavanger, testou a intuição em 2014: leitores de um conto policial no Kindle se saíram pior do que os leitores do papel ao reconstruir a ordem cronológica dos acontecimentos, embora as diferenças em outros aspectos da compreensão tenham sido pequenas.[6] O próprio colunista do Post relata um hábito de leitor de papel: marcar com um ponto a lápis, na margem, as passagens que pretende revisitar.[1] É um gesto simples que cria um marco permanente, disponível na estante a qualquer momento.

Possuir um livro ou apenas licenciá-lo

Há uma dimensão que nada tem a ver com cognição: a propriedade. Quem compra um livro impresso é dono do objeto. Quem compra um e-book, na maior parte dos casos, adquire uma licença de uso sujeita aos termos da plataforma. O episódio mais lembrado ocorreu em 2009, quando a Amazon apagou remotamente dos aparelhos de seus clientes uma edição não autorizada de 1984, de George Orwell, após uma disputa de direitos. A empresa depois se comprometeu a limitar a prática.[1] A ironia de que o livro removido fosse justamente o romance sobre a reescrita do passado não passou despercebida.

No Brasil, o tema tem desdobramentos jurídicos e de mercado. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal estendeu a imunidade tributária prevista na Constituição para livros também aos e-books e aos leitores digitais dedicados, entendimento depois consolidado na Súmula Vinculante 57.[7] Do lado do mercado, o crescimento do digital vem sendo puxado pelas bibliotecas virtuais, modelo de acesso por assinatura ou licença institucional. Em 2024, esse segmento cresceu 47,6% em termos nominais e passou a responder por 44% do faturamento das editoras com conteúdo digital, segundo a pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) com a Nielsen BookData.[8] Ou seja, uma parte crescente da leitura digital no país acontece em acervos que o leitor acessa, mas não guarda.

O retrato brasileiro

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, aplicada pelo Ipec em 2024, registrou pela primeira vez mais não leitores (53%) do que leitores (47%) na população. Em 2019, os leitores eram 52%.[9] A média de livros lidos por ano também recuou.

No mercado, o papel segue dominante. Em 2025, as editoras venderam ao mercado 185 milhões de exemplares físicos, alta de 6,5% sobre 2024, com faturamento de R$ 4,5 bilhões. O acervo digital disponível chegou a 149 mil títulos, 90% deles em e-book.[10] O faturamento com conteúdo digital cresceu 10% em termos nominais no ano, mas sua participação no total das editoras ficou estável em 9%.[10]

6%2021 6%2022 8%2023 9%2024 9%2025 Fatia do digital no faturamento das editoras
Fonte: Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro (CBL, SNEL e Nielsen BookData). Valor de 2023 calculado a partir da variação informada para 2024.

O padrão é semelhante ao observado nos Estados Unidos. Levantamento do Pew Research Center realizado em outubro de 2025 e divulgado em abril deste ano mostra que o livro impresso continua sendo o único formato usado pela maioria dos americanos, ainda que e-books e audiolivros tenham ganhado espaço na última década, sobretudo entre os adultos com menos de 50 anos.[11] A tendência dos dois lados é de convivência, não de substituição.

Contraponto

O efeito de inferioridade da tela é consistente, mas pequeno, e não autoriza alarmismo. A própria Virginia Clinton, hoje Clinton-Lisell, conduziu experimentos posteriores que não reproduziram o efeito e declarou publicamente ter dúvidas sobre o alcance das conclusões de sua metanálise.[4] Uma revisão de Furenes, Kucirkova e Bus, de 2021, sobre leitura infantil, encontrou desempenho semelhante entre tela e papel quando o tempo de leitura era fixado pelos pesquisadores.[12]

Há também ganhos concretos no digital. O e-reader permite ampliar a fonte, o que importa para leitores com baixa visão e para uma população que envelhece; reúne centenas de títulos em um aparelho leve; costuma oferecer preços menores; e leva livros a cidades onde não há livraria por perto. Para muitos brasileiros, a alternativa ao e-book não é o livro impresso, é não ler.

Uma regra prática para escolher

A síntese de Coren é útil: para leitura mais leve, viagens, ficção e empréstimos de bibliotecas, o e-reader é a escolha conveniente; para saborear um livro, ler antes de dormir ou enfrentar ideias novas e difíceis, o impresso continua sendo a tecnologia superior.[1] A pesquisa permite acrescentar três cuidados.

Primeiro, o tipo de texto pesa mais que o aparelho. Romances lineares sofrem pouco com a tela; ensaios, textos técnicos e material de estudo sofrem mais. Segundo, a pressa amplia a perda. Quem lê no digital deve desacelerar de propósito, sobretudo em textos que precisará lembrar. Terceiro, ferramentas de anotação ajudam a compensar parte do problema, desde que sejam usadas de forma ativa, com destaques e notas, e não apenas como enfeite.

A pergunta do leitor do Post, no fim, tem uma resposta menos dramática do que o debate costuma sugerir. Ninguém precisa abandonar o e-reader. Mas vale saber que ler não é só decodificar palavras, e que o objeto em que elas estão impressas, ou projetadas, participa do processo.

Perguntas frequentes

Ler em e-reader prejudica a compreensão?

Em média, há uma pequena perda de compreensão na leitura em tela, chamada de efeito de inferioridade da tela. A perda é maior em textos expositivos e sob pressão de tempo, e praticamente desaparece em textos narrativos, segundo metanálise de Delgado e colegas (2018).

Kindle e tablet têm o mesmo efeito sobre o sono?

Não. Tablets emitem luz diretamente para os olhos e, segundo estudo publicado na PNAS em 2014, a leitura prolongada nesses aparelhos antes de dormir suprimiu a melatonina e reduziu o sono REM. E-readers de tinta eletrônica refletem luz e se comportam de forma mais próxima do papel.

Quem compra um e-book é dono do livro?

Na maioria das plataformas, o comprador adquire uma licença de uso, não a propriedade do arquivo. Em 2009, a Amazon chegou a apagar remotamente uma edição de "1984" dos aparelhos dos clientes.

Quanto o livro digital representa no mercado brasileiro?

Segundo a pesquisa da CBL e do SNEL com a Nielsen BookData, o conteúdo digital respondeu por 9% do faturamento das editoras brasileiras em 2024 e em 2025.

E-books e e-readers pagam imposto no Brasil?

Não. Em 2017, o STF estendeu aos livros digitais e aos leitores eletrônicos dedicados a imunidade tributária que a Constituição garante aos livros, entendimento consolidado na Súmula Vinculante 57.

Nota de atribuição

Este artigo foi inspirado na coluna "What you miss when you read on a screen", de Michael J. Coren, publicada pelo The Washington Post em 15 de outubro de 2026. As passagens atribuídas ao colunista são paráfrases e estão creditadas ao longo do texto. Leia a coluna original.

Referências

  1. COREN, Michael J. What you miss when you read on a screen. The Washington Post, 15 out. 2026. washingtonpost.com
  2. CHANG, A.-M. et al. Evening use of light-emitting eReaders negatively affects sleep, circadian timing, and next-morning alertness. PNAS, 2015.
  3. DELGADO, P.; VARGAS, C.; ACKERMAN, R.; SALMERÓN, L. Don't throw away your printed books: A meta-analysis on the effects of reading media on reading comprehension. Educational Research Review, 2018.
  4. CLINTON, V. Reading from paper compared to screens: A systematic review and meta-analysis. Journal of Research in Reading, 2019.
  5. SALMERÓN, L. et al. Reading comprehension on handheld devices vs. on paper: A narrative review and meta-analysis of the medium effect and its moderators. Universitat de València, 2023.
  6. MANGEN, A. et al. Estudo sobre leitura de narrativa em Kindle e em papel. Universidade de Stavanger, 2014.
  7. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Súmula Vinculante 57 (imunidade tributária de livros eletrônicos e suportes de leitura).
  8. CBL; SNEL; NIELSEN BOOKDATA. Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, ano-base 2024.
  9. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, 2024.
  10. CBL; SNEL; NIELSEN BOOKDATA. Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro e Conteúdo Digital, ano-base 2025.
  11. PEW RESEARCH CENTER. Americans still opt for print books over digital or audio versions; few are in book clubs. Abr. 2026.
  12. FURENES, M. I.; KUCIRKOVA, N.; BUS, A. G. A comparison of children's reading on paper versus screen: A meta-analysis. Review of Educational Research, 2021.