Política — O Tecido Diplomacia · Soberania · Política Externa
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial · Tempo de leitura: 11 min

Um século depois de Eduardo Prado alertar contra as "pretensões imperialistas" dos Estados Unidos e de Joaquim Nabuco defender a aproximação com Washington como caminho para a modernidade, o Brasil volta a viver, quase palavra por palavra, a mesma disputa. De um lado, um governo que transformou a resistência às tarifas de Donald Trump em bandeira de soberania nacional. De outro, lideranças que veem no alinhamento ideológico com a Casa Branca o caminho mais curto para o crescimento e para o poder. A diferença é que, desta vez, a disputa não acontece em um continente isolado do resto do mundo, mas dentro de uma teia de cadeias produtivas que liga o Brasil, simultaneamente, à China, à União Europeia, ao Sudeste Asiático e a dezenas de outros parceiros. Essa é a peça que faltava ao tabuleiro de 1909.

A "Doutrina Donroe" e a América Latina dividida

Desde 2025, a política externa dos Estados Unidos para a região tem sido descrita por analistas e pela imprensa internacional como uma versão atualizada, e mais agressiva, da Doutrina Monroe do século XIX, apelidada informalmente de "Doutrina Donroe". Reportagem do New York Times descreveu como a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026, escancarou divisões que já vinham se formando havia meses: de um lado, as três maiores economias da região, Brasil, México e Colômbia, todas então sob governos de esquerda, reagiram com diferentes graus de indignação diplomática à operação; de outro, um número crescente de países de direita, como Argentina, El Salvador e Equador, comemorou a ação americana; um terceiro grupo, formado por nações menores como Guatemala e Peru, preferiu evitar qualquer posicionamento capaz de chamar a atenção de Washington.[1]

A reportagem também descreve o quanto essa divisão tem sido usada pelo próprio governo americano para premiar aliados e pressionar adversários. A Argentina de Javier Milei, autodefinido como o parceiro mais fiel de Trump na região, recebeu um socorro financeiro bilionário do Tesouro americano em 2025, além de elogios públicos de autoridades de Washington. Já países que resistem ao alinhamento, como o Brasil, enfrentaram tarifas, sanções a autoridades e, em determinados momentos, ameaças mais diretas.[1][2]

Uma rede de comércio, não mais um eixo único 1909 — pan-americanismo BR EUA EUR 2026 — cadeias globais BR EUA China UE Merc. Ásia Índia
Em 1909, alinhar-se ou não aos EUA era essencialmente uma escolha binária. Em 2026, o Brasil negocia simultaneamente com múltiplos blocos, o que redefine o custo de qualquer alinhamento único.

O Brasil dividido: tarifaço, soberania e a corrida eleitoral

A disputa interna brasileira ficou mais visível a partir de julho de 2025, quando Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, citando como justificativa o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e supostas restrições à liberdade de expressão de empresas americanas de tecnologia. Lula classificou a medida como "chantagem inaceitável" e afirmou que "nenhum estrangeiro dará ordens" ao presidente da República, remontando quase literalmente à retórica antiimperialista de Eduardo Prado e Manoel Bomfim no início do século XX.[3]

"O destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência", escreveu Lula em artigo publicado no Washington Post em julho de 2026, ao criticar as tarifas americanas.

Ao longo de 2025 e 2026, o governo brasileiro negociou paralelamente uma redução parcial das tarifas, um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, fechado após 25 anos de negociações, e uma aproximação comercial com a Ásia. Segundo dados citados pelo próprio Lula, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos recuou 12,8% na comparação entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026, enquanto o comércio com a União Europeia cresceu 6,1% e com a China avançou 15,9% no mesmo período.[4]

Enquanto isso, setores da direita brasileira, capitaneados pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência em outubro de 2026, buscaram apoio explícito de Trump e do presidente argentino Javier Milei, um dos aliados mais próximos de Washington na região. Milei chegou a chamar Lula de "ladrão" durante um evento de campanha em São Paulo, o que levou o Brasil a recolher seu embaixador em Buenos Aires, o episódio mais grave entre os dois países em décadas.[5]

Argentina como espelho do lado oposto

Se o Brasil se posicionou como o polo crítico do alinhamento automático, a Argentina de Milei tornou-se o exemplo mais citado do polo oposto: um país que reorientou explicitamente sua política externa para os Estados Unidos e Israel, rompendo com a tradição de não alinhamento e recebendo, em troca, apoio financeiro direto de Washington em um momento de fragilidade econômica interna.

O paralelo de 1909: a Revista Americana e a divisão da intelectualidade

A disputa atual tem uma correspondência quase exata na virada do século XIX para o XX, quando o pan-americanismo promovido pelos Estados Unidos chegou ao Brasil e dividiu a intelectualidade do período. Segundo o estudo da historiadora Kátia Gerab Baggio sobre a visão dos intelectuais brasileiros das primeiras décadas republicanas em relação à América Latina e ao pan-americanismo, formaram-se dois campos nitidamente opostos.[6][7]

CampoPrincipais nomesArgumento central
CríticoEduardo Prado, Oliveira Lima, José Veríssimo, Manoel BomfimO pan-americanismo estadunidense ameaçava a soberania nacional e escondia pretensões imperialistas dos EUA sobre a região
DefensorJoaquim Nabuco, Artur Orlando, Euclides da Cunha, Sílvio RomeroA aproximação com os EUA era o caminho para a modernidade liberal-industrial e para romper com o legado colonial europeu

O tema era relevante o bastante no debate público para justificar, em 1909, a criação no Rio de Janeiro, então capital da República, da Revista Americana, publicação que circulou até 1919 com o objetivo de discutir a integração latino-americana. Juristas, diplomatas e intelectuais de peso, entre eles o Barão do Rio Branco, colaboraram com o periódico, o que evidencia como a questão era tratada como estratégica pela elite pensante do país. Pesquisas mais recentes, como a do historiador Fernando Luiz Vale Castro, mostram que a revista abrigava diferentes projetos pan-americanistas, nem todos coincidentes com aquele desenhado pelo governo dos Estados Unidos.[8]

Contraponto

Nem todo historiador aceita a equivalência direta entre os dois momentos. Uma leitura possível é que, em 1909, a disputa girava em torno de um projeto institucional formal, o próprio sistema pan-americano promovido a partir da Conferência de Washington de 1889, enquanto o embate atual é conduzido de forma muito mais personalista, por meio de tarifas, sanções pontuais e relações diretas entre chefes de Estado, sem que exista hoje uma arquitetura institucional equivalente sendo disputada.

Outra ressalva é econômica: a tese de que o Brasil pode hoje exercer "não alinhamento" com relativa segurança depende, em grande parte, do tamanho de sua economia e de sua distância geográfica dos Estados Unidos, fatores que não estão à disposição de países menores da região, como os da América Central, que têm margem de manobra muito mais estreita diante de Washington.

O elemento novo: cadeias de suprimento interconectadas

É aqui que a repetição histórica encontra seu limite. Em 1909, escolher entre os Estados Unidos e a Europa era, em boa medida, uma decisão binária: o comércio exterior brasileiro girava em torno de poucos parceiros, e a economia mundial ainda não havia atravessado o processo de integração produtiva que caracteriza o século XXI. Hoje, qualquer decisão de alinhamento ou distanciamento em relação a Washington precisa considerar que a cadeia de suprimentos brasileira está entrelaçada, ao mesmo tempo, com fornecedores e compradores chineses, europeus, indianos e do Sudeste Asiático.

Estudo do Fundo Monetário Internacional citado por especialistas em comércio internacional aponta que o número de barreiras comerciais no mundo, que era inferior a 500 até 2014, ultrapassou a marca de 1.500 a partir de 2021, em um movimento de fragmentação geopolítica que tem impulsionado estratégias como o friend-shoring, a realocação de cadeias produtivas para países politicamente alinhados, e o nearshoring, a regionalização da produção.[9]

Uma pesquisa da Economist Impact em parceria com a DP World, apresentada no Fórum Econômico Mundial de Davos, identificou o Brasil, junto com Vietnã, México, Índia e Emirados Árabes Unidos, como um dos países vistos por executivos de cadeias de suprimento como "hub" não alinhado, capaz de mitigar riscos geopolíticos para empresas que buscam diversificar fornecedores em vez de depender de um único polo.[10]

O Brasil de 1909 escolhia entre dois blocos. O Brasil de 2026 negocia simultaneamente com todos eles, e é essa multiplicidade que dá ao discurso da soberania um lastro econômico que ele não tinha há um século.

Essa multiplicidade de vínculos muda o cálculo político. Um relatório da Coface sobre fragmentação comercial mostra que o comércio entre o bloco ocidental e países não alinhados a ele já encolhe de forma mais acentuada do que o comércio dentro de cada bloco, mas ressalta que a economia global integrada ainda é lucrativa demais para que qualquer ruptura completa seja provável no curto prazo.[11]

Continuidades e rupturas

Apesar da distância de mais de cem anos, três elementos permanecem praticamente inalterados no debate brasileiro sobre os Estados Unidos: o vocabulário da soberania nacional, usado tanto por Eduardo Prado quanto por Lula; a divisão entre uma ala que vê no alinhamento um atalho para a modernização e outra que o vê como ameaça à autonomia; e o papel de intermediários institucionais, ontem a Revista Americana e o Itamaraty de Rio Branco, hoje a diplomacia presidencial direta e os artigos de opinião publicados na imprensa internacional.

O que mudou de forma irreversível foi o pano de fundo econômico. Nenhum dos lados do debate de 1909, nem os críticos do imperialismo americano, nem seus defensores, poderia imaginar um mundo em que a decisão de romper ou manter laços comerciais com um único país teria de ser calculada em meio a dezenas de acordos, tarifas cruzadas e cadeias produtivas que atravessam continentes inteiros antes de chegar ao consumidor final.

Perguntas frequentes

O que foi o debate do pan-americanismo no Brasil do início do século XX?

Foi a divisão da intelectualidade brasileira, na transição da monarquia para a república e nas primeiras décadas republicanas, entre apoiar ou rejeitar o projeto de integração continental promovido pelos Estados Unidos a partir da Conferência Pan-Americana de 1889.

Quem eram os principais críticos e defensores do pan-americanismo brasileiro?

Segundo a historiadora Kátia Gerab Baggio, os críticos incluíam Eduardo Prado, Oliveira Lima, José Veríssimo e Manoel Bomfim, enquanto os defensores eram liderados por Joaquim Nabuco, ao lado de Artur Orlando, Euclides da Cunha e Sílvio Romero.

O que é a chamada "Doutrina Donroe"?

É o termo informal usado por parte da imprensa internacional para descrever a política externa mais assertiva de Donald Trump para a América Latina a partir de 2025, em referência à histórica Doutrina Monroe do século XIX.

Por que a globalização muda o dilema atual em relação a 1909?

Porque o comércio exterior brasileiro deixou de depender de poucos parceiros e passou a integrar cadeias de suprimento globais, o que reduz o custo de resistir a pressões de um único país e amplia as alternativas de mercado disponíveis.

O que significam friend-shoring e nearshoring?

Friend-shoring é a realocação de cadeias de suprimento para países politicamente alinhados; nearshoring é a aproximação geográfica da produção em relação ao mercado consumidor. Ambos são estratégias usadas por empresas para reduzir riscos geopolíticos.