A promessa chega pelo celular e cabe em uma linha: ativo, preço de entrada, prazo. Do outro lado, o assinante não precisa entender de balanços, juros ou volatilidade. Precisa apenas estar atento à notificação e apertar o botão. É assim que funcionam os chamados clubes de sinais de investimento, comunidades pagas que se multiplicaram no Telegram e no Discord e que, segundo uma das pesquisas mais detalhadas já feitas sobre o tema, entregam ao cliente médio exatamente o oposto do que anunciam.
O trabalho, intitulado Speculation by Subscription: Finfluencers and Retail Options Trading, foi conduzido pelos economistas T. Clifton Green (Emory), Russell Jame e Patrick Oliphant (Universidade de Kentucky) e Brian Roseman (Oklahoma State). Como relatou o Cinco Días, os autores examinaram 20.793 mensagens com recomendações diretas emitidas em 15 clubes diferentes, com mensalidades que nos Estados Unidos giram em torno de 100 dólares.1 A conclusão é desconfortável: a maior parte dos membros paga para perder.
O que a pesquisa encontrou
Os clubes analisados concentram suas recomendações em opções de compra de curtíssimo prazo, derivativos que podem multiplicar o capital em horas ou zerá-lo na mesma velocidade. Reportagem do The Daily Upside sobre o mesmo estudo informa que o prazo de vencimento mediano das opções recomendadas era de apenas três dias, e que os assinantes reagiam com mais intensidade justamente aos sinais mais especulativos.4
Segundo a Bloomberg Línea, os pesquisadores localizaram os influenciadores no Whop, um marketplace de produtos digitais, e só incluíram na amostra perfis com pelo menos 500 assinantes ativos ou, quando esse número não era público, com no mínimo 75 avaliações.3 Não se trata, portanto, de grupos marginais, mas de operações com base de clientes estabelecida.
Os autores apontam um incentivo estrutural: para manter a lealdade do assinante, o influenciador tende a priorizar recomendações capazes de gerar ganhos espetaculares em pouco tempo, mesmo que, na média, elas produzam resultados ruins.1 O ganho ocasional de quatro dígitos percentuais vira peça publicitária. As perdas, que são a regra, não aparecem nos anúncios.
O minuto que separa o ganho do prejuízo
O achado mais revelador da pesquisa é temporal. De acordo com os dados relatados pelo Cinco Días, a demanda pelo contrato recomendado atinge o pico entre 30 e 45 segundos depois do envio do sinal. Essa corrida eleva o preço, e quem leva mais de um minuto para executar a ordem tende a entrar no prejuízo.1 A Bloomberg, citada por outros veículos, registrou que a atividade de varejo após os alertas chegou a cerca de 14,5 desvios-padrão acima do normal, com alta média próxima de 3% no primeiro minuto, efeito que se dissipa em poucas horas.3
Na prática, o produto vendido não é análise. É velocidade. E velocidade, num grupo com milhares de pessoas recebendo a mesma mensagem, é por definição um recurso escasso: só os primeiros capturam o movimento que todos juntos provocam.
Quem lucra com o sinal
Se ser o primeiro é o que garante o ganho, ninguém está em posição melhor do que quem escreve a mensagem. Os pesquisadores alertam que, com frequência, os líderes dos clubes compram antes de divulgar a recomendação e vendem em seguida, aproveitando a demanda artificial que eles mesmos criaram.1 À Bloomberg Línea, Roseman resumiu a dinâmica dizendo que o influenciador costuma entrar a um preço mais baixo e o comportamento de manada dos seguidores empurra a cotação para cima.3 Jame classificou o arranjo como um possível conflito de interesses.
Nos Estados Unidos, a prática de recomendar um ativo já tendo posição nele, para vender depois da alta provocada pela própria recomendação, é conhecida no jargão regulatório como scalping. O ponto não é apenas ético: o modelo de negócio transforma o assinante em liquidez de saída para o emissor. A mensalidade é a receita fixa; a corrida dos seguidores, a variável.
Não é um caso isolado na literatura. O estudo Finfluencers, que acompanhou cerca de 29 mil influenciadores na rede StockTwits, concluiu que apenas 28% davam conselhos que geravam retornos anormais positivos, enquanto 56% destruíam valor. Pior: os influenciadores de desempenho negativo tinham mais seguidores do que os competentes.12
O espelho brasileiro
O fenômeno tem escala própria no Brasil. A décima edição do FInfluence, levantamento da Anbima com o Ibpad, contou 904 influenciadores de finanças no segundo semestre de 2025, alta de 12,6% sobre o período anterior, e 468 mil publicações, quase o triplo do volume de 2020.6 A audiência somada chegou a 310,7 milhões de seguidores, mais de 300% acima dos 74 milhões de cinco anos antes. Segundo o portal Let's Money, apenas um dos dez maiores perfis tinha certificação profissional na edição anterior do ranking.7
A base de potenciais clientes também cresce. A B3 contabilizou 5,6 milhões de investidores pessoa física em renda variável no primeiro trimestre de 2026, número que avançou para cerca de 5,7 milhões no segundo trimestre.10 Boa parte dessa expansão é saudável e vem de produtos diversificados, como os ETFs. Mas é nesse mesmo público, recém-chegado e com pouca experiência, que as chamadas salas de sinais e salas VIP de trade, frequentemente anunciadas com percentuais de valorização de três ou quatro dígitos, encontram terreno.
O Brasil já tem evidência robusta sobre o destino de quem tenta enriquecer com operações rápidas. O estudo Day Trading for a Living?, de Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti, examinou quem operou minicontratos de Ibovespa por pelo menos 300 dias entre 2012 e 2017. Como resumiu a CNN Brasil, 97% perderam dinheiro.9 A pesquisa americana sobre clubes de sinais adiciona uma camada a esse diagnóstico: além da dificuldade intrínseca de operar no curtíssimo prazo, o assinante enfrenta uma desvantagem desenhada no próprio produto.
Os dados que o Cinco Días reúne para a Espanha apontam na mesma direção. Pesquisa da Funcas indica que 39% dos jovens de 18 a 35 anos já tiveram algum ativo financeiro, e levantamento da Finra, autorreguladora americana, estima que 61% dos investidores com menos de 35 anos usam recomendações vindas de redes sociais.1
O que diz a regra no Brasil
A fronteira entre educação financeira e recomendação não é zona cinzenta para a CVM. Em ofício divulgado em novembro de 2020, a área técnica da autarquia esclareceu que analista de valores mobiliários é quem, em caráter profissional, produz análises sobre ativos ou emissores específicos capazes de influenciar decisões de terceiros, ainda que a divulgação seja restrita a clientes.5 Entre os exemplos de caráter profissional listados está justamente a cobrança de taxa de assinatura, adesão ou mensalidade. O modelo de negócio do clube de sinais, portanto, é o próprio indício.
O mesmo documento afirma que avisos como "não é recomendação de investimento" ou "são opiniões pessoais" não bastam para descaracterizar a atividade quando há sinais de exercício profissional. Educação financeira sem recomendação específica, por outro lado, não é regulada pela CVM. Hoje a atividade de analista é disciplinada pela Resolução CVM 20, de 2021, que substituiu a Instrução 598 citada no ofício. Exercer a função sem registro pode gerar sanções administrativas e, em tese, enquadrar-se no crime de exercício irregular de cargo, profissão ou atividade previsto no artigo 27-E da Lei 6.385/1976.
No caso das opções binárias, produto que a Espanha proibiu de comercializar ao varejo por sua semelhança com aposta, a CVM entende que se trata de derivativo e, portanto, de valor mobiliário.1 A autarquia já emitiu stop order contra a IQ Option em 2020 e alertas contra a Olymp Trade desde 2019, por captarem residentes no Brasil sem autorização.8 A presença de uma plataforma em lojas de aplicativos ou em anúncios patrocinados não equivale a autorização para operar no país.
O debate regulatório segue aberto. Em consulta sobre a atuação de influenciadores, entidades como Anbima, Apimec e BSM sugeriram, segundo a Capital Aberto, que a CVM se inspire na regra dos assessores de investimento, que exige divulgação de remuneração e de conflitos de interesse.11 No campo da autorregulação, a Anbima exige que instituições financeiras que contratam influenciadores registrem o contrato e respondam pela conduta do criador.7
Contraponto
Seria um erro tratar todo conteúdo financeiro nas redes como ameaça. O próprio FInfluence mostra que, no segundo semestre de 2025, os temas de finanças pessoais concentraram a maior parte do engajamento, à frente de conteúdos sobre produtos.6 Ouvido pelo Cinco Días, José Luis Manrique, do Observatório Inverco, lembrou que divulgadores cumprem papel relevante num país em que só metade da população acerta três perguntas básicas de educação financeira, desde que expliquem categorias de produtos em vez de dizer onde aplicar.1
Há ainda o argumento das liberdades. Juristas que acompanham o tema observam que regras excessivamente amplas podem inibir a discussão legítima sobre empresas e mercados, e defendem critérios objetivos de habitualidade e de remuneração para caracterizar a recomendação profissional. Também é verdade que a pesquisa mede médias: alguns assinantes ganham, e a existência de vencedores ocasionais é parte do que mantém os clubes vivos. O problema não é a existência de comunidades de investidores, mas um arranjo em que o emissor lucra com a reação do público independentemente do acerto da recomendação.
Como reconhecer um clube de sinais problemático
Com base nos achados da pesquisa e nas orientações da CVM, alguns sinais merecem atenção antes de qualquer assinatura:
- Promessa de retorno em percentual. Anúncios que exibem ganhos de centenas ou milhares por cento, sem mencionar perdas nem histórico completo, selecionam apenas os acertos.
- Urgência como produto. Se o valor do serviço depende de executar a ordem em segundos, o assinante está competindo com os outros assinantes, e com o próprio emissor.
- Ausência de registro. Quem cobra para recomendar ativos específicos deve constar no cadastro da CVM. Certificações da Apimec e da Anbima podem ser consultadas publicamente.
- Silêncio sobre conflito de interesse. O emissor deveria declarar se tem posição no ativo recomendado. A falta dessa informação é, em si, um dado.
- Produtos de alto risco como padrão. Opções de vencimento curtíssimo, alavancagem e opções binárias oferecidas por plataformas estrangeiras são o terreno preferido desses grupos.
- Isenção de responsabilidade como escudo. Frases como "não é recomendação", segundo a CVM, não afastam a natureza profissional da atividade.
Íñigo Peña, do Conselho Geral de Economistas da Espanha, sintetizou ao Cinco Días um problema que também vale para o Brasil: as redes permitiram que qualquer pessoa dê recomendações sem registro, experiência ou sequer conhecimento.1 A conta, nesse modelo, é paga em duas parcelas: a mensalidade e o prejuízo.
Perguntas frequentes
O que é um clube de sinais de investimento?
É uma comunidade paga, geralmente no Telegram, Discord ou WhatsApp, em que um administrador envia recomendações específicas de compra e venda, com ativo, preço de entrada e momento de saída. O assinante paga mensalidade para receber os alertas em tempo real.
Quem segue sinais pagos de opções ganha dinheiro?
Na média, não. O estudo de Green, Jame, Oliphant e Roseman analisou 20.793 sinais em 15 clubes e concluiu que o desempenho médio dos assinantes é ruim, especialmente para quem executa a ordem depois do primeiro minuto.
Influenciador que cobra mensalidade precisa de registro na CVM?
Segundo a área técnica da CVM, a cobrança de assinatura é um dos indícios de caráter profissional da análise de valores mobiliários, atividade que exige credenciamento. Avisos de que "não é recomendação" não afastam a exigência.
Opções binárias são permitidas no Brasil?
A CVM considera opções binárias derivativos e, portanto, valores mobiliários. A autarquia já emitiu stop orders contra plataformas estrangeiras, como IQ Option e Olymp Trade, por captarem clientes no país sem autorização.
Como verificar se um influenciador é registrado?
Consulte o cadastro de participantes no site da CVM e os cadastros públicos de profissionais certificados da Apimec e da Anbima. Promessa de retorno, urgência e silêncio sobre perdas são sinais de alerta.