Um jovem neozelandês de 25 anos, diagnosticado com linfoma não Hodgkin, esgotou as alternativas de tratamento em seu país e olhou para Estados Unidos, Índia e Austrália antes de decidir viajar para Xangai. O motivo não foi apenas o preço, mas a combinação entre custo, velocidade de produção do tratamento e um ecossistema hospitalar internacional cada vez mais consolidado. Ele recebeu terapia CAR-T em um hospital privado chinês e, em agosto, soube que o câncer havia entrado em remissão completa. Casos como esse, segundo reportagem publicada pelo The Wall Street Journal1, deixaram de ser exceção e passaram a compor uma rota de turismo médico oncológico que cresce entre pacientes de países ricos.
"A China basicamente fez com a terapia CAR-T o que fez com outras indústrias: industrializou o processo", afirmou ao WSJ Sairah Ahmed, diretora do programa CAR-T do MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos.
O que é a terapia CAR-T
A sigla CAR-T vem de "chimeric antigen receptor T-cell therapy" (terapia com células T de receptor de antígeno quimérico). O procedimento consiste em coletar células de defesa do próprio paciente, reprogramá-las em laboratório para reconhecer proteínas específicas presentes em células cancerígenas e reinfundi-las no corpo, onde passam a atacar o tumor de forma direcionada. A técnica foi desenvolvida originalmente nos Estados Unidos e ganhou o primeiro registro da FDA em 2017, após o caso emblemático de Emily Whitehead, então com 6 anos, que se tornou a primeira criança curada de leucemia pelo método.
Quase uma década depois, a China concentra o maior número de terapias CAR-T aprovadas no mundo, nove produtos segundo o WSJ, e passou a atrair pacientes oncológicos de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A vantagem chinesa combina três fatores: preço mais baixo, capacidade industrial para produzir o tratamento personalizado em poucos dias e hospitais internacionais estruturados para receber estrangeiros, com equipes multilíngues e suporte para vistos médicos.
Diferença de custo chega a ser de cinco vezes
De acordo com a reportagem do WSJ, o tratamento que custaria entre 550 mil e 850 mil dólares nos Estados Unidos pode sair entre 150 mil e 230 mil dólares em hospitais privados chineses. Levantamentos independentes do setor de turismo médico apontam economia semelhante em outras modalidades oncológicas: segundo a consultoria Sinoaid, tratamentos de radioterapia, quimioterapia e imunoterapia na China variam de 10 mil a 50 mil dólares2, enquanto guias voltados a pacientes internacionais estimam que o país oferece custos entre 50% e 85% mais baixos que os praticados nos Estados Unidos para o conjunto de terapias oncológicas avançadas3.
Contraponto
Nem todo o cenário é isento de riscos. A própria reportagem do WSJ menciona controvérsias sobre a transparência de estudos clínicos conduzidos em hospitais públicos chineses, incluindo o registro de três mortes de pacientes em fase experimental, entre eles uma criança de 6 anos. Reguladores chineses permitem que hospitais iniciem ensaios clínicos com menor supervisão central do que a exigida nos Estados Unidos, o que amplia o ritmo de inovação, mas também os riscos para quem participa de protocolos experimentais. Hospitais internacionais privados voltados a estrangeiros, como os citados na reportagem, tendem a evitar justamente esses ensaios e a oferecer apenas terapias já aprovadas para comercialização, o que reduz, mas não elimina, a assimetria de informação enfrentada por um paciente que decide viajar para se tratar em outro sistema regulatório.
Um avanço que também é regulatório: tumores sólidos
Em junho de 2026, a agência reguladora chinesa (NMPA) aprovou o satricabtagena autoleucel, conhecido como satri-cel, desenvolvido pela CARsgen Therapeutics, de Xangai. Trata-se da primeira terapia CAR-T do mundo aprovada para um tumor sólido, especificamente para adenocarcinoma gástrico e da junção gastroesofágica em pacientes que já falharam em pelo menos duas linhas de tratamento anteriores4. Até então, o método havia mostrado eficácia essencialmente contra cânceres do sangue, como leucemias, linfomas e mielomas, mas enfrentava barreiras biológicas para atuar em tumores sólidos, responsáveis pela maioria das mortes por câncer no mundo.
O estudo de fase 2 que sustentou a aprovação, publicado na revista The Lancet, mostrou sobrevida livre de progressão de 3,25 meses no grupo tratado com satri-cel, contra 1,77 mês no grupo que recebeu a escolha padrão do médico assistente5. Para o cardiologista americano Carl June, um dos pesquisadores que lideraram o desenvolvimento original da terapia CAR-T na Universidade da Pensilvânia, a aprovação chinesa representa a primeira aprovação de grande mercado para qualquer CAR-T destinada a tumor sólido, um marco que ele considera improvável de se repetir tão cedo nos Estados Unidos por conta de entraves regulatórios locais6.
E o Brasil, tem acesso à terapia?
O país também avança, embora em ritmo mais lento. Desde 2019, o Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à Faculdade de Medicina da USP, em parceria com o Instituto Butantan, testa a produção nacional de células CAR-T em pacientes que esgotaram outras opções terapêuticas. O estudo clínico Carthedrall, financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Programa para o Desenvolvimento do Complexo Industrial da Saúde, pretende tratar 81 pacientes com leucemia linfoide aguda ou linfoma não Hodgkin refratários em cinco centros de referência do país, e já obteve validação da Anvisa para avançar à etapa seguinte7. Segundo o médico Diego Clé, coordenador do núcleo de terapia avançada do hemocentro, o pedido de registro definitivo do produto brasileiro junto à Anvisa pode ocorrer ainda no segundo semestre de 20268.
Enquanto a produção nacional não chega ao mercado, pacientes brasileiros com indicação clínica para CAR-T e sem resposta às terapias já aprovadas no país têm recorrido à via judicial para custear o tratamento, seja no Brasil, seja no exterior, em ações que se apoiam no direito constitucional à saúde9. É um retrato que se conecta ao fenômeno descrito pelo WSJ: a distância entre onde a inovação está disponível e onde o paciente vive segue sendo, para muita gente, uma questão de logística, custo e, cada vez mais, de fronteira.
Perguntas frequentes
A terapia CAR-T é aprovada no Brasil?
Sim, para indicações restritas em cânceres do sangue, embora o acesso ainda dependa majoritariamente de estudos clínicos ou de ações judiciais, já que a produção nacional segue em fase de validação regulatória junto à Anvisa.
Por que a terapia CAR-T é mais barata na China?
Hospitais chineses conseguem produzir as células modificadas em prazos curtos por causa de laboratórios próximos aos centros de tratamento, além de operar em uma estrutura de custos hospitalares mais baixa que a americana, segundo especialistas ouvidos pelo WSJ.
A CAR-T já funciona para tumores sólidos, como o de estômago?
A partir de junho de 2026, sim, na China, com a aprovação do satri-cel para casos avançados de câncer gástrico que não respondem mais a outras linhas de tratamento. É a primeira aprovação do tipo no mundo.
Existem riscos em buscar tratamento oncológico experimental no exterior?
Sim. Estudos clínicos com menor supervisão regulatória podem representar riscos adicionais, por isso especialistas recomendam priorizar hospitais que ofereçam apenas terapias já aprovadas para comercialização, e não protocolos experimentais.
Referências
- Jonathan Cheng. "Patients Are Flying to China for the Latest Cancer Treatment". The Wall Street Journal, 6 set. 2026. Disponível em: wsj.com.
- Sinoaid. "Medical Tourism in China: Cost Comparison".
- Sylk Health. "Cancer Treatment Cost China vs US" (2026).
- Inside Precision Medicine. "Solid Tumor CAR-T Therapy Approved in China, a World First" (2026).
- The Lancet. Estudo confirmatório de fase 2 do satricabtagena autoleucel (CT041-ST-01), citado em cobertura da OncoDaily (2026).
- Fierce Biotech. "China approved the world's first solid tumor CAR-T therapy. When will the US follow?" (2026).
- Jornal da USP. "Tratamento para câncer: Anvisa ratifica segurança da terapia CAR-T e autoriza sequência de estudo" (2025).
- Abrale/G1. "Car-T pode ter pedido de registro na Anvisa em 2026, diz pesquisador" (2025).
- Migalhas. "Guia jurídico definitivo sobre a terapia CAR-T no Brasil" (2026).
Ewerton Lopes — Curador Editorial