Caderno Ciência 3 de outubro de 2026 Leitura: 9 min

Para quem nunca esteve perto de um elefante, o som que define a espécie é o barrido, o toque de trombeta que o cinema consagrou. Mas boa parte da conversa entre elefantes acontece em outro registro: roncos graves, com parte da energia abaixo do limiar da audição humana. O ecólogo comportamental Mickey Pardo, da organização ElephantVoices, comparou esse som à Scientific American a um motor de caminhão em marcha lenta.1 Um estudo publicado em 1º de outubro de 2026 na revista Scientific Reports mostra que esses roncos, mesmo quando vários animais vocalizam ao mesmo tempo, carregam informação suficiente para que um algoritmo estime o que o grupo está fazendo.2

A reportagem de Jackie Flynn Mogensen na Scientific American abre com uma cena que Pardo presenciou em fevereiro de 2020, na Reserva Nacional de Samburu, no Quênia: uma fêmea recém-parida chamando o filhote com roncos repetidos, enquanto outra elefanta, provavelmente sua irmã, respondia de longe antes de a família se reunir em uma nova série de vocalizações.1 A cena resume o problema científico. Os elefantes vivem em sociedades em que grupos se separam e se reencontram o tempo todo, e o ronco é o fio que mantém essa rede costurada. Entender o que ele comunica é entender como a família funciona.

O que o estudo descobriu

A pesquisa, assinada por Louis Mahon e colegas, foi conduzida pela organização sem fins lucrativos Earth Species Project, em parceria com a ElephantVoices e o Amboseli Trust for Elephants.3 A equipe analisou 903 roncos de fêmeas adultas gravados entre 1986 e 2022 no Parque Nacional de Amboseli, no Quênia, uma das populações de elefantes mais estudadas do planeta. Pesquisadores acompanham essas famílias desde os anos 1970 e reconhecem cada indivíduo pelo formato e pelos entalhes das orelhas, o que permite saber quem vocalizou, quem estava por perto e o que o grupo fazia em cada gravação.3

O núcleo do conjunto de dados vem de uma única família, a EB, liderada pela matriarca Echo, protagonista de documentários da BBC. A família tinha 27 integrantes, todos batizados pelos pesquisadores com nomes iniciados pela letra E. Gravações de outras 39 famílias serviram de comparação.3

O dado que motiva o trabalho é simples: cerca de 60% dos roncos acontecem em coros, com dois ou mais elefantes vocalizando de forma sobreposta.3 Esses coros são comuns justamente nos momentos de maior intensidade social, como as cerimônias de saudação, mas costumam ser descartados porque as vozes misturadas criam o que a acústica chama de problema do coquetel: separar uma fala do burburinho ao redor.4 Em vez de tentar isolar cada voz, a equipe treinou modelos de aprendizado de máquina para ler o coro como um todo.

O resultado: a partir do áudio bruto, os modelos previram o contexto comportamental com acerto superior ao acaso. A precisão está longe de ser perfeita, como a própria Scientific American ressalta, mas o desempenho sugere que vocalizações produzidas em situações semelhantes compartilham propriedades acústicas.1 Para os autores, isso indica que os roncos sobrepostos não são um amontoado aleatório de chamados individuais, e sim sinais de grupo organizados.3

Seis tipos de ronco, seis situações sociais

O estudo se concentrou em seis contextos descritos no etograma da ElephantVoices, o catálogo de comportamentos mantido pela organização. Os nomes, convém lembrar, descrevem a situação em que o som é produzido, e não uma palavra que os elefantes estariam dizendo.

Quando as vozes se afinam

O achado mais instigante não estava no objetivo original. Ao acompanhar como os coros se desenrolavam, os pesquisadores notaram que, em algumas interações, os roncos de diferentes elefantes ficavam progressivamente mais parecidos. O fenômeno tem nome, convergência vocal, e já foi descrito em papagaios e golfinhos. Humanos fazem algo semelhante quando passam a imitar, sem perceber, o ritmo e as expressões de quem está do outro lado da conversa.1

Nos elefantes de Amboseli, a convergência apareceu em três dos seis contextos: saudações, roncos de contato e roncos cadenciados.3 Os dois últimos estão ligados à logística do grupo, como decidir para onde ir ou quando partir. Daí a hipótese levantada pelos autores: a convergência poderia ajudar a família a construir, ou a selar, um plano de ação. Sara Keen, coautora do estudo e cientista sênior da Earth Species Project, disse à Scientific American que o padrão surgiu apenas em situações de coordenação do grupo e que pode indicar algum tipo de acordo, mas que essa leitura ainda precisa ser testada.1

O coro deixou de ser ruído a ser filtrado e passou a ser o próprio objeto de estudo. Essa é, talvez, a mudança mais duradoura do trabalho.

O detalhe que sustenta a hipótese é comportamental: segundo a Earth Species Project, saudações costumam desembocar em uma rodada de roncos cadenciados, como se os elefantes recém-reunidos passassem a combinar a próxima atividade.3 A sequência observada em campo dá plausibilidade à ideia. Prova, ainda não há.

Por que ouvir o coro inteiro muda o método

Durante décadas, estudar comunicação animal significou isolar chamados individuais para medi-los e compará-los. O problema é que muitos animais vocalizam ao mesmo tempo, e boa parte do repertório natural ficava fora das análises. Abordagens que extraem informação de gravações com vários emissores já tinham sido testadas com cachalotes e orcas; segundo a Earth Species Project, é a primeira vez que isso é feito com coros de elefantes.3

Keen afirmou à Scientific American que métodos semelhantes podem ser aplicados a outras espécies que vocalizam em coro, como orcas e corvos.1 O zoólogo Arik Kershenbaum, da Universidade de Cambridge, que não participou da pesquisa, destacou à revista um ponto que atravessa todo o campo: os animais se comunicam para influenciar o comportamento uns dos outros, e por isso os sons não podem ser estudados isolados das observações de campo.1 Em outras palavras, o algoritmo só encontra padrões porque décadas de observação humana dizem a ele o que estava acontecendo em cada gravação.

Antes dos coros, os nomes

O estudo de 2026 é o capítulo mais recente de uma linha de pesquisa que já havia rendido manchetes. Em junho de 2024, Pardo e colegas publicaram na Nature Ecology & Evolution a análise de 469 roncos gravados em Amboseli e nas reservas de Samburu e Buffalo Springs entre 1986 e 2022. O modelo de aprendizado de máquina identificou corretamente o elefante destinatário do chamado em 27,5% dos casos, desempenho bem superior ao obtido com dados aleatórios, o que sugeriu que os elefantes se dirigem uns aos outros com chamados específicos para cada indivíduo, algo próximo de um nome.5

No mesmo ano, outro trabalho do grupo, publicado na Royal Society Open Science, encontrou diferenças nos roncos de fêmeas entre populações e convergência vocal entre membros do mesmo núcleo familiar, mas não em níveis mais amplos de parentesco.6 O conjunto de evidências aponta para uma comunicação mais flexível e mais aprendida do que se supunha, ainda que distante de uma linguagem no sentido humano.

E no Brasil?

O país não tem elefantes selvagens, mas tem uma ligação direta com os autores do estudo. O Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães (MT), ocupa cerca de 1.100 hectares e é considerado o primeiro santuário exclusivo para elefantes da América Latina.7 Desde a fundação, o projeto é conduzido pela Global Sanctuary for Elephants e pela própria ElephantVoices, coautora da pesquisa de Amboseli, segundo a Agência Brasil.8 Em julho de 2026, o santuário abrigava seis elefantas asiáticas resgatadas de circos e zoológicos.7

A ressalva é necessária: as moradoras do santuário são de outra espécie, e os resultados com elefantes africanos não podem ser transpostos automaticamente. Ainda assim, a lógica do estudo, que combina escuta contínua com observação de comportamento, abre a possibilidade de usar a acústica para acompanhar o bem-estar e a formação de vínculos entre animais que chegam traumatizados de décadas de cativeiro.

A outra ponte é metodológica e já está em funcionamento na Amazônia. O Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, desenvolve com a Universidade Politécnica da Catalunha o Projeto Providence, que usa monitoramento acústico passivo e modelos de aprendizado profundo para estudar a fauna em áreas de difícil acesso. Com hidrofones submersos na Reserva Mamirauá, a equipe usou redes neurais para separar cliques de ecolocalização de botos, ruído de motores e chuva, mapeando o uso do habitat ao longo das cheias, como relatou a Revista Pesquisa FAPESP.9 A mesma abordagem revelou áreas críticas de reprodução do peixe-boi amazônico, espécie que raramente se deixa ver.10

É exatamente o cenário que a Earth Species Project projeta para os elefantes: em paisagens onde não é possível observar os animais diretamente, redes de sensores acústicos poderiam inferir comportamentos, identificar corredores de deslocamento e orientar políticas de convivência entre pessoas e fauna.3 O Brasil, com a maior biodiversidade do planeta e territórios onde a presença humana é rarefeita, tem tanto a ganhar com esse tipo de ferramenta quanto o Quênia.

Contraponto

O que o estudo ainda não mostra

O primeiro limite é de desempenho. Prever o contexto melhor que o acaso é um resultado estatisticamente relevante, mas não significa que o modelo acerte na maior parte das vezes. A própria reportagem da Scientific American registra que o algoritmo não foi plenamente preciso.1

O segundo é experimental. Os autores reconhecem que não realizaram experimentos de reprodução sonora, os chamados playbacks, para verificar como os elefantes reagem a coros convergentes.4 Sem isso, a ligação entre convergência e tomada de decisão permanece uma hipótese, e a Earth Species Project afirma explicitamente que o estudo não demonstra essa relação.3

O terceiro é amostral: o núcleo dos dados vem de uma única família, em uma única população intensamente estudada. Generalizar para elefantes de outras regiões exige cautela.

Por fim, há o risco de linguagem. Rótulos como saudação ou vamos embora são convenções dos pesquisadores para descrever situações observadas. Apresentá-los como palavras traduzidas alimenta uma narrativa de decodificação que a ciência ainda não sustenta.

Por que isso importa para a conservação

Desde 2021, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica o elefante-da-savana africano como ameaçado de extinção e o elefante-da-floresta como criticamente ameaçado, em razão da caça para o comércio de marfim e da perda de habitat.11 Nesse quadro, entender como as famílias se comunicam, decidem e se deslocam tem aplicação direta. Saber quando um grupo está se preparando para cruzar uma área agrícola, por exemplo, pode ajudar a reduzir conflitos com comunidades rurais, uma das principais causas de morte de elefantes na África.

O avanço descrito em outubro de 2026 não entrega um dicionário. Entrega algo mais modesto e talvez mais útil: a demonstração de que é possível extrair informação comportamental do som tal como ele acontece na natureza, sobreposto, confuso e coletivo. É um passo de método, e é desses passos que a ciência costuma depender.

Perguntas frequentes

O que é o ronco dos elefantes?

É a vocalização mais comum dos elefantes: um som grave, produzido pela vibração das pregas vocais, com parte da energia em frequências abaixo do limite da audição humana. Diferente do barrido, o ronco é usado em saudações, contato à distância, cuidado com filhotes e coordenação de deslocamentos.

O que o estudo publicado na Scientific Reports em 2026 descobriu?

A pesquisa analisou 903 roncos de fêmeas adultas gravados em Amboseli, no Quênia, entre 1986 e 2022. Modelos de aprendizado de máquina previram o contexto comportamental a partir de coros inteiros com acerto acima do acaso, e os pesquisadores identificaram convergência vocal em três dos seis contextos analisados.

O que é convergência vocal?

É quando os roncos de diferentes elefantes ficam acusticamente mais parecidos ao longo de uma troca. O padrão apareceu em saudações, roncos de contato e roncos cadenciados. A hipótese de que ajude o grupo a combinar um plano de ação ainda precisa ser testada.

A inteligência artificial já traduz a linguagem dos elefantes?

Não. Os modelos identificam padrões acústicos associados a situações observadas em campo, mas não atribuem significado a cada som. Os rótulos usados pelos pesquisadores descrevem contextos, não mensagens.

Qual a relação dessa pesquisa com o Brasil?

A ElephantVoices, coautora do estudo, também participa da condução do Santuário de Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães (MT). Na Amazônia, o Instituto Mamirauá aplica monitoramento acústico passivo com inteligência artificial ao estudo de botos e peixes-bois, com lógica semelhante à proposta para elefantes.

Nota editorial. Este texto parte da reportagem Scientists are decoding elephant rumble calls, including 'greetings' and 'coos', de Jackie Flynn Mogensen, publicada na Scientific American, a quem creditamos as informações e declarações atribuídas à revista. Não se trata de tradução nem de reprodução do original. O conteúdo foi ampliado com o artigo científico, a divulgação dos autores e fontes brasileiras independentes.