Os que não querem morrer: o sonho da imortalidade e o velho desejo de mando eterno
Quando bilionários da tecnologia e chefes de Estado autoritários passam a tratar a morte como um problema de engenharia a ser resolvido, uma pergunta antiga volta com força renovada: o que significa, para a vida em comum, que só os mais poderosos possam sonhar em escapar do fim?
Há uma cena, hoje célebre, captada por um microfone que deveria estar desligado: dois chefes de Estado caminham lado a lado por um pátio cerimonial, conversando sobre a possibilidade de transplantar órgãos para rejuvenescer e, quem sabe, escapar da morte. A cena — descrita em reportagem da revista do New York Times sobre o desejo de vida eterna entre líderes autoritários e magnatas da tecnologia — tem a força de uma fábula política, quase um fragmento de epopeia antiga, como as tábuas quebradas do Gilgamesh que narram a primeira busca humana registrada pela imortalidade. Mas o que antes era mito hoje é linha de investimento, projeto de laboratório, promessa de startup.
Não é segredo que o desejo de viver para sempre acompanha a humanidade desde que ela aprendeu a temer — e a narrar — a própria morte. O que muda, de tempos em tempos, é quem se permite sonhar com isso em voz alta, e com que instrumentos. Na Antiguidade, eram reis que buscavam elixires; na China imperial, alquimistas que destilavam mercúrio e chumbo acreditando sintetizar o ouro da eternidade — um empenho que, segundo a tradição, custou a vida de ao menos seis imperadores da dinastia Tang. Hoje, o elixir tem outro nome: engenharia genética, transfusão de plasma jovem, inteligência artificial treinada para "resolver" o envelhecimento como quem resolve um problema de código.
A morte, para os alquimistas de outrora e para os bilionários de hoje, deixou de ser destino para se tornar, supostamente, um bug corrigível.
Do mito ao capital de risco
O fio que liga o elixir dourado dos imperadores chineses ao investimento em biotecnologia do Vale do Silício não é apenas simbólico — é filosófico. Em ambos os casos, a promessa de vida eterna funciona como uma espécie de teologia secular: a crença de que existe, em algum lugar, uma técnica capaz de nos libertar da condição mais elementar da existência humana, que é a de sermos finitos. O empreendedor e investidor Peter Thiel, um dos principais financiadores da chamada indústria da longevidade no Vale do Silício, já declarou publicamente rejeitar a ideia de que a morte seja "natural". Outros nomes do setor de tecnologia têm investido dezenas ou centenas de milhões de dólares pessoais em empresas voltadas a reverter o envelhecimento — um movimento que pesquisadores brasileiros vêm descrevendo, com propriedade, como uma verdadeira fé tecnófila: não mais a esperança religiosa de viver eternamente por graça divina, mas a aposta de que a solução virá pela biotecnologia.
Um artigo recente publicado na revista acadêmica Interações, da PUC Minas, argumenta que o transumanismo contemporâneo repete — com vocabulário técnico-científico — a lógica das antigas religiões de salvação: onde antes se prometia a ressurreição da alma, promete-se agora o "mind uploading", o carregamento da mente para um substrato digital que sobreviveria à morte do corpo biológico. A diferença essencial, segundo os autores, é que a religião das soluções tecnocientíficas não pede fé no post mortem: pede investimento no presente, e paciência até a próxima rodada de financiamento.
A crítica: Fukuyama e "a ideia mais perigosa do mundo"
Nem todo filósofo vê nisso um simples entusiasmo tecnológico inofensivo. Em 2004, o cientista político Francis Fukuyama publicou um ensaio hoje clássico na revista Foreign Policy no qual chamava o transumanismo de "a ideia mais perigosa do mundo". Seu argumento não era religioso, mas político: a igualdade de direitos que sustenta as democracias liberais modernas repousa sobre a crença de que todos os seres humanos compartilham uma essência comum, para além das diferenças de riqueza, inteligência ou beleza. Se a biotecnologia permitir que apenas alguns — os mais ricos, os mais bem posicionados — se tornem literalmente mais longevos, mais saudáveis, mais "aprimorados" que o restante da espécie, o próprio fundamento moral da igualdade política corre risco de erosão.
É uma crítica que ecoa, sem citá-lo diretamente, um velho argumento da filosofia da morte: se a finitude é o que nos iguala — reis e súditos, imperadores e camponeses, magnatas e trabalhadores —, um mundo em que essa igualdade deixa de valer para os mais poderosos é um mundo em que a última fronteira democrática desaparece. Não é à toa que a reportagem do New York Times que inspira este ensaio observa que nem mesmo os piores tiranos da história — Henrique VIII, Cesar Bórgia — escaparam da morte prematura: era esse limite, paradoxalmente, que garantia alguma esperança de renovação política às gerações seguintes.
Contraponto — duas leituras filosóficas do mesmo desejo
A defesa transumanista
Para pensadores como Nick Bostrom, buscar prolongar a vida saudável não é hybris, mas a continuação natural de um projeto humano milenar: usar a técnica para nos libertar de restrições biológicas, como já fizemos com vacinas, saneamento e medicina moderna. Recusar essa possibilidade em nome de uma suposta "ordem natural" seria, nessa visão, uma forma de conservadorismo biológico injustificado — a mesma lógica, dizem seus defensores, que outrora se opôs a outras formas de emancipação humana.
A objeção bioconservadora
Fukuyama e outros críticos replicam que a analogia é falsa: direitos civis e igualdade jurídica nunca dependeram de uma igualdade biológica de fato, mas de um compromisso político. O risco real, argumentam, não é a tecnologia em si, mas a possibilidade concreta de que ela se torne acessível apenas a quem já concentra poder — aprofundando, em vez de superando, as hierarquias existentes entre nações, classes e indivíduos.
O Brasil finito: expectativa de vida e a desigualdade que a acompanha
Enquanto Bryan Johnson mede a qualidade de suas ereções noturnas em nome da juventude eterna, o brasileiro médio segue um caminho bem mais modesto — e bem mais desigual. Segundo as Tábuas de Mortalidade divulgadas pelo IBGE, a expectativa de vida ao nascer no país chegou a 76,6 anos em 2024, o maior patamar já registrado desde o início da série histórica, em 1940, quando um brasileiro recém-nascido podia esperar viver apenas 45,5 anos. O ganho é real e expressivo — mas distribuído de forma desigual: mulheres vivem, em média, 79,9 anos contra 73,3 dos homens, e um jovem de 20 anos tem 4,1 vezes mais chances de não completar 25 anos do que uma mulher da mesma idade, reflexo direto da violência e dos acidentes que atingem desproporcionalmente homens jovens no país.
Essa desigualdade doméstica é um lembrete instrutivo diante do debate sobre longevidade radical promovido pelos super-ricos: mesmo dentro das fronteiras de um único país, a "expectativa de vida" nunca foi um dado neutro — é também um retrato de quem tem acesso a saneamento, saúde pública, segurança e renda. Se a extensão radical da vida um dia sair do laboratório, é razoável supor que ela seguirá o mesmo padrão: chegará primeiro, e talvez exclusivamente, a quem já vive mais e melhor.
Por que ainda cremos em algo depois
Curiosamente, a busca tecnocientífica pela imortalidade convive, sem contradição aparente, com uma persistência notável das crenças religiosas tradicionais sobre a vida após a morte. O Global Flourishing Study, que ouviu mais de 200 mil pessoas em 22 países — incluindo 13 mil no Brasil —, e uma pesquisa paralela do Pew Research Center mostram que a maior parte da população mundial acredita, ou pelo menos não descarta, algum tipo de sobrevivência após a morte. No Brasil, como no Reino Unido e no México, essa crença aumenta — não diminui — com o nível de escolaridade, contrariando a expectativa de que educação formal e fé espiritual seriam inversamente proporcionais.
Há algo revelador nesse contraste. Enquanto bilionários financiam laboratórios para adiar cientificamente o fim, a maioria da humanidade segue confiando — por fé, tradição ou simples esperança — em formas mais antigas de transcendência: a alma, a reencarnação, o retorno espiritual. São duas respostas muito diferentes para a mesma angústia fundamental que o filósofo alemão Martin Heidegger chamou de "ser-para-a-morte": a ideia de que a consciência da própria finitude não é um detalhe da existência humana, mas a estrutura mesma a partir da qual atribuímos sentido à vida. Para Heidegger, viver autenticamente não significa negar a morte nem se obcecar com ela, mas assumi-la como horizonte que dá peso e urgência a cada escolha.
"Quando nós existimos, a morte não está presente; e quando a morte está presente, nós não existimos" — Epicuro, séculos antes de qualquer startup de longevidade, já havia formulado a questão que hoje se tenta resolver em laboratório.
É esse o paradoxo que a reportagem do New York Times ilustra tão bem ao narrar o encontro entre Xi Jinping e Vladimir Putin: dois homens que já romperam ou contornaram os limites institucionais ao poder perpétuo — Xi eliminando, em 2018, o limite de mandatos presidenciais na China; Putin sustentando, por meio de sucessivas reformas constitucionais, décadas ininterruptas no comando da Rússia — agora conversam sobre romper também o limite biológico. O poder político perpétuo e a vida biológica perpétua aparecem, na cena, como dois rostos do mesmo apetite: a recusa de que qualquer coisa, inclusive o tempo, possa lhes ser imposta de fora.
O que resta da morte como igualdade
Há uma tradição filosófica e política — que vai da tragédia grega aos tratados iluministas sobre a mortalidade dos reis — que via na morte não apenas uma tragédia individual, mas uma espécie de garantia coletiva: por pior que fosse um tirano, ele também morreria, e com ele, ao menos a possibilidade de mudança. Essa é, talvez, a camada mais inquietante do debate contemporâneo sobre longevidade radical: não é que os bilionários e autocratas queiram viver mais — é que, ao mirar a imortalidade, eles mirando também a permanência indefinida do próprio poder. Uma centralização de poder político e econômico que já preocupa observadores da democracia liberal ganha, nessa chave, mais um capítulo: o de um poder que não apenas concentra riqueza e influência, mas que aspira a não ter prazo de validade.
Resta, ainda assim, o que a filosofia sempre soube e a ciência, por enquanto, não desmentiu: a morte continua sendo a única instituição verdadeiramente democrática que resta ao mundo. Bilionários, presidentes vitalícios e o cidadão comum brasileiro compartilham, por ora, o mesmo destino biológico — por mais que uns disponham de laboratórios financiados com centenas de milhões de dólares e outros apenas da esperança, antiga e persistente, de que algo continue depois. Enquanto a ciência não prova o contrário, essa continua sendo, talvez, a última — e mais radical — forma de igualdade que nos resta.
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