2 de setembro de 2026
O Tecido · Caderno FilosofiaEnsaio
Filosofia · Poder · Mortalidade

Os que não querem morrer: o sonho da imortalidade e o velho desejo de mando eterno

Quando bilionários da tecnologia e chefes de Estado autoritários passam a tratar a morte como um problema de engenharia a ser resolvido, uma pergunta antiga volta com força renovada: o que significa, para a vida em comum, que só os mais poderosos possam sonhar em escapar do fim?

Há uma cena, hoje célebre, captada por um microfone que deveria estar desligado: dois chefes de Estado caminham lado a lado por um pátio cerimonial, conversando sobre a possibilidade de transplantar órgãos para rejuvenescer e, quem sabe, escapar da morte. A cena — descrita em reportagem da revista do New York Times sobre o desejo de vida eterna entre líderes autoritários e magnatas da tecnologia — tem a força de uma fábula política, quase um fragmento de epopeia antiga, como as tábuas quebradas do Gilgamesh que narram a primeira busca humana registrada pela imortalidade. Mas o que antes era mito hoje é linha de investimento, projeto de laboratório, promessa de startup.

Não é segredo que o desejo de viver para sempre acompanha a humanidade desde que ela aprendeu a temer — e a narrar — a própria morte. O que muda, de tempos em tempos, é quem se permite sonhar com isso em voz alta, e com que instrumentos. Na Antiguidade, eram reis que buscavam elixires; na China imperial, alquimistas que destilavam mercúrio e chumbo acreditando sintetizar o ouro da eternidade — um empenho que, segundo a tradição, custou a vida de ao menos seis imperadores da dinastia Tang. Hoje, o elixir tem outro nome: engenharia genética, transfusão de plasma jovem, inteligência artificial treinada para "resolver" o envelhecimento como quem resolve um problema de código.

A morte, para os alquimistas de outrora e para os bilionários de hoje, deixou de ser destino para se tornar, supostamente, um bug corrigível.

Do mito ao capital de risco

O fio que liga o elixir dourado dos imperadores chineses ao investimento em biotecnologia do Vale do Silício não é apenas simbólico — é filosófico. Em ambos os casos, a promessa de vida eterna funciona como uma espécie de teologia secular: a crença de que existe, em algum lugar, uma técnica capaz de nos libertar da condição mais elementar da existência humana, que é a de sermos finitos. O empreendedor e investidor Peter Thiel, um dos principais financiadores da chamada indústria da longevidade no Vale do Silício, já declarou publicamente rejeitar a ideia de que a morte seja "natural". Outros nomes do setor de tecnologia têm investido dezenas ou centenas de milhões de dólares pessoais em empresas voltadas a reverter o envelhecimento — um movimento que pesquisadores brasileiros vêm descrevendo, com propriedade, como uma verdadeira fé tecnófila: não mais a esperança religiosa de viver eternamente por graça divina, mas a aposta de que a solução virá pela biotecnologia.

Um artigo recente publicado na revista acadêmica Interações, da PUC Minas, argumenta que o transumanismo contemporâneo repete — com vocabulário técnico-científico — a lógica das antigas religiões de salvação: onde antes se prometia a ressurreição da alma, promete-se agora o "mind uploading", o carregamento da mente para um substrato digital que sobreviveria à morte do corpo biológico. A diferença essencial, segundo os autores, é que a religião das soluções tecnocientíficas não pede fé no post mortem: pede investimento no presente, e paciência até a próxima rodada de financiamento.

A crítica: Fukuyama e "a ideia mais perigosa do mundo"

Nem todo filósofo vê nisso um simples entusiasmo tecnológico inofensivo. Em 2004, o cientista político Francis Fukuyama publicou um ensaio hoje clássico na revista Foreign Policy no qual chamava o transumanismo de "a ideia mais perigosa do mundo". Seu argumento não era religioso, mas político: a igualdade de direitos que sustenta as democracias liberais modernas repousa sobre a crença de que todos os seres humanos compartilham uma essência comum, para além das diferenças de riqueza, inteligência ou beleza. Se a biotecnologia permitir que apenas alguns — os mais ricos, os mais bem posicionados — se tornem literalmente mais longevos, mais saudáveis, mais "aprimorados" que o restante da espécie, o próprio fundamento moral da igualdade política corre risco de erosão.

É uma crítica que ecoa, sem citá-lo diretamente, um velho argumento da filosofia da morte: se a finitude é o que nos iguala — reis e súditos, imperadores e camponeses, magnatas e trabalhadores —, um mundo em que essa igualdade deixa de valer para os mais poderosos é um mundo em que a última fronteira democrática desaparece. Não é à toa que a reportagem do New York Times que inspira este ensaio observa que nem mesmo os piores tiranos da história — Henrique VIII, Cesar Bórgia — escaparam da morte prematura: era esse limite, paradoxalmente, que garantia alguma esperança de renovação política às gerações seguintes.

Contraponto — duas leituras filosóficas do mesmo desejo

A defesa transumanista

Para pensadores como Nick Bostrom, buscar prolongar a vida saudável não é hybris, mas a continuação natural de um projeto humano milenar: usar a técnica para nos libertar de restrições biológicas, como já fizemos com vacinas, saneamento e medicina moderna. Recusar essa possibilidade em nome de uma suposta "ordem natural" seria, nessa visão, uma forma de conservadorismo biológico injustificado — a mesma lógica, dizem seus defensores, que outrora se opôs a outras formas de emancipação humana.

A objeção bioconservadora

Fukuyama e outros críticos replicam que a analogia é falsa: direitos civis e igualdade jurídica nunca dependeram de uma igualdade biológica de fato, mas de um compromisso político. O risco real, argumentam, não é a tecnologia em si, mas a possibilidade concreta de que ela se torne acessível apenas a quem já concentra poder — aprofundando, em vez de superando, as hierarquias existentes entre nações, classes e indivíduos.

O Brasil finito: expectativa de vida e a desigualdade que a acompanha

Enquanto Bryan Johnson mede a qualidade de suas ereções noturnas em nome da juventude eterna, o brasileiro médio segue um caminho bem mais modesto — e bem mais desigual. Segundo as Tábuas de Mortalidade divulgadas pelo IBGE, a expectativa de vida ao nascer no país chegou a 76,6 anos em 2024, o maior patamar já registrado desde o início da série histórica, em 1940, quando um brasileiro recém-nascido podia esperar viver apenas 45,5 anos. O ganho é real e expressivo — mas distribuído de forma desigual: mulheres vivem, em média, 79,9 anos contra 73,3 dos homens, e um jovem de 20 anos tem 4,1 vezes mais chances de não completar 25 anos do que uma mulher da mesma idade, reflexo direto da violência e dos acidentes que atingem desproporcionalmente homens jovens no país.

Essa desigualdade doméstica é um lembrete instrutivo diante do debate sobre longevidade radical promovido pelos super-ricos: mesmo dentro das fronteiras de um único país, a "expectativa de vida" nunca foi um dado neutro — é também um retrato de quem tem acesso a saneamento, saúde pública, segurança e renda. Se a extensão radical da vida um dia sair do laboratório, é razoável supor que ela seguirá o mesmo padrão: chegará primeiro, e talvez exclusivamente, a quem já vive mais e melhor.

Por que ainda cremos em algo depois

Curiosamente, a busca tecnocientífica pela imortalidade convive, sem contradição aparente, com uma persistência notável das crenças religiosas tradicionais sobre a vida após a morte. O Global Flourishing Study, que ouviu mais de 200 mil pessoas em 22 países — incluindo 13 mil no Brasil —, e uma pesquisa paralela do Pew Research Center mostram que a maior parte da população mundial acredita, ou pelo menos não descarta, algum tipo de sobrevivência após a morte. No Brasil, como no Reino Unido e no México, essa crença aumenta — não diminui — com o nível de escolaridade, contrariando a expectativa de que educação formal e fé espiritual seriam inversamente proporcionais.

Há algo revelador nesse contraste. Enquanto bilionários financiam laboratórios para adiar cientificamente o fim, a maioria da humanidade segue confiando — por fé, tradição ou simples esperança — em formas mais antigas de transcendência: a alma, a reencarnação, o retorno espiritual. São duas respostas muito diferentes para a mesma angústia fundamental que o filósofo alemão Martin Heidegger chamou de "ser-para-a-morte": a ideia de que a consciência da própria finitude não é um detalhe da existência humana, mas a estrutura mesma a partir da qual atribuímos sentido à vida. Para Heidegger, viver autenticamente não significa negar a morte nem se obcecar com ela, mas assumi-la como horizonte que dá peso e urgência a cada escolha.

"Quando nós existimos, a morte não está presente; e quando a morte está presente, nós não existimos" — Epicuro, séculos antes de qualquer startup de longevidade, já havia formulado a questão que hoje se tenta resolver em laboratório.

É esse o paradoxo que a reportagem do New York Times ilustra tão bem ao narrar o encontro entre Xi Jinping e Vladimir Putin: dois homens que já romperam ou contornaram os limites institucionais ao poder perpétuo — Xi eliminando, em 2018, o limite de mandatos presidenciais na China; Putin sustentando, por meio de sucessivas reformas constitucionais, décadas ininterruptas no comando da Rússia — agora conversam sobre romper também o limite biológico. O poder político perpétuo e a vida biológica perpétua aparecem, na cena, como dois rostos do mesmo apetite: a recusa de que qualquer coisa, inclusive o tempo, possa lhes ser imposta de fora.

O que resta da morte como igualdade

Há uma tradição filosófica e política — que vai da tragédia grega aos tratados iluministas sobre a mortalidade dos reis — que via na morte não apenas uma tragédia individual, mas uma espécie de garantia coletiva: por pior que fosse um tirano, ele também morreria, e com ele, ao menos a possibilidade de mudança. Essa é, talvez, a camada mais inquietante do debate contemporâneo sobre longevidade radical: não é que os bilionários e autocratas queiram viver mais — é que, ao mirar a imortalidade, eles mirando também a permanência indefinida do próprio poder. Uma centralização de poder político e econômico que já preocupa observadores da democracia liberal ganha, nessa chave, mais um capítulo: o de um poder que não apenas concentra riqueza e influência, mas que aspira a não ter prazo de validade.

Resta, ainda assim, o que a filosofia sempre soube e a ciência, por enquanto, não desmentiu: a morte continua sendo a única instituição verdadeiramente democrática que resta ao mundo. Bilionários, presidentes vitalícios e o cidadão comum brasileiro compartilham, por ora, o mesmo destino biológico — por mais que uns disponham de laboratórios financiados com centenas de milhões de dólares e outros apenas da esperança, antiga e persistente, de que algo continue depois. Enquanto a ciência não prova o contrário, essa continua sendo, talvez, a última — e mais radical — forma de igualdade que nos resta.

Voz do Leitor

O que você achou deste artigo? Deixe sua opinião, crítica ou sugestão. Queremos tecer essa conversa com você. Suas visões são fundamentais e podem ser publicadas em nossa seção de "Cartas dos Leitores".

Faça login para participar da conversa

Neste ensaio

  • Do mito ao capital de risco
  • A crítica de Fukuyama
  • O Brasil finito: expectativa de vida
  • Por que ainda cremos em algo depois
  • O que resta da morte como igualdade

Em números

76,6anos — expectativa de vida ao nascer no Brasil em 2024, recorde histórico (IBGE)
45,5anos — expectativa de vida do brasileiro em 1940, início da série do IBGE
4,1xmaior chance de um homem de 20 anos não completar 25 anos, frente a uma mulher da mesma idade
US$ 180 miinvestidos por Sam Altman em pesquisa privada sobre reversão do envelhecimento
US$ 1 biorçamento anual da Hevolution Foundation, fundo saudita dedicado à longevidade
13 milbrasileiros ouvidos no Global Flourishing Study sobre crenças na vida após a morte

Linha do tempo de uma ideia antiga

AntiguidadeEpicuro argumenta que a morte "nada é para nós", pois nunca coincide com a existência do sujeito.
Dinastia TangElixires de mercúrio e chumbo, buscando a imortalidade, matam ao menos seis imperadores chineses.
1927Heidegger publica "Ser e Tempo", tratando a morte como estrutura constitutiva da existência humana.
2004Francis Fukuyama chama o transumanismo de "a ideia mais perigosa do mundo" em ensaio na Foreign Policy.
2018Xi Jinping elimina o limite de mandatos presidenciais na China.
2023Peter Diamandis lança o XPrize Healthspan, prêmio de US$ 101 milhões para reverter o envelhecimento.
Set. 2025Microfone capta Xi e Putin discutindo transplantes de órgãos e imortalidade em Pequim.

Glossário

Transumanismo
Movimento filosófico e tecnológico que defende o uso da ciência para superar limitações biológicas humanas, incluindo o envelhecimento e a morte.
Ser-para-a-morte
Conceito de Heidegger segundo o qual a consciência da própria finitude estrutura o modo autêntico de existir.
Mind uploading
Hipótese de transferir a consciência humana para um suporte digital, sobrevivendo à morte do corpo biológico.
Tese do dano (harm thesis)
Debate filosófico sobre se e como a morte pode ser considerada um mal para quem morre.

Referências

  1. O'Connell, Mark. "The Rich and Powerful Want to Live Forever. What if They Could?" The New York Times Magazine, 24 abr. 2026. nytimes.com
  2. IBGE. "Expectativa de vida no país sobe para 76,6 anos, a maior já registrada." Agência Brasil, 28 nov. 2025. agenciabrasil.ebc.com.br
  3. Fukuyama, Francis. "The World's Most Dangerous Idea: Transhumanism." Foreign Policy, 2004. Resumo disponível em reason.com
  4. "Ser imortal diante do fim do mundo: corpo, ciberutopia e transcendência." Estudos de Religião. scielo.br
  5. Cabral, José Fabrício R. dos Santos; Aragão, Gilbraz de Souza. "Uma fé entre tantas fés: o ansiado fim digital." Interações, PUC Minas, v. 19, n. 2, 2024. periodicos.pucminas.br
  6. "Transumanismo: excentricidade ou ciência para uma vida eterna?" Gazeta do Povo, 2018. gazetadopovo.com.br
  7. "Vida após a morte é crença em todo o mundo." O Tempo, 25 nov. 2025, com dados do Global Flourishing Study e do Pew Research Center. otempo.com.br
  8. "Death." Stanford Encyclopedia of Philosophy. plato.stanford.edu
  9. "Martin Heidegger." Stanford Encyclopedia of Philosophy. plato.stanford.edu
Este ensaio foi inspirado pela reportagem "The Rich and Powerful Want to Live Forever. What if They Could?", de Mark O'Connell, publicada pelo New York Times em 24 de abril de 2026 (https://www.nytimes.com/2026/04/24/magazine/eternal-life-longevity-world-leaders.html). O texto original não foi traduzido nem reproduzido; este artigo é uma produção autoral do Caderno Filosofia de O Tecido, construída a partir de fontes brasileiras e internacionais independentes listadas nas referências acima.
Nossa Missão

Por que existimos?

Entenda os valores que guiam nossa curadoria e o debate de alto nível.

Ver Manifesto
Suporte Editorial

Tem uma ideia?

Damos todo suporte caso você tenha apenas uma ideia concebida, mas queira evoluir seu artigo.

Entrar em Contato

Faça parte do tecido

Seja um editor colaborador