Há 81 anos, às 8h15 da manhã de 6 de agosto de 1945, uma única bomba de urânio apagou o sol sobre Hiroshima. Em segundos, uma cidade inteira de madeira, telhas e vidas cotidianas foi reduzida a cinzas, e o mundo entrou, sem aviso, na era nuclear. É esse instante — e o longo caminho que levou até ele — que o historiador escocês Iain MacGregor reconstrói no ensaio Os Homens de Hiroshima, lançado pela editora espanhola Ático de los Libros neste 81º aniversário do bombardeio e já apontado pela crítica internacional como uma das leituras mais completas sobre o tema desde os anos 1980.
MacGregor, autor consagrado de O Farol de Stalingrado, sobre a batalha decisiva da Segunda Guerra na Europa, evita o tom de tratado acadêmico. Em vez disso, escolhe cinco personagens reais — cinco fios de uma mesma corda — para tecer a narrativa: o físico J. Robert Oppenheimer, pai científico da bomba; o general Leslie Groves, responsável pela logística do Projeto Manhattan; o piloto Paul Tibbets Jr., que comandou o bombardeiro Enola Gay; o jornalista John Hersey, cuja reportagem mudaria a percepção americana sobre o ataque; e Senkichi Awaya, o prefeito de Hiroshima, morto junto à neta de três anos quando a bomba explodiu praticamente sobre suas cabeças. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o autor explicou que o recorte busca justamente evitar a aridez do relato oficial: segundo relatou ao jornal, pretendia guiar o leitor pela vida desses cinco homens até que suas trajetórias convergissem no clarão fatal de agosto de 1945.
O prefeito que a história esqueceu
A pesquisa sobre Awaya é, segundo o próprio autor, a mais custosa do livro. Administrador civil formado ainda sob a democracia japonesa pré-guerra, cristão, políglota e cético em relação ao militarismo que tomou o país, ele mandou a esposa voltar de Tóquio para a suposta segurança de Hiroshima pouco antes do ataque — ela morreria dias depois, vítima da radiação. MacGregor só reconstituiu sua biografia depois de localizar, na Biblioteca Nacional de Tóquio, memórias manuscritas de cerca de 30 mil palavras escritas por sua filha, Motoko Sakama, sobrevivente que carregou os restos do pai e da própria filha em uma caixa. O historiador relatou ao jornal espanhol o quanto o choca a quase ausência de memória pública em torno da figura do prefeito no Japão contemporâneo.
Kodama, hoje com mais de 80 anos, é a única voz feminina de peso no livro — MacGregor a entrevistou pessoalmente para abrir a obra. Atingida pela explosão ainda na escola, ela descreveu ao autor o que viu em seguida como um cenário distópico: corpos carbonizados espalhados pelo chão e sobreviventes arrastando a pele queimada pelas ruas de uma cidade que, minutos antes, era comum.
O peso da bomba, o peso da decisão
Little Boy, apesar do apelido, era tudo menos pequena: pesava 4.509 quilos e media 3,6 metros de comprimento. O livro detalha como Tibbets recebeu ordens de jamais trazer o artefato de volta caso a missão falhasse. Já sobre a decisão política de usá-la, MacGregor situa o leitor no contexto de 1945: as batalhas suicidas de Iwo Jima e Okinawa haviam convencido o Alto Comando americano de que uma invasão terrestre do Japão custaria entre 400 mil e 800 mil vidas americanas — e de cinco a dez milhões de vidas japonesas, segundo as projeções da época para a Operação Downfall. Uma pesquisa de opinião de 26 de agosto de 1945 mostrou 85% de aprovação popular ao uso das bombas atômicas nos Estados Unidos, número que o autor atribui em parte ao fato de que pouquíssimas pessoas — talvez duzentas, no máximo — conheciam de fato os efeitos da radiação naquele momento.
Contraponto — um debate ainda aberto
A necessidade militar do bombardeio segue sendo um dos temas mais controversos da historiografia da Segunda Guerra. De um lado, a leitura de MacGregor e de boa parte da tradição historiográfica americana sustenta que, no contexto de 1945 — sem saber quando o Japão se renderia e temendo perdas massivas em uma invasão terrestre —, a bomba abreviou a guerra e, paradoxalmente, também poupou vidas japonesas.
De outro lado, historiadores revisionistas argumentam há décadas que o Japão já buscava canais diplomáticos de rendição por meio da União Soviética antes de 6 de agosto, e que a entrada soviética na guerra do Pacífico, em 8 de agosto, teria pesado tanto ou mais do que a bomba na decisão final de Tóquio de capitular. Essa leitura, minoritária mas persistente na academia, questiona se o ataque nuclear era estritamente necessário ou se funcionou também como demonstração de força para a União Soviética no início da Guerra Fria — hipótese que o próprio MacGregor trata com cautela, sem endossá-la como causa central.
Da reportagem de Hersey ao Tratado que o Brasil ajudou a propor
Não é coincidência que MacGregor recorra à estrutura coral de cinco personagens: ele mesmo reconhece a dívida com John Hersey, cujo clássico Hiroshima — publicado originalmente como reportagem em uma edição inteira da revista The New Yorker, em 31 de agosto de 1946, e disponível no Brasil pela Companhia das Letras — usou o mesmo recurso ao acompanhar seis sobreviventes. Hersey se inspirou, por sua vez, no romance A Ponte de São Luís Rei, de Thornton Wilder. A reportagem, que tirou 300 mil exemplares da tiragem inicial da revista e teve os direitos de reimpressão doados à Cruz Vermelha, é considerada um marco fundador do jornalismo literário e segue leitura obrigatória em cursos de Jornalismo ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
A relação entre o Brasil e a memória de Hiroshima, porém, vai além da prateleira. Em 2017, o país foi um dos proponentes originais da conferência da ONU que resultou no Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), ao lado de África do Sul, Áustria, Irlanda, México e Nigéria — o então presidente Michel Temer foi o primeiro chefe de Estado a assinar o texto, seguido por líderes de outros 42 países. A Constituição brasileira também veda expressamente o uso de energia nuclear para fins bélicos, distinção que o país faz questão de sublinhar mesmo mantendo, com Argentina, um programa de submarino de propulsão nuclear — tecnologia que não envolve explosivos nucleares.
Perguntado se o livro funciona como advertência para o mundo atual, marcado por guerras convencionais na Ucrênia e no Oriente Médio e por tensões entre potências nucleares, MacGregor respondeu ao El País que sua maior preocupação hoje está no subcontinente indiano, entre Índia e Paquistão — os dois países nuclearmente armados com o histórico mais recente de confrontos diretos.
Os Homens de Hiroshima, de Iain MacGregor (Ático de los Libros, 2026), reconstrói o primeiro ataque nuclear da história através de cinco trajetórias reais — do laboratório de Los Alamos ao céu sobre a cidade japonesa.
Este é um link de afiliado. Ao comprar por meio dele, O Tecido pode receber uma pequena comissão, sem custo adicional para você.
MacGregor não escreveu um libelo nem uma defesa da bomba. Escreveu, antes, um mapa humano da decisão mais destrutiva do século XX — e, ao devolver nomes, rostos e memórias descartadas até por seus próprios países aos números frios da história, cumpre a mesma função que Hersey cumpriu em 1946: lembrar que por trás de cada estatística de guerra existe uma mulher deambulando entre os escombros, carregando um balde com o corpo do filho.