Caderno Política
O Tecido · Análise internacional · 20 de setembro de 2026

Na noite de 6 de setembro, o parlamento regional da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, registrou o melhor resultado já obtido pela Alternativa para a Alemanha (AfD) em uma eleição de peso equivalente no país. Liderada pelo candidato Ulrich Siegmund, a legenda de extrema direita saltou de 20,8% dos votos em 2021 para 44,5%1, ficando a poucos assentos da maioria absoluta no Landtag de Magdeburgo. A União Democrata-Cristã (CDU), que governava o estado havia 24 anos, viu sua votação despencar de 37,1% para cerca de 18,5%, uma queda de mais de 18 pontos percentuais1.

O resultado não surpreendeu analistas, que já apontavam a tendência em pesquisas de intenção de voto ao longo do ano. Mas a magnitude do avanço reacendeu um debate incômodo na imprensa europeia: como formações de extrema direita conseguem, em poucos anos, transformar-se de curiosidade eleitoral marginal em força dominante de um parlamento regional, e o que isso ensina sobre a maneira como sociedades inteiras aderem, ativa ou passivamente, a projetos de ódio.

Um paralelo desconfortável

Foi essa a pergunta levantada pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk, citado pelo jornalista Joaquín Estefanía em artigo de opinião publicado no jornal espanhol EL PAÍS2. Sloterdijk traçou um paralelo entre o discurso inicial da AfD e o do Partido Nazista (NSDAP) nos anos 1930: em ambos os casos, segundo o filósofo, tudo começou com eleitores dizendo estar descontentes com o parlamento, uma imprensa popular tratando as instituições como uma "casa de charlatões" e, no fim da linha, a chegada ao poder de um projeto autoritário. A comparação, reconhece o próprio artigo, é arriscada, mas repousa justamente sobre a "suposta inocuidade" dos começos2.

A composição social da bancada eleita pela AfD na Saxônia-Anhalt reforça essa leitura de heterogeneidade: criadores de gado, ex-integrantes de elites deslocadas da antiga Alemanha Oriental, ex-militares, simpatizantes de líderes de perfil autoritário e apenas duas mulheres compõem um grupo que o artigo do EL PAÍS descreve como próximo de um "nazismo naïf", unido sobretudo pela obsessão com a "decadência" da própria comunidade e pela hostilidade a imigrantes, mesmo em uma região onde a presença migratória é pouco expressiva2.

Os homens comuns do Batalhão 101

A referência histórica central do debate, porém, não é o NSDAP de Hitler, mas um estudo bem mais específico: o livro Ordinary Men (1992), do historiador americano Christopher Browning, publicado em espanhol como Aquellos hombres grises e adaptado para documentário pela Netflix em 2023. A obra reconstrói a trajetória do Batalhão de Reserva Policial 101, uma unidade da polícia alemã formada majoritariamente por homens de meia-idade, de origem operária e classe média, oriundos de Hamburgo, sem histórico de fanatismo ideológico e considerados inaptos para o serviço militar regular.

Entre 1942 e 1943, esse batalhão foi responsável por fuzilar dezenas de milhares de judeus na Polônia ocupada e por deportar um número ainda maior para campos de extermínio. A tese de Browning, hoje um clássico dos estudos sobre o Holocausto, é que a maioria desses homens não agia por ódio ideológico explícito, mas por uma combinação de obediência à autoridade, conformidade ao grupo, adaptação de papéis e progressiva normalização moral da violência. Rapidamente, o batalhão se dividiu em três grupos: um núcleo de matadores voluntariosos, uma maioria que cumpria as ordens sem entusiasmo nem resistência, e uma pequena minoria que evitava participar diretamente das execuções, sem que isso reduzisse a eficácia letal da unidade como um todo.

A pergunta que esse estudo de caso deixou em aberto não é sobre monstros excepcionais, mas sobre estruturas comuns: em que condições um Estado consegue transformar vizinhos, pais de família e profissionais de classe média em executores de um projeto de extermínio. Leitura analítica a partir de Browning, "Ordinary Men" (1992)

Companheiros de viagem: o papel da indiferença

É nesse ponto que o artigo do EL PAÍS propõe a chave de leitura mais útil para o presente2: a figura dos "companheiros de viagem", termo usado para descrever pessoas que, por ofuscação, indiferença, antipatia difusa, conformismo ou simples oportunismo, acabam se tornando cúmplices de projetos de ódio sem nunca terem sido, elas próprias, fanáticas. Não é o entusiasmo ideológico que sustenta a maior parte da adesão a esses projetos, mas a disposição de grandes contingentes de pessoas comuns em olhar para o lado, desde que a violência recaia sobre "eles" e não sobre "nós".

Historicamente, argumenta o texto, a sociedade alemã do pós-guerra cultivou a crença de que havia desenvolvido anticorpos contra esse tipo de desfecho: desconfiança em relação a líderes providenciais, rejeição a discursos de ódio contra minorias, apego a instituições multipartidárias. O resultado de 6 de setembro relativiza essa crença, ao mostrar que o apoio à AfD veio, em boa parte, de eleitores que migraram diretamente da própria CDU, do liberal FDP, da esquerda e até dos verdes, e não apenas de um núcleo ideológico fixo de extrema direita.

O Brasil observa da margem, mas não está imune

Para o público brasileiro, o episódio alemão chega em um momento particular. O Relatório da Democracia 2026, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, colocou o Brasil na 28ª posição entre 179 países no índice de democracia liberal, à frente dos Estados Unidos, que caíram para a 51ª colocação e perderam, pela primeira vez em mais de cinco décadas, o status de "democracia liberal"3. O relatório trata o Brasil como um dos poucos casos, entre 1900 e hoje, de reversão de um processo de autocratização antes de um colapso institucional completo: a virada é atribuída à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, após um ciclo de deterioração iniciado com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e aprofundado a partir de 20183.

O mesmo relatório, porém, faz um alerta que dialoga diretamente com o argumento de Browning e Sloterdijk: a sociedade brasileira "continua profundamente polarizada", e as eleições de 2026 serão decisivas para consolidar ou reverter essa recuperação3. Jair Bolsonaro, hoje inelegível após condenação por abuso de poder e tentativa de golpe de Estado, segue como referência simbólica de uma parcela do eleitorado, ainda que fora da disputa direta.

No plano digital, dados da SaferNet Brasil para 2025 sugerem que o fenômeno da adesão silenciosa ao ódio também tem uma versão nacional e cotidiana. A Central Nacional de Denúncias da organização recebeu 87.689 novas notificações de crimes cibernéticos no ano, alta de 28,4% sobre 20244. Dentro desse total, as denúncias associadas a apologia e incitação a crimes contra a vida cresceram 75,4%, os registros ligados a neonazismo avançaram 64,7% e as denúncias de misoginia saltaram 224,9%, passando de 2.686 para 8.728 casos em um único ano4. São números que não equivalem, em escala ou intenção, ao que descreve o livro de Browning, mas que ilustram como plataformas digitais podem funcionar como um ambiente de baixo custo para a mesma dinâmica de normalização, indiferença e imitação de discurso de ódio.

Contraponto

Nem todo historiador aceita sem ressalvas o uso de paralelos com o nazismo para interpretar a política contemporânea. Um argumento recorrente na historiografia é que comparações apressadas com o Terceiro Reich tendem a banalizar a singularidade histórica do Holocausto e a obscurecer diferenças institucionais relevantes, como a existência, na Alemanha atual, de um tribunal constitucional independente, do chamado "cordão sanitário" (Brandmauer) entre partidos tradicionais e a extrema direita, e de uma integração à União Europeia que impõe restrições que não existiam na República de Weimar.

Sob essa ótica, o crescimento da AfD deveria ser lido antes como um sintoma de erosão da confiança em partidos estabelecidos e de insatisfação econômica no leste alemão, do que como uma repetição literal dos anos 1930. As duas leituras não são excludentes: descrever um padrão de comportamento humano recorrente, como faz Browning, é diferente de prever um desfecho histórico idêntico.

O que fica da comparação

O valor do paralelo entre o Batalhão 101 e o eleitorado de Sajônia-Anhalt não está em equiparar magnitudes históricas incomparáveis, mas em deslocar o foco da análise: em vez de perguntar apenas quantos eleitores são fanáticos, vale perguntar quantos estão dispostos a tolerar, relativizar ou simplesmente ignorar um projeto de ódio, desde que ele não bata à própria porta. É esse contingente, mais numeroso e mais difícil de identificar do que o núcleo ideológico duro, que decide eleições e, em última instância, decide se instituições democráticas resistem ou cedem.

Nota de atribuição: este texto se baseia, em parte, na análise de Joaquín Estefanía publicada no jornal espanhol EL PAÍS em 20 de setembro de 2026, sob o título "Vuelven aquellos hombres grises del nazismo que fomentaron el odio por resentimiento u oportunismo". Leia o artigo original em elpais.com. O conteúdo foi reelaborado e ampliado por O Tecido a partir de fontes adicionais, listadas na área de referências.

Perguntas frequentes

O que aconteceu na eleição da Saxônia-Anhalt em setembro de 2026?

A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu a eleição regional com 44,5% dos votos, ante 20,8% em 2021, ficando perto da maioria absoluta no parlamento local. A CDU, que governava o estado havia 24 anos, caiu de 37,1% para cerca de 18,5%.

Quem foi o Batalhão de Reserva Policial 101 e por que ele é citado hoje?

Foi uma unidade da polícia alemã formada por homens comuns, sem perfil fanático, responsável por fuzilamentos em massa de judeus na Polônia ocupada entre 1942 e 1943. O historiador Christopher Browning usou o caso para argumentar que a obediência à autoridade e a conformidade ao grupo, e não apenas o ódio ideológico, explicam a adesão em massa à violência de Estado.

O que significa a expressão "companheiros de viagem" nesse debate?

Refere-se a pessoas que se tornam cúmplices de um projeto de ódio não por convicção ideológica, mas por indiferença, antipatia difusa, conformismo ou oportunismo, um fenômeno que analistas apontam como decisivo tanto na Alemanha dos anos 1930 quanto em episódios eleitorais contemporâneos.

Como o Brasil aparece no cenário global de erosão democrática, segundo o V-Dem?

O Relatório da Democracia 2026 do V-Dem coloca o Brasil na 28ª posição entre 179 países, à frente dos Estados Unidos, e cita o país como um dos poucos exemplos de reversão de um processo de autocratização, com virada atribuída à eleição de 2022. O mesmo relatório alerta que a sociedade brasileira segue profundamente polarizada.

É correto comparar a ascensão da AfD ao nazismo dos anos 1930?

Há divergência entre especialistas. Alguns veem valor em identificar padrões de comportamento coletivo recorrentes, como o papel da indiferença e do oportunismo. Outros alertam que comparações diretas com o Terceiro Reich podem banalizar a singularidade do Holocausto e ignorar diferenças institucionais importantes entre a Alemanha atual e a República de Weimar.