Caderno Educação · O Tecido

Em São Francisco e no Vale do Silício, uma contradição silenciosa atravessa as casas de quem construiu a indústria que mais disputa a atenção das crianças no mundo. Enquanto empresas como Meta enfrentam, a partir desta semana, um novo julgamento na Califórnia por supostamente ter desenhado produtos para "atrair, engajar e capturar" o público jovem, executivos dessas mesmas companhias mantêm em casa regras de tela que soam quase ascéticas.

A reportagem "Silicon Valley Executives Are Tech Fans. Just Not for Their Own Kids", publicada em 18 de agosto de 2026 pelo jornalista David Streitfeld no The New York Times, reconstrói um padrão que se repete há anos entre fundadores e altos executivos de empresas de tecnologia. Mark Zuckerberg já disse publicamente que não gosta de ver os filhos "passivamente" diante de telas. Peter Thiel, primeiro investidor externo do Facebook, revelou ter limitado os filhos pequenos a apenas noventa minutos de tela por semana. Bill Gates só liberou celular aos filhos aos 14 anos. Sundar Pichai, do Google, mantinha a televisão de casa deliberadamente pouco acessível ao filho de 11 anos (NYT, 2026).

O caso mais citado é o de Evan Spiegel, cofundador e presidente-executivo do Snap. Ele próprio só teve permissão para assistir à televisão perto da adolescência e hoje repete o padrão com os quatro filhos que tem com a modelo Miranda Kerr: para a criança de 2 anos, tempo de tela "praticamente zero"; para as de 6 e 7 anos, cerca de noventa minutos semanais, priorizando leitura e brincadeiras ao ar livre.

"Passei muito tempo simplesmente construindo coisas e lendo." — Evan Spiegel, sobre a própria infância sem televisão, citado pelo New York Times

A reportagem do NYT também mostra como a chegada da inteligência artificial generativa está deslocando essa cautela para um novo patamar. Diferentemente das redes sociais, que competem pela atenção da criança, ferramentas de IA como assistentes conversacionais e aplicativos que geram histórias personalizadas propõem algo mais radical: substituir a própria interação humana. Sam Altman, executivo-chefe da OpenAI, afirmou que, como pai recente, sua postura em relação a algoritmos de recomendação e tablets nas mãos de crianças pequenas mudou "profundamente", e que prefere errar pelo lado mais conservador quando decidir se e quando o filho poderá conversar com uma IA.

O que isso revela sobre quem entende o produto por dentro

Para especialistas em desenvolvimento infantil, o padrão identificado pelo NYT não é coincidência. Quem projeta sistemas de recomendação e engajamento sabe, melhor do que ninguém, o quanto esses mecanismos são construídos para capturar e reter a atenção, inclusive a de cérebros ainda em formação. Um relatório britânico do Action on Digital Device Immersive Conditions Team, grupo interdisciplinar de pesquisadores universitários, publicado em maio de 2026, concluiu que o benefício da exposição de bebês a telas digitais é praticamente nulo, enquanto os riscos potenciais para o desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional são substanciais.

No Brasil, esse debate ganhou contornos institucionais nos últimos dois anos. Em janeiro de 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei nº 15.100, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que restringe o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes durante aulas, intervalos e atividades extracurriculares em toda a educação básica, pública e privada. A norma permite exceções apenas para uso pedagógico, emergências ou necessidades de saúde comprovadas, e delega a cada escola a definição de suas próprias regras de fiscalização.

Uma pesquisa nacional conduzida pelo Ministério da Educação, com mais de oito mil escolas participantes, avaliou o primeiro ano de implementação da lei. Levantamentos paralelos feitos por entidades como o Centro do Professorado Paulista mostraram um cenário desigual: parte dos professores relatou melhora no engajamento em sala de aula, enquanto outra parcela apontou dificuldades de adaptação e resistência dos próprios estudantes durante o período inicial de transição.

📌 Contraponto editorial

Nem todo especialista em educação concorda que restrições rígidas de tela, por si só, resolvem o problema. Pesquisadores ligados à cultura digital argumentam que o fator decisivo não é apenas a quantidade de tempo de exposição, mas o tipo de uso: consumo passivo e solitário de vídeos curtos tende a prejudicar a atenção sustentada, enquanto o uso mediado por adultos, com conversa e conteúdo interativo, pode ter valor educacional. Reduzir o debate a "menos telas é sempre melhor" simplifica uma discussão que envolve também acesso à informação, letramento digital e equidade social, já que famílias de menor renda dependem mais do celular como único dispositivo de acesso à internet.

Essa nuance aparece também nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). O Manual de Orientação "#MenosTelas #MaisSaúde", atualizado em 2024 pelo Grupo de Trabalho de Saúde Digital da entidade, recomenda ausência total de telas até os 2 anos, no máximo uma hora diária supervisionada entre 2 e 5 anos, de uma a duas horas entre 6 e 10 anos, e de duas a três horas para adolescentes de 11 a 18 anos, sem que o uso avance pela noite. A entidade também recomenda manter as telas desligadas durante as refeições e desconectar os dispositivos de uma a duas horas antes de dormir.

Dados que colocam o Brasil no mapa desse debate

O contraste entre o discurso de cautela dos executivos americanos e a realidade digital das famílias brasileiras é expressivo. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, divulgada em outubro, 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos já acessam a internet, e 28% desse grupo começou a usar a rede antes dos 6 anos de idade, quase o triplo do percentual registrado em 2016, quando o índice era de 10%. O celular segue como o principal dispositivo de acesso entre essa faixa etária, chegando a 98% dos usuários, e é o único meio de conexão à internet para 77% dos jovens de classes sociais mais baixas.

É justamente esse contraste que dá à reportagem do New York Times sua relevância para o debate educacional brasileiro. Enquanto quem projeta e comercializa tecnologias de engajamento mantém os próprios filhos afastados delas, a maioria das famílias brasileiras não tem acesso à mesma informação privilegiada, nem sempre aos recursos para substituir o celular por outras formas de mediação, cuidado ou entretenimento.

Ainda assim, o movimento por regras mais claras avança também na educação formal brasileira. O novo Plano Nacional de Educação, instituído pela Lei nº 15.388/2026, prevê a atualização da Base Nacional Comum Curricular para incorporar conteúdos sobre uso saudável de tecnologias digitais e os impactos do uso prolongado de telas sobre a aprendizagem e a saúde mental dos estudantes, além de fomentar parcerias entre escola e família para promover cidadania digital.

Educar para o uso consciente, não para o medo da tecnologia

Para o Caderno Educação de O Tecido, o valor da reportagem do NYT não está em transformar executivos de tecnologia em modelo de criação infantil, mas em expor uma assimetria de informação que merece atenção pública. Quem constrói os sistemas mais sofisticados de captura de atenção do planeta escolhe, para os próprios filhos, tempo ao ar livre, tédio e leitura. Essa escolha não é sobre rejeitar a tecnologia, é sobre reconhecer seus limites e desenhar mediação deliberada, algo que qualquer família, escola ou política pública pode buscar replicar, dentro de suas possibilidades.

O desafio para o Brasil não é copiar o roteiro do Vale do Silício, inacessível à maioria das famílias em termos de recursos e tempo disponível, mas construir políticas públicas, currículos escolares e orientações pediátricas que traduzam esse conhecimento especializado em ferramentas acessíveis a todos, especialmente às famílias que dependem do celular como única porta de entrada digital.

Nota de atribuição: Este artigo foi inspirado na reportagem "Silicon Valley Executives Are Tech Fans. Just Not for Their Own Kids", de David Streitfeld, publicada pelo The New York Times em 18 de agosto de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido ou traduzido na íntegra; trechos e informações foram usados como ponto de partida para reportagem e análise independentes, com apuração adicional de fontes brasileiras e internacionais. Leia a reportagem original: nytimes.com.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes sobre telas e crianças

Por que executivos de tecnologia limitam o uso de telas dos próprios filhos?

Segundo relatos reunidos pelo New York Times, executivos como Mark Zuckerberg, Peter Thiel, Bill Gates, Sundar Pichai e Evan Spiegel restringem fortemente o acesso dos filhos a celulares, redes sociais e televisão em casa, alegando preocupação com os efeitos do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil, apesar de liderarem empresas que dependem do engajamento digital para gerar receita.

Qual é a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre tempo de tela?

A SBP recomenda ausência total de telas até os 2 anos de idade, no máximo uma hora diária supervisionada dos 2 aos 5 anos, de uma a duas horas dos 6 aos 10 anos, e de duas a três horas para adolescentes de 11 a 18 anos, evitando o uso próximo ao horário de dormir e durante as refeições.

O que diz a Lei nº 15.100/2025 sobre celulares nas escolas brasileiras?

Sancionada em janeiro de 2025, a lei proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, intervalos e atividades extracurriculares em toda a educação básica, pública e privada, permitindo exceções apenas para fins pedagógicos, acessibilidade, emergências ou condições de saúde comprovadas.

Quantas crianças e adolescentes brasileiros usam internet, segundo o Cetic.br?

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos no Brasil acessam a internet, e 28% desse grupo iniciou o uso antes dos 6 anos de idade, quase o triplo do percentual registrado em 2016.

A inteligência artificial muda o debate sobre telas e crianças?

Sim. Diferentemente das redes sociais, que disputam a atenção infantil, ferramentas de IA generativa propõem interações que podem substituir parte do papel humano, como contar histórias ou responder perguntas. Executivos como Sam Altman, da OpenAI, relatam maior cautela pessoal em relação a esse tipo de uso por crianças pequenas, mesmo promovendo publicamente o uso da tecnologia.

Ewerton Lopes — Curador Editorial