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Quando o firma de advocacia nova-iorquina Paul Weiss aceitou, em março de 2025, oferecer serviços jurídicos gratuitos à Casa Branca para reverter uma ordem executiva que a barrava de contratos federais, a cena que se seguiu do lado de fora do escritório dizia mais do que qualquer editorial. Manifestantes ergueram faixas com os dizeres "sem ditadores" e cartazes chamando os advogados da banca de covardes1. O episódio, hoje tratado como um marco na literatura sobre o segundo mandato de Donald Trump, resume a tese central de dois livros lançados quase simultaneamente e resenhados lado a lado pelo Financial Times: a autocracia não se instala pela força, mas pela cessão negociada.
A retirada silenciosa das instituições
O jornalista Jacob Weisberg, em "Profiles in Cowardice: A Study of Collaboration in the Trump Era", parte de uma pergunta simples: como o presidente americano conseguiu, repetidamente, ultrapassar limites institucionais sem enfrentar resistência efetiva. A resposta, segundo o autor, não está apenas em Trump, mas na rede de senadores, bilionários, executivos e advogados que, mesmo entendendo os riscos, escolheram a acomodação2. Weisberg descreve o fenômeno como a "Grande Capitulação de 2025", um processo em que lideranças empresariais, veículos de mídia e universidades cederam terreno de forma gradual, sem que houvesse um único momento de ruptura visível.
Entre os oito perfis do livro está o senador Mitch McConnell, retratado como alguém que já demonstrou coragem institucional no passado (chegou a copatrocinar sanções contra o apartheid sul-africano, contrariando o próprio partido) mas que, mesmo eleito para o que deve ser seu último mandato, evitou conduzir um processo de impeachment que poderia ter encerrado a carreira política de Trump. O contraste mais afiado do livro, no entanto, envolve o ex-presidente George W. Bush. Weisberg observa que Bush manteve silêncio público mesmo quando um de seus legados mais reconhecidos, o programa Pepfar de combate à Aids, foi desmontado, ao passo que seu ex-vice-presidente Dick Cheney e a filha deste, Liz Cheney, sacrificaram capital político para investigar a tentativa de insurreição de 6 de janeiro de 2021.
A autocracia se enraíza não por derrubar instituições, mas por dobrá-las, uma concessão de cada vez, até que a resistência pareça inútil.
A ironia de quem viu o perigo primeiro
Se Weisberg constrói um estudo de caso coletivo, Anthony Scaramucci oferece, em "All the Wrong Moves", uma espécie de contraponto involuntário. O investidor de Wall Street, que serviu por apenas 11 dias como diretor de comunicações da Casa Branca em 2017, é hoje um dos podcasters anti-Trump mais populares dos Estados Unidos. Mas o próprio autor reconhece, segundo a resenha do Financial Times, que foi "intoxicado pelo poder" durante sua breve passagem pelo governo e que aquele episódio "não fala bem" a seu respeito1. O que torna o caso relevante não é o mea culpa, mas a trajetória: Scaramucci chegou a dizer à BBC, em 2016, que se mudaria para Londres caso Trump vencesse a eleição, uma advertência que o tempo mostrou correta e que ele próprio ajudou a neutralizar ao aceitar o cargo no ano seguinte.
O que os indicadores de democracia mostram
A tese dos dois livros não fica restrita ao anedotário político. O relatório mais recente do Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, registrou a maior queda anual da história do índice de Democracia Liberal (LDI) para os Estados Unidos, de 0,79 em 2023 para 0,57 em 20253. Segundo os pesquisadores, o país retrocedeu a um patamar equivalente ao de 1965, ano simbólico em que boa parte dos analistas considera ter começado a transição americana para uma democracia plena, no sentido de incluir a população negra no processo eleitoral. O relatório também compara a velocidade do declínio: processos de recuo democrático que levaram cerca de quatro anos na Hungria de Viktor Orbán e uma década na Turquia de Recep Tayyip Erdogan ocorreram nos Estados Unidos em um único ciclo.
Contraponto: quando o empresariado resiste em bloco
O recorte de Weisberg mostra bilionários e escritórios de advocacia negociando concessões individuais, cada um isolado em seu próprio cálculo de risco. A experiência brasileira recente sugere um caminho oposto. Em 2022, sob pressão de ataques reiterados de Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral, a Fiesp articulou a carta "Em Defesa da Democracia e da Justiça", reunindo mais de cem entidades empresariais, entre bancos, indústrias e associações do agronegócio, além de outro manifesto paralelo da Faculdade de Direito da USP que somou cerca de 950 mil assinaturas4. A diferença estrutural entre os dois episódios não está apenas na coragem individual de cada signatário, mas no fato de que a ação coletiva reduz o custo de cada adesão isolada, exatamente o mecanismo que, segundo Weisberg, faltou nos Estados Unidos.
Por que essa discussão interessa ao Brasil
Para o público brasileiro, o valor analítico dos dois livros está menos na crônica americana em si e mais no modelo explicativo que propõem: instituições não caem de uma vez, elas são cedidas peça por peça, por atores que calculam, cada um isoladamente, que resistir custa mais caro do que ceder. O Brasil viveu, entre 2018 e 2022, um debate equivalente sobre o papel de empresários, mídia e Judiciário na contenção de pressões antidemocráticas, e o desfecho distinto sugere que a variável decisiva não é apenas a intenção de cada agente, mas a existência de mecanismos que tornem a resistência coletiva menos custosa do que a submissão individual.
Perguntas frequentes
Quem são os oito perfis do livro de Jacob Weisberg?
Entre os nomes analisados em "Profiles in Cowardice" estão o senador Mitch McConnell, o ex-presidente George W. Bush, o investidor Stephen Schwarzman (Blackstone), o advogado Brad Karp (ex-presidente da banca Paul Weiss) e a reitora da Dartmouth College, Sian Beilock, além de figuras do setor de tecnologia.
O que aconteceu com a banca de advocacia Paul Weiss?
Em março de 2025, após uma ordem executiva presidencial que a barrava de contratos federais, a Paul Weiss negociou um acordo com a Casa Branca que incluía a prestação de serviços jurídicos gratuitos, decisão que gerou protestos públicos e passou a ser citada como exemplo de capitulação institucional.
Quanto a democracia americana recuou segundo o V-Dem?
O índice de Democracia Liberal calculado pelo Instituto V-Dem caiu de 0,79 em 2023 para 0,57 em 2025, a maior queda anual já registrada para os Estados Unidos, colocando o país em patamar comparável ao de 1965.
Houve um episódio parecido no Brasil?
Sim. Em 2022, diante de ataques recorrentes ao sistema eleitoral, entidades como a Fiesp e a Febraban assinaram cartas públicas em defesa da democracia, reunindo mais de cem organizações empresariais em torno de um posicionamento coletivo.