Sustentabilidade · Biodiversidade e linguagem

Nas últimas semanas, a Espanha voltou a falar de abutres. Não por causa das colônias de grifos dos Pirineus, mas pela crise de moradia. O despejo de uma idosa em Madri, em 23 de setembro, fez a expressão "fundos abutre" circular em faixas de protesto, discursos no Congresso e manchetes, usada por parlamentares de esquerda e de direita, conforme relatou o jornal El País[1]. A reportagem do diário espanhol fez uma pergunta incômoda: a metáfora é justa com as aves? Cientistas e filósofos ouvidos pelo jornal responderam que não. Os dados reunidos por O Tecido apontam na mesma direção, e com um desdobramento brasileiro que raramente entra nessa discussão.

De onde vem a expressão "fundo abutre"

O termo é tradução direta do inglês vulture fund e ganhou força no fim do século XX, quando investidores passaram a comprar a preço baixo títulos de países à beira da moratória para depois cobrar o valor integral nos tribunais. O Peru foi um dos primeiros alvos, segundo o El País[1]. A lógica da imagem parecia evidente: quem se alimenta de algo já morto ou moribundo seria, por definição, um carniceiro.

Para o público brasileiro, o caso mais conhecido é o argentino. Depois do calote de 2001, um grupo de credores que recusou as renegociações travou uma disputa de 15 anos nos tribunais de Nova York. Em 2016, o governo de Mauricio Macri fechou acordo com o NML Capital, da gestora Elliott Management, e outros três fundos, prevendo o pagamento de cerca de US$ 4,6 bilhões, com deságio de 25% sobre principal e juros[2]. A gestão anterior, de Cristina Kirchner, havia se recusado a negociar e popularizou o apelido. Em 2014, o então ministro da Economia, Axel Kicillof, afirmou em artigo que o NML teria comprado papéis por cerca de US$ 50 milhões e poderia receber mais de US$ 800 milhões, um retorno que ele estimou em 1.600%[3]. Os números eram a versão de uma das partes, mas ajudam a entender por que o rótulo pegou.

O que a ciência diz sobre as aves carniceiras

Na natureza, a história é outra. Abutres e urubus são necrófagos especializados: removem carcaças com uma rapidez que nenhum outro animal consegue igualar. O pesquisador Antoni Margalida, do Instituto Pirenaico de Ecologia (CSIC), disse ao El País que considera a etiqueta injusta, porque essas aves impedem que cadáveres se tornem vetores de doenças ou contaminem aquíferos[1]. O sistema digestivo delas é tão ácido que neutraliza patógenos como a bactéria do antraz, perigosa para pessoas e rebanhos.

Há também uma conta econômica. Um estudo publicado em 2015 na revista Scientific Reports, citado pelo diário espanhol, estimou que, sem os abutres, pecuaristas da Espanha teriam de gastar perto de 48 milhões de euros por ano em seguros e serviços para recolher animais mortos[1][4]. Na África austral, um levantamento atribuído à BirdLife International calcula que essas aves geram US$ 1,8 bilhão por ano em serviços ecossistêmicos, enquanto 7 das 11 espécies africanas já são classificadas como vulneráveis ou criticamente ameaçadas pela IUCN[5].

O experimento involuntário da Índia

O exemplo mais dramático do que acontece quando os carniceiros desaparecem veio do subcontinente indiano. A partir de meados dos anos 1990, o diclofenaco, anti-inflamatório usado no gado, passou a envenenar os abutres que se alimentavam das carcaças. As populações caíram mais de 95%[1]. Os economistas Eyal Frank, da Universidade de Chicago, e Anant Sudarshan, da Universidade de Warwick, compararam distritos que antes abrigavam muitos abutres com áreas onde eles eram raros, antes e depois do colapso. O resultado, publicado na American Economic Review, foi de cerca de 104 mil mortes humanas adicionais por ano entre 2000 e 2005, mais de meio milhão no período, com custo estimado em US$ 69 bilhões anuais[6].

O mecanismo é direto. Sem abutres, carcaças ficaram expostas, a concentração de bactérias fecais na água mais que dobrou e populações de cães ferais, alguns transmissores de raiva, se multiplicaram. Os próprios autores ressalvam que o efeito sobre a mortalidade não pode ser atribuído apenas à ausência das aves, ponto que o El País também destaca[1]. Ainda assim, poucos estudos mostram com tanta clareza o preço de perder uma espécie que ninguém considera simpática.

Diclofenaco no gado Abutres caem >95% Carcaças expostas Bactérias fecais na água x2 Mais cães ferais e raiva ~104 mil mortes/ano (2000-2005)
Cadeia de efeitos descrita no estudo de Frank e Sudarshan (American Economic Review, 2024). Elaboração: O Tecido.

Uma questão de linguagem e de narcisismo de espécie

Para o filósofo Óscar Horta, da Universidade de Santiago de Compostela, chamar investidores de abutres não é apenas impreciso. É a repetição de um hábito antigo do Ocidente de projetar nos animais vícios humanos, algo que, segundo ele, pode moldar por muito tempo a forma como uma espécie é vista. Sua síntese, dada ao El País, cabe numa linha: os abutres não especulam[1]. Jorge Riechmann, da Universidade Autónoma de Madrid, vai além e fala em "narcisismo de espécie", a dificuldade humana de entender o próprio lugar na rede da vida. Se a analogia tivesse de existir, sugere, deveria ser com um grande predador, e não com quem só chega depois da morte[1].

O argumento tem fundamento biológico. O abutre não provoca a morte de que se alimenta, não a antecipa nem lucra com ela à custa de terceiros. O investidor que compra dívida em colapso, ao contrário, aposta numa estratégia que pode prolongar a crise do devedor. A metáfora inverte justamente o que torna a ave valiosa: ela encerra o ciclo da decomposição, em vez de estendê-lo.

O urubu que sobrevoa o lixão não é a causa do problema. É o seu sintoma mais visível.

No Brasil, o urubu como espelho da gestão do lixo

Aqui, a ave que ocupa esse nicho é o urubu. Ele pertence a outra família, a dos catartídeos, exclusiva das Américas e composta por sete espécies: quatro urubus e três condores[7]. A semelhança com os abutres do Velho Mundo é um caso de convergência evolutiva: linhagens distintas que chegaram a soluções parecidas para o mesmo trabalho. O urubu-de-cabeça-preta, uma das aves mais comuns do país, localiza carcaças sobretudo pela visão, enquanto as espécies do gênero Cathartes contam com um olfato apurado, raro entre aves.

A imagem do urubu no Brasil também é ambígua. Ele é sinônimo de mau agouro na linguagem popular, mas também é mascote orgulhosamente adotado por uma das maiores torcidas de futebol do país. O que quase nunca se discute é por que tantos urubus se concentram perto das cidades. A resposta está nos lixões.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, previa o fim dos lixões até 2014. O prazo foi adiado, incorporado ao Marco Legal do Saneamento de 2020 e venceu de novo em agosto de 2024. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento indicavam que 1,5 mil lixões seguiam operando em 2022, e a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) estimava que o número real poderia chegar a 3 mil[8]. Somando os aterros controlados, eram 2.229 cidades com descarte irregular, com maior concentração no Nordeste[9].

As consequências aparecem até no céu. Um guia inédito da Secretaria Nacional de Aviação Civil, elaborado com a Universidade Federal de Santa Catarina, aponta o urubu-de-cabeça-preta como a espécie de maior risco para aeronaves no país, entre 68 espécies consideradas críticas[10]. Entre as medidas recomendadas está justamente controlar abatedouros, descarte inadequado de resíduos e aterros próximos a aeroportos. O risco, portanto, nasce de uma falha humana de saneamento. O urubu apenas faz o que sempre fez: vai aonde há comida.

Contraponto

Metáfora não é zoologia

Há quem considere a crítica exagerada. Metáforas não descrevem espécies, descrevem comportamentos, e "abutre" nomeia com precisão uma estratégia econômica: chegar depois do colapso e extrair valor dele. Na mesma linha, os fundos que litigaram contra a Argentina sustentaram que apenas exigiam o cumprimento de contratos, e a Justiça americana lhes deu razão. Do lado ambiental, também é preciso evitar o romantismo: urubus em grandes concentrações causam colisões com aviões, danificam telhados e incomodam moradores. Reconhecer o serviço ecológico das aves não elimina esses conflitos. Apenas desloca a responsabilidade para onde ela pertence, a gestão dos resíduos.

A lição que fica

A discussão espanhola parece semântica, mas toca em algo maior. A forma como nomeamos os animais influencia quanto estamos dispostos a protegê-los. Espécies carismáticas atraem campanhas e doações. Carniceiros atraem repulsa, embora o estudo indiano mostre que a perda deles pode custar mais vidas humanas do que a de muitos animais queridos. No caso brasileiro, a pergunta mais útil talvez não seja se os urubus merecem uma reputação melhor, e sim por que ainda oferecemos a eles milhares de lixões a céu aberto. Margalida, em tom de brincadeira, sugeriu ao El País trocar a expressão por "fundos rato". O próprio jornal lembra que seria cometer uma nova injustiça[1].

Perguntas frequentes

Por que investidores são chamados de "fundos abutre"?

A expressão vem do inglês vulture fund e designa fundos que compram dívidas de países ou empresas em crise a preços muito baixos para depois cobrar o valor integral na Justiça. O caso mais conhecido na América Latina é o da Argentina, que fechou acordo com esses credores em 2016.

Qual é a função ecológica dos abutres e urubus?

Eles removem carcaças rapidamente, o que reduz a disseminação de doenças como antraz e raiva, evita a contaminação da água e limita a proliferação de ratos e cães ferais. O ácido estomacal dessas aves neutraliza muitos patógenos.

O que aconteceu na Índia quando os abutres desapareceram?

O uso do anti-inflamatório diclofenaco no gado envenenou as aves e reduziu suas populações em mais de 95%. Um estudo publicado na American Economic Review estimou cerca de 104 mil mortes humanas adicionais por ano entre 2000 e 2005, ligadas à piora sanitária.

Urubus e abutres são a mesma ave?

Não. Os urubus pertencem à família dos catartídeos, exclusiva das Américas. Os abutres do Velho Mundo são parentes dos gaviões e águias. As semelhanças resultam de convergência evolutiva, já que ambos ocupam o mesmo papel ecológico.

Por que há tantos urubus perto das cidades brasileiras?

Principalmente por causa de lixões, matadouros e descarte irregular de resíduos. O Brasil já descumpriu mais de uma vez o prazo legal para encerrar os lixões, e o urubu-de-cabeça-preta lidera o ranking de risco de colisão com aeronaves no país.

Este artigo foi inspirado na reportagem "La mala fama persigue a los buitres, pero ellos no tienen la culpa", de Andrés Pineda Pérez, publicada pelo jornal El País em 6 de outubro de 2026. As informações atribuídas ao El País foram resumidas e contextualizadas por O Tecido, sem reprodução integral do texto original, com acréscimo de fontes independentes e do contexto brasileiro.