Nas montanhas de Nagano, no Japão, os moradores aprenderam a temer o barulho de galhos quebrando à noite. No ano passado, ursos atacaram mais de 230 pessoas no país e mataram treze, o pior número já registrado. A resposta do governo japonês foi proporcional ao susto: entre abril de 2025 e janeiro de 2026, mais de 14 mil ursos foram abatidos, incluindo cerca de 12 mil ursos-negros-asiáticos e 2 mil ursos-pardos, segundo dados oficiais relatados pelo jornal britânico The Guardian1. A cifra representa, por algumas estimativas, até um quarto da população nacional de uma espécie já classificada como vulnervável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
O episódio japonês não é apenas uma crise de manejo de fauna. É um espelho posto diante da civilização humana, e o reflexo não é lisonjeiro. Quando uma espécie precisa eliminar um quarto de outra espécie apenas para continuar caminhando em segurança pelas próprias montanhas, algo maior do que um problema técnico está em jogo. Está em jogo a pergunta que a filosofia ambiental vem fazendo há décadas, sem que a política ou o mercado se disponham a ouvi-la com seriedade: que lugar reservamos, de fato, para os outros habitantes do planeta?
Os números por trás do medo
Os ursos japoneses não migraram para perto das cidades por acaso. Segundo a reportagem original, o calor recorde afetou a produção de bolotas e frutos de faia dos quais os animais dependem para engordar antes da hibernação, e o esvaziamento populacional das áreas rurais japonesas deixou pomares e florestas abandonados, atraindo os animais para dentro dos vilarejos1. Ou seja: uma crise climática somada a uma transformação demográfica humana empurrou um animal selvagem para o único caminho que lhe restava, a proximidade com quem o teme.
Esse padrão não é exclusivo do Japão. Ele é a assinatura estatística do Antropoceno, o período geológico informal em que a atividade humana se tornou a força dominante sobre os ecossistemas do planeta. O Relatório Planeta Vivo 2024, elaborado pelo WWF em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres, mediu quase 35 mil tendências populacionais de 5.495 espécies de vertebrados entre 1970 e 2020 e encontrou uma queda média de 73% no tamanho das populações de vida selvagem monitoradas no período2. Os ecossistemas de água doce foram os mais afetados, com declínio de 85%, seguidos pelos terrestres, com 69%, e pelos marinhos, com 56%2. Na América Latina e no Caribe, região que inclui o Brasil, a queda chegou a impressionantes 95%3.
Um retrato ainda mais direto da desproporção veio de um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), conduzido por pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, e da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. Ao mapear a biomassa de todos os seres vivos do planeta, os cientistas descobriram que, entre os mamíferos, 60% correspondem a animais de criação, sobretudo bovinos e suínos, 36% a seres humanos, e apenas 4% a mamíferos genuinamente selvagens4. Entre as aves, a proporção se repete: cerca de 70% já são domésticas4. Os autores estimam ainda que, desde o início da civilização humana, a atividade da espécie reduziu em cerca de seis vezes a biomassa de mamíferos selvagens terrestres e marinhos4.
Contraponto: nem toda expansão humana é vilania
Seria simplista tratar o crescimento populacional humano como uma força puramente destrutiva. Parte da recuperação florestal que hoje aproxima ursos das cidades japonesas é, ironicamente, fruto do próprio esvaziamento rural e do abandono de terras agrícolas, um fenômeno que, em outras leituras, é celebrado como rewilding, ou re-selvagemento. O biólogo Dave Garshelis, copresidente do grupo de especialistas em ursos da IUCN, observou que o Japão é, entre os dezoito países onde ainda existem ursos-negros-asiáticos, o que mais bem conseguiu conservar a espécie, justamente por ter deixado o campo esvaziar-se e a floresta reocupar o território1. O problema não é a existência humana em si, mas a ausência de planejamento para a convivência que o próprio sucesso da conservação exigia.
O animal que se pensa fora da natureza
A filósofa australiana Val Plumwood dedicou boa parte de sua obra a descrever o que chamou de hiperseparação entre humanidade e natureza, a ideia cultural de que os seres humanos pertencem a uma categoria de mente e razão inteiramente distinta do resto do mundo vivo, reduzido a mero recurso ou pano de fundo instrumental5. Para Plumwood, essa separação não é um detalhe filosófico abstrato: é a estrutura mental que permite tratar rios, florestas e animais como estoques administráveis, e não como comunidades das quais a própria humanidade faz parte.
Sob essa lente, o abate em massa de ursos japoneses pode ser lido como um sintoma extremo de uma lógica muito mais ampla e muito mais cotidiana. Não é preciso matar um urso para praticar a hiperseparação. Basta consumir carne de um animal criado em confinamento industrial, converter uma floresta em pastagem ou tratar um rio como simples fonte de irrigação sem pensar nas espécies que ali vivem. O que o Japão fez de forma abrupta e visível, o resto do mundo faz de forma lenta e invisível, todos os dias, através da expansão de fronteiras agrícolas, da pecuária e da urbanização.
Há, porém, quem argumente que essa crítica peca por generalizar contextos muito distintos. O ecólogo Shinsuke Koike, da Universidade de Tecnologia e Agricultura de Tóquio, ressalta que a discussão sobre extinção global não deveria se sobrepor automaticamente ao problema concreto e imediato enfrentado pelas comunidades japonesas, já que o status de vulnerabilidade da espécie é medido em escala mundial, enquanto o crescimento populacional de ursos em certas regiões do Japão foi estimado, em estudos de 2023, entre 11% e 12% ao ano, podendo chegar a 15% no oeste do país1. Sob taxas de crescimento assim, argumenta ele, um manejo populacional não é necessariamente incompatível com a conservação da espécie, desde que seja tecnicamente calibrado, o que, segundo críticos como a bióloga Yuko Muroya, da organização Kumamori, não está acontecendo, dado que o governo já anunciou meta de abater mais 8.800 ursos no próximo ano fiscal, mesmo sem uma contagem populacional atualizada desde 20111.
Crescer, ocupar, substituir
Enquanto o número de ursos selvagens no Japão é motivo de disputa científica, o número de seres humanos no planeta segue uma trajetória bem mais previsível. Segundo as projeções mais recentes da Divisão de População das Nações Unidas, divulgadas em 2024, a população mundial deve continuar crescendo, ainda que em ritmo decrescente, até atingir um pico estimado em 10,3 bilhões de pessoas por volta de 2084, para então iniciar um lento declínio6. Outras análises, como as do Clube de Roma e de pesquisadores da Universidade de Washington publicadas na revista The Lancet, sugerem picos anteriores, entre 2050 e 2064, com números um pouco menores, mas a direção geral do fenômeno é consensual: mais pessoas, por mais décadas, ocupando um planeta cuja superfície não cresce junto6.
É tentador, e também perigoso, estabelecer uma equação simples entre crescimento populacional humano e desaparecimento da fauna selvagem. A relação é real, mas não é linear nem exclusivamente demográfica. O próprio Relatório Planeta Vivo aponta que a principal ameaça às populações selvagens não é a quantidade absoluta de seres humanos, mas o modelo de uso da terra, sobretudo a expansão dos sistemas alimentares industriais, seguida da superexploração de recursos, espécies invasoras e doenças2. Em outras palavras, o que empurra ursos, tigres, elefantes e milhares de outras espécies para as margens do mapa não é simplesmente existirmos em bilhões, mas a maneira específica, intensiva e extrativista como organizamos a produção de alimento e energia para sustentar esses bilhões.
Uma ética para o Antropoceno
O filósofo utilitarista Peter Singer, em sua obra sobre libertação animal, argumentou que a capacidade de sofrer, e não a espécie a que se pertence, deveria ser o critério moral relevante para decidir quem merece consideração ética. Essa perspectiva, radical para muitos, ganha um contorno mais urgente quando confrontada com os números do Antropoceno: se cada urso abatido, cada boi confinado e cada peixe capturado em excesso é reduzido a estatística de manejo, a pergunta de Singer deixa de ser uma provocação acadêmica e passa a ser um convite prático a repensar políticas públicas, hábitos de consumo e modelos econômicos.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer os limites de qualquer ética puramente abstrata diante de conflitos concretos. Em Karuizawa, no Japão, a organização de conservação Picchio demonstra havia décadas uma alternativa não letal, usando cães da raça Karelian treinados para afugentar ursos e capturas seguidas de relocação, com resultado de nenhum ataque a moradores desde 2015 nas áreas onde o método é aplicado1. O biólogo americano Geoff York, especialista em conflitos entre humanos e ursos, resume o dilema ao comentar a abordagem japonesa como algo que a América do Norte já tentou e abandonou por não funcionar no longo prazo, defendendo que a escolha real diante da humanidade é aprender a conviver com a fauna selvagem ou removê-la por completo1. Essa frase, dita a propósito de ursos, poderia perfeitamente servir de epígrafe para o século XXI inteiro.
Talvez a lição mais honesta que o caso japonês oferece à filosofia não seja um veredito moral fácil, nem contra o abate nem a favor dele, mas o reconhecimento de que a espécie humana, ao se tornar tão numerosa e tão eficiente na exploração de recursos, perdeu o privilégio da neutralidade. Cada floresta que replantamos, cada pastagem que abrimos, cada urso que capturamos ou matamos é, em algum nível, uma decisão filosófica sobre que tipo de planeta queremos deixar para trás, mesmo quando tomada sob a urgência de proteger vidas humanas imediatas. Reconhecer essa responsabilidade não resolve o problema dos ataques de ursos em Nagano, mas talvez seja o primeiro passo para deixarmos de tratá-lo como um problema meramente técnico e começarmos a tratá-lo como o que ele realmente é: uma questão sobre os limites da nossa própria expansão.
Perguntas frequentes
Por que o Japão matou mais de 14 mil ursos?
O governo japonês ampliou o abate após um ano recorde de ataques, motivado pela escassez de frutos e nozes florestais causada pelo calor extremo e pelo avanço de florestas sobre áreas rurais esvaziadas, o que aproximou os ursos de zonas habitadas.
O abate de ursos ameaça a extinção da espécie no Japão?
Especialistas divergem. Organizações de conservação como a Kumamori alertam para o risco de extinções regionais, enquanto pesquisadores como Dave Garshelis e Shinsuke Koike ponderam que o impacto depende de dados populacionais desatualizados desde 2011, hoje em nova apuração.
Qual a relação entre crescimento populacional humano e declínio da fauna selvagem?
A relação é indireta: o crescimento populacional amplia a demanda por terra, alimento e energia, mas o principal fator de perda de biodiversidade, segundo o WWF, é o modelo de uso da terra e dos sistemas alimentares, não o número absoluto de pessoas.
Existem alternativas não letais ao abate de ursos?
Sim. Iniciativas como a da organização Picchio, em Karuizawa, usam cães treinados e captura com relocação, além de manejo de pomares e alertas comunitários, reduzindo conflitos sem recorrer à eliminação em massa.
Referências
- Dickie, Gloria. "Japan killed 14,000 bears after a rise in deadly attacks on people – but will it work?". The Guardian, 27 ago. 2026. Disponível em: theguardian.com
- WWF. "Relatório Planeta Vivo 2024: Um Sistema em Perigo". WWF Brasil, out. 2024. Disponível em: wwf.org.br
- WWF International. "2024 Living Planet Report". Disponível em: worldwildlife.org
- Bar-On, Y. M.; Phillips, R.; Milo, R. "The biomass distribution on Earth". Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 2018. Resumo em português disponível em: purorumo.pt
- Plumwood, Val. "Nature in the Active Voice". Australian Humanities Review, 2009. Disponível em: press-files.anu.edu.au
- Organização das Nações Unidas (ONU/DESA). "World Population Prospects 2024". Síntese em português disponível em: pt.wikipedia.org