Economia · Comércio Global

Dezoito das maiores potências marítimas do mundo emitiram, nesta terça-feira, um alerta raro: as regras que sustentam a livre navegação e a neutralidade dos navios mercantes, pilares do comércio internacional há décadas, estão se desfazendo. O documento, assinado pelo Consultative Shipping Group (CSG), aponta guerras, ataques a embarcações comerciais e a expansão descontrolada de uma frota que opera fora dos padrões internacionais de seguro e transparência como sinais de uma mudança estrutural, e não de choques passageiros, no funcionamento do comércio marítimo global.

O grupo, que reúne autoridades marítimas de países como Grécia, Cingapura, Dinamarca, Japão, Canadá, Reino Unido, Países Baixos e Coreia do Sul, representa mais de um quinto do comércio mundial em tonelagem. Segundo o Financial Times, trata-se da primeira manifestação pública do CSG desde sua criação, há mais de 60 anos, o que por si só sinaliza a gravidade percebida pelas próprias autoridades do setor.

Por que o alerta veio agora

O gatilho imediato foi a escalada de tensões no Estreito de Hormuz, corredor por onde passa uma fatia relevante do petróleo mundial, somada à disputa por outros pontos de estrangulamento marítimo. Segundo reportagem do Financial Times, a disputa pelo controle da rota, a pandemia de Covid-19 e o crescimento da chamada frota-fantasma criada em resposta às sanções dos Estados Unidos, da União Europeia e do Reino Unido não configuram episódios isolados, mas sinais de uma transformação estrutural no ambiente operacional do comércio global.

Reportagens complementares publicadas nesta terça-feira detalham o alcance do problema. Segundo a CNBC, o CSG afirmou que mais de 80% do comércio mundial é transportado por via marítima e descreveu a existência de uma frota-fantasma não regulada, com centenas de navios operando fora dos padrões usuais de seguro, segurança e transparência. Já o portal especializado Splash247 apurou que o grupo passou a tratar o transporte marítimo como infraestrutura crítica, no mesmo patamar de segurança alimentar e energética global, citando ainda a pandemia, a guerra na Ucrânia, a seca no Canal do Panamá e o conflito no Oriente Médio como episódios que expuseram a fragilidade da cadeia marítima.

"O resultado é um sistema de dois níveis: um regido por regras, o outro pela opacidade, enfraquecendo ambos." Consultative Shipping Group, em comunicado citado por veículos internacionais

A frota-fantasma em números

O termo frota-fantasma designa navios, em geral mais antigos e mal segurados, que desligam ou falsificam seus sistemas de identificação automática para transportar carga sancionada, sobretudo petróleo russo e iraniano, driblando o monitoramento ocidental. Estimativas do setor, citadas por veículos como Splash247 e Türkiye Today com base em dados da TankerTrackers.com, apontam que essa frota já soma mais de 1.500 navios-tanque, o equivalente a quase um quinto da capacidade global de transporte de petróleo por navios-tanque.

Essa movimentação não é nova enquanto preocupação institucional. Já em outubro de 2025, o Canadá e a Dinamarca haviam convocado um grupo de trabalho reunindo países do G7 e da aliança nórdico-báltica para reforçar ações contra a frota-fantasma, em resposta a uma resolução da Organização Marítima Internacional (IMO) de dezembro de 2023 que pedia aos Estados-membros medidas contra operações ilegais no setor. O comunicado do CSG desta semana escala esse esforço para o nível diplomático mais alto já registrado pelo grupo.

O que isso significa para o Brasil

Ainda que o epicentro da crise esteja no Oriente Médio e no Báltico, o impacto chega à economia brasileira por uma via direta: o frete. O país depende do transporte marítimo para escoar a maior parte de suas exportações, com destaque para soja, minério de ferro e petróleo, e qualquer distorção nos preços e na previsibilidade dos fretes internacionais afeta diretamente a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.

Executivos do setor logístico já relatam pressão concreta sobre os custos. Durante o Comex Tech Forum 2026, em São Paulo, Carlos Ralph, sócio da empresa de logística CSS, afirmou que o frete marítimo entre China e Brasil chegou à casa de US$ 10 mil, ante uma faixa considerada normal de US$ 2 mil a US$ 3 mil, atribuindo parte da alta ao cenário geopolítico internacional. Levantamentos da Datamar, com base na plataforma DataLiner, mostram ainda que as exportações brasileiras conteinerizadas cresceram de forma moderada nos últimos meses, enquanto as importações avançaram em ritmo mais acelerado, um descompasso que tende a se acentuar caso o custo do frete siga pressionado por instabilidade geopolítica.

Some-se a isso a exposição brasileira a rotas alternativas. Desvios como o que forçou navios a contornar o Cabo da Boa Esperança durante as interrupções no Mar Vermelho já mostraram como disrupções distantes encarecem o frete internacional e alongam prazos de entrega, inclusive para cargas que partem de portos como Santos rumo à Europa e à Ásia. Um sistema marítimo mais fragmentado, como descrito pelo CSG, tende a tornar esse tipo de choque mais frequente, não mais raro.

Cabotagem e BR do Mar, uma resposta parcial

Do lado interno, o programa BR do Mar, lançado em 2020, busca reduzir a dependência brasileira de rotas internacionais para o transporte entre portos nacionais, incentivando a cabotagem. A iniciativa não resolve a exposição do país às rotas de exportação, mas indica que o tema da resiliência marítima já está, ainda que de forma incipiente, na agenda de política industrial e logística brasileira.

Contraponto

Nem todos os analistas leem o momento como um colapso iminente do sistema marítimo. Parte do setor de seguros pondera que o mercado já vem se ajustando havia anos a rotas de risco, com prêmios de guerra recalculados a cada renovação de apólice desde o início do conflito no Oriente Médio, o que sugere adaptação gradual, não ruptura súbita. Também é preciso considerar que a Organização Marítima Internacional (IMO), fundada em 1948 e da qual o Brasil é membro desde 1957, segue como fórum de governança amplamente reconhecido, com 175 Estados-membros, ainda que o CSG defenda uma aplicação mais consistente e menos fragmentada de suas regras.

Linha do tempo

  • Dez. 2023 IMO aprova resolução pedindo ações contra operações ilegais de frotas-fantasma.
  • Out. 2025 Canadá e Dinamarca convocam força-tarefa do G7 e países nórdico-bálticos contra a frota-fantasma.
  • Fev. 2026 Escalada de conflito no Oriente Médio eleva prêmios de seguro para petroleiros que cruzam o Estreito de Hormuz.
  • Mar. 2026 Ataque ao graneleiro Mayuree Naree, próximo ao Estreito de Hormuz, ilustra os riscos a navios comerciais.
  • Set. 2026 CSG publica primeiro comunicado público em mais de 60 anos, alertando para colapso estrutural das regras marítimas.

Perguntas frequentes

O que é o Consultative Shipping Group (CSG)?

É um grupo informal de cooperação entre autoridades marítimas de 18 países, entre eles Grécia, Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Noruega, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido, criado para defender o acesso livre aos mercados internacionais de transporte marítimo. Seus membros respondem por mais de um quinto do comércio mundial em tonelagem.

O que é a frota-fantasma?

É o conjunto de navios, em geral antigos e mal segurados, que operam fora dos padrões convencionais de seguro, segurança e transparência, frequentemente desligando seus sistemas de identificação para transportar carga sancionada, como petróleo russo e iraniano, driblando fiscalizações internacionais.

Como o alerta do CSG afeta o Brasil?

De forma indireta, mas concreta: o Brasil depende do transporte marítimo para exportar soja, minério de ferro e petróleo, e a maior instabilidade em rotas e seguros tende a elevar o custo do frete internacional, como já vem sendo relatado por empresas de logística que atuam no comércio exterior brasileiro.

Quantos navios compõem a frota-fantasma hoje?

Estimativas do setor, baseadas em dados da TankerTrackers.com, indicam mais de 1.500 navios-tanque operando fora dos marcos regulatórios convencionais, o equivalente a quase um quinto da capacidade global de navios-tanque.

Glossário

Frota-fantasma
Navios que operam fora dos padrões internacionais de seguro, segurança e transparência, muitas vezes para driblar sanções internacionais.
Estreito de Hormuz
Canal marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo.
IMO
Organização Marítima Internacional, agência da ONU responsável por regular a segurança, o meio ambiente e a eficiência do transporte marítimo global, da qual o Brasil é signatário desde 1957.
Cabotagem
Transporte marítimo de cargas entre portos do mesmo país, incentivado no Brasil pelo programa BR do Mar.

Referências

  1. Financial Times. "Global shipping rules are collapsing, say maritime nations". Disponível em: https://www.ft.com/content/c6517e52-b855-487c-8408-7071936cf3b0
  2. CNBC. "Global shipping authorities warn of maritime trade breakdown amid geopolitical turmoil".
  3. Splash247. "Shipping powers warn global maritime rulebook is breaking down".
  4. Insurance Business UK. "Shipping's two-tier system is now a structural risk, nations warn".
  5. Türkiye Today. "18 maritime powers warn global shipping order is breaking down".
  6. Canadá, Global Affairs. "Joint statement: Shadow Fleet Task Force" (outubro de 2025).
  7. Logweb. "Tarifaço global entra em 2026, pressiona o comércio exterior e acelera a demanda por inteligência de dados na logística marítima".
  8. Vanguarda do Norte. "Frete marítimo e tarifas pressionam comércio exterior brasileiro".
  9. Transporte Moderno. "Importações brasileiras em contêineres avançam 16% e impulsionam disputa entre gigantes da logística".

Nesta matéria

Números-chave

Comércio mundial via marítima80%+
Membros do CSG18
Fatia do comércio global (tonelagem)1/5
Frota-fantasma estimada1.500+ navios
Frete China-Brasil (pico 2026)US$ 10 mil
Faixa normal do freteUS$ 2-3 mil
Idade do CSG60+ anos