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O governo de Vladimir Putin prepara para 2027 o orçamento mais militarizado da Rússia desde o fim da União Soviética. Documentos do Ministério das Finanças obtidos pela agência Reuters mostram que a defesa deve receber 17,1 trilhões de rublos, o equivalente a cerca de US$ 202,6 bilhões, o maior valor desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.[2] Somadas as despesas com polícia, Guarda Nacional e serviços de inteligência, a área de segurança absorve cerca de 44% de todo o gasto federal, como detalhou o correspondente Javier G. Cuesta em reportagem do El País.[1]

O projeto deve ser enviado à Duma Estatal até 1º de outubro.[2] A aprovação é dada como certa em um Parlamento dominado pelo partido do Kremlin. O que importa, portanto, não é o placar da votação, mas o que o documento revela: uma economia que reorganizou suas prioridades em torno da guerra e passou a financiar essa escolha com dívida cara, cortes em serviços sociais e aumento de impostos.

Os números do projeto para 2027

Segundo os documentos citados pela Reuters, a defesa somará cerca de 50 trilhões de rublos no triênio 2027 a 2029.[2] O El País acrescenta que o Kremlin mantém, para 2028 e 2029, gastos militares acima de 16 trilhões de rublos por ano, o que indica que o planejamento oficial não trabalha com um cenário de paz no médio prazo.[1] Apenas o Ministério da Defesa ficaria com cerca de 35% do gasto federal, proporção sem paralelo desde o período soviético.[1]

Gasto russo com defesa, em trilhões de rublos, 2025 a 2029 2025: 13,5 orçado; 2026: 12,9 orçado; 2027: 17,1 no projeto; 2028 e 2029: acima de 16 cada. 051015 13,512,917,116+16+ 20252026202720282029 orçadoorçadoprojetoprevisãoprevisão
Gasto com a rubrica de defesa, em trilhões de rublos. Valores orçados, não executados: o gasto efetivo de 2026 é sigiloso e parte da despesa militar aparece em outras rubricas. Fontes: Reuters, El País, Meduza. Elaboração: O Tecido.

Por que as porcentagens divergem: 27% ou 32%?

Leitores que acompanharam o tema em diferentes veículos encontraram dois números para o mesmo aumento, e ambos estão corretos. A Reuters calcula uma alta de cerca de 27% porque compara os 17,1 trilhões com os 13,5 trilhões que o orçamento anterior havia reservado para 2027.[2] O El País fala em alta de 32% porque usa como base os 12,9 trilhões orçados para 2026.[1]

Há uma terceira camada de incerteza. A própria Reuters observa que o valor efetivamente gasto com defesa em 2026 é classificado e não será divulgado, e que parte da despesa militar é contabilizada em outras rubricas do orçamento.[2] O economista Janis Kluge, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), lembrou que o Ministério das Finanças chegou a planejar uma leve redução do gasto militar neste ano, plano que a realidade da guerra desfez.[10] Em outras palavras, os números oficiais funcionam como piso, não como teto.

Déficit dobrado e dívida a juros de 14%

O lado da receita não acompanha o ritmo do gasto. O governo revisou a estimativa de déficit federal de 2026 de 1,6% para 3,2% do PIB, e a despesa total deste ano deve crescer 13,2%, chegando a 48,6 trilhões de rublos.[2] Para 2027, o projeto prevê gastos de 48,8 trilhões contra receitas de 43,3 trilhões, um déficit de 2,2% do PIB, com as captações totais subindo 43%, para 7,7 trilhões de rublos.[3] A dívida pública passaria de 19,9% para 21,7% do PIB, acima do patamar de 20% que as próprias autoridades russas consideram seguro.[2]

Parte da explicação está no petróleo. Os ataques de drones ucranianos a refinarias reduziram a arrecadação com hidrocarbonetos: o ministério espera arrecadar 7,6 trilhões de rublos com o setor em 2026, e não os 8,9 trilhões previstos, mesmo com a alta de preços provocada pela crise no estreito de Ormuz.[1] Para cobrir o buraco deste ano, o governo recorrerá também ao Fundo Nacional de Bem-Estar, com saque de 459 bilhões de rublos, cerca de 11% da parcela líquida do fundo.[3]

O problema da dívida russa não é o tamanho, é o preço. Isolado dos mercados ocidentais, o Kremlin se financia a juros próximos de 14% para comprar mísseis e pagar soldos.

A relação dívida/PIB russa é baixa pelos padrões internacionais, mas o custo de rolagem é alto. Como apontou o El País, as emissões recentes de títulos precisaram oferecer rendimentos equivalentes à taxa básica, acima de 14%, e o serviço da dívida já supera 4 trilhões de rublos, mais de 9% do orçamento.[1] O Banco da Rússia manteve a taxa em 14% ao ano em 11 de setembro, citando a aceleração da inflação subjacente causada pela redução temporária de capacidade produtiva em alguns setores.[4]

Saúde perde espaço para juros e quartéis

A comparação mais eloquente do projeto está entre as rubricas sociais. Segundo o El País, o orçamento federal destina 1,4 trilhão de rublos à saúde, montante complementado por 5,2 trilhões do Fundo Federal de Seguro Médico Obrigatório.[1] Ou seja, o gasto direto do Tesouro com saúde é hoje menos de um terço do que o país paga de juros. O jornal espanhol relata ainda que, neste ano, o governo cortou oito de onze linhas orçamentárias centrais da área, reduzindo à metade a verba para modernizar a atenção primária e em um terço a destinada à oncologia.[1]

Composição aproximada do gasto federal russo previsto para 2027
Ministério da Defesa Polícia, Guarda Nacional e inteligência Juros da dívida Saúde, educação, previdência, investimentos e demais
Estimativa com base nos percentuais divulgados por El País e Reuters. Juros calculados sobre o gasto atual; proporções arredondadas. Elaboração: O Tecido.

Impostos depois das urnas

O terceiro instrumento de financiamento é tributário. Conforme o El País, na semana passada o governo aprovou um aumento amplo de impostos, que atinge rendimentos de investimentos e depósitos, venda de imóveis e compras no exterior, poucos dias depois das eleições legislativas de 20 de setembro, período em que a medida vinha sendo negada.[1] A sequência é politicamente reveladora: o custo da guerra foi apresentado ao eleitor apenas depois que o voto já estava contado.

Há também o custo humano convertido em folha de pagamento. Putin elevou pela quarta vez neste ano o teto de efetivos das Forças Armadas, para 2,4 milhões de pessoas, das quais pouco mais de 1,5 milhão são militares.[1] Salários e bônus de alistamento, que servem para atrair voluntários sem recorrer a uma nova mobilização impopular, pesam diretamente sobre a rubrica de defesa.

Uma economia que cresce para dentro da guerra

O projeto orçamentário chega num momento de desaceleração. Depois de crescer 4,9% em 2024 e 1% em 2025, a economia russa tem previsão de expansão entre 0% e 1% em 2026, segundo o banco central, que revisou a projeção para baixo em julho.[5] O próprio Banco da Rússia reconheceu, em boletim recente, que o consumo e a parcela da indústria voltada a encomendas estatais de defesa seguem como motores principais do crescimento.[6]

Economistas chamam esse arranjo de keynesianismo militar: o Estado sustenta a atividade por meio de encomendas bélicas, salários altos no front e na indústria de armamentos, e desemprego em mínimas históricas. O modelo produz números de curto prazo aceitáveis, mas desloca capital e mão de obra de setores civis, pressiona a inflação e exige juros elevados, que por sua vez sufocam o investimento privado. O orçamento de 2027 aprofunda essa dependência em vez de corrigi-la.

Em perspectiva global, os dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) já indicavam a escala do esforço: a Rússia gastou cerca de US$ 190 bilhões com defesa em 2025, 7,5% do PIB, e o peso do gasto militar sobre o gasto público total atingiu o maior nível já registrado no país.[7] Para comparação, o Brasil aparece na 21ª posição do ranking, com US$ 23,9 bilhões.[7]

O que o orçamento russo tem a ver com o Brasil

A ligação mais concreta passa pelo tanque de combustível e pela lavoura. Dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que a Rússia respondeu por metade do diesel importado pelo Brasil entre janeiro e agosto de 2026 e por 21,6% do adubo comprado no exterior; combustíveis e fertilizantes somam 96% de tudo que o país importa dos russos.[8] No mesmo período, o Brasil comprou 11% menos diesel importado, mas gastou 29% mais, cerca de US$ 7,68 bilhões.[8]

A guerra fiscal e a guerra física se cruzam aqui. Os ataques ucranianos às refinarias que corroem a receita de Moscou também reduzem a oferta de derivados. Segundo a Abicom, associação dos importadores de combustíveis, a participação russa nas importações brasileiras de diesel caiu para cerca de 17% em julho, e distribuidoras voltaram a comprar de fornecedores tradicionais, sobretudo dos Estados Unidos.[9] Para um país que importa entre 20% e 30% do diesel que consome, cada solavanco no fornecimento russo se traduz em custo de frete e, no limite, em preço de alimentos.

Há ainda uma dimensão diplomática. Como parceiro no BRICS e defensor de uma solução negociada para o conflito, o Brasil acompanha um orçamento que, ao projetar gasto militar elevado até 2029, sinaliza que Moscou não conta com o fim da guerra no horizonte próximo. Essa leitura importa para qualquer estratégia brasileira de mediação, de diversificação de fornecedores e de política de estoques de combustíveis e fertilizantes.

Contraponto

Nem todos os analistas leem o projeto como sinal de colapso iminente. Os principais argumentos em sentido contrário:

  • Dívida ainda baixa. Mesmo chegando a 21,7% do PIB em 2027, o endividamento russo segue muito abaixo do de grande parte das economias do G20, inclusive o Brasil. Há espaço contábil para absorver déficits por alguns anos.
  • Déficit menor em 2027. O projeto prevê recuo do déficit de 3,2% para cerca de 2,2% do PIB no ano que vem, o que indica tentativa de consolidação, ainda que dependente de aumento de impostos.[3]
  • Inflação sob vigilância. O Banco da Rússia sustenta que a aceleração recente decorre de fatores pontuais e mantém a meta de 4%, com inflação anual de 6,3% no início de setembro, bem abaixo dos picos de 2024 e 2025.[4]
  • Emprego e renda. O desemprego em mínimas históricas e os salários pagos pela indústria de defesa sustentam o consumo, fator que ajuda a explicar a estabilidade política interna apesar do custo social.

O ponto em disputa não é se a Rússia consegue pagar a guerra em 2027, mas quanto de crescimento futuro está sendo trocado por capacidade militar presente.

O que observar nas próximas semanas

Três indicadores devem orientar a leitura do debate na Duma. Primeiro, se o texto final preserva a proporção de 44% para defesa e segurança ou se há remanejamentos para áreas sociais. Segundo, a próxima decisão do Banco da Rússia sobre a taxa básica, que define o custo da nova dívida. Terceiro, o ritmo dos ataques a refinarias, que afeta simultaneamente a receita russa e o mercado brasileiro de diesel.

Perguntas frequentes

Quanto a Rússia vai gastar com defesa em 2027?

O projeto prevê 17,1 trilhões de rublos, cerca de US$ 202,6 bilhões ou 178 bilhões de euros, o maior valor desde 2022 e aproximadamente 35% do gasto federal.

Por que algumas reportagens falam em 27% e outras em 32%?

Mudam as bases de comparação: 27% em relação aos 13,5 trilhões antes previstos para 2027; 32% em relação aos cerca de 12,9 trilhões orçados para 2026.

Qual a fatia do orçamento destinada a defesa e segurança?

Somando Forças Armadas, polícia, Guarda Nacional e inteligência, são 21,4 trilhões de rublos, cerca de 44% do gasto federal de 2027.

Como isso afeta o Brasil?

A Rússia forneceu metade do diesel importado pelo Brasil e mais de um quinto do adubo importado entre janeiro e agosto de 2026. Oscilações na produção e na estratégia exportadora russa afetam preço e disponibilidade desses insumos.

A dívida pública russa é alta?

Em proporção do PIB, não: deve chegar a 21,7% em 2027. O problema é o custo, com captações a juros próximos de 14% e serviço da dívida acima de 4 trilhões de rublos por ano.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem de Javier G. Cuesta publicada pelo El País em 29 de setembro de 2026. As informações atribuídas ao jornal espanhol estão creditadas ao longo do texto. Análise, contexto brasileiro e fontes complementares são de responsabilidade de O Tecido.

Ewerton Lopes — Curador Editorial