O investidor pessoa física americano chega a outubro de 2026 com o mesmo apetite que o transformou em protagonista do mercado cinco anos atrás. Juros elevados, petróleo na casa dos US$ 100 e guerra no Oriente Médio não o tiraram das plataformas de negociação. A atividade se concentra justamente no instrumento mais alavancado e de vida mais curta disponível: as opções.
Segundo o The Wall Street Journal, o volume nocional diário de opções sobre ações individuais nos Estados Unidos chegou recentemente a cerca de US$ 700 bilhões, patamar comparável ao do auge das meme stocks em 2021, de acordo com a gestora Carrick Lane, especializada em estratégias com derivativos.1 O jornal registra também que os preços das opções de compra já superaram os níveis daquela época.
O que os números mostram sobre o perfil das apostas
O volume, sozinho, diz pouco. O dado mais revelador é o prazo dos contratos. A Citadel Securities, uma das maiores formadoras de mercado dos EUA, informou que em junho o varejo negociou em média US$ 6,7 bilhões por dia em prêmios de opções na sua plataforma, recorde histórico. Depois que as bolsas americanas passaram a oferecer vencimentos às segundas e quartas-feiras para ações individuais no início do ano, quase metade do volume de opções do varejo executado pela empresa passou a ocorrer em contratos 0DTE, que expiram no mesmo dia em que são negociados. Em 2025 essa fatia era de cerca de 30%. Em 2021, de 13%.2
A bolsa MEMX observou o mesmo movimento por outro ângulo: entre janeiro e maio, o volume 0DTE em nove ações de grande capitalização cresceu 219%, e esses contratos passaram de 15% para 33% do volume total de opções desses papéis.3 O WSJ acrescenta, citando John Marshall, sócio da Carrick Lane, que mais da metade do volume atual de opções sobre ações individuais está em contratos a menos de duas semanas do vencimento.1
Em termos práticos, uma parcela crescente do mercado deixou de expressar teses sobre empresas e passou a expressar palpites sobre o movimento de uma tarde.
Por que o varejo não recua
A explicação de Wall Street, relatada pelo WSJ, tem base nos fundamentos. As empresas do S&P 500 devem reportar crescimento de lucro próximo de 30% no terceiro trimestre na comparação anual, e a projeção para 2026 como um todo é de alta de 33%, segundo a FactSet.1 A pesquisa semanal da American Association of Individual Investors mostrou 40,3% dos participantes esperando alta das ações nos seis meses seguintes na semana encerrada em 7 de outubro, o maior nível desde meados de julho.1
Há também um componente de aprendizado por reforço. Desde 2020, cada queda relevante foi seguida de recuperação. O jornal lembra que esse grupo de investidores continuou comprando durante a liquidação de abril de 2025, provocada pela guerra comercial, ajudou a consagrar uma nova safra de ações ligadas à inteligência artificial e participou em massa da oferta pública inicial da SpaceX.1 Para quem entrou no mercado nesse período, a experiência acumulada ensina que comprar na queda funciona. A economia comportamental chama isso de viés de recência: a amostra vivida passa a valer como regra, mesmo sendo curta e atípica.
A concentração reforça o diagnóstico. Na Citadel Securities, os dez ativos mais negociados pelo varejo responderam por cerca de dois terços de todo o prêmio de opções tanto em novembro de 2021 quanto em junho de 2026.2 O cardápio mudou, com semicondutores, empresas espaciais e infraestrutura de IA no lugar de GameStop e AMC, mas a estrutura do comportamento é a mesma.
O instrumento que nasceu para proteger carteiras virou, para parte do varejo, um bilhete de resultado instantâneo.
Quem paga a conta das opções de vencimento diário
A literatura acadêmica sobre o tema é pouco animadora para o investidor individual. Um estudo de Heiner Beckmeyer, Nicole Branger e Leander Gayda, da Universidade de Münster, acompanhou as operações do varejo em opções 0DTE do índice S&P 500 e concluiu que, desde a introdução dos vencimentos diários em maio de 2022, esses investidores perderam em média cerca de US$ 358 mil por dia no agregado.5 Parte expressiva das perdas veio dos custos de transação, e o prejuízo se concentrou nas compras de opções, enquanto as vendas tenderam a ser lucrativas.
O mecanismo tem nome técnico: prêmio de risco de variância. Opções costumam ser precificadas acima da volatilidade que efetivamente se realiza, porque quem as vende cobra pelo risco de assumir a outra ponta. Quem compra de forma sistemática paga um seguro caro, e com contratos que vivem poucas horas o efeito dos spreads e das taxas se torna proporcionalmente maior.
Os autores encerravam o trabalho com um alerta específico: se os vencimentos diários fossem estendidos às opções sobre ações individuais, as perdas potenciais do varejo seriam multiplicadas.5 Em 2026, a ampliação dos vencimentos para ações individuais caminhou exatamente nessa direção. O estudo usa dados anteriores a essa mudança, e ainda não há avaliação pública equivalente para o novo cenário. A pergunta, porém, está colocada.
E no Brasil: a B3 também vive recordes em opções
O fenômeno não é exclusivamente americano. A B3 informou que o mercado de opções mensais e semanais sobre ações, ETFs e BDRs encerrou 2025 com volume financeiro médio diário recorde de R$ 687 milhões, acima dos R$ 658 milhões de 2022. Na divisão por perfil, investidores não residentes responderam por 55% do volume, pessoas físicas por 30% e institucionais por 15%.6 Em 13 de fevereiro de 2026, as opções sobre ações bateram recorde diário de R$ 2,7 bilhões negociados.6
Dados apresentados pela bolsa na B3 Week 2026 indicam que, até julho, essas opções movimentaram em média R$ 1 bilhão por dia, alta de aproximadamente 50% sobre a média de 2025. Desde novembro de 2025, as opções de Ibovespa contam com vencimentos em todos os dias úteis, abrindo espaço para o mesmo tipo de operação de curtíssimo prazo que cresce nos EUA.7
A base de investidores também segue crescendo. Em agosto, a B3 contava 5,82 milhões de CPFs na depositária do mercado à vista, alta de 8,3% em doze meses.8
Há, no entanto, uma diferença estrutural entre os dois mercados. O varejo americano de 2021 operava com juros próximos de zero, o que reduzia o custo de oportunidade de qualquer aposta. No Brasil, a Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, após o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto, e o Copom volta a se reunir em 3 e 4 de novembro.9 Com a renda fixa pagando taxas reais elevadas, cada real alocado em opções de curtíssimo prazo carrega um custo implícito muito mais alto do que nos EUA.
A evidência brasileira sobre operações de curto prazo do varejo aponta na mesma direção da americana. Pesquisadores da FGV acompanharam as 19.696 pessoas que começaram a fazer day trade em minicontratos de Ibovespa entre 2013 e 2015: 92,1% desistiram, e entre as 1.558 que persistiram por mais de 300 pregões, 91% tiveram prejuízo. Apenas 13 obtiveram lucro médio diário acima de R$ 300.11 Outro estudo, de Fernando Chague e Bruno Giovannetti, estimou em R$ 9,9 bilhões as perdas brutas de pessoas físicas com day trade durante a pandemia, sem contar corretagem, cursos e plataformas.10 Os dois trabalhos tratam de day trade em geral, e não especificamente de opções, mas descrevem o mesmo padrão: operações de horizonte muito curto transferem recursos do varejo para participantes mais bem equipados.
Nem todo volume em opções é especulação
Ler o boom apenas como imprudência seria simplificar demais. Opções são, antes de tudo, instrumentos de proteção, e a própria B3 atribui a expansão do mercado à evolução das estratégias de gestão de risco e de proteção de carteira.6 Um estudo da Cboe sobre opções 0DTE do índice Russell 2000 mostrou que mais de três quartos da atividade do varejo nesse produto se dá em estratégias combinadas, como travas e iron condors, que limitam a perda máxima.4
O volume nocional também superdimensiona o risco efetivo: contratos que abrem e fecham no mesmo dia geram volume alto e posição em aberto pequena. E o próprio WSJ registra sinais de prudência. O ativo mais comprado por clientes da Charles Schwab em setembro foi um ETF de ações pagadoras de dividendos, a primeira vez que um ETF ocupou esse posto desde 2021, e o estrategista Joe Mazzola descreve o momento como de otimismo cauteloso.1
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis devem definir se o entusiasmo atual se sustenta. A primeira é a temporada de balanços do terceiro trimestre nos EUA: resultados abaixo da expectativa de 30% de crescimento testariam diretamente a tese que ancora o otimismo. A segunda é a sazonalidade apontada pela Citadel Securities e citada pelo WSJ, segundo a qual a desaceleração do varejo no verão costuma se reverter em outubro.1 A terceira, no caso brasileiro, é a decisão do Copom de novembro, que redefine o custo de oportunidade de qualquer aposta em renda variável.
O ponto central não muda com o ciclo. Opções de vencimento diário são um produto legítimo e útil para quem sabe precificá-las. Para o investidor que as compra de forma recorrente em busca de ganhos rápidos, a evidência disponível, nos EUA e no Brasil, mostra um resultado agregado consistentemente negativo. O mercado de 2026 parece mais maduro que o de 2021 em vários aspectos. Na disposição de pagar caro por uma chance de ganho imediato, nem tanto.
Perguntas frequentes
O que são opções 0DTE?
São opções que vencem no mesmo dia em que são negociadas (zero days to expiration). Por terem vida de poucas horas, oferecem alavancagem muito alta: pequenos movimentos do ativo podem multiplicar ou zerar o valor pago.
Qual é o volume atual de opções sobre ações nos EUA?
Segundo o The Wall Street Journal, citando a Carrick Lane, o volume nocional de opções sobre ações individuais chegou recentemente a cerca de US$ 700 bilhões por dia, nível próximo ao do auge das meme stocks em 2021.
Quanto do volume de opções do varejo americano está em contratos 0DTE?
Na Citadel Securities, quase metade do volume de opções do varejo em junho de 2026 estava em contratos 0DTE, contra cerca de 30% em 2025 e 13% em 2021.
Investidores pessoa física ganham dinheiro com opções de vencimento diário?
No agregado, não. Estudo da Universidade de Münster estimou perdas médias de cerca de US$ 358 mil por dia para o varejo em opções 0DTE do S&P 500 após a introdução dos vencimentos diários, com grande peso dos custos de transação.
O mercado de opções também cresce no Brasil?
Sim. As opções sobre ações na B3 tiveram volume médio diário recorde de R$ 687 milhões em 2025 e cerca de R$ 1 bilhão por dia em 2026 até julho. Pessoas físicas respondem por cerca de 30% do volume, atrás dos investidores estrangeiros.
Ewerton Lopes — Curador Editorial