Caderno Política · Relações Internacionais
- A 81ª Assembleia Geral ocorre com a ONU sob pressão financeira, institucional e política, sob o tema oficial "Restaurar a confiança, gerir a transformação".
- O orçamento regular de 2026 foi cortado em 15,1% e quase 2.700 postos foram eliminados; os atrasados somavam cerca de US$ 1,6 bilhão ao fim de 2025.
- França e México defendem suspender o veto em casos de atrocidades em massa; a proposta está perto, mas ainda abaixo, do apoio de dois terços dos membros.
- A sucessão de Guterres segue indefinida, com sete candidatos e pressão para a escolha da primeira mulher no cargo.
- O Brasil, que abre o debate desde 1955, usou a tribuna para dizer que a credibilidade da ONU nunca esteve tão baixa.
Na semana em que cerca de 130 chefes de Estado e de governo passam pela tribuna da Assembleia Geral em Nova York, a pergunta que atravessa os corredores da sede das Nações Unidas não trata de um conflito específico. Trata da própria organização. A 81ª sessão foi aberta com o tema "Restaurar a confiança, gerir a transformação: uma ONU que entrega para todos", enquanto a instituição administra um caixa no limite, um Conselho de Segurança travado por vetos e uma sucessão de António Guterres ainda sem favorito consolidado.2
Em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada nesta quinta-feira (24), a ministra delegada francesa encarregada da Francofonia, das Parcerias Internacionais e dos Franceses no Exterior, Éléonore Caroit, sintetizou a posição de Paris: a ONU está em crise, mas, se não existisse, seria preciso inventá-la.1 Advogada franco-dominicana de 41 anos e filiada ao Renaissance, partido surgido do macronismo, Caroit admitiu ao repórter Luis Doncel que a organização enfrenta ao mesmo tempo uma crise financeira, uma crise de governança e uma crise de confiança e legitimidade.1
O diagnóstico não é exclusivo do governo francês. Ele aparece, com ênfases diferentes, nos discursos de Luiz Inácio Lula da Silva, de Emmanuel Macron e do próprio Donald Trump nesta Assembleia. O que muda de um líder para outro é a conclusão: reformar, defender ou esvaziar.
Três crises ao mesmo tempo
O caixa
A crise mais concreta é a financeira. Em outubro de 2025, Guterres apresentou à Quinta Comissão da Assembleia Geral, responsável por orçamento e administração, uma proposta revisada de US$ 3,238 bilhões para o orçamento regular de 2026. O valor ficou 15,1% abaixo do aprovado para 2025 e previa a eliminação de 2.681 postos, dentro da iniciativa de reestruturação conhecida como UN80.3 Mesmo com o corte, a organização encerrou 2025 com cerca de US$ 1,6 bilhão em contribuições obrigatórias não pagas.3
A concentração da dívida é o dado politicamente mais relevante. Levantamento do Global Policy Forum atribuía aos Estados Unidos cerca de 95% dos atrasados em fevereiro de 2026.5 Segundo a Human Rights Watch, além de EUA e China, cerca de 82 dos 193 Estados-membros ainda não haviam pago integralmente suas cotas no fim de maio, e o governo Trump justifica a retenção de pagamentos com acusações de ineficiência, corrupção e hostilidade da ONU contra Washington e Israel.4
A escala ajuda a dimensionar a disputa. O orçamento regular da ONU para 2026 é pequeno diante dos US$ 50,7 bilhões do orçamento do Departamento de Estado americano no mesmo ano fiscal.4 Não se trata, portanto, de um problema de capacidade de pagamento, e sim de decisão política.
O Conselho de Segurança
A segunda crise é de governança e tem endereço conhecido: o direito de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França). Na entrevista ao El País, Caroit lembrou a iniciativa conjunta de França e México para limitar o uso do veto e afirmou que ela reúne o apoio de mais de 120 países.1
A proposta nasceu em 2013 e ganhou forma em 2015, quando os dois países apresentaram uma declaração política para que os membros permanentes se comprometam, de forma voluntária e coletiva, a não vetar resoluções destinadas a deter genocídios, crimes contra a humanidade e crimes de guerra em larga escala. Por ser voluntária, não exige mudança na Carta.6 Em outubro de 2015, eram 80 signatários;7 em 2022, 106;6 e, após adesões de países africanos anunciadas numa cúpula em Nairóbi, o chanceler Jean-Noël Barrot informou 118 apoiadores. O patamar simbólico perseguido por Paris é de 129, o equivalente a dois terços da Assembleia Geral.8 O Brasil consta entre os signatários.7
O obstáculo é estrutural. A França reconhece em documento oficial que os membros permanentes nunca chegaram a um acordo sobre a regra.6 Caroit, questionada sobre como convencer potências a abrir mão de um poder que não querem soltar, apostou no peso simbólico da adesão e no fato de o tema estar sendo debatido nesta Assembleia.1
A legitimidade
A terceira crise é a mais difusa: a dúvida sobre para que serve a ONU. Coube ao Brasil, que por tradição abre o Debate Geral desde 1955,2 formular a versão mais dura dessa dúvida. Na terça-feira (22), Lula afirmou que a organização atravessa seu momento mais crítico desde 2003, quando discursou ali pela primeira vez, e que a ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do flagelo da guerra.9 O presidente disse ainda que a credibilidade da instituição nunca esteve tão baixa e que os países são reféns do imobilismo do Conselho de Segurança.10
Lula foi além e tratou o veto como um defeito de origem. Lembrou que, já na primeira sessão da Assembleia, em 1946, o Brasil alertava para o custo que a comunidade internacional pagaria por esse privilégio.9
"A ONU está em crise, sim. Mas, se não existisse, seria preciso inventá-la."Éléonore Caroit, ministra delegada da França, em entrevista a Luis Doncel, El País (tradução livre)
A sucessão de Guterres
O segundo e último mandato de António Guterres termina em 31 de dezembro. Nenhuma escolha é esperada durante a semana de alto nível: o Conselho de Segurança ainda realiza sondagens informais e precisa chegar a um nome que não seja vetado por nenhum membro permanente antes de recomendá-lo à Assembleia Geral, que faz a nomeação formal.2
Na semana da Assembleia, sete candidatos seguiam na disputa, quatro mulheres e três homens: Rebeca Grynspan (Costa Rica), Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana), Ivonne Baki e María Fernanda Espinosa (Equador), Rafael Grossi (Argentina), Macky Sall (Senegal) e Olara Otunnu (Uganda). A ex-presidente chilena Michelle Bachelet desistiu no sábado (19), depois de receber o apoio de apenas um dos 15 membros do Conselho. Na mesma rodada, segundo diplomatas ouvidos pela Al Jazeera, Grynspan apareceu à frente, com nove votos de incentivo, seguida por Rodrigues-Birkett, com oito.2 A ONU teve nove secretários-gerais desde 1945, todos homens, e vários membros do Conselho defendem a escolha da primeira mulher.2
Cinco dos sete nomes vêm da América Latina e do Caribe, região que não ocupa o cargo desde o peruano Javier Pérez de Cuéllar (1982-1991). Caroit, ao El País, disse que a França não indicou preferência, defendeu que o escolhido tenha capacidade de dialogar com todos e certa neutralidade em relação à trajetória anterior, e considerou prematuro falar em impasse.1
Paris, Washington e a pergunta de 2027
A Assembleia de 2026 marca uma dupla despedida: é a última de Guterres como secretário-geral e a última de Macron como presidente da França. Em seu discurso, Macron apresentou ao plenário uma escolha entre o retorno à "lei da selva" e uma sociedade internacional civilizada, e reiterou o compromisso francês com a ONU e com a revitalização do multilateralismo.11 Também pediu moratórias de ataques contra alvos civis e energéticos na guerra entre Rússia e Ucrânia e contra a navegação comercial no Mar Negro.12
Horas antes, no mesmo púlpito, Trump seguiu a linha oposta. Ameaçou o Irã, com quem os Estados Unidos estão em guerra há quase sete meses, e afirmou que seu país rejeita qualquer tentativa de construir um esquema global para controlar a inteligência artificial.13 Caroit, no entanto, apontou ao El País um dado que relativiza o discurso: apesar das críticas, os Estados Unidos seguem presentes na organização, com uma delegação numerosa, assim como os demais países que a questionam.1
O pano de fundo francês pesa na leitura da entrevista. O mandato de Macron termina em maio de 2027, e Caroit disse temer que o próximo discurso da França na Assembleia seja feito por Marine Le Pen, o que, na avaliação dela, romperia a tradição internacionalista francesa e teria efeitos sobre o projeto europeu.1 Para a ONU, a questão é prática: a França é um dos membros permanentes que mais investem na defesa do sistema multilateral e o país que patrocina a principal proposta de restrição ao veto.
Contraponto
A defesa da ONU feita por Paris não é consenso nem imune a críticas. O governo Trump sustenta que a organização é ineficiente e enviesada, argumento que usa para justificar a retenção de pagamentos.4 Mesmo entre analistas favoráveis ao multilateralismo, há quem reconheça que a crítica americana às "palavras vazias" da ONU encontra eco entre quem conhece a instituição por dentro, ainda que Washington não apresente soluções práticas para melhorá-la.15
Há também limites na proposta francesa. A restrição ao veto é voluntária e depende justamente das potências que detêm o privilégio. E os alertas de Caroit sobre Le Pen são, antes de tudo, a posição de uma integrante do partido governista em período pré-eleitoral. A própria ministra reconheceu que a defesa de saída da França da União Europeia é uma posição que Le Pen sustentava no passado, o que indica mudança de discurso da ultradireita francesa, ainda que sua sinceridade seja objeto de disputa.1
O que está em jogo para o Brasil
Para a diplomacia brasileira, a crise da ONU é ao mesmo tempo um problema e uma oportunidade. O país busca há décadas um assento permanente no Conselho de Segurança, ao lado de Alemanha, Índia e Japão, no grupo conhecido como G4, pleito que conta com o apoio formal da França.6 Na véspera da abertura do debate, o Brasil figurou entre os copatrocinadores, com Austrália, Barbados, Canadá, Índia e Quênia, da iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo, lançada pela União Europeia em Nova York.14
A posição brasileira combina crítica e aposta. Lula denuncia o imobilismo do Conselho, mas defende o fortalecimento, e não o esvaziamento, das instâncias multilaterais. A convergência com Paris sobre o veto é real, mas tem limites: a França defende restringir o uso do veto, enquanto o discurso brasileiro questiona a própria legitimidade do instrumento.
Há ainda um efeito menos visível. Uma ONU com orçamento reduzido e quadro enxuto tende a cortar primeiro programas de desenvolvimento, assistência humanitária e direitos humanos, áreas nas quais países do Sul Global, incluindo o Brasil, têm interesse direto. A escolha do próximo secretário-general, com forte presença latino-americana entre os candidatos, também definirá quanto espaço a região terá na condução dessa agenda a partir de 2027.
Perguntas frequentes
Por que se fala em crise da ONU em 2026?
A organização enfrenta três crises simultâneas: financeira, com cerca de US$ 1,6 bilhão em contribuições atrasadas ao fim de 2025 e orçamento regular 15,1% menor em 2026; de governança, com o Conselho de Segurança paralisado pelo veto; e de legitimidade, com membros questionando sua utilidade diante de guerras que ela não consegue deter.
Quanto os países devem à ONU?
Cerca de US$ 1,6 bilhão em contribuições obrigatórias ao orçamento regular estavam em aberto no fim de 2025. Os Estados Unidos respondiam por cerca de 95% dos atrasados em fevereiro de 2026, segundo o Global Policy Forum.
O que é a iniciativa franco-mexicana sobre o veto?
É uma declaração política de 2015 que propõe que os cinco membros permanentes deixem, voluntariamente, de usar o veto em casos de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra em larga escala. Tinha 118 apoiadores em 2026, segundo o governo francês, contra a meta de 129.
Quem pode suceder António Guterres e quando?
O mandato de Guterres termina em 31 de dezembro de 2026. Sete candidatos seguiam na disputa durante a Assembleia, com Rebeca Grynspan e Carolyn Rodrigues-Birkett à frente na última sondagem informal relatada. O Conselho de Segurança recomenda o nome e a Assembleia Geral nomeia.
Qual é o papel do Brasil nesse debate?
O Brasil abre o Debate Geral desde 1955, defende a reforma do Conselho de Segurança, pleiteia um assento permanente no âmbito do G4, apoia a iniciativa franco-mexicana sobre o veto e copatrocinou a iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo em 2026.
Este artigo tem como ponto de partida a entrevista de Luis Doncel com a ministra Éléonore Caroit publicada pelo jornal El País em 24 de setembro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; trechos citados foram traduzidos livremente e creditados. As demais informações provêm de apuração independente em fontes listadas nas referências.
Ewerton Lopes, Curador Editorial de O Tecido