Durante quinze anos, o principal relatório das Nações Unidas sobre emissões de gases de efeito estufa repetiu a mesma advertência: a janela para limitar o aquecimento global a 1,5 °C estava se fechando, mas ainda existia. Nesta quarta-feira, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) mudou a frase. Na 16ª edição do Relatório sobre a Lacuna de Emissões, a agência reconhece que a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris deixou de ser alcançável sem ultrapassagem e passa a propor um caminho alternativo: aceitar um pico de temperatura entre 1,7 °C e 1,8 °C e tentar trazê-la de volta para baixo de 1,5 °C ao longo do século, conforme reportou o jornal espanhol El País.1
A mudança é menos de diagnóstico do que de linguagem institucional. A ciência já indicava havia anos que a ultrapassagem era o cenário provável. O que muda agora é que o documento de referência usado por governos para calibrar suas metas nacionais passa a tratar essa ultrapassagem como ponto de partida, e não como risco a evitar.
Do alerta à admissão formal
O movimento vinha sendo preparado. A edição de 2025 do relatório, apresentada em novembro às vésperas da COP30, já projetava que o mundo ficaria acima de 1,5 °C por várias décadas e que reverter esse excesso exigiria cortes rápidos e remoção de carbono em escala sem precedentes, segundo a cobertura do lançamento.2 Naquela ocasião, o secretário-geral António Guterres afirmou que uma ultrapassagem temporária já era inevitável, de acordo com o SDG Knowledge Hub.2
Em 2 de setembro de 2026, o PNUMA publicou um estudo específico, intitulado Limiting Overshoot, que já situava o melhor cenário de pico em 1,8 °C e indicava que o retorno a 1,5 °C dependeria de muito mais remoção de carbono do que a disponível, conforme análise publicada após o lançamento.3 O relatório desta quarta incorpora essa leitura ao documento anual de referência.
Os dados de temperatura sustentam a virada. A Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2025 foi o terceiro ano mais quente desde a era pré-industrial, com aquecimento de 1,44 °C sobre a média de 1850 a 1900, atrás apenas de 2024 (1,55 °C) e 2023, conforme a Revista Pesquisa FAPESP.4 Pela série do serviço europeu Copernicus, o triênio 2023 a 2025 foi o primeiro período de três anos com média acima de 1,5 °C, enquanto o aquecimento de longo prazo é estimado em cerca de 1,4 °C.4 A distinção importa: a meta de Paris se refere a médias de longo prazo, e não a anos isolados.
O plano B em números
O novo roteiro do PNUMA, detalhado pelo El País, exige cortes de 18% nas emissões globais até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, tendo como base os níveis de 2025. Isso corresponde a reduções médias de 5,7% ao ano durante a próxima década.1 As metas nacionais (NDCs) hoje apresentadas no âmbito do Acordo de Paris apontam para cortes de 5% a 8% em 2030 e de 11% a 15% em 2035, trajetória que leva a um aquecimento de 2,6 °C.1
O contraste com a edição anterior ajuda a dimensionar o atraso. Em 2025, o cenário de ação rápida modelado pelo PNUMA ainda previa limitar a ultrapassagem a cerca de 0,3 °C, com cortes de 26% até 2030 e 46% até 2035 em relação a 2019.2 A mudança de ano-base não é apenas técnica: cada ano de emissões estáveis empurra para frente um volume maior de cortes, e o esforço passa a ser medido a partir de um patamar mais alto.
Há um sinal positivo no relatório, e ele deve ser lido com cautela. Segundo o PNUMA, as emissões de 2025 ficaram próximas às de 2024, interrompendo a tendência de forte crescimento das décadas anteriores.1 Estabilizar, porém, não equivale a cair. A diretora executiva da agência, Inger Andersen, resumiu o diagnóstico de forma direta ao dizer que a humanidade procrastinou com o clima, segundo o El País.1
O relatório não abandona a meta de 1,5 °C. Ele muda a pergunta: deixa de ser como não ultrapassar e passa a ser por quanto tempo, em quanto e a que custo.Leitura editorial de O Tecido
A aposta na remoção de carbono
A segunda perna do plano B é a mais frágil. Mesmo que os cortes propostos fossem cumpridos, seria preciso retirar da atmosfera e armazenar cerca de 320 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, o equivalente a aproximadamente oito anos das emissões globais de CO₂ no ritmo de 2024, informa o El País com base no relatório.1 A própria coordenação científica do PNUMA classifica essa remoção como incerta, arriscada e cara.1
A escala atual mostra o tamanho do salto. O mundo remove hoje cerca de 2 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, quase tudo por métodos convencionais, como plantio e regeneração de florestas. As técnicas chamadas novas, como captura direta do ar, biocarvão e intemperismo acelerado de rochas, respondiam por apenas 1,3 milhão de toneladas anuais, menos de 0,1% do total, segundo o relatório State of Carbon Dioxide Removal, coordenado pela Universidade de Oxford.5 A terceira edição do estudo, divulgada em 2026, eleva o total para 2,2 bilhões de toneladas e estima a remoção por métodos novos em cerca de 2 milhões de toneladas por ano, conforme a síntese da Carbon Brief.5
Há ainda um problema físico. Pesquisadores ouvidos pelo El País apontam sinais de que os sumidouros naturais, florestas e oceanos, estão perdendo capacidade de absorção por efeito do próprio aquecimento.1 O Copernicus atribui parte do calor recorde dos últimos anos justamente à menor absorção de CO₂ por terra e oceano. Em outras palavras, a ferramenta mais barata e testada de remoção também está sob estresse climático.
O Brasil diante da conta
O recado tem endereço brasileiro. Segundo a 13ª edição do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, as emissões brutas do país caíram 16,7% em 2024, para 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, a maior queda em 16 anos, puxada pela redução do desmatamento, de acordo com a Agência Brasil.6 Ainda assim, o Brasil segue como o quinto maior emissor do planeta, e a agropecuária, somadas as emissões diretas e as associadas ao desmatamento, responde por cerca de metade do total, segundo o Canal Solar.6 O Observatório projeta que o país deve perder por pouco sua meta de 2025.6
A meta brasileira para 2035, apresentada em novembro de 2024, prevê reduzir as emissões líquidas entre 59% e 67% em relação a 2005, o que limitaria o país a algo entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente.7 Organizações da sociedade civil criticaram o formato em banda e a falta de alinhamento com 1,5 °C. O Observatório do Clima argumentou que o conjunto de compromissos já assumidos pelo país, incluindo o desmatamento zero, levaria a um teto bem mais baixo do que o anunciado, segundo o Instituto Humanitas Unisinos.7 O caminho de implementação está no Plano Clima, lançado pelo governo federal em março de 2026.6
No plano diplomático, a COP30, em Belém, terminou em novembro de 2025 com a chamada Decisão Mutirão, que não menciona combustíveis fósseis, embora preveja triplicar o financiamento para adaptação, conforme o Brasil de Fato.8 O presidente da conferência, André Corrêa do Lago, assumiu o compromisso de conduzir, fora do texto oficial, dois mapas do caminho: um para a transição longe dos fósseis e outro para reverter o desmatamento, com prazo até a passagem da presidência à Turquia, sede da COP31, em novembro, segundo a eixos.8
O relatório do PNUMA torna essa entrega mais relevante. Se a remoção de carbono por meios naturais é a parte mais viável do plano B, o Brasil concentra uma fração decisiva dessa capacidade. A Carbon Brief registra que dois terços da remoção convencional negociada em mercados voluntários estão na América Latina.5 Isso cria oportunidade econômica, mas também exposição: florestas que queimam ou se degradam deixam de ser sumidouro e passam a ser fonte. A coerência entre a defesa internacional de um roteiro para o fim dos fósseis e a expansão da fronteira petrolífera doméstica tende a ser o ponto mais cobrado da presidência brasileira até a COP31.
O que observar nos próximos meses
Três marcos vão indicar se o plano B tem chance. O primeiro é a COP31, em novembro, quando os países serão cobrados a revisar NDCs ainda distantes da trajetória exigida. O segundo é a entrega dos mapas do caminho prometidos pela presidência brasileira, que dirá se Belém deixou um processo concreto ou apenas uma intenção. O terceiro é a curva de emissões de 2026: a estabilização registrada em 2025 só terá valor se for o início de uma queda, e não um platô.
O relatório do PNUMA, em síntese, troca uma meta impossível por uma meta difícil. A diferença entre as duas será medida em décimos de grau, e cada décimo, como o próprio documento lembra, se traduz em eventos extremos mais frequentes e intensos.
Perguntas frequentes
O que o PNUMA concluiu no Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026?
Pela primeira vez, o relatório de referência da ONU reconhece que não é mais possível manter o aquecimento global abaixo de 1,5 °C sem ultrapassagem. A agência propõe limitar o pico a 1,7 °C ou 1,8 °C e depois reduzir a temperatura para menos de 1,5 °C com cortes de emissões e remoção de carbono.
A meta de 1,5 °C do Acordo de Paris foi abandonada?
Não formalmente. O PNUMA afirma que o objetivo continua válido, mas passa a tratá-lo como meta de retorno após um período de ultrapassagem, e não como teto que não pode ser cruzado.
Quanto as emissões precisam cair no novo cenário?
Segundo o relatório, 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040 em relação a 2025, o que exige reduções médias de 5,7% ao ano na próxima década. As metas nacionais atuais apontam para cortes de 5% a 8% em 2030 e de 11% a 15% em 2035.
O que é remoção de dióxido de carbono e por que ela é controversa?
É o conjunto de técnicas que retiram CO₂ da atmosfera e o armazenam, de florestas a máquinas de captura direta do ar. O plano B exigiria remover cerca de 320 bilhões de toneladas, enquanto o mundo remove hoje pouco mais de 2 bilhões por ano, quase tudo por meios florestais. Críticos temem que a promessa de remoção futura sirva de pretexto para adiar cortes.
Como o Brasil se posiciona diante do relatório?
O Brasil é o quinto maior emissor global, com emissões brutas de 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024, segundo o SEEG. Sua meta para 2035 prevê corte de 59% a 67% em relação a 2005. O país também concentra parte relevante da capacidade natural de remoção de carbono, o que amplia sua responsabilidade no controle do desmatamento.