Aos 85 anos, o oceanógrafo americano Carl Wunsch acumula meio século observando um sistema que, segundo ele, ainda desafia a ciência: o oceano. Pioneiro em transformar a oceanografia física de uma disciplina baseada em navios lentos e caros para uma rede global de satélites e sensores autônomos, Wunsch acaba de receber o Prêmio Fronteras del Conocimiento da Fundação BBVA, um dos reconhecimentos mais relevantes da ciência internacional. Em entrevista concedida ao jornal espanhol El País, ele fez um alerta direto sobre o momento atual da pesquisa climática nos Estados Unidos, onde cortes de financiamento sob o governo de Donald Trump colocam em risco uma geração inteira de cientistas.
A conversa, publicada em 15 de agosto, reconstrói uma trajetória que começou no fim dos anos 1960, quando Wunsch, então professor no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), decidiu que só entenderia o clima do planeta saindo da sala de aula e indo para o mar. Essa escolha o transformou em um dos arquitetos da oceanografia moderna, área hoje essencial para prever a elevação dos oceanos, o derretimento polar e os eventos climáticos extremos que afetam também o Brasil.
A revolução silenciosa na forma de observar o oceano
Durante a maior parte do século XX, o conhecimento sobre os oceanos dependia quase exclusivamente de expedições com navios de pesquisa: caras, lentas e capazes de captar apenas fragmentos isolados de um sistema em constante movimento. Wunsch descreve essa limitação com uma lembrança pessoal: numa travessia do Atlântico rumo a Cádiz, que durou cerca de um mês, ele já sabia que o oceano medido no início da viagem não seria mais o mesmo ao chegar à Espanha.
Essa percepção ajudou a impulsionar, nas últimas três décadas, uma mudança estrutural na forma de monitorar os mares. Satélites de altimetria passaram a cobrir quase toda a superfície oceânica, redes de boias autônomas como o programa internacional Argo permanecem meses ou anos coletando dados em alto mar, e a cooperação entre países passou a compartilhar embarcações, instrumentos e bancos de dados. O resultado é uma capacidade de observação que simplesmente não existia quando Wunsch começou sua carreira.
O que os dados dizem sobre o litoral brasileiro
Os efeitos descritos por Wunsch não são abstratos para o Brasil, que tem mais de 7.400 km de costa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Marinha do Brasil, o Sistema de Monitoramento da Costa Brasileira (SiMCosta) já opera com 18 estações maregráficas de alta precisão espalhadas pelo litoral, transmitindo dados em tempo real por satélite. Globalmente, o nível do mar sobe hoje a uma taxa média de 4,4 milímetros por ano desde a década de 1990, ritmo que, segundo o 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), pode levar a uma elevação de até 1 metro até 2100 nos cenários de emissões mais altas.
Levantamentos baseados em dados de satélite da NASA, como o Sentinel-6 Michael Freilich, projetam um aumento de até 30 centímetros na costa brasileira até 2050. O impacto, porém, não é uniforme. Recife aparece como a capital brasileira mais exposta, ocupando a 16ª posição no ranking global de vulnerabilidade do IPCC. Com altitude média de apenas 4 metros e solo que afunda devido à extração de água subterrânea, um fenômeno chamado subsidência, a capital pernambucana pode perder até metade de sua planície costeira caso o mar suba meio metro, segundo projeções aplicadas à NASA Sea Level Projection Tool.
Outras cidades também aparecem nos alertas de vulnerabilidade costeira. Santos, no litoral paulista, concentra o maior porto da América Latina em uma área onde o nível do mar sobe cerca de 1,2 milímetro por ano desde os anos 1940, com ressacas cada vez mais frequentes invadindo avenidas da orla. Fortaleza enfrenta erosão acelerada e aumento da salinidade em rios locais. No Rio de Janeiro, bairros de baixa altitude na Zona Oeste, a Ilha do Governador e áreas de manguezal suprimido estão entre as regiões mais expostas ao redor da Baía de Guanabara.
Eduardo Siegle, vice-diretor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), explica que dois mecanismos combinados explicam a subida da água: a expansão térmica, causada pelo calor absorvido pelo oceano, e o derretimento de geleiras e camadas de gelo polar. Segundo ele, o oceano já absorveu cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global desde o início da industrialização, funcionando como um amortecedor que atrasa o aquecimento da atmosfera, mas acelera a elevação dos mares.
Por que isso importa para o Brasil
Um relatório da Terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA-3), divulgado pela ONU em junho de 2026, apontou que a taxa de aumento do nível do mar cresceu 50% em apenas quatro anos, agravando riscos para populações costeiras em todo o mundo, incluindo o Brasil. O documento também alerta para a acidificação e a perda de oxigênio nos oceanos, fenômenos que ameaçam diretamente a pesca e a biodiversidade marinha nacional.
Financiamento em risco nos Estados Unidos, expansão no Brasil
É nesse contexto de avanço científico que Wunsch fez sua crítica mais dura. Questionado sobre a negação do aquecimento global feita por Donald Trump perante a Organização das Nações Unidas, o oceanógrafo afirmou que as consequências para a ciência americana são graves: uma geração inteira de pesquisadores está deixando de receber financiamento ou não consegue empregos, sob a justificativa de que a crise climática seria uma farsa. Para Wunsch, trata-se de ignorar princípios físicos e químicos compreendidos pela ciência há mais de um século.
O contraste com o cenário brasileiro é relevante. Enquanto agências americanas enfrentam cortes, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) mantém desde 2008 o Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, que financia estudos sobre elevação do nível do mar, estoques de carbono e extremos climáticos, e lançou em 2026 novas chamadas de propostas em parceria com o CNPq e a CAPES para fixar pesquisadores em universidades brasileiras. Redes como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, que reúne dezenas de grupos de pesquisa em todo o país, também seguem ativas, embora dependam de continuidade orçamentária para sustentar séries históricas de dados de longo prazo, algo que o próprio Wunsch aponta como condição indispensável para entender o oceano.
Contraponto: o que a ciência ainda não sabe
Nem tudo é certeza absoluta. O próprio Wunsch reconhece, na entrevista ao El País, que a ciência climática trabalha com probabilidades, não com previsões exatas. Segundo ele, o oceano de amanhã será parecido com o de hoje, mas o de daqui a dez ou cinquenta anos ainda é incerto em magnitude e distribuição regional. Pesquisadores como Eduardo Siegle, da USP, também divergem sobre a magnitude exata do avanço do mar em cada trecho da costa brasileira, já que fatores locais como subsidência do solo, correntes e geologia alteram significativamente as projeções médias globais. Esse hiato entre o tempo da ciência, que mede décadas, e o tempo da política pública, que responde a urgências imediatas, é apontado por Wunsch como um dos maiores desafios da comunicação científica atual.
O papel da cooperação internacional
Para Wunsch, a lição central de décadas de pesquisa é que o oceano não pertence a nenhuma nação isoladamente. Ele defende que o avanço científico dos últimos 30 anos só foi possível porque diferentes países passaram a compartilhar instrumentos, modelos computacionais e campanhas de coleta de dados. É essa mesma lógica de cooperação que sustenta iniciativas brasileiras como o SiMCosta e os fóruns internacionais sobre elevação do mar, como o promovido recentemente pela Universidade Federal de Pernambuco em parceria com pesquisadores dos Países Baixos, país com longa experiência em engenharia costeira, para discutir soluções aplicáveis ao Recife.
Perguntas frequentes
Por que o oceano é tão importante para entender as mudanças climáticas?
O oceano absorve cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global e regula padrões climáticos em escala planetária. Sem monitorar o oceano, não é possível prever com precisão o ritmo da elevação do nível do mar nem os efeitos sobre o clima regional.
Como os cientistas medem o aquecimento dos oceanos atualmente?
A combinação de satélites de altimetria, boias autônomas de longa permanência e redes internacionais de compartilhamento de dados substituiu a dependência quase exclusiva de navios de pesquisa, permitindo observações contínuas em escala global.
Quais cidades brasileiras estão mais vulneráveis à elevação do mar?
Recife lidera o ranking nacional de vulnerabilidade, seguida por Santos, Fortaleza e bairros costeiros do Rio de Janeiro, segundo classificações do IPCC e estudos baseados em dados de satélite da NASA.
O que Carl Wunsch disse sobre os cortes de financiamento científico nos Estados Unidos?
Em entrevista ao El País, Wunsch afirmou que os cortes sob o governo Trump impedem uma geração de cientistas de receber financiamento ou conseguir empregos, sob o argumento infundado de que a crise climática seria uma farsa.
O Brasil investe em pesquisa oceanográfica?
Sim. Programas como o da FAPESP sobre mudanças climáticas globais, redes do CNPq e o sistema SiMCosta, mantido pelo IBGE em parceria com a Marinha, sustentam o monitoramento contínuo do litoral brasileiro.