2 de setembro de 2026
O TECIDOCaderno Política · Análise Institucional
POLÍTICA
Democracia & Tributação

O voto tinha preço: quando a Suécia deixou os ricos votarem mais — e o que sobrou disso quando pararam

Por quase sessenta anos, um sistema sueco distribuiu votos municipais na proporção direta da riqueza declarada de cada cidadão — chegando a dar a um único homem mais de 5 mil votos. A história não é bem a de "o rico se entregou para votar". É mais sutil, e mais útil para o Brasil de 2026.

Redação O Tecido· 11 min de leitura·Publicado: 06 Jul, 2026

O país é a Suécia. Entre 1862 e 1918–1919, as eleições municipais suecas — que por sua vez definiam a composição da câmara alta do parlamento nacional — usavam um sistema de voto graduado (graderad rösträtt): cada eleitor recebia um número de votos proporcional ao imposto que pagava, calculado a partir de sua renda e patrimônio declarados. Não era "um cidadão, um voto". Era, em termos que o historiador econômico Erik Bengtsson resume citando Thomas Piketty, um dos sistemas mais extremos de "proprietarismo hiperdesigual" já documentados em uma democracia moderna.1

Como funcionava, exatamente

A escala ia de 1 até 40 graus, e a alocação de votos por grau de riqueza não tinha teto: os registros mostram contribuintes especialmente ricos acumulando até 5 mil votos individuais em uma única eleição municipal, enquanto trabalhadores urbanos sem patrimônio suficiente — mesmo cumprindo os demais requisitos, inclusive o de gênero — simplesmente não votavam.2 Corporações e empresas também tinham votos próprios, o que multiplicava ainda mais o poder político de quem as controlava.2

Na virada para o século XX, a Suécia tinha a menor proporção de homens adultos com direito a voto na Europa Ocidental — apenas 24% podiam votar para a segunda câmara do parlamento — e o menor comparecimento eleitoral do continente.3 O sistema sobreviveu a décadas de mobilização popular: igrejas livres, o movimento da temperança e a Associação Nacional pelo Sufrágio, fundada em 1890 por liberais e socialistas juntos, organizaram encontros públicos (folkmöten) que chegaram a reunir de 6 a 10 mil pessoas contestando abertamente o que um pastor, num desses encontros, resumiu citando a Bíblia: transformar dinheiro em critério de valor humano era um "erro grave" que "Deus não pode tolerar".3

O sistema em números

1862–1919Duração do voto municipal graduado por patrimônio
5.000Votos que um único contribuinte rico podia acumular em uma eleição2
24%Proporção de homens adultos com voto para a 2ª câmara na década de 1890 — a menor da Europa Ocidental3

Linha do tempo

1862Voto municipal graduado por renda/patrimônio; mulheres com certidão de imposto votam localmente.
1884Unificação dos tributos sobre herança em imposto único (Ordenança do Selo)4.
1911Suécia introduz imposto sobre patrimônio (wealth tax) nacional4.
1918–19Reformas de Nils Edén abolem o voto graduado e instituem sufrágio feminino2.
1921Sufrágio universal formalmente declarado — dívidas e falência ainda desqualificavam eleitores5.

De onde vinha o poder de cada voto

Os pesos de voto eram calculados a partir do imposto que a pessoa já pagava — ou seja, o aparato de avaliação fiscal sueco (que media renda e patrimônio para fins tributários) é que servia de insumo para o voto, e não o contrário.2 O Estado sueco já sabia, com razoável precisão, quanto cada família rica possuía — porque essa era justamente a métrica usada para decidir quantos votos ela receberia.

O que aconteceu depois de 1918–1921 foi a remoção do poder de veto que a elite tinha sobre a própria tributação. Enquanto o voto era graduado pela riqueza, quem mais tinha patrimônio também tinha, na prática, mais poder para bloquear qualquer reforma tributária contra si mesmo nas câmaras municipais e, indiretamente, na câmara alta do parlamento. Quando o sufrágio se tornou universal e igual, a maioria recém-empoderada — trabalhadores urbanos, majoritariamente — herdou um aparato de avaliação patrimonial que já existia havia décadas e passou a usá-lo para elevar a tributação sobre quem antes escapava dela por controlar os próprios votos.4

O salto na tributação dos mais ricos, uma vez destravado, foi rápido e depois se aprofundou por seis décadas seguidas. A alíquota marginal do imposto de renda para os maiores contribuintes, que era baixa no início do século, saltou nas décadas de 1920 e 1940, chegando perto de 90% para o topo da distribuição, e voltou a subir com a reforma de 1971, atingindo até 85% em 1980.9 O mesmo padrão apareceu no imposto sobre patrimônio: a alíquota direta sobre o patrimônio de grandes empresas, que começava em apenas 0,06% quando foi criada in 1911, triplicou com a introdução do imposto de patrimônio separado em 1934 e quase dobrou de novo a partir de 1948, chegando a uma alíquota marginal máxima de 1,8%.10 A carga tributária total do país, que ficava abaixo de 10% do PIB até os anos 1930, ultrapassou 50% do PIB no fim dos anos 1980 — o maior patamar do mundo por várias décadas.9

A receita gerada por essa tributação mais pesada não ficou parada em caixa: financiou a construção do que ficou conhecido como folkhemmet, "a casa do povo", um pacote de benefícios universais que passou a beneficiar a população como um todo — não apenas quem estava no topo da distribuição de renda antes de 1918. O parlamento sueco criou um sistema nacional de pensão por velhice já em 1937, expandido nas décadas seguintes; entre 1947 e 1955 foi implantado um sistema de saúde universal e gratuito no ponto de uso; e o país se tornou um dos primeiros do mundo a oferecer educação gratuita em todos os níveis, do ensino básico à universidade.13 Depois da Segunda Guerra, o pacote cresceu ainda mais: seguro-desemprego, auxílio-creche, abono para filhos, moradia de baixo custo e férias remuneradas obrigatórias de quatro semanas para todos os trabalhadores.14 Esse gasto público saiu de 18% do PIB em 1950 para 31% do PIB em 1970 — na mesma velocidade em que a arrecadação tributária crescia para sustentá-lo.15 O argumento usado pelos governos social-democratas da época, segundo pesquisa sobre a construção do consentimento fiscal sueco, era direto: a tributação era apresentada à população como a própria fundação do Estado de bem-estar, e não como um custo em troca de nada.16

"Não foi a confissão de riqueza que abriu caminho para taxá-la. Foi a perda do voto que protegia essa riqueza da taxação."— Síntese editorial d'O Tecido a partir de Bengtsson (2023)

O imposto sueco sobre patrimônio, instituído em 1911, nasceu ainda sob o regime de voto graduado — prova de que a infraestrutura fiscal e o regime eleitoral plutocrático conviveram por anos.4 A verdadeira virada de progressividade tributária sueca é um fenômeno do século XX, construído ao longo de décadas por governos social-democratas que já não precisavam negociar com uma elite que votava 5 mil vezes mais que um operário.

Termos desta reportagem

Voto graduado (graderad rösträtt)
Sistema em que o número de votos de cada eleitor variava conforme sua renda ou patrimônio tributável, sem limite máximo.
Voto censitário
Modelo distinto, mais comum historicamente (inclusive no Brasil Império): exige uma renda mínima para ter direito a voto, mas não multiplica o voto de quem tem mais.
IGF — Imposto sobre Grandes Fortunas
Tributo previsto na Constituição brasileira de 1988, nunca regulamentado por lei complementar até hoje.8
IMER — Imposto Mínimo Efetivo sobre a Riqueza
Proposta em tramitação no Brasil (PLP 05/2026) que garante um piso de tributação de 2% sobre o patrimônio líquido de grandes fortunas, cobrando apenas a diferença de quem já paga menos que isso em impostos.6

O espelho brasileiro: um voto censitário diferente, um mesmo problema de fundo

O Brasil nunca teve um sistema de voto graduado por patrimônio como o sueco — mas teve, por quase sete décadas do Império, um voto censitário: para ser "votante" era preciso comprovar renda mínima de 100 mil-réis anuais, e para ser "eleitor" (que escolhia os deputados, no sistema indireto) a exigência subia para 200 mil-réis. A Lei Saraiva de 1881 endureceu ainda mais os critérios, somando exigência de alfabetização à de renda — o que praticamente excluiu a população negra recém-liberta e a maioria pobre do país da vida política formal, mesmo depois da Abolição.

A diferença técnica importa: o sistema brasileiro era um piso (quem não alcançava a renda mínima não votava, ponto final), enquanto o sueco era uma escada sem teto (quanto mais rico, mais votos, sem limite). Mas o efeito político de fundo era parecido — em ambos os casos, a distribuição de poder político era desenhada para espelhar a distribuição de riqueza, e não o contrário.

O que muda — e o que não muda — no Brasil de 2026

Hoje, o Brasil não precisa abolir um sistema de voto plutocrático formal, porque ele não existe mais desde 1891. O que existe é uma versão informal e difusa do mesmo problema: concentração de mídia, financiamento de campanhas e poder de lobby que permitem que uma fração pequena e riquíssima da população tenha influência desproporcional sobre a legislação tributária que a afeta — inclusive sobre se o Imposto sobre Grandes Fortunas, previsto desde 1988, será algum dia regulamentado.8

O ano de 2026 traz um caso concreto para observar essa dinâmica em tempo real. A reforma do Imposto de Renda sancionada em 2025 já prevê, a partir deste ano, uma alíquota mínima de até 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil por mês ou R$ 600 mil por ano — os chamados "super-ricos", cerca de 141 mil contribuintes segundo a Receita Federal — e passa a tributar na fonte dividendos que excedam R$ 50 mil mensais por empresa, hoje isentos.7 Dados de 2022 do Ministério da Fazenda mostram por que essa mudança foi proposta: contribuintes com renda anual acima de R$ 600 mil pagavam, em média, uma alíquota efetiva de apenas 2,54% — bem abaixo do que trabalhadores assalariados de renda muito menor recolhem.7

Paralelamente, tramita o PLP 05/2026, que propõe alíquotas progressivas de 1% a 3% sobre patrimônios acima de R$ 10 milhões através do já citado IMER. Um estudo do Observatório Internacional de Fiscalidade, encomendado pela Plataforma Tributária da América Latina e do Caribe com prefácio do próprio Ministério da Fazenda, estima que um piso de 2% sobre grandes fortunas poderia arrecadar cerca de R$ 30,5 bilhões por ano no país — recursos que hoje escapam da tributação justamente porque se concentram em lucros retidos em empresas e estruturas societárias, fora do alcance efetivo do Imposto de Renda pessoa física.6

Por que o IGF nunca saiu do papel

Previsto na Constituição de 1988, o Imposto sobre Grandes Fortunas segue sem lei complementar que o regulamente 38 anos depois. Em 2026, a campanha "Taxar os Super-Ricos" — movimento que reúne organizações da sociedade civil, movimentos sociais e parlamentares — voltou a pressionar por sua regulamentação, defendendo uma alíquota sobre patrimônios acima de R$ 10 milhões que poderia arrecadar cerca de R$ 40 bilhões anuais.8

A lição sueca, sem os atalhos

La lição transferível da experiência sueca para o debate brasileiro de 2026 está no papel do poder político sobre a tributação: enquanto o poder político estiver distribuído de forma proporcional — ainda que informalmente, via lobby, financiamento eleitoral e concentração de mídia — à riqueza que a legislação tributária pretende alcançar, a reforma tende a esbarrar num veto de fato, mesmo sem voto de direito. O Brasil já tem declaração de bens obrigatória na Receita Federal há décadas; a evasão hoje está principalmente nas isenções legais sobre lucros e dividendos e na dispersão de patrimônio em estruturas societárias complexas, como aponta o próprio estudo do IMER.6

A mobilização social sueca do fim do século XIX — igrejas, sindicatos, liberais e socialistas organizando encontros populares por décadas — tornou o sistema politicamente insustentável até que um governo (o de Nils Edén, apoiado por liberais e social-democratas) tivesse força para abô-lo. A regulamentação do IGF brasileiro, 38 anos depois de prevista na Constituição, sugere que o Brasil ainda está na fase de mobilização — não na de ruptura.

Nota de atribuição editorial: Esta reportagem usa como inspiração inicial a pesquisa acadêmica de Erik Bengtsson, "The Evolution of Popular Politics in 19th-Century Sweden and the Road from Oligarchy to Democracy" (Scandinavian Economic History Review / SAGE, 2023), disponível em journals.sagepub.com/doi/10.1177/16118944221146897. O conteúdo acima foi integralmente reapurado e reescrito pela equipe d'O Tecido com fontes independentes, sem tradução ou reprodução do material original.

Referências

  1. Bengtsson, Erik. "The Evolution of Popular Politics in 19th-Century Sweden and the Road from Oligarchy to Democracy." Scandinavian Economic History Review, SAGE, 2023. journals.sagepub.com/doi/10.1177/16118944221146897
  2. "Weighted Voting Via No-Regret Learning." arXiv, 2017. arxiv.org/pdf/1703.04756
  3. Bengtsson, Erik. Versão em PDF do mesmo estudo. journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/16118944221146897
  4. "Protectionism and Economic Growth: Causal Evidence from the First Era of Globalization." arXiv, 2020. arxiv.org/pdf/2010.02378
  5. "100 Years of Women's Suffrage in Sweden." Library of Congress, In Custodia Legis, 2021. blogs.loc.gov
  6. "Brasil arrecadaria R$ 30 bi por ano com imposto sobre fortunas, diz estudo." InfoMoney, abril de 2026. infomoney.com.br
  7. "Isenção de IR até R$ 5 mil e taxação dos mais ricos: veja o que muda." CNN Brasil, 2025–2026. cnnbrasil.com.br
  8. "Instituto Justiça Fiscal debate por que o Brasil não tributa grandes fortunas." Brasil de Fato, julho de 2026. brasildefato.com.br
  9. Stenkula, Mikael et al. "Swedish Taxation since 1862: An Overview." IFN Working Paper No. 1052. ifn.se
  10. Du Rietz, Gunnar; Henrekson, Magnus. "Swedish Wealth Taxation, 1911–2007." IFN Working Paper No. 1000, 2014. piketty.pse.ens.fr
  11. "How Deep Are the Roots of Swedish Egalitarianism? A Multidimensional Approach." European Review of Economic History, Oxford Academic, 2025. academic.oup.com
  12. "Swedish Income Distribution and Wealth Concentration 1900-1985." DiVA Portal. diva-portal.org
  13. "Folkhemmet." Economic Systems Encyclopedia. freejournal.org
  14. "The Swedish Model: Welfare for Everyone." Teach Democracy. teachdemocracy.org
  15. "Retirement: Lessons from the Swedish Reforms." Fondapol, 2022. fondapol.org
  16. "Creating Tax-Compliant Citizens in Sweden: The Role of Social Democracy." In The Leap of Faith, Oxford Academic. academic.oup.com
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