Caderno Livros O Tecido · 5 de agosto de 2026

Em abril, o jornalista Gil Durán foi banido permanentemente do X, a rede social de Elon Musk, depois de resumir em duas palavras um manifesto de 22 pontos publicado pela empresa de dados Palantir: "TLDR: Fascismo". O episódio, relatado pelo próprio Durán e por veículos americanos, se tornaria involuntariamente a melhor propaganda para o livro que ele lançava em seguida — The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, publicado em 18 de agosto pela Simon & Schuster.

A obra chega às livrarias americanas na esteira de uma tese que Durán vem construindo desde 2024 em sua newsletter homônima: a de que uma fração influente do Vale do Silício deixou de apenas financiar candidatos conservadores e passou a operar como vetor ideológico de um projeto que ele descreve como "tecnofascismo" — uma aliança entre bilionários da tecnologia e o movimento Maga que, segundo o autor, busca substituir a democracia liberal por uma forma de governança corporativa concentrada em poucas mãos.

De porta-voz de Feinstein a cronista da "nova direita" tech

Durán não chega ao tema como observador distante. Neto de imigrantes mexicanos e ex-assessor de comunicação de figuras como a ex-senadora Dianne Feinstein e a então procuradora-geral da Califórnia Kamala Harris, ele começou a carreira no jornal San Jose Mercury News e depois dirigiu páginas de opinião no Sacramento Bee e no San Francisco Examiner antes de se tornar jornalista independente dedicado a rastrear, segundo o Standard de São Francisco, o avanço de correntes autoritárias no ecossistema tecnológico californiano nos últimos dois anos.

O livro atribui as raízes intelectuais desse movimento a duas fontes principais. A primeira é o livro de 1997 The Sovereign Individual, dos autores James Dale Davidson e William Rees-Mogg, que previa um futuro pós-democrático organizado por indivíduos ricos e tecnologicamente blindados do Estado — obra que o investidor Peter Thiel prefaciou pessoalmente na reedição de 2020. A segunda fonte é o chamado "Iluminismo Sombrio" (Dark Enlightenment), corrente iniciada nos blogs pseudônimos do ex-programador Curtis Yarvin, para quem a crise das democracias ocidentais decorreria da disfunção de instituições como a imprensa e a universidade — o que ele chama de "a Catedral".

Publicações brasileiras já vinham acompanhando essa genealogia antes mesmo do lançamento do livro de Durán. Um artigo do Instituto Humanitas Unisinos descreveu como Yarvin propõe substituir a democracia por um "CEO" à frente do Estado, batizando o modelo de neocameralismo. Já a Revista ID, em ensaio recente, situou o pensamento de Thiel e outros como parte de um "modernismo reacionário" que usa a tecnologia mais avançada a serviço de hierarquias antigas.

Não é mais possível tratar essas ideias como curiosidade de blog: elas atravessaram os corredores da Casa Branca através de assessores como J.D. Vance. Paráfrase da tese central do livro, a partir de reportagens sobre o lançamento

Um antigo autor de negócios, agora personagem de um livro sobre democracia

Para o leitor brasileiro, há uma ironia editorial na história: Peter Thiel já é um autor conhecido nas livrarias nacionais. Seu De Zero a Um, publicado pela Companhia das Letras/Objetiva em 2014, é um clássico de estante de empreendedorismo, recomendado a fundadores de startup como manual sobre monopólio e inovação. É o mesmo Thiel que, segundo Durán, escreveu em 2009 que não acreditava mais na compatibilidade entre liberdade e democracia — frase que o livro usa como uma espécie de fio condutor de toda a narrativa.

O caso de Thiel ilustra o argumento central de Durán: figuras cuja obra de negócios circula normalmente no mercado editorial e corporativo teriam, nos bastidores, financiado e articulado uma rede política que vai de projetos de "cidades-rede" como a hondurenha Próspera — hoje alvo de uma disputa judicial de US$ 10,8 bilhões movida contra o governo de Honduras — até cargos de assessoria direta na administração Trump, ocupados por pelo menos 16 pessoas ligadas a Thiel, segundo levantamento da Bloomberg citado pela imprensa internacional.

Contraponto: o rótulo "fascismo" resiste ao teste histórico?

A tese de Durán não é consenso entre historiadores. Um estudo publicado no Nexo Jornal sobre o conceito de fascismo mostra que a própria historiografia se divide entre correntes que restringem o termo à experiência italiana do século 20 e correntes, como a do cientista político Robert Paxton, que admitem sua aplicação a fenômenos contemporâneos desde que respeitados certos elementos estruturais.

Em artigo publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos, a historiadora Stefanie Prezioso observa que a proliferação de variações do termo — "tecnofascismo", "fascismo tardio", "pós-fascismo" — reflete mais uma dificuldade de nomear um fenômeno genuinamente novo do que uma correspondência exata com os regimes do século passado, alertando que a história pode iluminar o presente, mas não consegue prevê-lo. Críticos do outro espectro político vão além e argumentam que o uso frequente do rótulo para adversários ideológicos esvaziaria seu peso histórico, banalizando o sofrimento causado por regimes autoritários reais.

O Tecido não adota posição sobre se o termo se aplica corretamente ao caso do Vale do Silício; a controvérsia acima reflete debate documentado entre especialistas e comentaristas de diferentes correntes.

O que o livro não resolve

Durán reconhece, em entrevistas concedidas à imprensa americana antes do lançamento, que o texto "pode pender para o panfletário", mas defende que sustenta o argumento em citações diretas retiradas de discursos, publicações e aparições públicas de seus personagens. Resta saber se a recepção crítica — que só começará a se formar após 18 de agosto — vai endossar essa autoavaliação ou reforçar as ressalvas de historiadores sobre o uso do vocabulário do fascismo para descrever fenômenos do século 21.

Para o leitor interessado em acompanhar o debate a partir da própria fonte jornalística que o originou, a entrevista concedida ao The Guardian por Durán — na qual ele detalha o banimento do X, a genealogia intelectual do livro e sua leitura sobre a cumplicidade do Partido Democrata com o poder bilionário — traz o relato completo.

Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista original publicada pelo jornal britânico The Guardian, assinada por Steve Rose em 5 de agosto de 2026: "If we don't fight back, we don't have a future": the journalist taking on the "tech fascists" of Silicon Valley. Nenhum trecho do artigo original foi reproduzido ou traduzido integralmente.