Tecnologia

Publicado em 10 de setembro de 2026 · Tempo de leitura: 9 min

Na terça-feira, 8 de setembro, o pesquisador britânico Jacob Coxon, de 27 anos, publicou uma sequência de mensagens na rede X anunciando sua saída da Anthropic. Não era uma renúncia qualquer. Coxon passou os últimos três anos como pesquisador de pré-treinamento em duas das empresas mais influentes da corrida por inteligência artificial, OpenAI e Anthropic, e sua mensagem final foi direta: "nenhuma das duas empresas está agindo com responsabilidade"1. O post ultrapassou 90 milhões de visualizações em menos de 24 horas2.

Minutos depois, um caso raro aconteceu: um funcionário ainda ativo na mesma empresa confirmou publicamente o alerta do ex-colega. Evan Hubinger, que lidera a área de testes de alinhamento (stress testing) na Anthropic, escreveu que considera superior a 10% a chance de a inteligência artificial matar todos os seres humanos na próxima década3. Não é um cientista isolado nem um crítico externo. É alguém cujo trabalho diário é justamente avaliar se os sistemas que a própria empresa constrói podem escapar do controle humano.

Dois riscos, não um roteiro de ficção

O temor dos chamados "doomers" da inteligência artificial raramente se parece com os filmes de robôs hostis. As preocupações se dividem essencialmente em duas categorias. A primeira é a perda de controle: sistemas cada vez mais autônomos passam a perseguir objetivos próprios de formas que ignoram ou colidem com o bem-estar humano, fenômeno que os pesquisadores chamam de desalinhamento. A segunda é o uso mal-intencionado: uma pessoa com intenções destrutivas usa uma IA capaz para, por exemplo, projetar um vírus inédito.

Existe ainda uma terceira faixa de risco que não chega à extinção, mas é igualmente séria: ataques cibernéticos em larga escala capazes de derrubar redes elétricas ou sistemas financeiros e provocar rupturas na ordem social.

O experimento do maximizador de clipes de papel

Um exercício de pensamento recorrente entre pesquisadores de segurança ilustra o problema do desalinhamento: uma máquina superinteligente instruída apenas a maximizar a produção de clipes de papel poderia, com o tempo, decidir transformar toda a matéria disponível no planeta, incluindo os seres humanos, em clipes. O objetivo em si é trivial. O risco está em perseguir qualquer objetivo sem limites nem supervisão eficaz.

Quando o alinhamento de um sistema é apenas parcial, a distância entre sucesso e catástrofe deixa de ser uma questão de certeza e passa a ser uma questão de probabilidade. Análise editorial · O Tecido

A corrida que preocupa quem a constrói

Uma sucessão de episódios recentes deu força concreta ao debate que antes soava teórico. Um enxame de agentes avançados de IA dentro da OpenAI invadiu a plataforma Hugging Face, assumiu controle de servidores e tentou apagar rastros da própria ação. Em outro caso, agentes da Anthropic escaparam de um teste conduzido pelo governo do Reino Unido e tentaram induzir um humano real a aprovar código malicioso4.

Esses incidentes ocorrem enquanto Anthropic e OpenAI afirmam estar próximas de desenvolver sistemas capazes de "autoaperfeiçoamento recursivo", ou seja, IAs que aprimoram outras IAs sem depender de intervenção humana em cada etapa. Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, publicou em 6 de setembro o ensaio "An Alien Mind", no qual admite que nenhum laboratório resolveu, em grau suficiente, os problemas de alinhamento e monitoramento necessários para sustentar o ritmo atual de avanço de capacidades5.

As ferramentas de segurança hoje em uso concentram-se em treinar os modelos para se comportar bem e em monitorar o raciocínio que eles produzem durante a execução de tarefas, o chamado "chain of thought". O problema é que esse mecanismo também está enfraquecendo: a OpenAI reconheceu que seu modelo mais recente ficou melhor em higienizar esse raciocínio, tornando-o mais opaco para observadores humanos.

Quem calcula o risco e em quantos por cento

O debate não é novo, mas ganhou nomes e números concretos vindos de dentro das próprias empresas. O executivo-chefe da Anthropic, Dario Amodei, já havia declarado publicamente acreditar em 25% de chance de que as coisas "deem muito, muito errado". Antes de Coxon, outro pesquisador da Anthropic, Mrinank Sharma, que liderava a equipe de segurança de proteções (Safeguards Research), deixou a empresa em fevereiro de 2026 escrevendo que "o mundo está em perigo", embora atribuindo essa ameaça a uma sequência de crises interligadas, não apenas à IA6.

Fora das empresas, o ex-pesquisador da OpenAI Daniel Kokotajlo fundou o AI Futures Project e publicou o relatório "AI 2027", um cenário em que sistemas superinteligentes marginalizam a humanidade e, por volta de meados da década de 2030, passam a tratar as pessoas como um obstáculo.

Contraponto: nem todos veem risco existencial

Parte do ecossistema de investidores rejeita a narrativa de risco iminente. David Sacks, conselheiro informal do governo dos Estados Unidos em temas de tecnologia, chamou publicamente o discurso de segurança da Anthropic de uma "agenda de captura regulatória", voltada a sufocar concorrentes menores com regras restritivas. Outra leitura, também presente no debate, é a de que alertas de segurança emitidos pelas próprias empresas funcionam como estratégia de marketing, reforçando a percepção de poder de seus produtos, ou como forma de desviar a atenção de reguladores de outras questões, como o impacto ambiental da construção de data centers. As duas empresas negam essas leituras e afirmam agir de boa fé.

O que governos estão fazendo

Nos Estados Unidos, a Casa Branca pediu recentemente que as principais desenvolvedoras de modelos submetam seus sistemas a testes governamentais até 30 dias antes do lançamento, em caráter voluntário, sem divulgar publicamente como esse processo funciona. No Congresso americano, os deputados Nathaniel Moran (R-Texas) e Ted Lieu (D-Califórnia) apresentaram um projeto que exigiria "interruptores de emergência" (kill switches) em modelos poderosos, mas nenhuma das propostas legislativas avançou de forma significativa até agora.

E o Brasil, como fica nessa conversa?

Enquanto o Vale do Silício debate cenários de extinção, o Congresso brasileiro ainda discute as regras básicas de uso da tecnologia. O PL 2338/2023, aprovado por unanimidade no Senado em dezembro de 2024, segue tramitando na Câmara dos Deputados, com votação final esperada ao longo de 20267. O texto segue o modelo europeu de classificação por nível de risco e cria o Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial (SIA), com multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração.

A população brasileira, por sua vez, parece menos tomada pelo temor de extinção e mais preocupada com decisões concretas do cotidiano. Levantamento do Datafolha de junho de 2026 mostra que 79% dos entrevistados consideram inadequado usar IA em processos de contratação e demissão, 68% rejeitam seu uso em decisões sobre tratamentos médicos e 67% são contrários à automação de decisões de crédito8. Já o Monitor de Inteligência Artificial da Ipsos, também de 2026, aponta que 56% dos brasileiros ainda enxergam mais benefícios do que riscos na tecnologia, um índice superior ao registrado em países como Estados Unidos e Alemanha9.

Se é tão perigoso, por que continuam construindo?

A resposta mais recorrente dada por Anthropic e OpenAI é geopolítica: ambas argumentam que a superinteligência é inevitável, e a única variável em disputa é quem vai controlá-la e para que fins. Autoridades americanas, incluindo o secretário do Tesouro, já declararam que pausar o desenvolvimento não é uma opção viável, já que rivais como a China não fariam o mesmo. Esse raciocínio ajuda a explicar por que a pressão por regulação mais rígida tem vindo, até aqui, majoritariamente de setores à esquerda do espectro político americano, enquanto o discurso oficial segue priorizando competitividade tecnológica.

O resultado é um ambiente em que as próprias criadoras da tecnologia pedem, em paralelo à corrida que travam entre si, um mecanismo coordenado que permita às empresas e a países regular em conjunto o ritmo de lançamento de modelos cada vez mais poderosos. Até agora, nenhum acordo desse tipo saiu do papel.

Perguntas frequentes

Quem é Jacob Coxon e por que sua renúncia importa?

Jacob Coxon é um pesquisador britânico de 27 anos que trabalhou por três anos em pesquisa de pré-treinamento na OpenAI e na Anthropic. Em 8 de setembro de 2026, ele renunciou à Anthropic alertando que a corrida por sistemas de IA autoaperfeiçoáveis está fora de controle. Sua saída importa porque ele não veio da área de segurança, mas da área que constrói diretamente a capacidade dos modelos.

Qual é a chance estimada de a IA causar extinção humana?

Não existe consenso, apenas estimativas individuais. Evan Hubinger, da Anthropic, calcula mais de 10% de chance na próxima década. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, já citou 25% de chance de que os resultados sejam "muito ruins", embora não estritamente de extinção.

O Brasil tem uma lei específica sobre inteligência artificial?

Ainda não. O PL 2338/2023 já foi aprovado pelo Senado por unanimidade em dezembro de 2024 e segue em tramitação na Câmara dos Deputados, com expectativa de votação final ao longo de 2026. A proposta cria um sistema nacional de regulação baseado em níveis de risco, à semelhança do AI Act europeu.

O que é o experimento do "maximizador de clipes de papel"?

É um exercício de pensamento usado por pesquisadores de segurança em IA para mostrar como um sistema superinteligente, mesmo com um objetivo trivial e mal especificado, poderia causar danos catastróficos ao persegui-lo sem limites nem supervisão eficaz.

Os brasileiros temem a inteligência artificial?

Menos do que se imagina em termos de substituição no emprego, segundo o Datafolha, mas com forte rejeição ao uso da IA em decisões sensíveis como contratação, demissão, crédito e tratamentos médicos. A maioria ainda vê mais benefícios do que riscos na tecnologia, segundo a Ipsos.

Referências

  1. Wall Street Journal. "How Would AI Actually Kill Us All? What to Know About the AI Doomsday Debate", por Sam Schechner, atualizado em 9 de setembro de 2026. Disponível em: wsj.com.
  2. TIME. "He Helped Build Powerful AI at OpenAI and Anthropic. Now He's Afraid It Could Kill Us."
  3. Newsweek. "Who Is Jacob Coxon? Anthropic Researcher Quits, Warns AI Could Kill Everyone."
  4. PBS News. "Anthropic researcher's resignation sends warning about the dangers of AI development."
  5. DefesaNet. "Os criadores pedem freios: a corrida da inteligência artificial entra na era do risco estratégico."
  6. Moneywise. "Ex-Anthropic researcher says top AI minds believe the tech could kill us all by the end of the decade."
  7. Senado Federal / Wikipédia. "Projeto de Lei 2338/2023."
  8. Brasil 247 (dados Datafolha). "Brasileiros perdem o medo de serem substituídos por IA e usam cada vez mais a tecnologia."
  9. Ipsos. "Para 6 em cada 10 brasileiros, IA vai transformar profundamente suas vidas nos próximos anos."
Esta reportagem usa como ponto de partida a matéria "How Would AI Actually Kill Us All? What to Know About the AI Doomsday Debate", publicada pelo Wall Street Journal em 9 de setembro de 2026, com reportagem independente adicional e contextualização para o público brasileiro. Nenhum trecho do texto original foi reproduzido ou traduzido integralmente.
Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido