Opinião · Tecnologia e democracia

Este artigo de opinião parte da coluna “Siempre fueron fascistas”, de Marta Peirano, publicada pelo jornal espanhol El País em 5 de outubro de 2026. O texto original não é reproduzido nem traduzido; as ideias atribuídas a ele estão creditadas, e o artigo foi ampliado com outras fontes e com o contexto brasileiro.

Na última semana de setembro, a Casa Branca reuniu para um almoço sobre inteligência artificial algumas das pessoas mais ricas do planeta. A lista de presença obtida pelo Axios somava 31 confirmados, entre eles Elon Musk, Jeff Bezos, Satya Nadella e os principais executivos de Meta, Nvidia, Palantir, Google e Anthropic, à mesa com o vice-presidente JD Vance e a chefe de gabinete Susie Wiles. O próprio Axios resumiu a disposição do governo: intervir pouco e confiar à indústria a definição dos próprios limites.4

A imagem de executivos de tecnologia sentados ao lado de Donald Trump abre a coluna mais recente da jornalista espanhola Marta Peirano no El País, cujo título dispensa ambiguidade: sempre foram fascistas. A tese, apoiada no livro The Nerd Reich, do jornalista californiano Gil Durán, é que a aliança entre as big techs e o trumpismo não representa uma conversão, e sim uma revelação. O Vale do Silício que financiava Barack Obama (segundo a colunista, 83% das doações de funcionários das grandes empresas do setor em 2012 foram para o democrata) não teria trocado de lado. Teria apenas encontrado as condições para dizer em voz alta o que já pensava.1

É uma acusação forte, e convém examiná-la com cuidado antes de aceitá-la ou descartá-la. O valor do argumento não está no rótulo, mas na genealogia que ele reconstrói.

Da fuga à substituição

Para Durán, o fio da meada tem data. Em abril de 2009, Peter Thiel, cofundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook, publicou na revista eletrônica do Instituto Cato o ensaio “The Education of a Libertarian”. A frase que ficou é seca: ele disse não acreditar mais que liberdade e democracia fossem compatíveis. No mesmo texto, atribuiu parte do problema à expansão dos programas sociais e à extensão do voto às mulheres, dois eleitorados que considerava pouco receptivos ao ideário libertário.3 A repercussão o levou a publicar um esclarecimento semanas depois, mas o diagnóstico central ficou de pé.

A saída proposta era literal. Em vez de convencer eleitores, construir territórios fora do alcance da política: o ciberespaço, o espaço sideral, cidades flutuantes em águas internacionais. Durán localiza nesse ensaio a semente de uma rede intelectual que inclui o programador Curtis Yarvin, que escrevia sob o pseudônimo Mencius Moldbug e defendia trocar a democracia por algo próximo de uma monarquia gerida como empresa, e o investidor Balaji Srinivasan, autor de The Network State (2022).2 A genealogia vai mais longe: o livro aponta como raiz filosófica The Sovereign Individual, de James Dale Davidson e William Rees-Mogg, publicado em 1997, que previa o declínio do Estado-nação diante da economia digital.

O “Cinturão do Papel” e a desculpa da eficiência

Srinivasan deu à ideia sua forma mais didática numa palestra de 2013 sobre a “saída definitiva” do Vale do Silício. Ali, contrapôs a indústria de tecnologia a quatro polos de poder dos Estados Unidos, que chamou de Paper Belt, o Cinturão do Papel: Boston (universidades), Nova York (mídia e cultura), Los Angeles (entretenimento) e Washington (leis). Diante de instituições que resistem a ser substituídas, restariam duas opções: mudá-las por dentro ou abandoná-las e fundar algo novo. Em 2013, a escolha declarada era a segunda.1,2

O ponto mais provocador da coluna de Peirano é que a pandemia inverteu essa equação. Em 2020, plataformas de comércio, pagamento, comunicação e entrega sustentaram a economia enquanto governos pareciam lentos e desorientados. Para quem já via as instituições democráticas como obsoletas, foi a prova empírica que faltava: se os executivos mantiveram o mundo funcionando, por que seriam eles a sair? A opção de transformar o sistema por dentro voltou à mesa.1

O projeto deixou de ser fundar um país novo fora do mapa. Passou a ser administrar, com a lógica de uma empresa, o país que já existe.

Essa mudança importa mais do que o rótulo que se escolha para ela. Um movimento que quer sair é, no limite, um problema de quem fica para trás. Um movimento que quer governar sem passar pelos mecanismos lentos de deliberação, contraditório e prestação de contas é um problema de todos.

São Francisco como laboratório

Durán, que acompanhou de perto a política californiana antes de se dedicar ao jornalismo independente, conta que só enxergou o padrão nas disputas locais de São Francisco em 2022.2 Naquele ano, a cidade destituiu por recall três integrantes do conselho escolar, numa campanha que teve investidores de tecnologia entre os doadores segundo o site Mission Local,6 e, em junho, o promotor distrital progressista Chesa Boudin. A campanha contra Boudin arrecadou 7,2 milhões de dólares, mais que o dobro dos grupos que o defendiam, segundo levantamento do San Francisco Chronicle, com contribuições de investidores como Garry Tan, hoje à frente da aceleradora Y Combinator, e David Sacks, ex-executivo do PayPal.5 Sacks se tornaria depois o czar de IA da Casa Branca e constava na lista do almoço de setembro.4

O episódio é instrutivo justamente por ser pequeno. Não houve golpe nem tanque. Houve dinheiro aplicado com método em eleições municipais, pautas reais de segurança pública e educação, e uma narrativa de competência contra a incompetência. Peirano recorre a Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, para descrever o efeito: as circunstâncias extremas não transformaram o protagonista, apenas lhe deram a desculpa para mostrar quem ele sempre foi.1 A eficiência, nesse raciocínio, funciona como a doença do personagem: um álibi.

Por que isso interessa ao Brasil

Seria confortável tratar o assunto como drama americano. Não é. O Brasil foi às urnas neste domingo para o primeiro turno de uma eleição em que a regulação digital está em jogo, ainda que quase nunca apareça nos debates. A Agência Pública, com base em painel da organização Ctrl Z, mapeou candidatos que na prática formam uma bancada das big techs no Congresso, com votos contrários à urgência da regulação das plataformas, ao marco da inteligência artificial e ao ECA Digital.9

As instituições brasileiras, por sua vez, já fizeram escolhas. Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que só responsabilizava as plataformas por conteúdo de terceiros após ordem judicial específica.11 Em junho de 2026, ao julgar os embargos, a Corte fixou prazo de 60 dias para que as empresas se adequassem ao novo dever de cuidado.7 Já o PL 2338/2023, o marco legal da IA aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, continua na Câmara; o presidente da Casa, Hugo Motta, prometeu votá-lo ainda neste ano.8

Pela lente do Cinturão do Papel, o Brasil é um caso exemplar de resistência institucional: tribunais, Congresso e imprensa disputando com plataformas o poder de definir regras. Foi assim em 2024, quando o X ficou suspenso no país por descumprir decisões judiciais, e nos atritos posteriores em que empresas e o próprio governo americano questionaram decisões do STF. A pergunta que a coluna de Peirano deixa para o leitor brasileiro é se essa resistência se sustenta quando o adversário deixa de ameaçar ir embora e passa a querer sentar à mesa, financiando candidatos, ocupando conselhos e oferecendo eficiência como substituto da deliberação.

O que está em jogo

A linha que importa não separa empresários que participam da política daqueles que se abstêm. Participar é direito de qualquer cidadão, inclusive dos bilionários. A linha separa quem aceita ser governado por regras que não escreve sozinho de quem trata essas regras como um custo operacional a ser contornado, por saída, por lobby ou por substituição.

A democracia é lenta por desenho. O contraditório, os recursos, as comissões e as eleições periódicas existem para que nenhum grupo, por mais competente que se julgue, decida sozinho em nome de todos. Quando a promessa de eficiência começa a ser apresentada como argumento contra esses mecanismos, e não como cobrança para que funcionem melhor, vale prestar atenção em quem está fazendo a oferta.

No Brasil, os testes são concretos e têm calendário: a votação do marco da IA, o cumprimento da decisão do STF sobre o artigo 19 e a composição do Congresso que sairá das urnas. Nenhum deles é ideológico. Todos medem a mesma coisa: se as instituições conseguem impor regras a quem acredita não precisar delas.

Perguntas frequentes

O que é o livro The Nerd Reich?

Lançado em agosto de 2026 pela Simon & Schuster, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy é o primeiro livro do jornalista Gil Durán. Ele reconstrói a história intelectual de um movimento de bilionários da tecnologia que, segundo o autor, busca substituir governos eleitos por formas de gestão corporativa.

O que Peter Thiel escreveu sobre democracia em 2009?

No ensaio “The Education of a Libertarian”, publicado pelo Cato Unbound em abril de 2009, Thiel afirmou não acreditar mais que liberdade e democracia fossem compatíveis e defendeu buscar a liberdade em novos territórios, como o ciberespaço, o espaço sideral e cidades no mar.

O que é o “Cinturão do Papel” (Paper Belt)?

É a expressão usada pelo investidor Balaji Srinivasan para designar os polos tradicionais de poder nos Estados Unidos: Boston, Nova York, Los Angeles e Washington. Na visão dele, essas instituições resistem à ascensão da indústria de tecnologia.

O que é um Network State?

É o conceito central do livro de Balaji Srinivasan publicado em 2022: comunidades organizadas pela internet, com valores e moeda próprios, que acumulariam recursos até negociar reconhecimento como entidades quase estatais.

Como o Brasil regula as big techs hoje?

Desde 2025, por decisão do STF, as plataformas podem ser responsabilizadas por conteúdo ilícito de terceiros sem ordem judicial prévia em várias situações, com dever de cuidado detalhado em 2026. O marco legal da inteligência artificial, PL 2338/2023, foi aprovado pelo Senado em 2024 e aguarda votação na Câmara. A LGPD e a ANPD já alcançam sistemas de IA que tratam dados pessoais.