Caderno Política Diplomacia & Ordem Global · 31 de julho de 2026

A revelação de que Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia, deve viajar a Pequim neste outono para seu primeiro encontro presencial com o chanceler chinês Wang Yi desde o embate de julho de 2025 em Bruxelas é, à primeira vista, um episódio protocolar. Mas o momento em que a viagem é anunciada diz mais do que o itinerário em si. Segundo o jornal South China Morning Post, o encontro deve reabrir o chamado "diálogo estratégico" bilateral, formato quase anual em que Bruxelas e Pequim discutem política externa e segurança, incluindo a guerra na Ucrânia, o Oriente Médio e o Estreito de Taiwan1.

O pano de fundo é conhecido. Desde o início de seu segundo mandato, o governo de Donald Trump reduziu de forma abrupta o envolvimento dos Estados Unidos em fóruns multilaterais, cortou bilhões em ajuda externa e adotou uma postura mais transacional com aliados históricos. Um levantamento da Modern Diplomacy mostra que a ajuda de todos os doadores da OCDE somados caiu de US$ 214,6 bilhões em 2024 para US$ 174,3 bilhões em 2025, queda de 23,1%, com a África sendo a região mais afetada2. Pela primeira vez em quase três décadas, Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha reduziram simultaneamente seus orçamentos de cooperação internacional.

Um vácuo, várias respostas

A pergunta que ecoa em Washington, Bruxelas e Brasília é a mesma: quem ocupa o espaço deixado pelos Estados Unidos? Para Joseph Nye, o cientista político que cunhou o conceito de "soft power" e faleceu neste ano, a resposta parecia óbvia. Ele chegou a afirmar que a China "está pronta para preencher o vácuo que Trump está criando", segundo artigo publicado pela revista Foreign Affairs3. Yanzhong Huang, pesquisador do Council on Foreign Relations, foi na mesma linha ao dizer que a retração americana "impulsionou a ofensiva de charme chinesa", conforme citado no mesmo texto.

A prática, no entanto, tem se mostrado mais seletiva do que a teoria sugere. Um estudo da Brookings Institution nota que a China evitou assumir o espaço deixado pelos americanos no Golfo Pérsico durante a guerra entre Israel e Irã, por não enxergar necessidade urgente de fazê-lo4. Na ONU, o embaixador chinês Fu Cong afirmou publicamente que seu país não tem interesse em substituir os Estados Unidos e rejeitou a ideia de um "jogo de soma zero" entre as duas potências, segundo reportagem da Modern Diplomacy5. Os números do próprio orçamento chinês reforçam a cautela: as doações de Pequim a organismos internacionais caíram ligeiramente em 2026, de 4,46 bilhões para 4,44 bilhões de yuans, uma retração de cerca de 0,5%.

"Beijing lacks both the capability and the willingness to fill the vacuum left behind by the U.S. retreat from the U.N." Chan, citado pela Consortium News, sobre a postura chinesa na ONU

Onde Pequim escolhe agir

Isso não significa passividade. A China tem avançado exatamente onde o cálculo comercial e industrial favorece seus interesses. Desde 1º de maio de 2026, Pequim zerou tarifas de importação para 53 países africanos, movimento inserido na comemoração dos 70 anos das relações China-África e em uma política de tarifa zero anunciada por Wang Yi2. A agenda de viagens também fala por si: só em 2026, Xi Jinping recebeu em Pequim os chefes de governo da Coreia do Sul, Reino Unido, Canadá, Finlândia, Irlanda e Alemanha, muitos deles justamente em razão do desgaste comercial com os Estados Unidos sob as tarifas de Trump. O Uruguai também enviou seu presidente à capital chinesa, a primeira visita de um líder sul-americano desde a ação militar americana contra a Venezuela.

No caso europeu, porém, a aproximação é marcada por desconfiança mútua. Segundo a Euronews, a relação entre Bruxelas e Pequim entrou em uma fase de "não causar dano" depois que uma tentativa de reset diplomático desmoronou no ano passado, quando a China impôs amplas restrições à exportação de terras raras6. A União Europeia monta agora uma força-tarefa de emergência para lidar com possíveis novas restrições quando o acordo temporário expirar em outubro, já que a China controla cerca de 66% da mineração e 88% do refino global desses insumos críticos. Em junho, os dois lados lançaram um Mecanismo de Consulta Comercial China-UE, com encontro ministerial marcado para o outono, o mesmo período em que Kallas deve visitar Pequim7.

Contraponto

A favor da tese do "vácuo preenchido": analistas como os citados pela Foreign Affairs e pelo Lowy Institute argumentam que, mesmo sem um esforço deliberado, a simples permanência da China nos fóruns multilaterais e nas relações comerciais já produz um ganho relativo de influência, à medida que os Estados Unidos recuam. O Lowy Institute chega a afirmar que "mesmo uma China estática verá sua influência preencher o vácuo deixado pela retirada dos EUA"8.

Contra essa leitura: pesquisadores do próprio campo de relações internacionais, incluindo os citados pela Brookings e pela Modern Diplomacy, apontam que os dados orçamentários chineses não sustentam a tese de uma expansão deliberada de influência. Pequim evitaria compromissos financeiros abertos, como ajuda humanitária bilateral ou financiamento climático, preferindo atuar apenas onde há retorno comercial ou industrial claro5.

O que isso significa para o Brasil

Para potências médias como o Brasil, o momento atual é descrito por analistas como uma "multipolaridade instável", um mundo com vários centros de poder, mas sem regras claras nem liderança estável, segundo artigo publicado no The Conversation9. Um estudo do European Council on Foreign Relations classifica o Brasil como o principal candidato latino-americano a uma cooperação ampliada com a União Europeia, por ser a maior economia da região e a única com ambição e capacidade reais de influenciar a ordem mundial10. O mesmo estudo nota, porém, que a relação enfrenta atritos: a União Europeia segue sendo o principal investidor estrangeiro no Brasil e seu segundo maior parceiro comercial, mas tem se mostrado incomodada com a presença brasileira no BRICS e com a diplomacia de paz de Brasília para a guerra na Ucrânia.

Pesquisadores do CEBRI descrevem historicamente dois paradigmas em disputa dentro do Itamaraty: um americanista, que defende o alinhamento com os Estados Unidos como via de inserção internacional, e um universalista, que prescreve diversificação de parcerias11. A retração americana e a ascensão seletiva da China no tabuleiro global tendem a fortalecer justamente a segunda corrente, ao ampliar o espaço de manobra de países que, como o Brasil, buscam não escolher lados, mas posições.

O encontro entre Kallas e Wang Yi em Pequim, quando ocorrer, dificilmente resolverá as tensões estruturais entre Europa e China, sobretudo em torno de terras raras, do apoio chinês à economia de guerra russa e da disputa comercial em veículos elétricos. Mas ilustra bem o tipo de diplomacia que caracteriza este momento: cautelosa, transacional, movida menos por visões ideológicas concorrentes do que pela necessidade prática de gerenciar dependências em um mundo cada vez menos ancorado por uma única potência.

Esta reportagem foi baseada em informações originais do jornal South China Morning Post, que revelou com exclusividade a expectativa de viagem de Kaja Kallas a Pequim: "Top EU diplomat Kallas expected to visit Beijing in autumn amid deepest strains in years" (Finbarr Bermingham, 31 de julho de 2026). O conteúdo não foi reproduzido nem traduzido integralmente; a reportagem d'O Tecido apurou fontes adicionais independentes, listadas na seção de referências.