Um procedimento de vinte minutos, sem bisturi e sem furar o crânio, conseguiu reduzir em mais de 90% a fissura por drogas relatada por voluntários em um estudo americano. A técnica, batizada de ultrassom focalizado, ainda é experimental, mas já desperta interesse de hospitais e investidores. Num país que soma milhões de dependentes químicos e agora enfrenta uma epidemia paralela de vício em apostas online, a promessa chega em boa hora, ainda que cercada de perguntas.
Erin McNulty tinha 45 anos e mais de duas décadas de dependência química, que começou com álcool e maconha na adolescência e evoluiu para heroína, cocaína e, por fim, metanfetamina, quando sua mãe assistiu a uma reportagem de televisão sobre um tratamento experimental na Universidade de West Virginia, nos Estados Unidos. A equipe do neurocirurgião Ali Rezai vinha testando um dispositivo capaz de emitir ondas de ultrassom através do crânio intacto, mirando uma região específica do cérebro ligada ao circuito de recompensa. Depois de duas tentativas frustradas e de um tratamento placebo, Erin recebeu a aplicação real em janeiro de 2025. Ainda dentro do aparelho de ressonância magnética, relatou que a vontade de usar a droga simplesmente desapareceu.
O caso está no centro de uma reportagem publicada pela revista americana Wired, que acompanhou o trabalho do Rockefeller Neuroscience Institute, da West Virginia University (WVU). Segundo a publicação, o grupo já aplicou o procedimento em 47 pessoas com transtornos por uso de substâncias dentro de estudos clínicos em andamento. Nos primeiros 20 participantes, que sabiam estar recebendo o tratamento real, a equipe observou uma redução superior a 90% na fissura autorrelatada e de 80% nos exames de urina positivos para drogas.
01Como o ultrassom tenta reprogramar o cérebro
O alvo do procedimento é o núcleo accumbens, uma estrutura do tamanho de uma ervilha que funciona como central de processamento do prazer e da recompensa. É nela que substâncias como metanfetamina e opioides provocam inundações de dopamina, o neurotransmissor associado à sensação de bem-estar. Com o uso repetido, o cérebro passa a exigir doses cada vez maiores da substância para alcançar o mesmo efeito, criando o ciclo da dependência.
Diferentemente de técnicas como a estimulação magnética transcraniana, que atinge apenas as camadas mais externas do córtex, o ultrassom de baixa intensidade consegue penetrar estruturas profundas sem qualquer corte. Dezenas de feixes sonoros emitidos por um capacete equipado com cristais piezoelétricos convergem em um único ponto do cérebro, ajustado com precisão milimétrica dentro de um aparelho de ressonância magnética. Isoladamente, cada feixe é fraco demais para alterar o tecido; juntos, no ponto de convergência, produzem energia suficiente para modular a atividade dos neurônios daquela região.
A hipótese mais aceita entre pesquisadores é que o ultrassom atua sobre canais iônicos, estruturas celulares que regulam a entrada de sódio, potássio e cálcio nas células nervosas. Ao alterar esse fluxo, a técnica muda temporariamente a forma como os neurônios disparam sinais, o que pode explicar o efeito imediato sobre a fissura relatado por participantes do estudo americano.
02Segurança ainda é uma incógnita
Nem tudo são boas notícias. Cerca de um mês após o procedimento de Erin, um voluntário de 44 anos do mesmo estudo sofreu uma lesão cerebral durante a aplicação, com pequenas hemorragias ao redor do núcleo accumbens, enquanto os pesquisadores aumentavam a intensidade das ondas. Ele ficou inconsciente por 24 horas e, mesmo recuperado, ainda apresenta episódios de confusão e problemas de memória meses depois. O episódio interrompeu o estudo por oito meses, levou a revisões de segurança junto à agência regulatória americana (FDA) e obrigou o fabricante do equipamento a instalar mecanismos automáticos de corte de energia.
Especialistas ouvidos pela Wired e por publicações científicas descrevem o incidente como um alerta sério para a área. Não existem, até o momento, parâmetros padronizados de intensidade e tempo de exposição, e diferentes fabricantes operam com frequências distintas, o que torna difícil comparar resultados entre centros de pesquisa.
Contraponto: promessa não é cura
Pesquisadores independentes, incluindo especialistas da Universidade do Texas em Austin e da Universidade Stanford, ponderam que o ultrassom focalizado ainda opera em uma faixa intermediária de intensidade sobre a qual pouco se sabe, e que é possível que o procedimento provoque alterações estruturais no tecido cerebral ainda não totalmente compreendidas. O próprio Rezai reconhece que a técnica não substitui terapia comportamental nem suporte social durante a recuperação, e que parte dos pacientes que recaem volta a usar drogas não por fissura, mas simplesmente porque a substância estava disponível.
Também não há certeza sobre a durabilidade do efeito nem sobre a necessidade de sessões repetidas ao longo dos anos. Os dados do estudo randomizado e controlado do qual Erin participou ainda estão sendo analisados pela equipe da universidade americana.
03O que isso significa para o Brasil
Enquanto a tecnologia amadurece nos Estados Unidos, o Brasil enfrenta seu próprio quadro de dependência em escala. Levantamento da Fiocruz aponta que mais de 3,5 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de dependência química, além de 11,7 milhões de dependentes de álcool, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido pela Unifesp. O mesmo estudo, com dados coletados em 2023 e divulgado em 2025, estima em cerca de 1,2 milhão o número de brasileiros dependentes de cocaína ou crack.
A esse cenário se soma um fenômeno mais recente: o vício em apostas esportivas e cassinos online, as chamadas bets. Pesquisa Datafolha feita em maio de 2026 mostra que 57% dos brasileiros já associam as plataformas de apostas ao desenvolvimento de vício, ante 54% em 2024, enquanto levantamento da Anbima em parceria com o Datafolha indica que a proporção de adultos que já apostou dinheiro online saltou de 14% em 2023 para 17% em 2025, concentrada sobretudo entre homens jovens.
🇧🇷 A fissura tem o mesmo endereço no cérebro
- O vício em jogos de azar ativa circuitos de recompensa muito parecidos aos acionados por drogas como cocaína e metanfetamina, o que torna o núcleo accumbens um alvo relevante também para dependência comportamental, não apenas química.
- Hospitais brasileiros já usam ultrassom focalizado de alta intensidade para tremor essencial e sintomas motores do Parkinson, incluindo protocolos conduzidos por pesquisadores da Unicamp, o que mostra que a infraestrutura clínica para a técnica já existe em parte no país.
- A Faculdade de Medicina da UFMG recebeu em 2025 o primeiro equipamento de ultrassom funcional cerebral do Brasil, hoje usado em pesquisa pré-clínica, um passo inicial rumo a estudos mais avançados de neuromodulação por aqui.
- Ainda não há, até a publicação desta reportagem, ensaios clínicos brasileiros testando o ultrassom focalizado especificamente para dependência química ou comportamental, o que significa que o caminho até uma eventual aprovação pela Anvisa segue longo.
Para especialistas brasileiros em neuroengenharia, a chamada neuromodulação não invasiva, que inclui o ultrassom de baixa intensidade, funciona como um regulador de volume aplicado a circuitos cerebrais específicos, ajustando temporariamente sua atividade sem provocar lesões permanentes, ao contrário das cirurgias tradicionais de estimulação cerebral profunda. Se essa lógica puder um dia ser adaptada para o vício em apostas, o impacto potencial é significativo diante de um público jovem, majoritariamente masculino e frequentemente sem reserva financeira, como mostram os próprios levantamentos do setor financeiro brasileiro.
04Um caminho ainda em construção
O protocolo testado em West Virginia já está sendo replicado em outros centros americanos, em Baltimore, na Flórida e em Nova York, além de sites internacionais, e chamou a atenção de investidores de tecnologia, incluindo iniciativas ligadas a nomes como Sam Altman e Reid Hoffman, interessados em miniaturizar os equipamentos para uso ambulatorial. Mas a distância entre um resultado promissor em 47 voluntários e um tratamento validado, padronizado e disponível em larga escala continua considerável, e o próprio caso do participante que sofreu a lesão cerebral serve de lembrete de que o cérebro humano não deve ser tratado como um simples botão de reiniciar.
Para pacientes como Erin, hoje de volta à rotina em Vermont, sem sinais de fissura e trabalhando na loja de antiguidades da família, o procedimento representou o que sua mãe chama de reinício. Para a ciência, resta ainda validar, em escala e com segurança comprovada, se esse reinício pode ser oferecido de forma responsável a milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, que hoje não encontram no tratamento convencional uma saída suficiente.
Perguntas frequentes
O que é o ultrassom focalizado usado contra o vício?
É uma técnica não invasiva que emite ondas sonoras de baixa intensidade através do crânio intacto, convergindo em uma região específica do cérebro ligada ao circuito de recompensa, o núcleo accumbens, sem necessidade de cirurgia ou implantes.
O procedimento já é aprovado no Brasil?
Não. No Brasil, o ultrassom focalizado de alta intensidade já é usado clinicamente para tremor essencial e alguns sintomas do Parkinson, mas seu uso para dependência química ou comportamental ainda não passou por ensaios clínicos nacionais nem por avaliação da Anvisa.
Quais são os riscos conhecidos até agora?
Os efeitos leves relatados incluem dor de cabeça e formigamento. Já foi registrado, nos Estados Unidos, um caso grave de hemorragia cerebral em um voluntário durante o ajuste de intensidade do aparelho, o que levou à suspensão temporária do estudo e à adoção de novos mecanismos de segurança.
A técnica poderia ajudar no vício em apostas online?
Em tese, sim, já que o vício em jogos de azar ativa vias cerebrais de recompensa semelhantes às da dependência química. Mas até o momento não existem estudos publicados testando especificamente o ultrassom focalizado para transtorno do jogo, o que torna essa aplicação uma hipótese e não uma realidade clínica.
O tratamento substitui terapia e acompanhamento médico?
Não. Mesmo os pesquisadores responsáveis pela técnica nos Estados Unidos afirmam que ela precisa vir acompanhada de terapia comportamental e suporte durante a recuperação, já que fatores ambientais continuam influenciando o risco de recaída.