Um elefante africano carrega, em cada uma de suas células, cerca de 20 cópias do gene TP53, o principal vigia contra mutações que originam tumores. Um ser humano tem apenas uma[6,7]. Ainda assim, apesar de ter centenas de vezes mais células do que uma pessoa e viver décadas, o elefante adoece de câncer com menos frequência do que nós. Essa incoerência estatística intriga biólogos evolutivos há mais de cinquenta anos e ganhou um nome, o paradoxo de Peto, em homenagem ao epidemiologista britânico Richard Peto, que o formulou nos anos 1970 ao notar que camundongos, com mil vezes menos células que humanos, não deveriam ter uma incidência de câncer tão parecida com a nossa se o risco crescesse de forma linear com o número de divisões celulares[6].
O biólogo evolutivo americano Carlo Maley, que dirige o Centro de Evolução do Câncer do Arizona State University, passou a última década tentando decifrar como a seleção natural resolveu esse quebra-cabeça em espécies de corpo grande. Em entrevista recente ao jornal espanhol El País, concedida durante sua passagem por Barcelona para um congresso de pesquisa biomédica, Maley descreveu como elefantes detectam dano no DNA com uma sensibilidade que os humanos simplesmente não têm, eliminando de imediato a célula defeituosa antes que ela se torne perigosa[1]. Mas o pesquisador foi além da genética comparada: propôs uma virada de raciocínio para a própria prática da oncologia, sugerindo que tratar o câncer com a menor dose eficaz de remédio, e não com a dose máxima tolerada, pode ser uma estratégia melhor para lidar com tumores que já não têm cura possível[1].
Por que a natureza protegeu os grandes
A resposta que a evolução deu aos elefantes não veio de um único mecanismo, mas de um acúmulo de redundâncias. Além das cópias extras de TP53, pesquisas conduzidas por Vincent Lynch e colaboradores identificaram nos elefantes um segundo gene, o LIF6, que voltou a funcionar depois de ter ficado inativo por milhões de anos, um verdadeiro gene "zumbi" reativado ao longo da evolução do grupo dos proboscídeos[6]. Quando o TP53 detecta dano grave no DNA de uma célula, é o LIF6 que executa a ordem de eliminá-la. Em baleias, o mecanismo parece diferente e ainda menos compreendido: tudo indica um reparo de DNA mais eficiente, sem a multiplicação de cópias gênicas observada nos elefantes[1].
Há, no entanto, controvérsia acadêmica sobre o quanto essas cópias extras de TP53 realmente explicam a resistência ao câncer dos elefantes. Uma reavaliação publicada na revista Evolutionary Applications questiona se a expansão do gene é suficiente, por si só, para justificar o paradoxo, e sugere que o tamanho e a taxa de divisão das células, que nos elefantes são maiores e mais lentas, também contribuem para reduzir o risco de um tumor se iniciar[7]. Para Maley, a explicação evolutiva mais ampla é simples: a seleção natural só aperfeiçoa aquilo que ameaça a reprodução de um organismo, e um camundongo que vive dois anos não precisa da mesma blindagem genética que um elefante que pode viver setenta[1].
A meta da oncologia não deveria ser sempre a cura, mas prolongar a vida com qualidade, mesmo quando o tumor continua presente. Ideia central defendida por Carlo Maley, biólogo evolutivo — El País, 28 jul. 2026[1]
A ideia de tratar com menos, não com mais
O protocolo padrão da oncologia ocidental segue, desde os anos 1940, uma lógica simples: usar a dose máxima que o paciente consegue tolerar, na frequência mais alta possível, para eliminar o maior número de células tumorais. Maley e outros pesquisadores ligados à chamada oncologia evolutiva argumentam que essa lógica, embora eficaz contra tumores curáveis por cirurgia ou em estágio inicial, pode ser contraproducente em cânceres metastáticos que já abrigam alguma resistência genética ao tratamento[1].
A explicação segue um raciocínio ecológico. Dentro de um tumor, células sensíveis ao medicamento e células resistentes competem pelos mesmos recursos, como oxigênio, glicose e espaço físico. Se a dose elimina quase todas as células sensíveis, as poucas resistentes perdem sua concorrência e passam a se multiplicar sem freio, um fenômeno que a literatura chama de liberação competitiva. Usar uma dose menor mantém uma população de células sensíveis viva o suficiente para continuar disputando espaço com as resistentes, retardando a progressão do tumor[1].
O que os ensaios clínicos já mostraram
Essa não é apenas uma hipótese de laboratório. O modelo mais avançado de terapia adaptativa em humanos vem de um ensaio clínico piloto conduzido no Moffitt Cancer Center, na Flórida, com homens portadores de câncer de próstata metastático resistente à castração. Em vez de manter a dose contínua de abiraterona, um inibidor hormonal, os médicos suspendiam o remédio assim que os marcadores tumorais caíam e o reintroduziam apenas quando eles voltavam a subir[3]. Nos pacientes tratados de forma convencional, o tempo médio até a progressão da doença era de cerca de 16,5 meses. No grupo submetido à terapia adaptativa, esse período mais que dobrou, chegando a uma mediana de 33,5 meses em uma reavaliação com quatro anos adicionais de acompanhamento, e o uso cumulativo do medicamento caiu para menos da metade do padrão[3,4].
Resultados assim animaram outros centros a testar o modelo. Está em curso um ensaio de fase 2 batizado ANZaDapt, conduzido simultaneamente na Holanda e na Austrália, comparando terapia adaptativa e terapia contínua em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração[5]. Uma revisão publicada no início de 2026 no Journal of the National Cancer Center propôs ampliar o conceito de terapia adaptativa para além da oncologia de próstata, defendendo que o equilíbrio entre carga tumoral, eficácia terapêutica e efeitos adversos deveria orientar decisões de tratamento em todo o percurso do cuidado oncológico, da intenção curativa ao controle de longo prazo[8].
Em debate na comunidade científica
A favor: defensores da terapia adaptativa argumentam que ela reconhece uma realidade biológica ignorada pela oncologia convencional, a de que a resistência tumoral é um processo evolutivo sujeito às mesmas pressões seletivas observadas na natureza, e que reduzir a dose pode ganhar tempo de vida sem ampliar a toxicidade do tratamento[1,3].
Cautela: críticos apontam que o ensaio original do Moffitt envolveu um número pequeno de pacientes, cerca de dez a dezessete homens, e que uma análise publicada na Nature Communications questionou aspectos da forma como os dados foram relatados e comparados a um grupo de controle não randomizado[3]. Também não há, até o momento, evidência equivalente para a maioria dos tipos de tumor sólido, e o próprio Maley reconhece que a estratégia só se justifica quando a cura por cirurgia ou tratamento definitivo já foi descartada como possibilidade[1].
O que isso significa para o Brasil
A discussão chega em um momento delicado para a oncologia brasileira. O Instituto Nacional de Câncer estima que o país registre 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026-2028, um salto de cerca de 10% em relação à estimativa anterior, impulsionado sobretudo pelo envelhecimento populacional[2]. Excluídos os tumores de pele não melanoma, de alta incidência mas baixa letalidade, a projeção é de aproximadamente 518 mil casos anuais[2]. Especialistas ouvidos pela imprensa brasileira já apontam que o câncer está a caminho de se tornar a principal causa de morte no país, superando as doenças cardiovasculares[2].
Diante desse volume crescente de pacientes, sobretudo aqueles diagnosticados em estágio avançado, o interesse por estratégias que prolonguem a sobrevida com qualidade, mesmo sem cura, tende a ganhar espaço. Centros de pesquisa oncológica brasileiros, como o A.C.Camargo Cancer Center, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e o próprio INCA, já participam de ensaios clínicos internacionais multicêntricos voltados à otimização de dose e à desescalada terapêutica em diferentes tumores, um terreno conceitualmente próximo ao da terapia adaptativa, ainda que protocolos de terapia adaptativa propriamente ditos, no modelo do Moffitt, não estejam entre os ensaios brasileiros em andamento até o momento. A entrada do país nesse tipo de pesquisa evolutiva dependeria, segundo pesquisadores da área, de infraestrutura de monitoramento tumoral frequente e de baixo custo, hoje ainda concentrada em poucos centros de referência.
Para Maley, o recado central não é técnico, mas filosófico: a medicina se obcecou tanto com a palavra cura que deixou de lado a pergunta sobre como prolongar a vida e preservar sua qualidade quando a cura não está ao alcance[1]. Trata-se de uma aposta em tornar o câncer uma condição crônica administrável, como o HIV ou o diabetes se tornaram, mais do que uma sentença a ser vencida ou perdida de uma só vez[1].