O dólar segue sendo a moeda mais usada do planeta. Cerca de 89% de todas as transações cambiais globais passam por ele, e perto de 60% das reservas dos bancos centrais ao redor do mundo ainda estão em ativos denominados em dólar. Mas esse domínio, construído ao longo de oito décadas, está sendo testado por uma combinação incomum de fatores: pressões políticas sobre o Federal Reserve, tensões com aliados históricos e a ascensão de sistemas de pagamento alternativos liderados por China e Europa. Para economistas como Barry Eichengreen, professor de Berkeley, esse é o momento mais sério de contestação à hegemonia da moeda americana desde os anos 1970.
Em artigo de opinião publicado no New York Times em 28 de agosto de 2026, Eichengreen argumenta que as ações do governo Trump (2025 a 2029) reacenderam um debate que muitos consideravam superado desde a crise do padrão-ouro na década de 1970. Segundo ele, tentativas de interferir no Federal Reserve, o histórico de ataques à autonomia do banco central americano e as dúvidas sobre o compromisso dos Estados Unidos com aliados tradicionais como Coreia do Sul e países da Otan estão levando bancos centrais a repensar sua dependência do dólar. O autor é também assinante do livro Money Beyond Borders: Global Currencies from Croesus to Crypto, no qual traça a história das moedas de reserva desde a Antiguidade até as criptomoedas.
O paralelo histórico que Eichengreen resgata é o episódio de 1976, quando o economista do MIT Charles Kindleberger declarou o dólar "acabado" como moeda internacional, reação ao fim do padrão-ouro decretado por Richard Nixon em 1971 e ao escândalo Watergate. Kindleberger errou: o dólar sobreviveu graças à recuperação institucional dos EUA, à condução ortodoxa do Federal Reserve sob Paul Volcker e a acordos geopolíticos, como o pacto de 1974 entre o Tesouro americano e a Arábia Saudita para precificar petróleo em dólar. Cinquenta anos depois, o argumento é que essas mesmas âncoras (independência do Fed, alianças militares e confiança institucional) estão mais frágeis.
O caso Lisa Cook e a autonomia do Fed
Um dos pontos centrais do debate é a tentativa da Casa Branca de afastar a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, sob acusação de fraude em financiamento imobiliário, que ela nega. A Suprema Corte dos Estados Unidos bloqueou a demissão em junho de 2026 e determinou que o caso seja julgado em profundidade, mantendo Cook no cargo. Para analistas de mercado, o episódio expôs uma disputa sem precedentes na história de 112 anos do banco central americano: nenhum presidente havia tentado remover um diretor do Fed antes. A incerteza sobre até que ponto o Executivo pode interferir na condução da política monetária é justamente o tipo de risco institucional que reduz o apetite de outros países por manter reservas concentradas em dólar.
O Brasil já está diversificando
Enquanto o debate americano se desenrola, o Banco Central do Brasil (BCB) vem tomando decisões concretas na mesma direção. De acordo com o Relatório de Gestão das Reservas Internacionais divulgado pela autarquia, o país vendeu cerca de US$ 61 bilhões em títulos do Tesouro americano entre outubro de 2024 e outubro de 2025, ao mesmo tempo em que ampliou de forma expressiva suas posições em ouro. A participação do metal na cesta de reservas brasileiras saltou de 3,55% para 7,19% no período, tornando-se o segundo ativo mais relevante depois do próprio dólar. O movimento coloca o Brasil ao lado de China (que reduziu US$ 71,4 bilhões em treasuries) e Índia (US$ 50,7 bilhões) entre os emergentes que mais recuaram na exposição à dívida americana.
Contraponto: o dólar ainda não tem substituto à altura
Nem todo economista concorda que a desdolarização avança em ritmo acelerado. A profundidade e a liquidez do mercado de títulos americanos seguem sem paralelo: não há hoje um mercado de capitais em euro, iuane ou qualquer outra moeda capaz de absorver o volume de reservas globais atualmente estacionado em dólar. Estudos como os do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB) classificam o processo como gradual e incipiente, e não como uma ruptura iminente. Mesmo com a diversificação, o dólar segue representando a maior fatia isolada das reservas brasileiras e globais.
Comércio direto em real e yuan com a China
Além da gestão de reservas, o Brasil ampliou nos últimos anos a liquidação de comércio bilateral diretamente em reais e yuans, sem passar pelo dólar como moeda intermediária. A China é parceira comercial do país há 17 anos consecutivos, com fluxo bilateral recorde de US$ 171 bilhões, mais que o dobro do volume negociado com os Estados Unidos. Bancos como o Bank of Communications BBM já operam no CIPS, o sistema chinês de pagamentos interbancários equivalente ao Swift, tornando o Brasil o primeiro país da América Latina com acesso à rede. Em junho de 2026, delegações dos dois países voltaram a se reunir no âmbito da Cosban para ampliar swaps cambiais e negociações diretas entre as moedas.
O que isso significa para quem investe e importa no Brasil
Para empresas brasileiras com operações de comércio exterior, a diversificação cambial tende a reduzir custos de conversão em transações com a China, mas não elimina a exposição ao dólar em contratos com outros parceiros, na precificação de commodities como petróleo e soja, ou na dívida externa privada. Para investidores, o recado de Eichengreen é que instabilidade institucional nos EUA pode, no médio prazo, pressionar prêmios de risco sobre ativos em dólar, o que reforça a lógica de diversificação de portfólio que o próprio Banco Central brasileiro já vem praticando com ouro, iuane e outras moedas.
Perguntas frequentes
Por que o dólar é a principal moeda de reserva do mundo?
Porque concentra a maior liquidez e profundidade de mercado entre todas as moedas, sendo usado em cerca de 89% das transações cambiais globais e em quase 60% das reservas dos bancos centrais, segundo dados citados no artigo de Barry Eichengreen no New York Times.
O Brasil está reduzindo sua dependência do dólar?
Sim. O Banco Central vendeu cerca de US$ 61 bilhões em títulos do Tesouro americano entre 2024 e 2025 e elevou a participação do ouro em suas reservas de 3,55% para 7,19%, além de ampliar o comércio direto em real e yuan com a China.
O caso da diretora do Fed Lisa Cook afeta a confiança no dólar?
Analistas apontam que sim. A tentativa da Casa Branca de demiti-la, barrada pela Suprema Corte em junho de 2026, é vista como um teste inédito à independência do Federal Reserve, um dos pilares históricos que sustentam a confiança internacional na moeda americana.
Existe um substituto real para o dólar hoje?
Ainda não, segundo a maioria dos economistas. Nenhuma outra moeda ou mercado de capitais tem, no momento, liquidez suficiente para substituir o dólar em escala global, embora Europa e China estejam investindo em alternativas como a União dos Mercados de Capitais europeia e o sistema CIPS chinês.
Nota editorial: Este artigo foi inspirado no texto de opinião "King Donald Is Dethroning the Dollar", de Barry Eichengreen, publicado pelo The New York Times em 28 de agosto de 2026 (leia o original aqui). O conteúdo foi reelaborado de forma independente por O Tecido, com apuração e fontes brasileiras adicionais. Dados sobre a composição das reservas internacionais do Brasil e sobre o comércio em moeda local com a China devem ser confirmados junto às fontes primárias (BCB e Apex Brasil) antes de republicação, por se tratar de estatísticas sujeitas a atualização.