Em 1966, pesquisadores da Universidade de Stanford propuseram o que consideravam uma inovação promissora: substituir terapeutas humanos por um programa de computador capaz de conduzir centenas de sessões simultâneas. Joseph Weizenbaum, o cientista da computação que havia criado o chatbot que serviu de modelo para a proposta, ficou indignado. "Respeito, compreensão e amor não são problemas técnicos", escreveu ele. A questão relevante nunca foi o que as máquinas podem fazer, mas o que elas deveriam fazer.

Sessenta anos depois, essa mesma distinção — entre capacidade e legitimidade — está no centro de dois livros que chegam às livrarias com poucos meses de diferença, em momento em que a inteligência artificial deixou de ser futurismo para se tornar rotina de escritório, armazém e mina de carvão. São obras muito diferentes em tom, método e conclusão, mas que dialogam com urgência sobre o mesmo pano de fundo: o que acontece com o trabalho — e com os trabalhadores — quando as máquinas aprendem a pensar.

Livro I

We Are Not Machines:
The Fight for the Future of Work

Sarah O'Connor · 2026

Uma investigação jornalística que visita trabalhadores de quatro continentes — motoristas de caminhão nos EUA, mineiros na Suécia, tradutoras na Europa, trabalhadores de plataforma nos Himalaias — para mostrar que a ameaça da IA ao trabalho não é apenas sobre empregos perdidos, mas sobre o que o trabalho se torna.

Livro II

A Próxima Onda:
Inteligência Artificial, Poder e o Maior Dilema do Século XXI

Mustafa Suleyman · 2025

Escrito pelo cofundador da DeepMind e CEO do Microsoft AI, o livro descreve uma "onda" tecnológica de escala sem precedentes e argumenta que a única resposta possível é a contenção — e que mesmo os criadores da tecnologia não são imunes às suas próprias forças.

A onda e quem ela carrega

Mustafa Suleyman, cofundador da DeepMind e hoje CEO do Microsoft AI, escreveu A Próxima Onda com a consciência incômoda de quem construiu parte do que o mundo teme. A metáfora central do livro — a "onda" tecnológica que se aproxima — não é decorativa. Suleyman a usa para nomear algo que, segundo ele, é genuinamente inevitável: a combinação de inteligência artificial e biotecnologia criará ferramentas de poder sem precedente histórico, acessíveis a uma quantidade cada vez maior de atores — Estados, corporações, indivíduos.

O argumento central do livro não é tecnofóbico. Suleyman acredita nos benefícios da IA — cura de doenças, aumento de produtividade, expansão do conhecimento humano. Mas é precisamente porque acredita que a tecnologia é poderosa que a trata como perigosa. A "próxima onda", argumenta, não pode ser detida, apenas contida. E a contenção exige instituições, regulação e uma disposição para limitar os próprios interesses — algo que nenhuma força de mercado produzirá espontaneamente.

Cada laboratório de IA de fronteira — incluindo a Anthropic — opera dentro de um conjunto de incentivos e restrições que às vezes conflitam com fazer a coisa certa. Precisamos de críticos informados que digam aos laboratórios quando estamos falhando. Precisamos de vozes morais que os incentivos não possam dobrar.

— Chris Olah, cofundador da Anthropic — maio de 2026

Para o trabalho especificamente, Suleyman não oferece nem catastrofismo nem tranquilização. Reconhece que a automação terá impactos assimétricos — atingindo trabalhadores de classe média com mais intensidade do que os extremos da escala de renda — e que o ritmo da mudança pode superar a capacidade das instituições de responder. Mas sua preocupação maior é sistêmica: o que acontece quando a tecnologia se torna uma força geopolítica? Quem controla a próxima onda controla muito mais do que empregos.

Não são os empregos. É a qualidade do trabalho.

Sarah O'Connor chegou a conclusões diferentes — e mais perturbadoras — não a partir de modelos preditivos, mas de reportagens. Colunista do Financial Times e ganhadora do Prêmio Orwell de jornalismo, ela passou anos visitando trabalhadores que convivem com a automação no cotidiano. O que encontrou não foi o tsunami que os futurologistas prometeram. Encontrou algo mais silencioso e mais difuso.

A tese central de We Are Not Machines inverte a pergunta usual. Em vez de "a IA vai roubar empregos?", O'Connor pergunta: "e se o maior risco não for que façamos máquinas à nossa imagem, mas que silenciosamente nos refaçamos à imagem delas?" Tradutores profissionais que antes criavam, agora apenas revisam a produção das máquinas — em dobro de velocidade, pela metade do preço. Trabalhadores de armazém monitorados em tempo real por sistemas que medem cada segundo de pausa. Candidatos a emprego entrevistados por algoritmos que analisam o tom de voz e os movimentos faciais.

O paradoxo da automação

A promessa original da automação era libertar trabalhadores das tarefas mais tediosas e perigosas para que pudessem se dedicar a atividades mais criativas e significativas. O que a reportagem de O'Connor encontrou foi o inverso: em muitos casos, a IA está tornando o trabalho mais monótono, mais vigiado e menos humano — sem eliminar os postos, mas esvaziando-os de sentido.

O livro não é pessimista por princípio. O'Connor encontra, também, exemplos de como a tecnologia pode ser negociada — literalmente. Nas minas suecas abaixo do Círculo Ártico, onde caminhões autônomos operam em túneis escuros, os trabalhadores participaram das decisões sobre a implementação da IA. Quando a empresa quis instalar um sistema de monitoramento de localização em tempo real, os mineiros negociaram: a empresa poderia saber onde alguém estava, mas não quem era — exceto em emergências. A tecnologia de anonimização foi desenvolvida sob demanda, como produto de uma disputa trabalhista legítima. "Não somos hostis à tecnologia", disse um dos mineiros à autora. "Vemos as possibilidades."

Duas teses, uma questão

Lidos em conjunto, os dois livros constroem um quadro mais completo do que cada um oferece sozinho. Suleyman fornece o enquadramento macro: a inteligência artificial é uma força de transformação histórica, e a pergunta não é se ela vai mudar o mundo, mas como — e quem estará no controle desse processo. O'Connor fornece o enquadramento micro: a transformação já está em curso, e seu impacto não se mede apenas em empregos extintos, mas em empregos que se tornaram piores.

Ambos convergem em um ponto fundamental: o resultado não está predeterminado. Suleyman argumenta que a contenção é possível, se difícil. O'Connor mostra que a negociação já acontece — e que seus resultados dependem de quem tem poder para negociar. A diferença entre uma mina sueca onde os trabalhadores têm voz e um armazém americano onde são monitorados como máquinas não é tecnológica. É política, institucional e cultural.

É também, em última análise, ética — o que nos traz de volta a Weizenbaum. Sua advertência dos anos 1970 permanece sem resposta satisfatória: "Os limites da aplicabilidade dos computadores são enunciáveis apenas em termos do que se deve fazer." Não do que se pode. Enquanto a indústria de tecnologia continuar respondendo apenas à primeira pergunta, a segunda ficará a cargo de trabalhadores, legisladores, cidadãos e, ocasionalmente, de jornalistas corajosos o suficiente para descer às minas e perguntar como as coisas realmente estão.

Acreditamos que os computadores estão sendo usados de maneiras que aumentam o poder dos menos poderosos e que diminuem o poder dos mais poderosos. Mas o que descobri foi o oposto.

— Sarah O'Connor · We Are Not Machines, 2026

Nenhum dos dois livros oferece um manual de instruções. Seria ingênuo esperar isso. O que oferecem, em compensação, é algo mais raro na literatura sobre inteligência artificial: intelectual honestidade sobre a incerteza, e a recusa de tratar a mudança tecnológica como fenômeno natural — como uma onda que simplesmente chega, indiferente ao que os seres humanos pensam ou fazem. Ler os dois, em sequência, é um exercício de lucidez em um momento que convida ao desamparo.