O teste que Wall Street está prestes a aplicar em OpenAI e Anthropic
As duas maiores empresas de inteligência artificial do mundo caminham para abrir capital em meio a valuations de US$ 1 trilhão. A pergunta que os investidores da bolsa vão fazer é bem mais dura do que a que os fundos privados já responderam.
Há uma diferença clássica entre votar e pesar. Investidores de mercado privado passaram os últimos anos votando, com entusiasmo quase unânime, a favor de OpenAI e Anthropic — elevando as duas startups a valuations que se aproximam de US$ 1 trilhão cada uma. Mas esse período está com os dias contados. Anthropic confirmou, em 1º de junho, um pedido confidencial de abertura de capital à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, dias antes de a OpenAI seguir o mesmo caminho1. A partir do momento em que as ações começarem a ser negociadas, será a vez do mercado público pesar — de forma bem menos generosa — a capacidade real dessas empresas de transformar promessa em caixa.
Uma corrida que já soma trilhões
O apetite por papéis de inteligência artificial já foi testado neste ano. A SpaceX, que inclui a divisão de IA xAI desde a fusão anunciada em fevereiro, estreou na Nasdaq em 12 de junho levantando mais de US$ 85 bilhões, com o valor das ações saltando cerca de 20% no primeiro dia2. A euforia, porém, não durou: os papéis recuaram de uma máxima acima de US$ 225 para perto de US$ 153 nas semanas seguintes, um sinal de que o mercado público está bem mais cético do que o privado em relação a valuations de IA2.
Anthropic, criadora do Claude, levantou US$ 65 bilhões em uma rodada Série H que elevou sua avaliação privada a US$ 965 bilhões — ultrapassando, pela primeira vez, a rival OpenAI, avaliada em cerca de US$ 852 bilhões após sua última captação3. Segundo projeções do site especializado FutureSearch, que acompanha o processo desde março, a Anthropic deve ser a primeira das duas a estrear em bolsa, com data mediana estimada para meados de dezembro e capitalização de mercado no primeiro dia em torno de US$ 1,1 trilhão; a OpenAI viria a reboque, por volta de março de 2027, com valor inicial próximo — ainda que sustentado por uma fração da receita da concorrente4.
"Em uma corrida do ouro, vale a pena olhar para quem vende as pás" — a lógica que parte do mercado brasileiro aplica à euforia da IA.
As contas que ainda não fecham
O ponto central levantado por análises internacionais, incluindo uma recente reportagem do Financial Times, é que nenhuma das duas empresas provou de forma definitiva ter um modelo de negócio sustentável1. Segundo a mesma reportagem, um levantamento da consultoria Exponential View estimou que o setor de tecnologia faturou US$ 110 bilhões em receitas com IA generativa no último ano — mas os modelos de fronteira propriamente ditos, como os da OpenAI e da Anthropic, responderam por apenas cerca de 11% dessa receita no primeiro trimestre de 2026, com a maior parte do dinheiro ficando com provedores de infraestrutura e hospedagem1.
Do lado da Anthropic, os números mais recentes mostram receita anualizada de US$ 44 bilhões em maio, com projeção de primeiro lucro operacional trimestral — cerca de US$ 559 milhões sobre US$ 10,9 bilhões de receita no segundo trimestre4,5. Isso a coloca à frente da OpenAI, que não deve gerar lucro antes de 2030 segundo estimativas citadas pelo mercado5. Ainda assim, a um múltiplo de preço sobre receita próximo de 22 vezes, analistas já apontam risco de valuation esticado5.
O volume de capital necessário para sustentar esse crescimento é o outro lado da equação. Big techs como Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon devem investir, juntas, cerca de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA em 2026 — mais de 60% acima dos níveis de 2025 — o que já pressiona a geração de caixa livre de cada uma delas6. Um banco de investimento americano projetou, no fim do ano passado, gastos totais de US$ 5 trilhões em infraestrutura de IA ao longo dos próximos cinco anos, um volume que pesquisadores do setor descrevem como uma aposta em crescimento futuro muito superior a qualquer precedente histórico1.
De parceiras a concorrentes
Um segundo fator de risco é estrutural: as mesmas gigantes de tecnologia que financiaram OpenAI e Anthropic — Microsoft, Alphabet e Amazon — estão cada vez mais competindo diretamente com elas. A Alphabet levantou US$ 80 bilhões em capital novo só para financiar até US$ 190 bilhões em despesas de capital neste ano, enquanto expande seus próprios modelos Gemini1. Some-se a isso a comoditização crescente dos modelos de linguagem — com empresas migrando para alternativas mais baratas, muitas delas chinesas, em tarefas rotineiras — e o cenário competitivo das duas futuras companhias abertas fica mais apertado do que os múltiplos bilionários sugerem1.
O olhar a partir do Brasil
Para o investidor brasileiro, a corrida de IPOs de IA chega em um momento de grandes apostas públicas locais no setor. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, parte dos quais já sendo executados via BNDES e Finep — que lançaram, em abril, um fundo específico para startups brasileiras intensivas em IA, com aporte de até R$ 125 milhões do banco de desenvolvimento7. Em 2025, 39% de todo capital investido em startups no país foi direcionado a empresas de IA, segundo dados citados pela Agência Brasil7. Já em julho, o BNDES anunciou novo aporte de R$ 640 milhões à Embrapii, citando IA entre os eixos prioritários de inovação industrial8.
No debate sobre uma eventual bolha, o economista e colunista Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo de opinião publicado na CartaCapital, recorreu a Charles Kindleberger e George Soros para argumentar que o entusiasmo atual em torno da IA reproduz o padrão clássico de manias especulativas — da fantasia de enriquecimento rápido ao envolvimento crescente do crédito bancário na euforia9. Já a economista Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, pondera, em entrevista à CNN Brasil, que há diferenças relevantes em relação à bolha das pontocom: empresas como a Nvidia financiam boa parte de seus investimentos com recursos próprios e já geram lucro e caixa expressivos, ao contrário do que ocorria com muitas companhias endividadas do início dos anos 200010. Fontes recomenda que investidores observem com atenção quais companhias efetivamente monetizam a tecnologia, em vez de apostar indiscriminadamente no setor10.
Reportagem recente da revista Exame resume o cerne da dúvida que já circula entre investidores brasileiros: o entusiasmo em torno da IA generativa é real, mas a velocidade com que os investidores esperam retorno financeiro pode não corresponder ao ritmo em que as empresas conseguem, de fato, converter tecnologia em lucro11. Nenhum analista consultado nas fontes usadas nesta reportagem prevê o desaparecimento da IA como tecnologia estrutural — a dúvida recai sobre o ritmo de retorno e sobre quais empresas, dentro da cadeia, vão efetivamente capturar valor.
Se Anthropic conseguir cumprir a promessa de lucro operacional neste trimestre e a OpenAI mantiver o cronograma de listagem para o início de 2027, o mercado terá, pela primeira vez, dados públicos e auditados para julgar diretamente as duas maiores apostas da era da inteligência artificial. Até lá, a diferença entre votar e pesar continuará sendo o critério mais honesto para medir o tamanho real dessa corrida.
Referências
- Thornhill, John. "Why OpenAI and Anthropic may struggle to float". Financial Times, 6 jul. 2026. ft.com/content/7bff5ad3-a7dc-4641-be97-7f383446ff75
- "OpenAI & Anthropic IPO: What's Confirmed, What's Still Speculation". The Globe and Mail / Barchart, 2026. theglobeandmail.com
- "Top analyst sees 'opening of the floodgates for the IPO market' after Anthropic's filing as dotcom bubble comparisons fly". Fortune, 2 jun. 2026. fortune.com
- "Anthropic and OpenAI IPO Dates and Valuations: Forecasts and Odds". FutureSearch, atualizado em 10 jun. 2026. futuresearch.ai
- "Anthropic IPO: Date, Valuation, Share Price & How to Invest". IG UK, 2026. ig.com
- "Gigantes de tecnologia devem investir US$ 700 bilhões em IA em 2026". Times Brasil, 6 fev. 2026. timesbrasil.com.br
- "Finep e BNDES lançam edital para selecionar gestor de fundo de IA". Agência Brasil, 13 abr. 2026. agenciabrasil.ebc.com.br
- "BNDES investe R$ 640 milhões em pesquisa e inovação para acelerar transformação da indústria brasileira". Revista Fórum, 1 jul. 2026. revistaforum.com.br
- Belluzzo, Luiz Gonzaga. "Inteligência Artificial: uma bolha?". CartaCapital, ed. 1420, 8 jul. 2026. cartacapital.com.br
- "IA impulsiona investimentos bilionários das big techs". CNN Brasil, 2026. cnnbrasil.com.br
- "Bolha da IA: por que investidores começam a duvidar do hype bilionário". Exame, 20 maio 2026. exame.com