Opinião · Geopolítica

Na noite de quarta-feira, 23 de setembro, Donald Trump esperou Xi Jinping ao pé da escada do avião na Base Conjunta Andrews, em Maryland. Segundo a imprensa americana, foi a primeira vez em 11 anos que um presidente dos Estados Unidos recebeu pessoalmente um líder estrangeiro naquela base, conforme relatou a Al Jazeera[2]. Em diplomacia, onde cada metro de tapete vermelho é negociado, o gesto não foi cortesia. Foi declaração.

O editorial “Xi concede audiencia a Trump”, publicado pelo jornal espanhol El País nesta sexta-feira[1], leu a cena como sinal de uma inversão na relação de poder entre as duas maiores economias do planeta, provocada em boa medida por erros de Washington. O jornal lembra que Trump reservou recepção semelhante a Vladimir Putin, no Alasca. A leitura é dura, mas deixa em aberto uma pergunta maior, que este texto pretende enfrentar: a cúpula de Washington pode se tornar o marco histórico em que a China se iguala aos Estados Unidos e, em seguida, os ultrapassa como principal referência para os demais países?

Minha resposta é sim, com uma ressalva que importa. A ultrapassagem já aconteceu em várias frentes; o que Washington fez nesta semana foi reconhecê-la em público. Em outras frentes, ela ainda está longe.

O gesto diz mais do que o comunicado

Do ponto de vista concreto, a visita rendeu pouco. Os dois governos anunciaram a prorrogação por dois meses da trégua comercial firmada em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Segundo análise da Al Jazeera[3], o acordo original havia trazido alívio tarifário, compromisso chinês de comprar mais soja americana e o adiamento das restrições de Pequim à exportação de terras raras, agora empurradas para 10 de janeiro. Sobre o Irã, nenhum avanço foi reportado. Sobre Taiwan, a agência estatal Xinhua informou que Xi pediu a Trump que se oponha à independência da ilha e trate o tema com prudência[2].

O que chama atenção é o vocabulário. Xi afirmou em Washington que os dois países devem evitar a chamada Armadilha de Tucídides e tratar a disputa como uma corrida em que um alcança o outro, e não como uma luta com vencedor e perdedor[2]. É a linguagem de quem se apresenta como igual. E Trump aceitou esse enquadramento antes mesmo de Xi desembarcar.

Em maio, em Pequim, o presidente americano endossou a fórmula chinesa de uma “relação construtiva de estabilidade estratégica”. O Council on Foreign Relations[4] observou que o significado da expressão continua nebuloso e que a disposição americana de adotá-la é incomum, já que Washington historicamente evitou assumir a fraseologia preferida de Pequim para não chancelar o sentido que os chineses atribuem a ela. Quando a superpotência estabelecida passa a falar o idioma diplomático da potência ascendente, a paridade deixa de ser tese acadêmica.

Uma dependência com endereço certo

O El País sustenta que a fragilidade de Trump é autoinfligida[1]. Os fatos dão razão ao jornal. A guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã em fevereiro fechou o Estreito de Ormuz e fez disparar os preços da energia[2]. Trump pediu a Pequim, maior parceiro comercial de Teerã, ajuda para isolar o Irã e reabrir o estreito. Não obteve. Com as eleições legislativas de meio de mandato se aproximando e os democratas à frente nas pesquisas, a conta do combustível pesa sobre a Casa Branca[3].

Há ainda uma dependência material. Segundo o professor Philippe Le Corre, da ESSEC, citado pela Al Jazeera, a China detém cerca de 60% das reservas conhecidas de terras raras e processa aproximadamente 90% delas[3]. São insumos de semicondutores, turbinas, veículos elétricos e armamentos. O analista Einar Tangen resumiu a situação em uma frase que vale o artigo inteiro: Washington é hostil, mas está fisgado. Não se ameaça um país com sanções secundárias sobre energia enquanto se precisa desesperadamente de seus minerais para alimentar a indústria de defesa.

Quando a superpotência precisa pedir favores ao rival, ela já não dita sozinha as regras do jogo.Ewerton Lopes

Também não há simetria no campo tarifário. Relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso americano, de julho de 2026, mostra que os produtos chineses ainda enfrentam tarifas de 36,5% nos Estados Unidos, enquanto os americanos pagam 31% na China[3]. A trégua é curta porque nenhum dos lados cedeu no essencial. Mas quem precisou dela com mais urgência foi Washington.

Do empate à ultrapassagem: onde a China já está na frente

A tese de que a China superaria os Estados Unidos como principal parceira dos outros países costuma ser tratada como projeção. No comércio, ela é passado. Levantamento do Lowy Institute[5], feito com dados do FMI, mostra que em 2001, ano da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, mais de 80% dos países comerciavam mais com os Estados Unidos. Em 2018, dois terços deles, 128 de 190, já comerciavam mais com a China, e 90 países negociavam com Pequim mais que o dobro do que negociavam com Washington.

Esse dado muda a forma de ler a cúpula. A inversão de fundo ocorreu ao longo de duas décadas, de forma silenciosa, contêiner a contêiner. O que faltava era o reconhecimento político pela potência que perdia posição. Historiadores costumam apontar a crise de Suez, em 1956, como o momento em que o Reino Unido admitiu, diante do mundo, que já não era a potência dominante, embora o declínio viesse de antes. Marcos históricos raramente criam a realidade; eles a tornam visível. Andrews pode ser lembrada assim.

Onde a ultrapassagem ainda não aconteceu

Seria desonesto parar aqui. Há terrenos em que a supremacia americana segue intacta, e o mais importante deles é o dinheiro. Segundo o FMI[6], no primeiro trimestre de 2026 o dólar respondia por 57,13% das reservas cambiais declaradas pelos bancos centrais do mundo, enquanto o renminbi ficava em 1,99%. Quem comercia com a China continua, em grande parte, guardando suas economias em dólar.

Pesam ainda a rede de alianças militares americanas, a liderança nas empresas de fronteira da inteligência artificial e a capacidade de atrair capital e talentos. Por isso, a formulação mais precisa talvez seja esta: a cúpula de Washington marca o momento em que a China passa a ser tratada como igual e em que sua liderança comercial sobre o resto do mundo deixa de ser contestada. A ultrapassagem financeira e militar, se vier, será outra história, e muito mais lenta.

O editorial espanhol aponta outra lacuna preocupante: não há diálogo substancial sobre inteligência artificial, controle de armas ou uma arquitetura internacional de paz[1]. Os dois governos concordaram em abrir um canal sobre IA em Nova York dias antes da visita, mas as conversas, previstas desde maio, só começaram nesta semana[4]. Duas potências que se reconhecem como pares, mas não combinam regras, formam um sistema mais instável, e não menos.

O Brasil já vive no mundo que a cúpula anuncia

Para o leitor brasileiro, nada disso é abstrato. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços divulgados pela Exame[7] mostram que a China comprou US$ 100 bilhões em produtos brasileiros em 2025, 28,69% de tudo o que o país exportou, com superávit bilateral de US$ 29,1 bilhões para o Brasil. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com US$ 37,7 bilhões, e a relação foi deficitária para o lado brasileiro.

Exportações brasileiras em 2025 para China, Estados Unidos e Argentina, em bilhões de dólares EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS EM 2025 (US$ BILHÕES) China 100,0 EUA 37,7 Argentina 18,1
Fonte: MDIC, resultado consolidado da balança comercial de 2025. Elaboração: O Tecido.

A distância cresceu em 2026. No primeiro semestre, segundo o Comex do Brasil[8], com base no Comex Vis do MDIC, a China absorveu 31,6% das exportações brasileiras, quase o triplo do valor vendido aos Estados Unidos. Parte dessa diferença foi produzida em Washington. Depois do tarifaço de 50% de 2025, derrubado pela Suprema Corte americana, o governo Trump aplicou em julho de 2026 novas sobretaxas de 25% e 12,5% com base na Seção 301, sob acusação de práticas comerciais “irrazoáveis”, conforme noticiou a Gazeta do Povo[9]. Estimativa reproduzida pelo O Cafezinho[10] indica que as novas cobranças atingem 23,1% das vendas brasileiras ao mercado americano.

O capital acompanha o comércio. Dados do Conselho Empresarial Brasil-China citados pelo Página 12[11] mostram que o Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos produtivos chineses em 2025 e se tornou o principal destino global desse capital.

Há, porém, um paradoxo que a cúpula deixa exposto. A trégua sino-americana inclui o compromisso chinês de comprar mais soja dos Estados Unidos[3]. Na disputa de 2018, o Brasil ganhou volume e prêmio de preço justamente porque Pequim deixou de comprar soja americana, como registrou o Banco Central em seu Relatório de Política Monetária de junho de 2025. Uma distensão entre as duas potências pode, portanto, custar mercado ao agronegócio brasileiro. Estar do lado de quem sobe não garante lugar à mesa quando os dois gigantes decidem negociar entre si.

Quem fala macio agora

O El País encerra seu editorial evocando o aforismo atribuído a Theodore Roosevelt, “fale macio e carregue um porrete grande”, que inspirou a diplomacia americana na primeira metade do século XX. A conclusão do jornal é que, um século depois, quem cada vez mais fala macio e carrega o porrete é o presidente chinés[1]. É uma imagem forte, e os fatos desta semana a sustentam: Xi falou em cooperação, em competição saudável, em evitar armadilhas históricas, e voltou para casa sem ceder em nada.

Se a cúpula de setembro de 2026 será lembrada como o marco da virada, só os próximos anos dirão. Marcos históricos são reconhecidos depois. Mas o Brasil não precisa esperar pelo veredito dos historiadores para agir. A pergunta útil para Brasília não é qual potência vencerá, e sim como um país que vende três vezes mais a uma delas preserva margem de manobra diante de ambas. Diversificar mercados, avançar em acordos como o do Mercosul com a União Europeia e investir em capacidade própria de processamento de minerais críticos deixaram de ser agenda de longo prazo. Viraram condição de soberania num mundo em que duas potências passaram a se tratar como iguais.

Perguntas frequentes

O que aconteceu na visita de Xi Jinping aos Estados Unidos em setembro de 2026?

Xi Jinping fez visita de Estado a Washington entre 23 e 25 de setembro de 2026, retribuindo a ida de Trump a Pequim em maio. Trump o recebeu pessoalmente na Base Conjunta Andrews, os dois governos prorrogaram por dois meses a trégua comercial de outubro de 2025 e não houve avanços reportados sobre Irã, Taiwan ou regulação da inteligência artificial.

Por que a cúpula é vista como sinal de paridade entre China e Estados Unidos?

Pelo protocolo excepcional da recepção, pela adoção americana da fórmula chinesa de “relação construtiva de estabilidade estratégica” e pela dependência de Washington em relação a Pequim em temas como o Irã, os preços da energia e o fornecimento de terras raras.

A China já é parceira comercial maior que os Estados Unidos para a maioria dos países?

Sim. Segundo o Lowy Institute, com dados do FMI, em 2018 dois terços dos países, 128 de 190, comerciavam mais com a China do que com os Estados Unidos. Em 2001, mais de 80% comerciavam mais com os americanos.

Em que áreas os Estados Unidos ainda lideram?

No sistema financeiro, com o dólar respondendo por 57,13% das reservas cambiais globais no primeiro trimestre de 2026, contra 1,99% do renminbi, segundo o FMI. Também lideram em alianças militares e em empresas de fronteira em inteligência artificial.

Como a aproximação entre China e EUA afeta o Brasil?

A China comprou US$ 100 bilhões do Brasil em 2025, 28,69% das exportações, contra US$ 37,7 bilhões dos EUA. Uma trégua que inclua compras chinesas de soja americana pode reduzir espaço para o agronegócio brasileiro, enquanto as tarifas americanas da Seção 301 atingem cerca de 23% das vendas brasileiras aos EUA.

Nota de atribuição: este artigo de opinião tem como ponto de partida o editorial “Xi concede audiencia a Trump”, publicado pelo jornal El País em 25 de setembro de 2026 e disponível em elpais.com. O texto não é tradução nem reprodução do original. As análises, os dados complementares e as conclusões são de responsabilidade do autor e de O Tecido.

Ewerton Lopes — Curador Editorial