Durante décadas, um punhado de potências ocidentais decidiu, quase sozinho, o que era "importante" no cenário internacional. Em 1969, o então futuro secretário de Estado americano Henry Kissinger resumiu essa visão ao afirmar que nada de relevante poderia vir do que se chamava então de terceiro mundo. Mais de cinquenta anos depois, o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, disse o oposto: é o chamado Sul Global que pode definir os rumos da nova ordem mundial. A distância entre essas duas frases mede o tamanho da virada que analistas de relações internacionais tentam explicar, e que o Brasil vive na prática, todos os dias, em sua diplomacia.
É essa virada que está no centro de Le Sud global, livro dos pesquisadores canadenses Jocelyn Coulon, Nabil Jaafari e Malik M'Silti, tema de uma entrevista publicada recentemente pelo jornal quebequense Le Devoir[1]. Segundo os autores, o Sul Global não é uma organização nem um bloco fechado. É, nas palavras de Coulon reproduzidas pelo periódico canadense, "uma ideia que está tomando corpo rapidamente", reunindo países com regimes políticos, tamanhos econômicos e histórias muito diferentes entre si, do Brasil à Índia, da África do Sul à Indonésia.
Da descolonização ao multialinhamento
A origem do fenômeno remonta ao pós-Segunda Guerra Mundial, quando as antigas colônias passaram a ser chamadas de "terceiro mundo" e, depois, de "países em desenvolvimento". O Movimento dos Países Não Alinhados, criado nos anos 1950 e 1960, tentou manter essas nações fora da disputa entre Washington e Moscou, embora, na prática, muitos de seus integrantes tenham acabado gravitando em torno de um dos dois blocos.
O fim da União Soviética abriu espaço para que economias como Brasil, Índia, Turquia, África do Sul, México, Egito e Indonésia começassem a ganhar peso econômico, político e, mais recentemente, militar. Parte dessa autonomia nasceu do comércio: países que antes dependiam quase exclusivamente de mercados ocidentais redirecionaram parte de suas trocas para a Ásia e para outras economias emergentes, ampliando sua margem de manobra diplomática.
Desse processo nasceu o conceito de "multialinhamento", hoje adotado explicitamente pela Índia, um dos berços históricos do não alinhamento. Em vez de manter equidistância das grandes potências, o país passou a multiplicar parcerias conforme seus próprios interesses, ora com Rússia e China, ora com Estados Unidos e Europa, sempre que a relação anterior deixa de atender às suas prioridades.
O Brasil e o "não alinhamento ativo"
Nenhum país ilustra melhor essa lógica de múltiplos alinhamentos do que o Brasil. Sob o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a diplomacia brasileira retomou o conceito de política externa "ativa e altiva", cunhado pelo ex-chanceler Celso Amorim, combinando autonomia estratégica com engajamento multilateral. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) descrevem esse movimento como "não alinhamento ativo", especialmente evidente durante a presidência brasileira do BRICS em 2025, quando o país tentou equilibrar temas como saúde global, financiamento climático e inteligência artificial com a defesa de uma ordem multipolar mais inclusiva[2].
O balanço divulgado pelo governo federal reforça essa leitura: ao longo de 2025, a presidência brasileira do bloco priorizou cooperação prática entre os países-membros, financiamento para o Sul Global e combate às desigualdades, além de reforçar a integração regional durante a presidência pro tempore do Mercosul[3].
Esse reposicionamento não ocorre num vácuo. Pesquisadores do Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (Opeb) apontam que 2026 é um ano de inflexão, marcado pela retomada de uma leitura mais assertiva da Doutrina Monroe por parte do governo americano, o que reforça, do ponto de vista desses analistas, a necessidade brasileira de diversificar parcerias, da União Europeia aos BRICS[5].
O peso econômico e demográfico do fenômeno
Os números ajudam a explicar por que chancelarias ocidentais já não podem ignorar esse conjunto de países. Segundo o Fundo Monetário Internacional, em termos de paridade de poder de compra, a China responde por cerca de 19,8% do PIB mundial em 2026, a Índia já concentra 8,7% da economia global, e Brasil e Indonésia figuram entre as dez maiores economias do planeta, com participações de 2,35% e 2,44%, respectivamente[7]. No plano demográfico, o Sul da Ásia sozinho representa mais de um quarto da população mundial[8], enquanto a América do Sul soma pouco mais de 5% dos habitantes do planeta[9], números que tornam qualquer decisão global tomada sem esses países cada vez menos representativa.
Foi justamente esse descompasso entre peso demográfico, econômico e poder de decisão que Coulon usa para criticar o G7, grupo que reúne as sete maiores economias ocidentais e o Japão. Na entrevista ao Le Devoir, o pesquisador o compara a "um clube no convés do Titanic", uma metáfora para descrever potências que continuam se reunindo entre si enquanto seu peso relativo no mundo diminui. Em contraste, o G20, que reúne economias ocidentais e emergentes na mesma mesa, seria hoje um retrato mais fiel da distribuição real de poder global[1].
A guerra na Ucrânia como teste de campo
A invasão russa da Ucrânia funcionou como um laboratório para observar esse comportamento. Diversos países do Sul Global condenaram formalmente a invasão nas Nações Unidas, mas recusaram-se a aderir ao regime de sanções ocidentais contra Moscou. Para os autores de Le Sud global, isso não significa alinhamento automático com a Rússia, e sim rejeição a qualquer tentativa de uma potência impor, de forma unilateral, como o resto do mundo deve votar ou se posicionar.
⚖️ Contraponto
Nem todos os analistas leem essa reorientação como um exercício de autonomia neutra. Setores da imprensa e da academia dedicados a estudos de defesa e política internacional argumentam que, no caso específico do Brasil, escolhas recentes de política externa, como o reconhecimento do Estado da Palestina e a aproximação com regimes alternativos às potências ocidentais, revelariam menos pragmatismo e mais uma inclinação ideológica deliberada, e não apenas diversificação de parcerias[6].
Já vozes mais próximas do Itamaraty rebatem que a chamada "diplomacia ativa e altiva" seria justamente a aplicação prática do multialinhamento: dialogar tanto com aliados tradicionais quanto com potências rivais, sem que isso configure ruptura com o Ocidente[2]. O debate, portanto, segue em aberto, e é atravessado por leituras ideológicas distintas sobre o que constitui autonomia estratégica e o que constitui alinhamento disfarçado.
O que isso significa daqui para a frente
Para Coulon, o Sul Global segue sendo uma construção em movimento, sem liderança única e cheia de contradições internas, entre membros que vão da Índia democrática à China de partido único. Mas é justamente essa heterogeneidade que, segundo ele, lhe confere força de barganha: em duas décadas e meia, esses países teriam conquistado autonomia política, diplomática e, cada vez mais, militar suficiente para obrigar as antigas potências a negociar com eles, em vez de simplesmente ditar regras.
Para o Brasil, país que ocupou a presidência do G20 em 2024 e do BRICS em 2025, essa tendência não é uma abstração acadêmica. É a moldura dentro da qual Brasília tenta equilibrar sua relação histórica com Estados Unidos e Europa, sua inserção crescente nos BRICS e Mercosul, e sua ambição declarada de ser porta-voz de um Sul Global cada vez mais consciente do próprio peso.
Perguntas frequentes
O que é o Sul Global?
Sul Global é a expressão usada para descrever um conjunto heterogêneo de países, antes agrupados sob o termo "terceiro mundo", que hoje buscam maior influência sobre as regras da ordem internacional. Não se trata de uma organização formal, mas de uma identidade política em construção que reúne nações como Brasil, Índia, China, África do Sul e Indonésia.
O que significa "multialinhamento" na política externa?
Multialinhamento é a estratégia de um país diversificar suas parcerias internacionais conforme seus próprios interesses, em vez de escolher um único bloco de aliados. A Índia é frequentemente citada como o principal exemplo dessa abordagem, alternando aproximações entre Rússia, China, Estados Unidos e Europa.
Qual é o papel do Brasil no Sul Global?
O Brasil tem atuado como um dos articuladores centrais do Sul Global, especialmente após assumir a presidência do G20 em 2024 e do BRICS em 2025. A diplomacia brasileira combina o conceito histórico de política externa "ativa e altiva" com o chamado "não alinhamento ativo", buscando autonomia estratégica sem romper com parceiros tradicionais.
Por que o G7 é comparado a "um clube no convés do Titanic"?
A comparação, feita pelo pesquisador Jocelyn Coulon em entrevista ao jornal Le Devoir, descreve o G7 como um grupo de potências ocidentais que segue se reunindo entre si mesmo enquanto seu peso relativo na economia e na geopolítica mundial diminui frente à ascensão de economias emergentes.
O Sul Global é contra o Ocidente?
Segundo os autores analisados nesta reportagem, não necessariamente. O comportamento observado, por exemplo, durante a guerra na Ucrânia, sugere antes uma rejeição à imposição unilateral de regras por parte de grandes potências do que uma adesão automática a Rússia ou China.