Há uma cena perturbadoramente banal no coração desta história: dois dos homens mais poderosos do mundo — Vladimir Putin e Xi Jinping — conversam em Pequim, na margem de um desfile militar, e o russo explica ao chinês que a humanidade está a ponto de alcançar a imortalidade trocando seus órgãos gastos por peças novas, cultivadas em laboratório. Um microfone aberto captou o diálogo em setembro de 2025. Jornalistas ocidentais o relataram com certo ar de ironia. Mas a conversa não era fantasia de senescentes no poder: era a descrição de um programa de estado russo avaliado em 26 bilhões de dólares.

O episódio poderia ser simplesmente exótico se não revelasse algo muito mais antigo e muito mais universal do que a obsessão de um autocrata com a própria continuidade. A busca pela imortalidade não é uma extravagância do século XXI. É, talvez, o projeto mais persistente da espécie humana.

I. O que os mortos ensinaram aos vivos

A Epopeia de Gilgamesh, o mais antigo texto literário conhecido, composta na Mesopotâmia por volta de 2100 a.C., narra a jornada de um rei aterrorizado com a morte após perder o amigo Enkidu. Gilgamesh atravessa montanhas e oceanos em busca de Utnapishti, o único mortal que os deuses tornaram imortal. Ele quase consegue — encontra a planta da vida eterna no fundo do mar — mas uma serpente a rouba enquanto ele dorme. O herói retorna às suas muralhas, mortal como partiu.

A narrativa é reveladora não pelo fracasso, mas pela estrutura: já no terceiro milênio antes de Cristo, o ser humano concebia a imortalidade como um bem roubável, localizável, tecnicamente acessível — apenas fora de seu alcance. Não uma dádiva divina abstrata, mas um objeto a ser encontrado. Um problema de engenharia, diríamos hoje.

O Egito Antigo construiu sua civilização inteira em torno da recusa da morte. A mumificação não era ritual simbólico: era protocolo médico-religioso para preservar o corpo físico que a alma precisaria ao retornar. O Livro dos Mortos era manual de navegação para o além, com senhas e respostas certas a serem dadas nas portas do julgamento. Toda a arquitetura monumental do Egito — as pirâmides, os templos funerários, os barcos solares enterrados ao lado dos faraós — era infraestrutura para a vida após a morte.

"A imortalidade não é, na história humana, uma esperança religiosa marginal. É a hipótese de trabalho mais recorrente que nossa espécie já formulou sobre si mesma."

Na China, imperadores da dinastia Qin e Han enviavam expedições ao mar em busca das Ilhas dos Imortais, onde cresceriam ervas capazes de conferir vida eterna. O primeiro imperador unificador da China, Qin Shi Huang, que viveu no século III a.C., consumiu pílulas de mercúrio prescritas por seus alquimistas — convicto de que o metal líquido o tornaria imortal. Morreu aos 49 anos, provavelmente envenenado pelas próprias pílulas. A ironia é cruel, mas o impulso era racional dado o conhecimento da época: havia uma substância, havia especialistas, havia um método. Faltou apenas acertar a fórmula.

II. A alquimia como proto-ciência da imortalidade

A tradição alquímica, que floresceu do Mediterrâneo ao Extremo Oriente entre os séculos III e XVII, era atravessada por uma obsessão dupla: transmutar metais em ouro e encontrar o Elixir da Vida. As duas buscas não eram separadas. O ouro, incorruptível, que não enferruja nem apodrece, era a metáfora química da imortalidade. Quem dominasse o princípio ativo da incorruptibilidade do ouro poderia aplicá-lo ao corpo humano.

Paracelso, o médico-alquimista suíço do século XVI, acreditava que o corpo era um sistema químico e que doenças eram desequilíbrios corrigíveis com as substâncias certas. Ele não estava errado no princípio — apenas na farmacologia. Ibn Sina, o grande médico persa do século XI, escreveu sobre a possibilidade de estender a vida humana pelo equilíbrio dos humores e a preservação do calor vital. Roger Bacon, no século XIII, argumentou que a vida poderia ser prolongada indefinidamente pela higiene, pela dieta e pelo que chamava de "a ciência da velhice."

A alquimia era pseudociência — mas era pseudociência motivada por uma hipótese científica legítima: que o envelhecimento tinha causas materiais e que, portanto, poderia ter soluções materiais. Nesse sentido, o alquimista medieval e o biólogo molecular contemporâneo perseguem a mesma pergunta. A diferença está nos instrumentos e no rigor, não na ambição.

III. O século XX e a medicalização da morte

Com a ascensão da medicina científica, a imortalidade saiu do vocabulário respeitável e foi substituída por um eufemismo mais aceitável: longevidade. Mas o projeto permaneceu.

Élie Metchnikoff, prêmio Nobel de medicina in 1908, acreditava que o envelhecimento era causado por toxinas produzidas por bactérias intestinais e que o iogurte — especificamente o búlgaro — poderia reverter o processo. Ele viveu até os 71 anos, consumindo iogurte diariamente até o fim. Charles-Édouard Brown-Séquard, fisiologista franco-americano do século XIX, injetou em si mesmo extratos testiculares de cão e porquinho-da-índia e relatou rejuvenescimento dramático em uma conferência da Sociedade Biológica de Paris em 1889 — um experimento hoje considerado o início da endocrinologia e, ao mesmo tempo, um delírio de confirmação.

Na União Soviética dos anos 1920, Alexander Bogdanov — filósofo, médico e rival de Lenin no partido bolchevique — desenvolveu uma teoria de rejuvenescimento baseada em transfusões de sangue jovem. Stalin financiou brevemente seus experimentos. Bogdanov morreu em 1928 após uma transfusão malsucedida, aos 55 anos, possivelmente contaminado com malária e tuberculose do doador. A ciência soviética da longevidade, que o artigo do Wall Street Journal menciona como ancestral do programa de Putin, já nascia, portanto, marcada pela confusão entre ambição, financiamento estatal e ausência de peer review.

Marcos históricos da busca pela imortalidade
  • ~2100 a.C. — Epopeia de Gilgamesh: primeiro texto literário sobre a busca da vida eterna
  • ~210 a.C. — Qin Shi Huang envia expedições em busca do elixir da imortalidade
  • Séc. XVI — Paracelso formula a ideia do corpo como sistema químico corrigível
  • 1889 — Brown-Séquard relata "rejuvenescimento" por extratos hormonais animais
  • 1920s — Bogdanov experimenta transfusões de sangue jovem na URSS; morre no procedimento
  • 1962 — Leonard Hayflick descobre o limite de divisão celular (Limite de Hayflick)
  • 1984 — Descoberta da telomerase: enzima que retarda o encurtamento dos telômeros
  • 2013 — Google funda a Calico, laboratório focado em longevidade
  • 2024 — Putin lança iniciativa nacional de longevidade de US$ 26 bilhões

IV. O Vale do Silício descobre a morte

O que aconteceu nas últimas duas décadas foi uma confluência inédita: pela primeira vez na história, as pessoas com mais capital do mundo e as pessoas com mais acesso à tecnologia de ponta são frequentemente as mesmas — e todas elas envelhecem. O resultado foi a transformação da pesquisa em longevidade de campo marginal em setor de bilhões de dólares.

Jeff Bezos investiu na Altos Labs, startup que pesquisa reprogramação celular. Sam Altman alocou 180 milhões de dólares na Retro Biosciences, focada em estender a vida humana saudável em dez anos. Peter Thiel financia múltiplas iniciativas, incluindo a pesquisa sobre parabiose — a transfusão de sangue jovem que Bogdanov já tentava em 1928, agora com ensaios clínicos e controle estatístico. Larry Ellison, fundador da Oracle, afirma que aceitar a morte seria uma "capitulação." Bryan Johnson, empresário de tecnologia, gasta mais de dois milhões de dólares por ano em um protocolo obsessivo de reversão do envelhecimento biológico, documentado publicamente sob o nome de Project Blueprint.

O que distingue essa geração de suas predecessoras não é a intensidade do desejo — Qin Shi Huang também gastou fortunas — mas a plausibilidade científica crescente do projeto. A biologia molecular do envelhecimento avançou extraordinariamente. Sabemos hoje que o envelhecimento é regulado por vias moleculares específicas — mTOR, sirtuínas, senescência celular, encurtamento de telômeros — e que essas vias são, ao menos em princípio, manipuláveis. Camundongos tiveram sua vida estendida em 25 a 50% em laboratório. A pergunta deixou de ser se o envelhecimento pode ser retardado para quanto e a que custo.

V. Putin e o Estado como alquimista

É nesse contexto que o program russo precisa ser lido. Conforme reportagem do Wall Street Journal, o governo Putin lançou em 2024 uma iniciativa de longevidade de US$ 26 bilhões, batizada de "Novas Tecnologias de Preservação da Saúde." O programa financia pesquisa em bioprinting de órgãos humanos, xenotransplantação usando mini-porcos geneticamente compatíveis com humanos, e terapia gênica para retardar o envelhecimento celular. Maria Vorontsova, filha de Putin e endocrinologista, supervisiona os programas de genética. O físico Mikhail Kovalchuk, diretor do Instituto Kurchatov, é descrito como o arquiteto intelectual da iniciativa.1

O programa tem características que o diferenciam — e não favoravelmente — das iniciativas privadas ocidentais. Como observa Alexander Ostrovskiy, pioneiro do bioprinting russo que deixou o país após a invasão da Ucrânia, a ausência de publicações científicas em periódicos internacionais revisados por pares sugere que os anúncios refletem aspirações políticas mais do que resultados reais. "É impossível fazer ciência em isolamento", disse Ostrovskiy ao WSJ. "Provavelmente estão dizendo a Putin o que ele quer ouvir para garantir financiamento."1

A ciência em estados autoritários tem uma patologia recorrente: a subordinação do resultado ao desejo do financiador. Lisenko destruiu a genética soviética durante décadas porque Stalin preferia sua teoria de herança adquirida. O programa de longevidade de Putin corre o risco análogo: ser ciência projetada para confirmar uma vontade política, não para testar hipóteses.

"A morte, ao contrário das eleições, continua difícil de administrar mesmo para o Kremlin."

— Wall Street Journal, maio de 2026

VI. O que a persistência do sonho revela

Há uma leitura superficial e uma leitura mais profunda disponíveis para esse fenômeno. A superficial é a da vaidade ou do medo: homens poderosos com acesso a recursos que a maioria não tem gastando fortunas para evitar o destino comum a todos. Não é uma leitura errada. É apenas incompleta.

A leitura mais funda reconhece que a busca pela imortalidade é inseparável de uma questão filosófica genuína: o que significa que seres conscientes, capazes de construir civilizações, compor sinfonias, amar e sofrer, sejam também organismos biológicos com prazo de validade? O filósofo Bernard Williams argumentou que a imortalidade seria insuportável — que o que torna a vida valiosa é precisamente sua finitude, que cria urgência, escolha, significado. A imortalidade produziria, eventualmente, uma forma de tédio existencial sem saída.

Mas o filósofo Derek Parfit respondeu que o problema não é a imortalidade per se, mas a identidade pessoal ao longo do tempo: o ser imortal de daqui a quinhentos anos teria alguma continuidade psicológica com quem você é hoje? O problema da imortalidade é, no fundo, o problema de quem você seria.

Estas não são perguntas abstratas. À medida que a biotecnologia avança — e ela avança, independente de Putin ou de qualquer bilionário do Vale do Silício — elas se tornarão questões políticas, éticas e distributivas urgentes. Se terapias de rejuvenescimento existirem, quem terá acesso? Se a vida puder ser estendida indefinidamente para alguns, o que acontece com as estruturas de poder, de herança, de democracia? Uma aristocracia que não morre é a negação mais absoluta de qualquer ideia de igualdade.

VII. A serpente que não dorme

Na epopeia de Gilgamesh, a planta da vida eterna é roubada pela serpente enquanto o herói dorme. É uma imagem que ressoa de modo estranho no presente: a serpente — símbolo ambivalente da medicina desde a Antiguidade, do conhecimento proibido desde o Éden — rouba de Gilgamesh aquilo que ele foi buscar no fim do mundo. O herói retorna vazio. Mas a serpente, desde então, troca de pele.

Talvez o que a persistência desse sonho revele não seja a tolice humana, mas a coerência de uma espécie que aprendeu, ao longo de cem mil anos, que quase todo problema tem solução — se você encontrar o método certo. A maior parte das doenças que matavam nossos ancestrais foi vencida. A fome foi amplamente debelada onde houve vontade política e técnica suficientes. A distância, o frio, a escuridão: todos derrotados.

A morte permanece. Mas permanece como o último problema não resolvido, não como prova de que é insolúvel.

Se virá a solução, não sabemos. Se deveria vir, tampouco. O que sabemos é que Putin não está sozinho nessa busca — e que Gilgamesh também não estava. A serpente continua acordada.