Caderno Saúde · O Tecido

Durante décadas, a recomendação médica foi quase unânime: evite o sol, use protetor solar todos os dias e, se possível, mantenha a pele coberta mesmo em ambientes internos. Essa cautela nasceu de um motivo legítimo, a ligação entre radiação ultravioleta e câncer de pele. Mas um número crescente de pesquisadores vem defendendo que essa orientação, aplicada de forma tão rígida, pode estar deixando de lado benefícios reais da exposição moderada à luz solar, da pressão arterial ao humor, passando pela saúde do cérebro.

O tema ganhou novo fôlego com o livro In Defense of Sunlight: The Surprising Science of Sun Exposure, do jornalista científico Rowan Jacobsen, lançado neste ano. A obra foi tema de um artigo de opinião assinado por Allysia Finley no The Wall Street Journal1, que reacende um debate incômodo para a saúde pública: será que o combate ao câncer de pele fez os órgãos de saúde subestimar outros riscos, os da falta de sol?

O que a luz solar faz com a pressão arterial

A ideia de que a claridade do dia pode ter efeito direto sobre o sistema cardiovascular não é nova, mas ganhou base experimental mais sólida na última década. Um estudo conduzido por pesquisadores das universidades de Edimburgo e Southampton, publicado no Journal of Investigative Dermatology, expôs voluntários saudáveis à radiação ultravioleta A e observou algo inesperado, a pele libera óxido nítrico armazenado em suas camadas superiores diretamente na circulação sanguínea2. O composto relaxa os vasos sanguíneos e reduz a pressão arterial, num mecanismo que independe da vitamina D.

Os próprios autores do estudo, os médicos Martin Feelisch e Richard Weller, sugeriram que os resultados justificam uma reavaliação das recomendações de saúde pública sobre exposição solar, já que doenças cardiovasculares respondem por cerca de 30% das mortes no mundo. Achados semelhantes, envolvendo cerca de dez mil pessoas no Reino Unido e na Holanda, mostraram que os níveis de resistência à insulina e de disfunção metabólica tendem a ser mais baixos em dias de maior insolação, conforme relata Jacobsen em seu livro.

"A luz solar pode não ser apenas tolerável em doses moderadas. Ela pode ser, em certa medida, necessária." Reflexão a partir da obra de Rowan Jacobsen, citada pelo WSJ

O enigma da vitamina D

Por anos, associou-se a falta de sol à carência de vitamina D, e a carência de vitamina D a uma longa lista de doenças, hipertensão, diabetes, depressão, distúrbios autoimunes. A lógica levou à popularização maciça de suplementos. O problema é que os ensaios clínicos randomizados, o padrão ouro da medicina baseada em evidências, não confirmaram essa promessa.

O maior deles, o VITAL Trial, acompanhou mais de 25 mil pessoas por cerca de cinco anos e não encontrou redução significativa no risco de fraturas, eventos cardiovasculares ou câncer entre quem tomou 2.000 UI diárias de vitamina D3, em comparação ao placebo3. A Sociedade de Endocrinologia Americana revisou suas diretrizes em 2024 justamente à luz desses resultados, recomendando que adultos saudáveis sem fatores de risco não iniciem suplementação apenas por apresentarem níveis baixos em exame de rotina4.

Se suplementar a vitamina não replica o benefício de quem se expõe naturalmente ao sol, a hipótese que ganha força é a de que outros mecanismos, como a liberação de óxido nítrico e a produção de endorfinas na pele, expliquem boa parte da associação observada entre sol e saúde.

Contraponto editorial

Nem todos os especialistas leem esses dados da mesma forma. Sociedades de dermatologia no Brasil e no mundo mantêm a recomendação de fotoproteção diária como pilar da prevenção ao câncer de pele, o tumor mais frequente entre os brasileiros. Para essas entidades, os potenciais benefícios metabólicos da exposição solar não justificam abrir mão do protetor solar, sobretudo em um país tropical com altos índices de radiação ultravioleta durante praticamente o ano inteiro. O debate, portanto, não é entre sol e sombra, mas sobre onde fica o ponto de equilíbrio entre exposição insuficiente e exposição excessiva, e esse ponto pode variar bastante conforme o tom de pele, a idade e o histórico familiar de cada pessoa.

Câncer de pele, o risco que não pode ser minimizado

O Instituto Nacional de Câncer estima que o Brasil deve fechar 2025 com cerca de 220 mil novos casos de câncer de pele, o tipo mais incidente entre todos os tumores no país5. A grande maioria é do tipo não melanoma, de baixa letalidade, mas o melanoma, responsável pela maior parte das mortes por câncer de pele, deve somar quase 9 mil novos diagnósticos por ano no triênio 2023 a 20256.

É esse dado que sustenta a cautela dos dermatologistas brasileiros. Como aponta a reportagem do WSJ, o próprio Jacobsen reconhece que o excesso de exposição solar é prejudicial, e que queimaduras solares na infância e o uso de câmaras de bronzeamento artificial elevam de forma consistente o risco de melanoma. A controvérsia não está em negar esse risco, mas em discutir se a exposição moderada e regular, sem queimaduras, deveria ser tratada com o mesmo alarme que a exposição excessiva.

Sol, humor e memória

Outra frente de pesquisa que tem avançado rapidamente é a relação entre luz do dia e saúde cognitiva. Um estudo com mais de 87 mil participantes do UK Biobank, publicado em 2026 na revista General Psychiatry, mediu a exposição real à luz por meio de sensores de pulso durante sete dias e acompanhou os voluntários por mais de oito anos7. O resultado, pessoas com maior exposição à luz diurna intensa apresentaram risco significativamente menor de desenvolver demência, um efeito que se mostrou mais forte do que o de fatores de risco já consolidados, como obesidade e consumo de álcool.

Os pesquisadores associam o achado à regulação do ritmo circadiano, o relógio biológico interno que rege ciclos de sono, humor e funções cognitivas. Outro estudo com mais de 362 mil pessoas da mesma coorte britânica identificou uma relação em formato de J entre tempo ao ar livre e risco de demência, com o menor risco em torno de uma a duas horas diárias de exposição, variando conforme a estação do ano8.

Por que a luz noturna artificial atrapalha

Se a luz do dia parece proteger o cérebro, a luz artificial à noite parece fazer o caminho inverso. A exposição a LEDs de tonalidade azulada durante a noite tem sido associada à desregulação do ritmo circadiano, o que reforça a recomendação de buscar luz natural pela manhã e reduzir telas e iluminação intensa horas antes de dormir.

Equilíbrio, não extremos

O que emerge desse conjunto de evidências não é uma licença para abandonar o protetor solar, e sim um convite à moderação informada. A ciência sugere que o sol, tomado com bom senso, nos horários de menor intensidade e sem queimaduras, participa de processos fisiológicos que vão muito além da síntese de vitamina D. Regula a pressão arterial, parece proteger o cérebro e influencia diretamente o humor. Ignorar completamente esses efeitos em nome de uma prevenção rígida ao câncer de pele pode ter um custo que a saúde pública só está começando a medir.

Ewerton Lopes — Curador Editorial

Perguntas frequentes

Tomar sol realmente reduz a pressão arterial?

Estudos experimentais indicam que sim, em parte. A radiação UVA libera óxido nítrico armazenado na pele, que relaxa os vasos sanguíneos e reduz a pressão arterial, num mecanismo independente da vitamina D.

Suplemento de vitamina D substitui a exposição ao sol?

As evidências mais robustas, como o VITAL Trial, não mostraram que a suplementação de vitamina D reduza significativamente doenças cardiovasculares, câncer ou fraturas, o que sugere que parte dos benefícios associados ao sol não vem apenas dessa vitamina.

A exposição solar moderada aumenta o risco de câncer de pele?

O maior risco está associado a queimaduras solares, sobretudo na infância, e ao uso de câmaras de bronzeamento artificial. A relação entre exposição solar moderada e regular e o melanoma é considerada mais complexa pela literatura científica.

A luz do dia protege contra demência?

Estudos recentes com dados do UK Biobank associam maior exposição à luz diurna intensa a menor risco de demência, um efeito atribuído em parte à regulação do ritmo circadiano.

O protetor solar deve ser abandonado?

Não. Especialistas em dermatologia continuam recomendando a fotoproteção diária, especialmente em países tropicais como o Brasil. O debate atual é sobre equilíbrio, não sobre eliminar o uso do protetor solar.