Em 2023, pela primeira vez na história, um medicamento desenvolvido para tratar diabetes tornou-se o produto farmacêutico mais vendido do planeta. A semaglutida — comercializada como Ozempic ou Wegovy — gerou receita superior a US$ 14 bilhões naquele ano. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro (tirzepatida), não ficou muito atrás. O mercado global de antiobesidade deve ultrapassar US$ 130 bilhões até 2030. São números que deveriam nos fazer parar e pensar, não apenas sobre farmacologia, mas sobre o que eles dizem de nós.
Este artigo não é contra os medicamentos. É importante deixar isso claro desde o início. Para milhões de pessoas com obesidade grave, diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica severa, esses fármacos representam um avanço genuíno — às vezes, uma questão de sobrevivência. Negar isso seria crueldade disfarçada de reflexão.
Mas há uma pergunta que a euforia mercadológica em torno do Ozempic e do Mounjaro insiste em não fazer: por que precisamos disso em tal escala? Por que a demanda é tão grande? E por que cresce mais rápido do que qualquer projeção epidemiológica havia imaginado?
A resposta não está nos genes. Não está na falta de força de vontade. Está em décadas de escolhas — tomadas por governos, por corporações e por uma lógica de mercado que transformou comida em produto aditivo, movimento em mercadoria e saúde em responsabilidade exclusivamente individual.
O Brasil tem hoje mais de 96 milhões de adultos com sobrepeso, segundo o IBGE. Cerca de 41 milhões vivem com obesidade — um crescimento de quase 80% em dez anos. Não é uma crise biológica. É uma crise de ambiente. De política pública. De prioridades econômicas.
Vivemos em cidades projetadas para o carro, não para o pedestre. Trabalhamos jornadas que deixam pouco espaço para cozinhar. Comemos o que está disponível, acessível e barato — e o que está disponível, acessível e barato é, com frequência assustadora, ultra-processado. A indústria alimentícia passou décadas refinando formulações para maximizar palatabilidade, criar padrões de consumo compulsivo e subverter os sinais de saciedade do cérebro humano. Não é metáfora: o ultra-processado foi projetado para ser difícil de parar de comer.
"Quando grande parte de uma população precisa de medicamento para controlar o peso, isso não é uma falha individual. É um diagnóstico coletivo. E diagnósticos coletivos exigem respostas coletivas."
Análise editorial — O TecidoO pesquisador Carlos Monteiro, da USP, cunhou o termo "ultra-processado" e passou décadas documentando como esses alimentos dominaram a dieta brasileira. Seu grupo mostrou que os ultra-processados já respondem por mais de 20% das calorias consumidas no Brasil — número que dobra entre os jovens de baixa renda. A correlação com obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares é robusta, replicada e ignorada pelas políticas públicas com espantosa consistência.
A pergunta que fica é: quem lucra com esse ambiente doentio? E quem paga a conta?
Há uma lógica perversa no centro desse mercado que raramente é dita em voz alta: a indústria de alimentos ultra-processados e a indústria farmacêutica não são adversárias. São parceiras involuntárias de um mesmo modelo de negócios. Uma vende o problema. A outra vende a solução. Ambas faturam.
Isso não é teoria conspiratória. É estrutura de mercado. A Nestlé, uma das maiores fabricantes de ultra-processados do mundo, também opera uma divisão de nutrição médica. A Unilever financia pesquisas sobre comportamento alimentar. O lobby alimentício gasta bilhões em todo o mundo para retardar regulações de rotulagem, taxação de açúcar e restrições à publicidade infantil — as mesmas políticas que décadas de evidência mostram serem eficazes na redução da obesidade.
No Brasil, a regulação de publicidade de alimentos para crianças levou mais de quinze anos para avançar minimamente — e ainda enfrenta contestações jurídicas. A taxação de bebidas açucaradas, recomendada pela OMS e adotada em dezenas de países, segue na gaveta. O imposto seletivo aprovado na reforma tributária de 2023 é um passo, mas sua implementação e abrangência ainda são objeto de disputa intensa no Congresso, onde o setor alimentício é representado com força desproporcional.
A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como uma epidemia global desde 1997. Mais de 650 milhões de adultos no mundo vivem com obesidade. A OMS estima que 80% dos casos de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares poderiam ser prevenidos com mudanças de ambiente e política pública — não com medicamentos.
Voltemos ao Ozempic. A demanda global por semaglutida é tão alta que a Novo Nordisk, empresa dinamarquesa fabricante do medicamento, tornou-se por um breve período a empresa mais valiosa da Europa — superando marcas de luxo como LVMH. Não porque inventou algo radicalmente novo na biologia humana, mas porque encontrou uma solução farmacológica para um problema que o ambiente criou em escala industrial.
O Mounjaro (tirzepatida) da Eli Lilly age em dois receptores hormonais e mostrou resultados ainda mais expressivos de perda de peso. Novos agentes estão em desenvolvimento. A corrida é real e os resultados clínicos são, em muitos casos, impressionantes.
But aqui mora o risco maior: quando a medicina oferece uma saída farmacológica convincente para um problema ambiental, a pressão política para corrigir o ambiente diminui. Por que taxar refrigerante se há um remédio? Por que regular publicidade infantil se a criança pode tratar a obesidade com injeção semanal quando adulta? A solução individual esvazia a urgência da solução coletiva.
É o mesmo mecanismo que vemos em outros campos: o ansiolítico que resolve o sintoma sem tocar nas condições de trabalho que geram ansiedade; o remédio para refluxo que substitui a mudança na alimentação que uma vida frenética impossibilita. Não se trata de culpar o médico ou o paciente. Trata-se de entender que sistemas de saúde construídos apenas em cima de tratamento — e não de prevenção — são sistemas que precisam que as pessoas adoeçam para funcionar.
Há ainda uma dimensão que o debate público sobre Ozempic costuma evitar: a do acesso. No Brasil, a semaglutida custa entre R$ 800 e R$ 1.200 por dose mensal no mercado privado. O Mounjaro chega a valores ainda mais altos. O SUS não os incorporou para obesidade — apenas para diabetes tipo 2 em casos específicos.
Isso significa que a revolução dos emagrecedores é, por enquanto, um privilégio de classe. Os mesmos grupos populacionais mais expostos ao ambiente obesogênico — trabalhadores de baixa renda, moradores de periferias com menor acesso a alimentos frescos, pessoas com menos tempo e recursos para exercício — são os que menos conseguem pagar pelos medicamentos que tratam as consequências desse ambiente.
A ironia é quase literária: os que mais precisam são os que menos podem acessar. E o debate público, dominado por relatos de celebridades e influenciadores usando Ozempic para perder os últimos quilos estéticos, obscurece essa realidade.
"Que tipo de saúde pública estamos construindo quando a solução para uma epidemia criada pela desigualdade só está disponível para quem pode pagar?"
Análise editorial — O TecidoNada do que foi dito aqui implica que alguém deva abrir mão de tratamento médico disponível. Muito pelo contrário. Mas precisamos ser capazes de exigir as duas coisas ao mesmo tempo: que os medicamentos que funcionam sejam acessíveis a quem precisa, e que as causas estruturais da epidemia sejam enfrentadas com a mesma energia que o mercado emprega para vender a solução.
Isso significa regulação efetiva da publicidade de ultra-processados, especialmente voltada a crianças. Significa taxação de produtos com alto teor de açúcar e sódio adicionados, com destinação de recursos para subsídio de alimentos frescos. Significa política urbana que torne o movimento possível — calçadas, ciclovias, praças, acesso a espaços verdes. Significa jornadas de trabalho que permitam que as pessoas cozinhem, se movam e durmam. Significa um sistema de saúde que invista mais em atenção primária e prevenção do que em procedimentos de alto custo.
E significa, talvez acima de tudo, uma mudança cultural que pare de tratar a obesidade como fraqueza moral e passe a enxergá-la como o que é: o resultado previsível de um ambiente projetado para adoecer.
O Ozempic não é o vilão. O Mounjaro não é o problema. O problema é a pergunta que não fazemos quando celebramos esses remédios sem questionar por que os precisamos em tal quantidade. O sintoma não é o peso. O sintoma é o mundo que construímos — e continuamos construindo, sem questionar quem lucra com ele.
Este artigo é uma análise editorial independente produzida pelo caderno Saúde d'O Tecido. Nenhum conteúdo foi patrocinado ou financiado por empresas farmacêuticas ou da indústria alimentícia.
Fontes e referências: IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde 2023; OMS — Global Obesity Observatory; Monteiro CA et al., "Ultra-processed foods: what they are and how to identify them", Public Health Nutrition, 2019; Novo Nordisk — Relatório Anual 2023; Eli Lilly — Relatório Anual 2023; Ministério da Saúde — VIGITEL 2023; who.int — Obesity and overweight.