Caderno Livros · Ensaio · Escrita e leitura

Quem lê uma frase bem construída tem a sensação de atravessar um cômodo arrumado. Nada parece fora do lugar, nada pede atenção. O escritor espanhol Juan José Millás propõe, em coluna publicada nesta sexta-feira no El País, que essa calma é uma ilusão de ótica: por baixo da superfície, a frase é um campo de batalha entre sintaxe, sentido, sílabas, sons e pontuação, e o mérito do texto está justamente em esconder a briga.1 O título da coluna, Peleas invisibles, resume o argumento.

A imagem é a de uma casa em que o teto pesa toneladas e as paredes só ficam de pé graças a um acordo frágil entre forças opostas. O leitor só levanta a cabeça quando algo range. Na escrita, o rangido é a vírgula mal posta, o ponto que chega cedo demais, o adjetivo que quer aparecer mais do que deve. Millás, aos 80 anos, transforma em parábola doméstica uma intuição que atravessa a história da prosa moderna e que ganha um sentido novo num tempo em que máquinas passaram a escrever frases sem esforço aparente.

Quem é Juan José Millás e por que sua coluna importa

Nascido em Valência em 1946 e radicado em Madri desde a infância, Millás é autor de uma obra extensa que inclui romances premiados com o Nadal, o Primavera e o Planeta, além de livros de contos e de crônicas. Segundo a editora Planeta, sua narrativa já foi traduzida para 23 idiomas.2 O romance autobiográfico El mundo, de 2007, levou o Planeta e, no ano seguinte, o Prêmio Nacional de Narrativa da Espanha; no Brasil, foi publicado como O mundo.

Mas é no jornal que Millás cunhou sua marca mais reconhecível: o articuento, texto que ocupa o espaço da coluna de opinião e trata do noticiário, mas se comporta como fábula ou microconto. A editora mexicana Herder descreve o gênero como uma forma de mostrar o avesso dos fatos por meio do humor, do paradoxo e da ironia.3 Em 1999, uma de suas colunas no El País rendeu o prêmio Mariano de Cavia, um dos mais tradicionais do jornalismo espanhol, como registra o Biografías y Vidas.4 O leitor brasileiro reconhece o parentesco imediatamente: é a mesma zona de fronteira ocupada pela crônica de Rubem Braga, Clarice Lispector e Paulo Mendes Campos, em que o jornal serve de pretexto para a literatura.

A frase como campo de forças: escrever para o sentido, ler com o ouvido

O núcleo da coluna está numa assimetria. Escrevemos pensando no que queremos dizer, mas o leitor recebe o texto pelo som, mesmo quando lê em silêncio. Millás resume a ideia numa fórmula curta:

"Lemos com o ouvido."Juan José Millás, El País, 23 out. 2026 (tradução livre)

Daí decorre um paradoxo que qualquer editor conhece. Uma frase pode carregar uma ideia interessante e estar mal escrita; outra pode ser impecável do ponto de vista formal e não dizer nada. Correção e vida não são a mesma coisa. O que Millás descreve é o ponto em que as duas coisas se encontram, e esse ponto não se alcança por regra, mas por escuta.

A neurociência dá algum respaldo à metáfora. Um estudo piloto com ressonância magnética funcional publicado na revista Brain and Behavior parte da constatação de que a voz interior que acompanha a leitura silenciosa ativa o cérebro de modo muito parecido com o das vozes externas.5 O fenômeno tem nome, subvocalização, e costuma ser tratado como vilão em cursos de leitura dinâmica. A coluna de Millás sugere o contrário: é por essa voz que o leitor percebe ritmo, cadência e tropeço. Ler depressa demais é, em certa medida, deixar de ouvir.

a frase em repouso SINTAXESENTIDOSÍLABAS SOMORTOGRAFIAPONTUAÇÃO tensões opostas que o leitor não deve perceber
As forças que, segundo Millás, disputam o interior de cada frase. Quando o texto funciona, o equilíbrio é silencioso.

De Flaubert ao "gueuloir": a escuta como método de escrita

A ideia de que a prosa se testa pelo ouvido tem um patrono célebre. Gustave Flaubert submetia cada frase de Madame Bovary ao que chamava de gueuloir, do verbo francês gueuler, berrar: lia o texto em voz alta, aos gritos, até que soasse certo. Um artigo publicado nos Cadernos do IL, da UFRGS, mostra como esse método de reescrita obsessiva aproxima o romance de um poema narrativo.6

O caso de Flaubert ilumina um ponto que a coluna de Millás deixa implícito. O historiador da arte Michael Fried, em livro sobre o tema discutido pela London Review of Books, observou que, mesmo depois do banho ácido do gueuloir, Madame Bovary continua repleto de assonâncias e repetições que o próprio autor dizia querer eliminar.7 Ou seja: a frase silenciosa nunca é totalmente silenciosa. O equilíbrio de que fala Millás não é ausência de tensão, é tensão administrada.

No Brasil, Graciliano Ramos deixou uma versão sertaneja da mesma disciplina, ao comparar a escrita ao trabalho das lavadeiras de Alagoas, que molham, batem e torcem a roupa várias vezes até não escorrer mais nenhuma gota. A imagem é de enxugamento, não de ornamento. Para Graciliano, como para Flaubert, a palavra precisa resistir a um teste físico antes de ir para a página.

Quando o texto passa a mandar: Millás e a prosa das máquinas

Há um trecho da coluna que soa quase técnico para o leitor de 2026. Millás observa que, a partir de certo ponto, a frase se emancipa de quem a escreve: as primeiras palavras anunciam as seguintes, cada escolha elimina centenas de alternativas, e na metade do caminho quem manda já é o texto. O escritor descreve uma experiência de ofício. Mas a descrição coincide, quase palavra por palavra, com o princípio de funcionamento dos grandes modelos de linguagem, que geram texto calculando, a cada passo, a continuação mais provável a partir do que veio antes.

A coincidência ajuda a formular uma distinção útil. Os sistemas de inteligência artificial produzem frases lisas, sem rangidos, porque escolhem o caminho estatisticamente mais confortável. Falta a elas justamente o que Millás chama de descarga sentimental por trás da aparente imobilidade: a briga que houve e foi escondida. Uma frase pode ser silenciosa porque venceu suas tensões ou porque nunca teve nenhuma. O leitor atento costuma perceber a diferença, ainda que não saiba nomeá-la. Para quem escreve com auxílio dessas ferramentas, a lição da coluna é prática: a máquina entrega a superfície, mas o trabalho de escuta, de ler em voz alta e de desconfiar da frase fácil continua sendo humano.

O contexto brasileiro torna a discussão menos abstrata. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou em 2024 que, pela primeira vez desde 2007, os não leitores passaram a ser maioria, com 53% da população, segundo análise publicada pela Companhia das Letras.8 O país perdeu cerca de 7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Num ambiente em que se lê menos e se lê aos pedaços, a capacidade de ouvir o texto, aquela que Millás descreve como natural, deixa de ser dada e passa a precisar de formação.

Por que ler Millás agora

A coluna funciona como amostra do método que ela descreve. O texto é curto, parece simples e esconde uma arquitetura cuidadosa, com imagens domésticas que sustentam uma reflexão sobre a natureza da linguagem. É o mesmo procedimento que atravessa os romances do autor, frequentemente povoados por personagens comuns lançados em situações que beiram o fantástico. Para o leitor brasileiro acostumado à crônica, Millás oferece uma porta de entrada natural para a literatura espanhola contemporânea: a de um escritor que levou o jornal a sério o bastante para fazer dele literatura.

Perguntas frequentes

Sobre o que é a coluna "Peleas invisibles", de Juan José Millás?

Publicada no El País em 23 de outubro de 2026, a coluna descreve a frase como um campo de forças em que sintaxe, sentido, som, sílabas, ortografia e pontuação disputam espaço. Para Millás, a boa frase é aquela em que essas tensões ficam invisíveis para o leitor.

O que é um "articuento"?

É o gênero criado por Juan José Millás: um texto publicado como coluna de opinião, que comenta a atualidade, mas tem estrutura de conto, fábula ou microficção, usando humor, ironia e paradoxo. No Brasil, o parente mais próximo é a crônica.

O que significa dizer que "lemos com o ouvido"?

Significa que, mesmo na leitura silenciosa, o leitor percebe o ritmo e o som das palavras por meio de uma voz interior, fenômeno conhecido como subvocalização. Por isso uma frase correta pode soar mal e uma frase imperfeita pode soar viva.

O que foi o "gueuloir" de Flaubert?

Era o método do escritor francês Gustave Flaubert de ler suas frases em voz alta, aos gritos, para detectar repetições, assonâncias e falhas de ritmo durante a escrita de Madame Bovary e outros romances.

Qual a relação entre a coluna de Millás e a inteligência artificial?

Millás observa que as primeiras palavras de uma frase predizem as seguintes, o que coincide com o funcionamento dos modelos de linguagem. A diferença é que a máquina produz frases lisas por escolher o caminho mais provável, enquanto a boa prosa humana esconde uma tensão real que foi resolvida.

Quantos brasileiros leem livros hoje?

Segundo a 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2024), 47% da população com mais de 5 anos é leitora e 53% não leu nenhum livro, nem em parte, nos três meses anteriores à pesquisa. É a primeira vez que os não leitores são maioria.

Este ensaio foi inspirado na coluna Peleas invisibles, de Juan José Millás, publicada pelo El País em 23 de outubro de 2026, disponível em elpais.com. O texto não reproduz nem traduz a coluna; a citação utilizada é breve, em tradução livre, com os devidos créditos ao autor e ao jornal.