Caderno Saúde O Tecido · 27 de julho de 2026

Este texto parte de reportagem publicada pelo The Wall Street Journal sobre o cientista George Yancopoulos e a estratégia de pesquisa da Regeneron. Reportagem original assinada por Xavier Martinez, com fotografia de Mackenzie Calle, disponível em: wsj.com/health/pharma/regeneron-george-yancopoulos-drug-discovery-17fea3fa

Há um detalhe na trajetória da Regeneron que passa quase despercebido em meio aos mais de mil registros de patentes do seu cofundador George Yancopoulos: entre os cerca de sessenta compostos que a farmacêutica americana tem hoje em desenvolvimento, alguns não tratam uma doença nova. Tratam um efeito colateral criado por outro remédio. É o caso do par de anticorpos trevogrumabe e garetosmabe, que a empresa testa justamente para conter a perda de massa muscular provocada pelos medicamentos de emagrecimento à base de GLP-1, como Wegovy e Zepbound. O ciclo é revelador: primeiro se cria a caneta que emagrece, depois se cria o remédio que protege o músculo que a caneta consome.

Não é um problema exclusivo da Regeneron. Ao menos outras quatro companhias, entre elas Eli Lilly, Scholar Rock, Veru e iBio, correm atrás da mesma lacuna terapêutica: um mercado inteiro nascendo para consertar o que o mercado anterior desarranjou. E é esse movimento, mais do que o perfil pessoal de Yancopoulos, que merece a atenção do leitor brasileiro, num país que envelhece rápido e onde o uso dessas canetas se popularizou sem o mesmo controle clínico observado nos Estados Unidos.

A lógica do remédio que conserta o remédio

A engenharia por trás do problema é conhecida havia anos, mas ganhou urgência comercial recentemente. Estudos clínicos com semaglutida, liraglutida e tirzepatida mostram que entre 15% e 45% de todo o peso perdido pode vir de massa magra, não de gordura, segundo a endocrinologista Ofri Mosenzon, citada pela Medscape. Quando o músculo some junto com a gordura, o corpo passa a gastar menos energia em repouso: cada quilo de músculo perdido reduz o gasto energético basal em cerca de 13 quilocalorias, contra apenas 4 quilocalorias por quilo de gordura, segundo dados apresentados por Ian Neeland no congresso da American Diabetes Association em 2026.

É essa aritmética metabólica que abriu espaço para uma nova classe de fármacos: os inibidores de miostatina e ativina, moléculas que bloqueiam os freios naturais do crescimento muscular. O trevogrumabe e o garetosmabe da Regeneron, testados no estudo de fase 2 chamado COURAGE, já mostraram resultados que reduziram a perda de massa magra em mais da metade durante o uso de tirzepatida, sem alterar a perda total de peso, segundo publicação da Nature Medicine reproduzida pela Medscape. O bimagrumabe, da Eli Lilly, testado ao lado da semaglutida no estudo BELIEVE, chegou a resultado parecido: reduziu a fração de massa magra na perda de peso total para cerca de 7%.

Antes de existir um remédio para emagrecer rápido demais, existia o hábito de comer bem e se mexer todos os dias. O novo remédio não substitui o hábito perdido: ele tenta compensar quimicamente a sua ausência. Ewerton Lopes, Curador Editorial

O que os números brasileiros mostram

O Brasil não está imune a essa engrenagem, e os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Vigitel 2025, pesquisa do Ministério da Saúde, a obesidade entre adultos brasileiros cresceu 118% entre 2006 e 2024, saindo de 11,8% para 25,7% da população. O excesso de peso, que já era comum, passou de 42,6% para 62,6% no mesmo período. Ao mesmo tempo, o deslocamento a pé ou de bicicleta, uma das formas mais simples de atividade física cotidiana, caiu de 17% para 11,3% entre 2009 e 2024.

Foi nesse cenário que Ozempic, Wegovy e Mounjaro se popularizaram no país, muitas vezes fora de indicação médica. A farmacêutica Danyelle Marini, professora do ICTQ, estima que entre 25% e 40% de toda a perda de peso obtida com esses medicamentos vem da redução de massa magra, não de gordura. O educador físico Jauan Anselmo, especialista em fisiologia do exercício, resume o risco de forma direta: quando o músculo desaparece junto com a gordura, o corpo passa a gastar menos energia e fica mais vulnerável ao efeito rebote.

O fenômeno já tem até apelido popular: a chamada "cabeça de Ozempic", expressão usada quando o rosto parece desproporcional ao restante do corpo após o emagrecimento rápido. Segundo o endocrinologista Ricardo Barroso, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (regional São Paulo), a sensação nasce justamente da perda de massa muscular que acompanha a perda de peso acelerada.

Quando comer bem e se exercitar bastava

Há uma pergunta incômoda escondida atrás de toda essa inovação farmacêutica: por que, décadas atrás, a perda de massa muscular em pessoas mais velhas não era um problema de saúde pública tão discutido quanto hoje? Parte da resposta está na demografia. O Brasil de fato envelheceu: pessoas com 60 anos ou mais já são 16,6% da população, segundo a PNAD Contínua do IBGE divulgada em abril de 2026, contra 11,3% em 2012. A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, nove anos a mais do que em 1940.

Mas parte da resposta também está no estilo de vida. Os próprios dados do Vigitel mostram que o brasileiro caminha menos, usa mais transporte motorizado e convive com taxas de obesidade e diabetes que mais que dobraram em menos de duas décadas. Não é nostalgia dizer que uma população mais ativa e com alimentação mais regular perdia menos músculo ao envelhecer: é o que a própria evidência sobre sarcopenia sugere, ao apontar o sedentarismo e a dieta desequilibrada como dois dos principais fatores de risco para a perda muscular acelerada, inclusive fora do contexto do uso de canetas emagrecedoras.

O que a indústria farmacêutica está construindo agora, com seus inibidores de miostatina e ativina, é uma resposta molecular a uma equação que, para grande parte da população, já foi resolvida de outra forma: proteína suficiente, treino de força regular e menos tempo sentado. A diferença é que essa resposta antiga exige disciplina contínua e acesso a orientação profissional, enquanto a resposta farmacológica promete resultado com uma injeção a mais.

O outro lado

Nem todos os especialistas veem contradição em tratar o efeito colateral do remédio com outro remédio. Para Ian Neeland, que apresentou dados do estudo S-LITE na ADA 2026, a combinação de liraglutida com treino supervisionado de resistência permitiu que pacientes efetivamente ganhassem massa magra durante o emagrecimento, um resultado que a farmacologia isolada não alcança. Defensores da nova classe de inibidores de miostatina argumentam que ela é voltada sobretudo a quem não consegue seguir um programa de exercícios, como idosos frágeis ou pacientes com mobilidade reduzida, e não pretende substituir a atividade física para quem já a pratica.

Há também ceticismo dentro da própria comunidade médica. Morris Birnbaum, da Universidade da Pensilvânia, pondera que a perda de massa magra durante o uso de GLP-1 é, na visão de muitos clínicos, consequência esperada da menor ingestão calórica, e não um efeito mecânico do medicamento que exija necessariamente um segundo fármaco. Já Max Petersen, da Universidade Washington em St. Louis, questiona se o benefício clínico dos inibidores de miostatina justificará o custo elevado que esses tratamentos devem ter quando chegarem ao mercado.

O que vem a seguir

A Regeneron espera concluir o estudo COURAGE ainda em 2026. Caso os resultados de fase 3 se confirmem, analistas do setor projetam pedido de aprovação à agência regulatória americana entre 2026 e 2027. Enquanto isso, a Eli Lilly interrompeu, por razões estratégicas, um dos braços do estudo de fase 2 do bimagrumabe combinado à tirzepatida em pacientes com diabetes tipo 2, embora mantenha em andamento outro estudo do mesmo composto em pacientes sem diabetes. Nenhum desses medicamentos tem, até o momento, registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Para Yancopoulos, que soma mais de mil patentes em quase quatro décadas de carreira, o raciocínio é simples: se a obesidade se tornou uma epidemia tratada com fármacos em massa, é papel da ciência corrigir os efeitos colaterais dessa mesma solução, sobretudo entre os idosos, que têm menos reserva muscular para perder. É uma lógica coerente do ponto de vista da indústria. O que ela não resolve, e talvez nem devesse, é a pergunta sobre por que a solução original criou um problema novo em primeiro lugar.

Nota de atribuição editorial

Este artigo foi inspirado pela reportagem "The Scientist With 1,000 Patents Fueling a Drug Powerhouse", de Xavier Martinez, publicada pelo The Wall Street Journal em 24 de julho de 2026, disponível em wsj.com/health/pharma/regeneron-george-yancopoulos-drug-discovery-17fea3fa. O texto acima não reproduz nem traduz integralmente a reportagem original: apresenta reportagem e análise independentes, com fontes e dados brasileiros próprios, listados na seção de referências ao lado.

Ewerton Lopes — Curador Editorial