Política · Quebec · Eleições 2026
Uma provocação francesa atravessou o Atlântico e chegou ao Quebec em plena campanha eleitoral. No início de 2026, o jornalista e escritor Franz-Olivier Giesbert publicou um panfleto irônico que pergunta, já no título, se a França seria um país comunista. O argumento central é um número: o gasto público francês consome 57,1% do PIB, o segundo maior patamar entre os 38 países da OCDE[1][2]. Às vésperas da eleição geral de 5 de outubro, o Le Devoir decidiu aplicar a mesma pergunta à província de língua francesa do Canadá[1]. A resposta que emerge dos dados é mais interessante do que a provocação: o Quebec gasta como um país nórdico, distribui renda como um país nórdico e, ainda assim, atravessa uma campanha em que quase todos os partidos prometem encolher o Estado.
Para o leitor brasileiro, o caso tem uma utilidade imediata. O Brasil gasta, em proporção do PIB, um volume não muito distante do quebequense, mas convive com níveis de desigualdade de outra ordem de grandeza. A comparação desloca a discussão do lugar habitual. A pergunta relevante deixa de ser "quanto o Estado gasta" e passa a ser "o que o Estado entrega com aquilo que gasta".
Do panfleto francês ao espelho quebequense
Giesbert, que se descreve ao mesmo tempo como social-democrata de direita e conservador de esquerda, monta seu argumento em pouco mais de cem páginas. Segundo o resumo feito pelo Le Devoir, ele lembra que a redistribuição francesa eleva em 55% o padrão de vida do quinto mais pobre da população e reduz em 22% o do quinto mais rico, o que coloca a França numa posição intermediária de desigualdade entre Alemanha e Países Baixos. O autor fecha o raciocínio com uma frase atribuída a Mikhail Gorbatchov no colapso soviético, segundo a qual a França seria o único lugar onde o comunismo teria dado certo[1].
Ao transpor a ironia para o Quebec, o jornal ouviu Stéphane Paquin, professor da École nationale d'administration publique (ENAP) e titular da Cátedra Jarislowsky sobre confiança e liderança política. A resposta do pesquisador desarma o rótulo: para ele, o Quebec não é comunista, mas um dos raros lugares em que a social-democracia de fato funciona[1]. A afirmação é forte e merece ser testada contra os números.
O que significa gastar 50,8% do PIB
O cálculo exige somar os gastos dos governos federal e provincial, já que o Quebec é parte de uma federação. Com base no Panorama das Finanças Públicas do Quebec, edição 2026, produzido pela Cátedra de Pesquisa em Fiscalidade e Finanças Públicas da Universidade de Sherbrooke, Paquin chega a 50,8% do PIB. A média canadense é de 44,3%. O patamar também está acima do registrado antes da pandemia, quando o gasto público correspondia a 48,3% do PIB, em 2019[1][3].
Entre as economias avançadas da OCDE, apenas Finlândia (57,7%), França, Áustria (55,3%) e Bélgica (54,1%) superariam o Quebec. A Suécia aparece praticamente empatada, com 50,5%, e a Dinamarca fica abaixo, com 47,3%[1]. Em outras palavras, o Estado quebequense tem o porte dos Estados de bem-estar do norte da Europa.
Gasto público em % do PIB
Países e jurisdições selecionados · dados mais recentes disponíveis
Fontes: Le Devoir, com base no Panorama das Finanças Públicas do Quebec 2026 (CFFP/Universidade de Sherbrooke); França segundo Giesbert/OCDE. *Brasil: despesas do governo geral em 2025, incluindo juros da dívida, segundo o Tesouro Nacional. As bases metodológicas e os anos de referência não são idênticos; a comparação é indicativa.
O retrato muda quando a lente se volta para dentro do Canadá. Quatro províncias gastam proporcionalmente mais que o Quebec: Nova Escócia (63,3%), Ilha do Príncipe Eduardo e Nova Brunswick (ambas com 60,7%) e Manitoba (53,9%). No outro extremo está Alberta, com 30,5%, mais de 20 pontos abaixo. Paquin resume a situação com ironia: se há "comunistas" no Canadá, eles estariam nas províncias marítimas[1].
Os números fiscais mais recentes acrescentam nuance. Em análise publicada pela revista Options politiques, do IRPP, o professor Luc Godbout, titular da cátedra de Sherbrooke, observa que os gastos de programas do Quebec em proporção do PIB foram o quarto maior entre as dez províncias em 2024-2025, que a província teria o menor déficit relativo ao PIB em 2025-2026 e que, apesar da melhora recente, ainda carrega a segunda maior dívida líquida em relação ao PIB do país[4]. Ou seja: Estado grande, contas em recuperação, passivo acumulado elevado.
O retorno: igualdade, escola e creche
O argumento de Paquin não se apoia no tamanho do gasto, e sim no que ele produz. Segundo o professor, o Quebec estaria entre as sociedades mais igualitárias do mundo, com índice de Gini melhor que o de Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca. Ele acrescenta indicadores de insegurança alimentar mais baixos que nas demais províncias, menos homicídios e crimes de ódio que no restante do Canadá, desempenho elevado dos estudantes quebequenses no PISA e o efeito das licenças parentais e da rede pública de creches (os CPEs) sobre o emprego das mães, o que por sua vez amplia a base de arrecadação. Uma pesquisa internacional sobre felicidade colocou os quebequenses em sexto lugar no mundo[1].
Dados independentes sustentam a direção do argumento, ainda que não necessariamente cada comparação específica. O Instituto de Estatística do Quebec (ISQ) calculou o coeficiente de Gini da província em cerca de 0,28, contra 0,30 para o conjunto do Canadá[7]. Um estudo do departamento de Estudos Econômicos do Desjardins, de março de 2026, acrescenta a peça que falta: antes da redistribuição, a desigualdade de renda de mercado no Quebec fica perto da média canadense. É depois de impostos e transferências que a província se descola das outras grandes províncias, graças a um esforço de redistribuição historicamente mais intenso[8].
Esse ponto é central para entender o debate. A igualdade quebequense não nasce espontaneamente do mercado; ela é fabricada pelo Estado. A conta e o resultado são a mesma coisa vista de dois ângulos. Quem propõe reduzir uma precisa explicar o que acontece com o outro.
"Quando nos olhamos, ficamos desolados; quando nos comparamos, nos consolamos."
Stéphane Paquin, citando o ex-premiê Maurice Duplessis, ao Le DevoirA campanha que quer menos Estado
É aqui que o caso quebequense se torna politicamente curioso. Numa província cujo modelo social é frequentemente citado como referência, a redução do Estado virou um dos raros consensos da campanha. O Partido Conservador do Quebec (PCQ), de Éric Duhaime, apresentou um quadro financeiro que prevê equilíbrio orçamentário em quatro anos e a supressão de 20 mil cargos públicos, com congelamento permanente de contratações e redução por atrição. A Coalition avenir Québec (CAQ), da primeira-ministra Christine Fréchette, anunciou a abolição de 2.900 postos por meio de um programa de desligamento voluntário. O Partido Quebequense (PQ), de Paul St-Pierre Plamondon, propõe reduzir em 2,5% os custos de remuneração do setor público em três anos. O Partido Liberal (PLQ), de Charles Milliard, também prometeu diminuir o número de servidores, sem detalhar a escala. Apenas o Québec solidaire se colocou contra a onda de cortes[9][10].
O quadro eleitoral da reta final ajuda a dimensionar o peso dessas promessas. Na última semana de setembro, a sondagem Léger para o Journal e a TVA colocava o PQ na liderança, com 30% das intenções de voto, enquanto uma pesquisa Synopsis para o La Presse projetava 67 cadeiras para o partido soberanista, o suficiente para uma maioria, e mostrava a CAQ em queda, empatada com os conservadores em torno de 17%[9]. Em 2022, o PCQ havia obtido quase 13% dos votos sem eleger nenhum deputado.
Paquin não se alinha a esse consenso. Segundo o Le Devoir, o professor considera que cortes feitos em campanha costumam ser apressados, guiados por metas fiscais e não por uma lógica de melhoria dos serviços, e que as promessas de "cortar burocracia" permanecem vagas[1]. Sua proposta vai em outra direção: criar um mecanismo independente de avaliação e supervisão das políticas públicas, inspirado no modelo sueco, e obrigar ministérios e órgãos a decidir com base em evidências. Ele lembra que os países escandinavos praticam autoavaliação contínua e produzem muito mais dados confiáveis sobre o impacto da ação estatal.
Os exemplos que ele oferece são reveladores. Se a agência Santé Québec de fato contratou um número excessivo de gestores, ele quer números verificados. Quando Bernard Drainville assumiu o Ministério da Educação, não soube informar quantos professores havia na rede. E, segundo Paquin, não se sabe com precisão sequer quantos servidores existem nos setores público e parapúblico da província[1]. O debate sobre o tamanho do Estado, em suma, acontece sem que se saiba exatamente o tamanho do Estado.
Contraponto
O argumento de quem defende enxugar a máquina
Os defensores da redução têm argumentos que vão além da retórica. Duhaime sustenta que, sob o governo de François Legault, os gastos cresceram 48% e mais de 10,6 mil pessoas foram incorporadas à função pública. O próprio líder do PQ afirmou que a burocracia cresceu duas vezes mais rápido que a população nos anos da CAQ. Um levantamento da Pallas Data divulgado pela emissora Noovo indicou que 72% dos quebequenses percebem muito desperdício na gestão estatal, 68% consideram pagar impostos demais pelos serviços que recebem e 54% apoiariam uma função pública menor[10].
Há também argumentos estruturais. A segunda maior dívida líquida entre as províncias limita a margem de manobra futura, sobretudo num contexto de tensão comercial com os Estados Unidos[4]. E comparações de Gini entre jurisdições são sensíveis à metodologia: o tipo de renda considerado, o ajuste pelo tamanho do domicílio e o ano de referência podem alterar rankings. A afirmação de que o Quebec supera todos os países nórdicos depende da medida escolhida.
Por fim, a falta de dados apontada por Paquin corta nos dois sentidos. Se ninguém sabe quantos servidores existem, ninguém pode afirmar com segurança que a máquina é eficiente. A defesa do Estado quebequense também precisa de evidências que, por ora, são incompletas.
O espelho brasileiro
No mesmo fim de semana em que os quebequenses se preparam para votar, brasileiros vão às urnas no primeiro turno das eleições gerais, com o tamanho e a eficiência do Estado novamente no centro de parte das discussões. A comparação com o Quebec é instrutiva justamente porque os números brutos não são tão distantes.
Segundo relatório anual do Tesouro Nacional, as despesas do governo geral brasileiro, que somam União, estados e municípios e incluem os juros da dívida, chegaram a 46,9% do PIB em 2025, o maior nível em pelo menos 16 anos. As receitas ficaram praticamente estáveis, em 39,5% do PIB, e a necessidade líquida de financiamento subiu para 7,4% do PIB. O próprio Tesouro atribuiu a alta principalmente ao aumento das despesas com juros[5].
Do lado da distribuição, o IBGE informou que o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita subiu de 0,504 em 2024, o menor da série iniciada em 2012, para 0,511 em 2025. Em 2025, os 10% com maiores rendimentos receberam em média 13,8 vezes mais que os 40% com menores rendimentos[6].
| Indicador | Quebec | Brasil |
|---|---|---|
| Gasto público (% do PIB) | 50,8% (federal + provincial) | 46,9% (governo geral, 2025, com juros) |
| Índice de Gini | cerca de 0,28 (renda após impostos, ISQ) | 0,511 (rendimento domiciliar per capita, IBGE 2025) |
| Principal vetor recente do gasto | Serviços (saúde, educação, creches) | Juros da dívida pública |
| Debate eleitoral dominante | Redução de cargos públicos | Equilíbrio fiscal e eficiência do gasto |
Os dois índices de Gini não são diretamente comparáveis. A medida do IBGE considera o rendimento domiciliar per capita antes dos impostos diretos, enquanto os indicadores quebequenses costumam usar a renda após impostos. Ainda assim, a diferença entre um patamar próximo de 0,28 e outro acima de 0,50 é grande demais para ser atribuída apenas à metodologia. Ela aponta para realidades distributivas muito diferentes.
A explicação está na composição. Um real gasto com juros não se converte em vaga de creche, professor em sala de aula ou consulta no posto de saúde. Quando a alta recente do gasto brasileiro é puxada por encargos financeiros, o número agregado se aproxima do quebequense, mas a capacidade de redistribuição não acompanha. Somam-se a isso uma estrutura tributária apoiada em impostos sobre o consumo, que pesam proporcionalmente mais sobre os mais pobres, e uma redistribuição que ainda age de forma limitada sobre a renda do topo.
A proposta de Paquin também ecoa no Brasil. O país já dispõe de instituições que se aproximam do que ele pede: a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado, e o Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP), no Executivo federal. A questão em aberto, aqui como lá, é quanto essas avaliações de fato orientam a alocação do orçamento, em vez de servirem como diagnóstico consultado depois que as decisões já foram tomadas.
O que observar a partir de 5 de outubro
Três pontos merecem atenção nos próximos meses. O primeiro é se o governo que sair das urnas acompanhará os cortes prometidos de algum mecanismo de avaliação, ou se a redução de quadros será linear. O segundo é a eventual entrada dos conservadores na Assembleia Nacional, o que daria pela primeira vez voz parlamentar a uma corrente que questiona o próprio modelo de Estado social quebequense. O terceiro é a capacidade de o consenso do "Estado menor" sobreviver ao contato com áreas como saúde e educação, onde está a maior parte do gasto.
O valor do caso quebequense para o leitor brasileiro está menos na resposta à provocação de Giesbert e mais no método que ela sugere. Medir o Estado pelo percentual do PIB que ele consome diz pouco. Medi-lo pelo que entrega, e exigir dados para isso, diz muito mais. O Quebec mostra que um Estado grande pode produzir igualdade; o Brasil mostra que um Estado de porte parecido pode não produzir. A diferença não está no tamanho, mas na composição do gasto e na qualidade da informação usada para decidi-lo.
Perguntas frequentes
Quanto o Quebec gasta em relação ao PIB?
Somando gastos federais e provinciais, o gasto público no Quebec equivale a 50,8% do PIB, segundo o Panorama das Finanças Públicas do Quebec 2026. A média canadense é de 44,3%. Entre as economias avançadas da OCDE, apenas Finlândia, França, Áustria e Bélgica gastam proporcionalmente mais.
O Quebec gasta mais que os países nórdicos?
Gasta mais que Suécia (50,5%) e Dinamarca (47,3%), mas menos que a Finlândia (57,7%). O tamanho do Estado quebequense é comparável ao dos países social-democratas do norte da Europa.
Quanto o Brasil gasta em relação ao PIB?
Segundo o Tesouro Nacional, as despesas do governo geral chegaram a 46,9% do PIB em 2025, maior nível em pelo menos 16 anos, com alta puxada principalmente pelos juros da dívida.
Dá para comparar o índice de Gini do Brasil com o do Quebec?
Com cautela. O Gini do IBGE (0,511 em 2025) mede o rendimento antes dos impostos diretos; o do Quebec (cerca de 0,28) costuma considerar a renda após impostos. As metodologias diferem, mas a distância indica realidades distributivas muito distintas.
Quais partidos propõem reduzir o Estado na eleição do Quebec?
PCQ (corte de 20 mil cargos), CAQ (2.900 desligamentos voluntários), PQ (redução de 2,5% nos custos de remuneração em três anos) e PLQ (redução de servidores sem escala definida). O Québec solidaire se opõe.
Quando é a eleição no Quebec?
Em 5 de outubro de 2026. As sondagens da reta final apontavam o Partido Quebequense na liderança.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido