Caderno Educação
Publicado em 17 de agosto de 2026 · Leitura de 8 min · O Tecido

Uma redação bem escrita exige domínio de vocabulário, ortografia e gramática, mas também obriga quem escreve a organizar o pensamento, revisar argumentos e sustentar um raciocínio do início ao fim. É esse esforço, mais mental do que técnico, que uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial promete eliminar. A pergunta que passou a dominar salas de aula, universidades e secretarias de educação em todo o mundo é simples de formular e difícil de responder: o que se perde quando o aluno deixa de escrever sozinho?

A reportagem que reacendeu esse debate foi publicada nesta segunda-feira (17) pelo The New York Times, assinada pela jornalista Dana Goldstein1. O texto reúne pesquisadores da cognição, professores do ensino médio e executivos de empresas de tecnologia para discutir um fenômeno que já não é hipotético: entre dois terços e 90% dos estudantes do ensino médio e superior nos Estados Unidos recorrem à IA generativa para tarefas escolares, segundo levantamentos citados na reportagem1.

O cenário brasileiro caminha na mesma direção, com nuances próprias. Segundo a 15ª edição da pesquisa TIC Educação, do Cetic.br/NIC.br, divulgada em setembro de 2025, sete em cada dez estudantes do ensino médio brasileiro que usam internet já recorrem a ferramentas como ChatGPT, Copilot ou Gemini para realizar pesquisas escolares2. O problema é que a adoção avançou mais rápido do que a orientação: apenas 32% desses alunos afirmam ter recebido algum tipo de orientação da escola sobre como usar essas ferramentas de forma adequada2.

Escrever é uma forma de pensar

O psicólogo cognitivo Ronald T. Kellogg passou décadas estudando como o cérebro humano escreve. Sua conclusão, citada na reportagem do Times, é direta: redigir uma dissertação argumentativa exige do cérebro um esforço comparável ao de um trabalho físico pesado1. Para Kellogg, a escrita funciona como uma tecnologia de pensamento, um processo que obriga o cérebro a organizar memória, planejamento e autocrítica de forma simultânea1.

"Escrever é uma tecnologia para pensar." Ronald T. Kellogg, psicólogo cognitivo, citado em reportagem do The New York Times

Essa dificuldade não é acidental, é funcional. A produção de texto força o cérebro a testar ideias, responder a contra-argumentos e organizar conhecimento em memória de longo prazo. Um estudo de menor escala conduzido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), mencionado na reportagem, observou queda na atividade cerebral registrada em pessoas que escreveram com apoio constante de chatbots, além de maior dificuldade dos participantes em lembrar o que haviam escrito e menor senso de autoria sobre o próprio texto1. O achado se soma a um conjunto crescente de pesquisas que associam o uso frequente de IA a possíveis perdas no pensamento crítico1.

O que os números do Brasil revelam

Um estudo setorial mais recente do Cetic.br/NIC.br, apresentado em novembro de 2025 durante o seminário Inova IA, no Rio de Janeiro, aprofundou esse diagnóstico com grupos focais em escolas públicas e privadas de São Paulo e Recife3. A pesquisa identificou desigualdade de acesso entre redes públicas e privadas, formação docente ainda pontual e insuficiente, e ausência de diretrizes claras sobre o que é ou não permitido em avaliações3. Um trecho do levantamento resume bem o clima de ambiguidade nas escolas brasileiras: alunos relatam usar IA de forma velada, enquanto professores preferem não questionar abertamente o hábito.

Foi justamente para reduzir essa zona cinzenta que o Ministério da Educação (MEC) lançou, em abril de 2026, o documento orientador "Inteligência Artificial na Educação Básica: Caminhos para o Currículo e a Prática Docente"4. O material propõe que as redes de ensino trabalhem em duas frentes complementares: o ensino sobre IA, que trata a tecnologia como objeto de estudo, e o ensino com IA, que a emprega como apoio pedagógico sempre mediado pelo professor4. Segundo dados reproduzidos no próprio documento do MEC, 37% dos estudantes usuários de internet no Brasil já utilizam plataformas de IA generativa em atividades escolares, proporção que sobe para 70% entre os alunos do ensino médio, enquanto 43% dos professores de ensino fundamental e médio relatam usar essas ferramentas para preparar aulas5.

Contraponto

Nem todos veem risco nessa transição. Representantes da indústria de tecnologia argumentam que a escrita já é hoje a principal aplicação de IA no ambiente de trabalho, e que recusar o uso da ferramenta em sala de aula equivale a formar estudantes para um mercado que já não existe mais nesses moldes. Nessa visão, o papel da escola seria ensinar o aluno a avaliar criticamente o que a IA sugere, e não a evitá-la. A reportagem do Times registra essa posição na fala de uma executiva do setor de tecnologia educacional, para quem professores que reduzem o acesso à IA estariam, na prática, sinalizando aos alunos que o próprio conteúdo escolar perdeu relevância para o mercado de trabalho1.

Entre proibir e integrar: os limites em teste

Fora do Brasil, algumas instituições já testam modelos intermediários. A Universidade de Sydney, na Austrália, adotou o que chama de abordagem de duas faixas: todos os cursos precisam incluir avaliações presenciais e sem apoio de IA, mas também precisam garantir espaços em que o uso da tecnologia seja permitido e ensinado, para que o aluno aprenda a aplicá-la de forma consciente1. Escolas americanas citadas na reportagem do Times vêm redescobrindo o caderno e a caneta em provas dissertativas, não por nostalgia, mas como forma de garantir que ao menos parte da produção textual continue sendo inteiramente autoral1.

No Brasil, o Referencial de IA na Educação, também do MEC, caminha em direção semelhante ao recomendar supervisão humana efetiva em qualquer processo educacional que envolva sistemas de inteligência artificial, além de transparência sobre quando e como a ferramenta foi utilizada5. A lógica subjacente é a mesma identificada por pesquisadores ouvidos pelo Times: não existe etapa do processo de escrita, do rascunho à revisão final, que possa ser inteiramente delegada à máquina sem algum custo cognitivo para quem aprende1.

O que continua sendo trabalho do aluno

Há, ainda assim, espaço reconhecido para a IA como apoio, não como substituta. Pesquisadores citados na reportagem do Times apontam que a tecnologia pode ser especialmente útil para estudantes com deficiência ou que não têm o idioma de instrução como língua materna, casos em que ferramentas de correção gramatical e transcrição por voz reduzem barreiras reais de acesso à escrita1. O consenso entre os especialistas ouvidos, tanto na reportagem americana quanto nos documentos brasileiros, é que a tecnologia funciona melhor como revisora e leitora inicial de rascunhos já produzidos pelo próprio aluno, e não como redatora do texto desde a primeira frase.

Essa distinção, entre usar a IA para pensar melhor e usar a IA para não precisar pensar, é provavelmente o critério mais simples e mais difícil de aplicar dentro de uma sala de aula real, onde professores muitas vezes não têm tempo nem ferramentas para verificar a origem de cada parágrafo entregue.

Este artigo utiliza como referência inicial a reportagem "What Do Students Lose When They Stop Writing?", de Dana Goldstein, publicada pelo The New York Times em 17 de agosto de 2026. O conteúdo foi reelaborado com apuração e fontes independentes, incluindo dados de institutos de pesquisa e órgãos públicos brasileiros. Leia a reportagem original em: nytimes.com/2026/08/17/us/student-writing-essays-ai.html

Perguntas frequentes

Quantos estudantes brasileiros usam IA generativa nas tarefas escolares?

Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br/NIC.br, divulgada em setembro de 2025, sete em cada dez estudantes do ensino médio brasileiro que usam internet já recorrem a ferramentas de IA generativa como ChatGPT, Copilot ou Gemini para pesquisas escolares, mas apenas 32% receberam orientação da escola sobre como utilizá-las.

A inteligência artificial prejudica a capacidade de escrever dos estudantes?

Pesquisas citadas pelo The New York Times, incluindo um estudo do MIT, associam o uso constante de chatbots durante a escrita a menor atividade cerebral registrada, menor retenção do conteúdo produzido e menor senso de autoria sobre o próprio texto. Especialistas apontam que a escrita manual continua sendo essencial para desenvolver memória de trabalho, planejamento e pensamento crítico.

O que o MEC recomenda sobre o uso de IA nas escolas brasileiras?

O documento orientador do MEC, lançado em abril de 2026, recomenda combinar o ensino sobre IA, que trata a tecnologia como objeto de estudo, com o ensino com IA, que a utiliza como apoio pedagógico sempre supervisionado por um professor, respeitando LGPD e diretrizes de proteção de crianças e adolescentes.

Existe alguma forma equilibrada de usar IA na escrita escolar?

Especialistas sugerem limitar o uso da IA a etapas específicas, como revisão gramatical ou geração de exemplos após um rascunho próprio do aluno, e reservar avaliações presenciais sem apoio tecnológico para garantir o desenvolvimento autônomo da escrita, modelo já adotado por instituições como a Universidade de Sydney.

Ewerton Lopes — Curador Editorial

Em números

70%
dos estudantes do ensino médio brasileiro usuários de internet já usam IA generativa em pesquisas escolares (Cetic.br, 2025)
32%
receberam orientação da escola sobre como usar IA de forma adequada (Cetic.br, 2025)
43%
dos professores do fundamental e médio usam IA para preparar aulas (MEC, 2026)
2/3 a 90%
dos estudantes americanos do ensino médio e superior já usam IA em tarefas escolares (NYT, 2026)

Linha do tempo

  • 2024–2025Cetic.br realiza a pesquisa TIC Educação em 1.023 escolas brasileiras.
  • SET 2025Divulgação da TIC Educação: 70% dos alunos do ensino médio usam IA generativa.
  • NOV 2025Cetic.br/NIC.br lança estudo setorial sobre riscos e oportunidades da IA nas escolas.
  • ABR 2026MEC lança documento orientador sobre IA na educação básica.
  • 17 AGO 2026The New York Times publica reportagem sobre o impacto da IA na escrita de estudantes.

Glossário

IA generativa
Sistemas capazes de produzir texto, imagem ou áudio originais a partir de comandos, como ChatGPT, Gemini e Copilot.
Metacognição
Capacidade de refletir sobre o próprio pensamento, avaliando e ajustando estratégias de raciocínio.
Abordagem de duas faixas
Modelo, adotado pela Universidade de Sydney, que combina avaliações sem IA e avaliações com uso supervisionado da tecnologia.

Referências

  1. GOLDSTEIN, Dana. What Do Students Lose When They Stop Writing? The New York Times, 17 ago. 2026. nytimes.com
  2. CETIC.BR/NIC.BR. Sete em cada dez alunos do Ensino Médio usam IA generativa em pesquisas escolares, revela TIC Educação. Set. 2025. cetic.br
  3. NIC.BR. Estudo do Cetic.br revela demanda por formação e por diretrizes para a adoção da IA para alunos e professores do Ensino Médio. Nov. 2025. nic.br
  4. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). MEC lança orientações sobre IA na educação básica. Abr. 2026. gov.br/mec
  5. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC). Inteligência Artificial na Educação Básica: documento orientador. 2026. gov.br/mec (PDF)