Em 2119, num arquipélago que já foi a Grã-Bretanha, um professor de literatura passa a vida perseguindo um poema que ninguém mais leu. O novo romance de Ian McEwan usa esse enredo para perguntar o que, afinal, sobrevive de nós.

Não há batalhas espaciais nem naves em O Que Podemos Saber, o décimo oitavo romance de Ian McEwan1. Ambientado em 2119, depois de um colapso climático e nuclear que os personagens chamam de "Desarranjo", o livro segue Thomas Metcalfe, professor de humanidades numa ilha que restou de um Reino Unido submerso, enquanto ele tenta reconstruir uma noite de 20142. Naquela data, o poeta fictício Francis Blundy leu, diante de convidados, uma coroa de sonetos escrita para o aniversário de 50 anos da esposa, Vivien. O poema nunca foi publicado, existe em cópia única, e desapareceu.

A forma escolhida por McEwan não é acessória. Uma coroa de sonetos é uma composição renascentista de regras rígidas: uma sequência de sonetos encadeados, em que o último verso de cada um se torna o primeiro do seguinte, até culminar num soneto final costurado pelas linhas de abertura de todos os anteriores3. É um objeto literário sobre o qual todos falam e que ninguém, no livro, conseguiu realmente ler — uma metáfora deliberada para o argumento central do romance: o quanto do passado é reconstrução, e não registro.

Filologia depois do fim do mundo

Metcalfe vasculha e-mails, mensagens e diários digitais dos convidados daquela noite, na esperança de localizar o manuscrito perdido3. O gesto é, em essência, um trabalho de filólogo: tentar recompor um texto e seu contexto a partir de vestígios fragmentários — só que, aqui, os vestígios são um século de mensagens de aplicativo, memes e reclamações banais, e não papiros ou manuscritos medievais. McEwan descreveu o projeto como ficção científica sem a ciência, um romance sobre história e sobre os limites do que se pode saber dela.

A crítica especializada tem descrito o resultado como uma mistura de romance de campus, tese filosófica e narrativa de mistério. Para o crítico Daniel Gascón, do jornal espanhol El País, o livro funciona como um "entretenimento sofisticado" que cruza metaliteratura e thriller, com ecos tanto de um cenário pós-apocalíptico ao estilo de Waterworld quanto do humor ácido dos romances universitários de Malcolm Bradbury4. Gascón nota ainda que a busca de Metcalfe termina revelando que o manuscrito relevante não era, afinal, aquele que o pesquisador imaginava perseguir — uma reviravolta que devolve ao leitor a pergunta que dá título ao livro.

"Deixamos rastros demais — e ainda assim a realidade continua inapreensível."

Resenhas em língua inglesa reforçam essa leitura. A Kirkus Reviews chamou o romance de "uma obra-prima de teor filosófico"5, enquanto outras análises destacam como McEwan retoma, de forma mais radical, um tema que já aparecia em Sábado: a nostalgia invertida de um futuro que olha para o nosso presente — com seu excesso de água quente, eletricidade e materiais complexos — como uma era de abundância hoje impossível de repetir6.

A chegada ao Brasil e o problema do arquivo

O Que Podemos Saber foi lançado no Reino Unido e nos Estados Unidos em setembro de 2025 e chegou às livrarias brasileiras em 2026 pela Companhia das Letras, com tradução de Jorio Dauster — o mesmo tradutor que acompanha McEwan no Brasil desde O Jardim de Cimento, em 20097.

A questão que o romance coloca em chave literária tem paralelo direto em instituições brasileiras de memória. A Biblioteca Nacional mantém desde 2020 uma Política de Preservação Digital formal, justamente porque documentos digitais — ao contrário do papel — dependem de migrações e atualizações constantes para não se perderem com a obsolescência de formatos e suportes8. Pesquisadores de humanidades digitais no país descrevem o mesmo paradoxo que McEwan explora ficcionalmente: cada nova camada de digitalização amplia o potencial de preservação, mas também introduz um risco de perda se a manutenção desses acervos não for contínua9. O романce imagina o problema levado ao extremo — um mundo em que sobrou o excesso de dados e faltou a energia para lê-los.

Contraponto

Nem toda a recepção crítica é unânime quanto à originalidade do andaime especulativo do livro. Resenhas reunidas pelo agregador Book Marks observam que o cenário de ficção científica e os segredos históricos revelados ao final "não são exatamente originais", e que o valor do romance estaria menos na premissa do que naquilo que McEwan escolhe deixar de fora — uma virtude de tradição realista clássica, não uma inovação de forma10.

O livro

O QUE PODEMOS SABER
O Que Podemos Saber — Ian McEwan, trad. Jorio Dauster (Companhia das Letras, 384 p.)
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Esta reportagem foi inspirada e cita trechos da resenha "Lo que podemos saber, de Ian McEwan: filología después del apocalipsis", de Daniel Gascón, publicada em El País (Babelia) em 9 de setembro de 2026. Leia o texto original em elpais.com.

Perguntas frequentes

Sobre o que é o livro O Que Podemos Saber, de Ian McEwan?

É o décimo oitavo romance de Ian McEwan. Ambientado em 2119, após um colapso climático e nuclear, acompanha um professor de literatura que tenta reconstruir um poema perdido escrito em 2014, usando isso como ponto de partida para discutir os limites do conhecimento histórico e pessoal.

Quando o livro chegou ao Brasil?

A edição brasileira foi publicada pela Companhia das Letras em 2026, com tradução de Jorio Dauster, tradutor histórico de McEwan no país desde 2009.

O que é uma coroa de sonetos?

É uma forma poética renascentista composta por uma sequência de sonetos encadeados, em que o último verso de cada soneto se repete como primeiro verso do seguinte, terminando num soneto final formado pelas linhas de abertura de todos os outros.

O romance é uma sequência de outro livro de McEwan?

Não. É uma obra independente, mas retoma temas recorrentes do autor, como os limites da razão diante do caos moral, já explorados em romances como Reparação e Sábado.