Quem divide a casa com um cachorro costuma ter certeza de que ele entende muito mais do que deixa transparecer. Durante décadas, a ciência tratou essa convicção com reserva, em parte porque muitos estudos dependiam do relato dos próprios tutores. Esse quadro está mudando. Uma sequência de pesquisas publicadas entre 2024 e 2026, com métodos que vão de botões sonoros a ressonância magnética funcional, descreve um animal atento a sinais humanos muito sutis, capaz de combinar conceitos para fazer pedidos e de processar um rosto feliz de maneira diferente de um rosto triste.
O panorama foi reunido em reportagem recente da Scientific American, assinada por Mary Randolph, que ouviu o cientista cognitivo Federico Rossano, da Universidade da Califórnia em San Diego. Rossano descreve uma inversão de foco: a área passou muito tempo estudando os donos, e não os cães.1 O que segue é uma leitura crítica dessas evidências, com os limites reconhecidos pelos próprios autores e a contribuição de pesquisadores brasileiros para o tema.
Em resumo
- Cães treinados com painéis de botões sonoros combinam dois conceitos com frequência acima do acaso, segundo análise de 152 animais publicada na Scientific Reports.
- Estudo da Universidade de Parma mostrou que cães piscam mais quando veem o tutor piscar, efeito não detectado diante de desconhecidos.
- Imagens de ressonância magnética indicam que rostos humanos felizes ativam, no cérebro canino, uma região associada à recompensa.
- Pesquisas da USP mostram, desde 2016, que cães reconhecem emoções humanas e usam essa leitura para tomar decisões.
- Os pesquisadores advertem: distinguir uma expressão não equivale a compreender a emoção como um humano a compreende.
Botões que “falam”: o que 260 mil toques revelam
A investigação de Rossano começou com um vídeo de cães usando painéis de botões que reproduzem palavras gravadas pelos tutores. Segundo a Scientific American, o projeto de ciência cidadã que nasceu dali chegou a envolver cerca de 10 mil cães em seis continentes, e alguns animais operam painéis com mais de cem botões.1
O primeiro resultado revisado por pares desse esforço saiu em dezembro de 2024 na revista Scientific Reports. A equipe do Comparative Cognition Lab analisou 152 cães ao longo de 21 meses, num conjunto de mais de 260 mil acionamentos, dos quais cerca de 195 mil feitos pelos próprios animais, conforme comunicado da UC San Diego.2 Com simulações computacionais, os autores testaram três hipóteses: se os toques eram acidentais, aleatórios ou simples repetições do que o tutor fazia. Nenhuma delas explicou o padrão observado.3
Os botões mais usados correspondem a necessidades básicas, como sair, petisco, brincar e fazer xixi. Certas duplas, como “lá fora” seguido de “xixi”, aparecem com frequência maior do que o acaso permitiria. Um detalhe ajuda a afastar a hipótese de imitação: o botão “eu te amo” é pressionado muito mais pelos humanos do que pelos cães.2 Os autores têm o cuidado de afirmar que ao menos alguns cães atribuíram significados aos botões por associação, o que é bem diferente de dizer que dominam uma língua.3
A conversa silenciosa das piscadas
Se os botões revelam o que o cão quer, o olhar revela o que ele percebe. O Laboratório de Etologia Canina da Universidade de Parma, na Itália, estuda um comportamento que quase ninguém nota: a piscada. Em 2025, o grupo mostrou que 54 cães piscavam mais ao assistir a vídeos de outros cães piscando do que a vídeos de cães lambendo o focinho, como relatou o ScienceAlert.4
O passo seguinte, publicado em agosto de 2026 na Royal Society Open Science, colocou humanos na tela. Dos 38 cães recrutados, 35 entraram na análise. Eles assistiram a vídeos de três rostos, um deles do próprio tutor, ora piscando, ora com o olhar parado. De acordo com o comunicado da Universidade de Parma, a taxa de piscadas dos cães aumentou ao ver o tutor piscar, mas o mesmo efeito não apareceu diante de estranhos.5 A reportagem da Scientific American menciona respostas também a desconhecidos em alguns casos;1 o comunicado oficial, porém, restringe o resultado consistente aos tutores, e é essa a leitura adotada aqui.
Dois achados limitam interpretações apressadas. Os cães não piscaram em sincronia com a pessoa, e os autores afirmam que os dados não permitem concluir que uma piscada carregue uma mensagem intencional. A primeira autora, Chiara Canori, recomendou, em entrevista reproduzida pelo Irish Examiner, que os tutores não atribuam um significado fixo a cada piscada.5 O que o estudo sugere é que um mecanismo fisiológico, que existe para proteger e umedecer o olho, pode ter ganhado relevância social na convivência com as pessoas mais próximas.
O cérebro canino diante de um sorriso
A terceira linha de evidência vem de dentro do crânio. Em agosto de 2026, uma equipe liderada por Laura Cuaya, hoje na Universidade de Viena, publicou na revista iScience imagens de ressonância magnética funcional de cães acordados e sem contenção, treinados para permanecer imóveis no aparelho, como detalha o Neuroscience News.6 Num primeiro experimento, oito cães viram rostos humanos felizes e neutros. No segundo, 12 cães viram expressões de alegria, raiva, medo e tristeza, e a atividade cerebral foi analisada com aprendizado de máquina.
Rostos felizes ativaram o córtex temporal e o núcleo caudado, região ligada ao processamento de recompensa. Expressões negativas não produziram essa resposta, mas a análise do cérebro inteiro encontrou padrões distintos entre elas, sobretudo para o medo. Segundo os autores, é a primeira evidência de que o cérebro canino separa duas expressões negativas humanas, e não apenas o “bom” do “ruim”.6 Há um detalhe relevante: os rostos eram de desconhecidos, o que indica que a resposta positiva ao sorriso não depende de vínculo afetivo com a pessoa fotografada.
“Você não gostaria de saber o que pensa quem divide a casa com você?”
Federico Rossano, Universidade da Califórnia em San Diego, à Scientific American
A contribuição brasileira e o país dos 62 milhões de cães
O Brasil tem papel de destaque nessa linha de pesquisa. Em 2016, a bióloga Natalia de Souza Albuquerque, do Instituto de Psicologia da USP, publicou na Biology Letters, com a Universidade de Lincoln, no Reino Unido, e a Unifesp, um experimento em que cães associavam rostos alegres ou agressivos, humanos e caninos, a vocalizações de mesmo conteúdo emocional, conforme a Agência USP.7 Foi uma das primeiras demonstrações de que um animal reconhece emoções de outra espécie integrando visão e audição.
O grupo avançou depois para a pergunta seguinte: o cão usa essa leitura para agir? Num estudo com 90 cães e duas atrizes, conduzido no Instituto de Psicologia da USP e publicado na Animal Cognition, os animais relacionaram expressões de raiva, alegria ou neutralidade ao comportamento provável da pessoa e ajustaram suas escolhas a essa previsão, segundo a Jovem Pan, com base no Jornal da USP.8 Outra análise da mesma pesquisadora identificou que lamber a própria boca, fora do contexto de alimentação, funciona como sinal visual de que o cão percebeu algo negativo, como registrou o Jornal da USP.9
O assunto ultrapassa a academia. Levantamento da Abinpet e do Instituto Pet Brasil, divulgado em 2024, estima cerca de 62,2 milhões de cães no país ao fim de 2023, a maior população entre os animais de estimação brasileiros, segundo o Panorama PetVet.10 Entender como esses animais leem pessoas tem efeitos práticos no adestramento, na prevenção de mordidas, na avaliação de bem-estar em abrigos e no atendimento veterinário. Existe ainda uma lacuna que interessa diretamente ao Brasil, onde o abandono é um problema persistente: os próprios pesquisadores de Viena observam que cães que vivem nas ruas podem processar sinais humanos de forma bem diferente dos animais de família que participaram dos experimentos.11
Distinguir não é compreender
Os resultados convergem, mas convém separar o que foi demonstrado do que é inferido. Clive Wynne, diretor do Canine Science Collaboratory da Universidade Estadual do Arizona, que não participou do estudo de Viena, observou ao Philadelphia Inquirer que a pesquisa mostra um cérebro capaz de distinguir rostos com emoções diferentes, não um cão que perceba essas emoções como tais.11 As amostras são pequenas, os 12 cães eram de famílias dedicadas e, segundo a Sky News, da raça border collie, conhecida pela sensibilidade a sinais sociais. Os estímulos eram fotografias estáticas, sem voz, cheiro ou linguagem corporal.
No caso dos botões, os dados vieram de registros feitos pelos tutores num aplicativo, e a análise incluiu apenas cães já experientes no uso dos painéis.3 Críticos desse tipo de dispositivo costumam lembrar o efeito Clever Hans, em que o animal responde a pistas involuntárias do humano e não ao conteúdo do botão. Os experimentos de piscadas, por sua vez, usaram vídeos, e não interações ao vivo. Nada disso invalida os achados. Apenas recomenda prudência antes de traduzir comportamento em pensamento.
O que ainda não sabemos
Rossano pretende agora enfrentar questões metacognitivas: se os cães sabem o que não sabem, se percebem a passagem do tempo e se registram acontecimentos aos quais não reagem.1 No projeto dos botões, o próximo passo declarado é verificar se os cães conseguem se referir ao passado ou ao futuro, ou combinar botões para expressar algo para o qual não têm palavra.2 Em Parma, a intenção é observar piscadas durante brincadeiras e interações reais. Em Viena, entender como o cão integra rosto, voz e corpo na leitura das emoções humanas.6
Para quem convive com um cão, a lição é modesta e útil: o animal presta atenção a detalhes do nosso rosto que nós mesmos não percebemos. Isso não autoriza ler pensamentos caninos em cada gesto, mas reforça que a qualidade da comunicação entre as duas espécies depende também do lado humano.
Perguntas frequentes
Os cães entendem o que falamos?
Em parte. Cães distinguem palavras e vozes, e o estudo com painéis de botões publicado na Scientific Reports em 2024 indica que ao menos alguns associam significados a palavras gravadas e as combinam de forma não aleatória. Isso não equivale a compreender a língua humana em sua complexidade.
Os cães reconhecem emoções humanas?
As evidências indicam que sim. Pesquisas da USP com a Universidade de Lincoln mostraram que cães associam expressões faciais e vocalizações emocionais e ajustam suas escolhas a elas. Em 2026, um estudo de ressonância magnética publicado na iScience mostrou que rostos felizes ativam no cérebro canino uma região ligada à recompensa. Especialistas ressaltam que distinguir uma expressão não prova que o cão sinta ou conceba a emoção como um humano.
Os botões de comunicação para cães funcionam?
A análise de 152 cães feita pela UC San Diego concluiu que os toques não são acidentais, aleatórios nem mera imitação dos tutores, e que algumas combinações de dois botões aparecem acima do acaso. Os dados, porém, foram registrados pelos próprios tutores e incluíram só cães experientes, o que pede cautela na generalização.
Por que meu cão pisca quando olho para ele?
Estudo da Universidade de Parma publicado em 2026 mostrou que cães piscam mais quando veem o tutor piscar, efeito não observado com desconhecidos. Os autores dizem que isso indica sensibilidade social, mas que uma piscada isolada não deve ser lida como mensagem com significado fixo.
Quantos cães existem no Brasil?
Segundo a Abinpet e o Instituto Pet Brasil, eram cerca de 62,2 milhões de cães ao fim de 2023, a maior população entre os animais de estimação do país.